Ao setimo dia da morte de D. Maria Augusta, rezou-se a missa de uso, em
S. Francisco de Paula; Rubião lá foi, lá viu Carlos Maria. Tanto bastou
para precipitar a devolução da carta; tres dias depois, metteu-a no
bolso e correu ao Flamengo. Eram duas horas da tarde. Maria Benedicta
fôra visitar as amigas da visinhança, que a tinham acompanhado nos
primeiros dias de afflicção; Sophia estava só, vestida para sair.
--Mas, não importa, disse ella convidando-o a sentar-se; fico ou saio
mais tarde.
Rubião retorquiu que a demora era curta; vinha dar-lhe um papel.
--Em todo caso, sente-se; tambem se póde dar um papel sentado.
Estava tão bonita, que elle hesitou em dizer-lhe as palavras duras
que trazia de cór. O luto ia-lhe muito bem, e o vestido parecia uma
luva. Sentada, via-se-lhe metade do pé, sapato raso, meia de sêda,
cousas todas que pediam misericordia e perdão. Quanto á espada daquella
bainha,--assim chama á alma um velho autor,--parecia não ter gume nem
campanhas; era uma ingenua faca de marfim. Rubião esteve a pique de
fraquear; a primeira palavra arrastou as outras.
--Que papel? perguntou Sophia.
--Um papel, que supponho grave, respondeu elle contendo-se;--não se
recorda ou não sabe que perdeu uma carta?
--Não.
--Costuma escrever cartas?
--Tenho escripto algumas; mas, não me lembra se grave. Deixe ver.
Rubião tinha os olhos desvairados. Não disse nem fez nada. Levantou-se
para sair, não saiu. Depois de alguns instantes de silencio e
inquietação, fallou sem raiva:
--Não é segredo para a senhora que lhe quero bem. A senhora sabe disto,
e não me despede, nem me acceita, anima-me com os seus bonitos modos.
Não me esqueci ainda de Santa Theresa, nem da nossa viagem no trem de
ferro, quando vinhamos os dous, com seu marido no meio. Lembra-se?
Foi a minha desgraça aquella viagem; desde aquelle dia a senhora me
prendeu. A senhora é má, tem genio de cobra; que mal lhe fiz eu? Vá que
não goste de mim; mas, podia desenganar-me logo...
--Cale-se, vem gente, interrompeu Sophia erguendo-se tambem e olhando
para o lado da porta.
Não vinha ninguem; entretanto, podiam ouvil-o, por que a voz do
Rubião ia aquecendo e crescendo. Cresceu ainda mais. Já não pleiteava
esperanças; abria e despejava a alma.
--Não me importa que ouçam, bradou elle; podem ouvir-me; agora digo
tudo, a senhora bota-me para fóra e tudo acaba. Não, não se póde fazer
soffrer assim um homem _como eu._
--Cale-se, pelo amor de Deus!
--Qual Deus! Ouça-me o resto, porque eu estou disposto a não guardar
nada...
Desatinada, receiando deveras que algum criado ouvisse, Sophia levantou
a mão e tapou-lhe a boca. Ao contacto daquella epiderme querida, Rubião
perdeu a voz. Sophia retirou a mão, e dispoz-se a deixar a sala;
mas, chegando á porta, parou. Rubião caminhara até á janella, para
convalecer da explosão.