CAPITULO CV

Tão nervosa esteve durante alguns instantes, que não cuidou da carta.

Afinal, virou-a de um lado para outro, sem adivinhar o conteúdo; mas,

pouco a pouco, já senhora de si, lembrou-se que devia ser a circular da

commissão das Alagoas. Rasgou a sobrecarta: era a circular. Como é que

semelhante papel fora ter ás mãos delle? E d'onde lhe vinha a suspeita?

De si mesmo ou de fóra? Correria algum boato? Foi ter com o criado que

levara a circular a Carlos Maria, e perguntou-lhe se a entregára. Soube

que não. Quando o criado chegou á rua dos Invalidos, não achou o papel

no bolso, e, com medo, não dissera nada á ama.

Sophia tornou á sala, disposta a não sair. Recolheu a carta e a

sobrecarta, para mostral-as a Rubião, afim de que elle visse bem que

não era nada; mas, provavelmente, supporia a substituição do papel.

Maldito homem! murmurou. E começou a andar á toa.

Uma revoada de memorias entrou na alma de Sophia. A imagem de

Carlos Maria veiu postar-se ante ella, com os seus grandes olhos de

espectro querido e aborrecido. Sophia quiz arredal-o, mas não pôde;

elle acompanhava-a de um lado para outro, sem perder o tom esbelto

e masculo, nem o ar de riso sublime. Ás vezes, via-o inclinar-se,

articulando as mesmas palavras de certa noite de baile, que lhe

custaram a ella horas de insomnia, dias de esperança, até que se

perderam na irrealidade. Nunca Sophia comprehendera o mallogro daquella

aventura. O homem parecia querer-lhe deveras, e ninguem o obrigava a

declaral-o tão atrevidamente, nem a passar-lhe pelas janellas, alta

noite, segundo lhe ouviu. Recordou ainda outros encontros, palavras

furtadas, olhos calidos e compridos, e não chegava a entender que toda

essa paixão acabasse em nada. Provavelmente, não haveria nenhuma;

puro galanteio;--quando muito, um modo de apurar as suas forças

attractivas... Natureza de pelintra, de cynico, de futil.

Que lhe importava o mysterio? Era um sujeito futil. Cresceu-lhe o nojo

e o desdem. Chegou a rir-se delle; podia encaral-o sem remorsos. E

foi andando por alli fóra, vingando-se do bobo,--chamava-lhe bobo,--e

fitando no ar os olhos de immaculada. Em verdade, era occupar-se de

mais com tal assumpto; começou a maldizer do Rubião, que evocára

semelhante homem do esquecimento, por causa daquella triste circular...

Depois, tornou ás primeiras lembranças, ás palavras de Carlos Maria.

Se todos a achavam bella, porque não a acharia elle, que lh'o

disse? Talvez o tivesse a seus pés, se não se houvesse mostrado tão

agradecida, tão rasteira...

De repente, a criada, que estava na outra sala, ouvindo rumor de alguma

cousa que se quebrava, correu á de visitas, e viu a ama, sozinha, de pé.

--Não é nada, disse-lhe esta.

--Pareceu-me que ouvi...

Foi aquelle boneco que cahiu; apanhe os cacos.

--O chinez! exclamou a creada.

De feito, era um mandarim de porcellana, pobre diabo que estava muito

quieto, em cima de uma estante. Sophia achou-se com elle entre os

dedos, sem saber como, nem desde quando; ao cuidar na sua voluntaria

humilhação, teve um impulso--parece que raiva de si mesma,--e deu com o

boneco em terra. Pobre mandarim! não lhe valeu ser de porcellana; não

lhe valeu siquer ser dado pelo Palha.

--Mas, minha ama, como é que o chinez...

--Vá-se embora!

Sophia recordou todo o seu proceder diante de Carlos Maria, as

acquiescencias faceis, os perdões antecipados, os olhos com que o

buscava, os apertos de mão tão fortes... Era isso; tinha-se-lhe

lançado aos pés. Depois, o sentimento foi mudando. Apezar de tudo, era

natural que elle gostasse d'ella, e a conformidade moral de ambos não

traria o abandono de um. Talvez a culpa fosse outra. Excavou razões

possiveis, algum gesto duro e frio, alguma falta de attenção para com

elle; lembrou-se que, uma vez, por medo de o receber sosinha, mandou

dizer que não estava em casa. Sim, podia ser isso. Carlos Maria era

orgulhoso; a menor desfeita pungia-o. Soube que era mentira... Essa era

a culpa.

Quincas Borba · 第 116 / 218 题