No domingo seguinte, D. Fernanda foi á egreja de Santo Antonio dos
Pobres. Acabada a missa, viu surgir do movimento dos fieis que se
comprimentavam entre si, ou saudavam o altar, nada menos que o primo,
erecto, risonho, gravemente trajado, estendendo-lhe a mão.
--Veiu tambem á missa? perguntou espantada.
--Vim.
--Vem sempre?
--Nem sempre, muitas vezes.
--Francamente, não esperava tanta devoção em você. Os homens são,
em geral, uns impios. Theophilo não pisa na egreja, a não ser para
baptisar os filhos. Você então é religioso?
--Não posso responder com certeza; mas tenho horror á banalidade, que
é dizer mal da religião. E basta; vim á missa, não vim confessar-me;
agora vou conduzil-a á casa, e, se me offerecer almoço, almoçarei com
vocês. Salvo se quizerem vir almoçar commigo; é nesta rua, como sabe.
--Iria eu só, se pudesse ser, para lhe dar uma noticia muito comprida.
--Vamos então devagar, disse Carlos Maria á porta da egreja,
offerecendo-lhe o braço. E dous passos adeante:--Noticia importante?
--Importante e deliciosa.
--Querem ver que Deus, sempre misericordioso, vae levar para si o nosso
querido Theophilo, deixando aqui ao desamparo a mais gentil de todas
as viuvas... Não precisa fazer essa cara, prima; deixe estar o braço.
Vamos á noticia. Chegou a moça de Pelotas, aposto?
--Não direi o que é, se você me não jurar ouvir seriamente.
--Seriamente.
D. Fernanda confessou-lhe que hesitava em casal-o com a patricia de
Pelotas; não queria remorsos; descobrira aqui alguem que tinha ao
primo um immenso amor. Carlos Maria sorriu, iniciou um gracejo, mas a
noticia esporeou-lhe o espirito. Immenso amor? Immenso amor, paixão
violenta, confirmou a prima, accrescentando que talvez a definição já
não coubesse bem ao actual sentimento da pessoa, Agora era uma adoração
quieta e calada. Tinha chorado por elle noites e noites, emquanto
as esperanças lhe duraram... E D. Fernanda foi assim repetindo a
confidencia de Maria Benedicta. Restava só o nome; Carlos Maria quiz
sabel-o, ella negou-lh'o. Não podia revellal-o. Para que dar-lhe o
gosto de saber quem era que o adorava, se não corria ao encontro da
alma della? Melhor era deixal-a no mysterio. Já não chorava agora;
modesta e desambiciosa, perdera as esperanças de ser amada, e, com o
tempo ficou apenas uma devota, mas uma devota sem par, que nem sequer
esperava ser ouvida ou agraciada um dia por um olhar benevolo do seu
deus querido.
--Prima, você...
--Eu que?...
Carlos Maria concluiu dizendo que a advogada era digna da causa.
Realmente, se essa moça o adorava a tal ponto, era justo e natural que
a prima se interessasse por ella com tanto calor. Mas porque não dizer
o nome?
--Agora não digo; pode ser que algum dia... Mas, você comprehende que
me custaria muito casal-o com a minha patricia, sabendo que outra
pessoa o ama tanto. E dahi bem pode ser que esta de cá não padeça
muito, se o vir casado. Sim, senhor, parece absurdo, mas é preciso
conhecel-a; digo que, uma vez que você seja feliz, é capaz de abençoar
a bella rival.
--Já não é romantismo, é mysticismo, redarguiu Carlos Maria depois
de alguns passos, com os olhos no chão. Não está nas cordas do nosso
tempo. Tem alguma prova de semelhante estado da alma?
--Tenho... A sua casa é aquella, não? perguntou D. Fernanda parando.
--É.
--Bonito predio, e solido.
--Muito solido.
Uma, duas, tres, quatro... Sete janellas. O salao vae de ponta a ponta?
Bem bom para um baile.
E andando:
--Eu, se tivesse aqui uma casa maior que a minha, daria um grande
baile, antes de voltar para o Rio Grande. Gosto de festas. Os meus
dous filhos não me dão grande trabalho. A proposito, ando com ideia de
metter o Lopo no collegio; onde acharei um bom collegio?
Carlos Maria pensava na devota incognita. Estava longe, muito longe
do ensino e seus estabelecimentos. Que bom que era sentir-se um deus
adorado, e adorado á maneira evangelica, mettida a devota no aposento,
fechada a porta, em secreto, não nas synagogas, á vista de todos. «E
teu pae que vê o que se passa em secreto te dará a paga.» (S. MATHEUS,
VI, 6). Oh! elle daria a paga, se soubesse quem era. Casada, sería?
Não, não podia ser, não iria confessal-o a ninguem; viuva ou solteira,
antes solteira. Cheirava-lhe a solteira. Em que aposento se fechava
para resar, para evocal-o, choral-o e abençoal-o? Já nem teimava pelo
nome; mas o aposento, ao menos.
--Onde acharei um bom collegio? repetiu D. Fernanda.
--Collegio? Não sei; estou pensando na desconhecida. Comprehende bem
que uma pessoa que me adora, em silencio, sem esperanças, é objecto de
alguma attenção. Alta ou baixa?
--Maria Benedicta.
Carlos Maria estacou o passo.
--Aquella moça...? Não é possivel. Tenho-lhe fallado muitas vezes, e
nunca descobri nada. Achei-a sempre fria. Hade ser engano. Ouviu-lhe o
meu nome?
--Não, por mais que lhe pedisse. Confessou o milagre, sem nomear o
santo, mas que milagre! Gabe-se de ser adorado como ninguem... De quem
é aquella casa?
--Você costuma exagerar as cousas, prima; póde não ser tanto. Adorado
como ninguem? E de que modo soube que era eu?
--Theophilo foi o primeiro que descobriu; ella, dizendo-se-lhe isto,
ficou como uma pitanga. Negou-o ainda depois, commigo; e desde esse dia
não voltou lá a casa.
Tal foi o inicio dos amores. Carlos Maria folgou de se ver assim amado
em silencio, e toda a prevenção se converteu em sympathia. Começou a
vel-a, saboreou a confusão da moça, os medos, a alegria, a modestia,
as attitudes quasi implorativas, um composto de actos e sentimentos
que eram a apotheose do homem amado. Tal foi o inicio, tal o desfecho.
Assim os vimos, naquella noite dos annos de D. Sophia, a quem elle
dissera antes cousas tão doces. São assim os homens; as aguas que
passam, e os ventos que rugem não são outra cousa.