A visinha riu-se. A mãe riu-se tambem. Confessou que o filho era uma
péstesinha, um endiabrado, que não socegava; não podia perdel-o de
vista. Qualquer distracção, estava na rua. E isto desde pequenino;
tinha ainda dons annos, quando escapou de morrer em baixo de um carro,
alli mesmo; esteve por um fio. Se não fosse um homem que passava,
um senhor bem vestido, que acudiu depressa, até com perigo de vida,
estaria morto e bem morto. Nisto o marido, que vinha pela calçada
opposta, atravessou a ma, e interrompeu a conversação. Trazia o senho
carregado, mal comprimentou a visinha, e entrou; a mulher foi ter com
elle. Que era? O marido contou a surriada.
--Passou por aqui, disse ella.
--Não conheceste o homem?
--Não.
O marido cruzou os braços e ficou a olhar, fixo, calado. A mulher
perguntou-lhe quem era.
--É aquelle homem que nos salvou o Deolindo da morte.
A mulher teve um calefrio.
--Viste bem? perguntou.
--Perfeitamente. Se eu já o tinha encontrado outras vezes, mas então
não estava assim. Coitado! E a molecada berrava atraz delle. Qual! não
ha policia nesta terra.
O que lhe doia á mulher não era tanto o mal do homem, nem ainda a
surriada; mas a parte que teve nesta o filho,--a mesma creança que o
homem salvara da morte. Realmente, como podia o menino reconhecel-o,
nem saber que lhe devia a vida? Doia-lhe o encontro, a coincidencia.
Afinal, contentou-se de pôr todas as culpas em si. Se tivesse tido mais
cuidado, o pequeno não haveria sahido, e não entraria na troça. Tremia
de quando em quando, e estava inquieta. O marido pegou na cabeça do
filho, e deu-lhe dous beijos.
--Você viu a scena toda? perguntou á mulher.
--Vi.
--Eu ainda quiz dar o braço ao homem, e trazel-o para aqui; mas, tive
vergonha; os moleques eram capazes de dar-me uma vaia. Desviei o rosto,
porque elle podia conhecer-me. Coitado! Nota que não parecia ouvir
nada, e seguia satisfeito, creio que até ria... Que triste cousa que é
perder o juizo!
A mulher pensava na travessura do filho; não a referiu ao marido, pediu
á visinha que não alludisse a ella, e, de noite, só pregou olho tarde.
Mettera-se-lhe em cabeça que, annos depois, o filho endoudecia, era
castigado pela mesma troça, e que ella cuspia para o céu, indignada,
blasphemando.