Nisto passou um rapaz alto, que a cortejou sorrindo e vagarosamente.
Sophia cortejou-o tambem, um pouco espantada da pessoa e da acção.
--Quem é este sujeito? pensou ella.
E entrou a cogitar donde é que o conhecia, porque, em verdade, a
cara não lhe era extranha, nem as maneiras, nem os olhos placidos e
grandes. Onde é que o teria visto? Percorreu varias casas, sem acertar
com a verdadeira; afinal pensou em certo baile,--no mez anterior,--em
casa de um advogado que fazia annos. Era isso; viu-o lá, dansaram uma
quadrilha, por simples condescendencia delle, que não dansava nunca;
lembrava-se de lhe ter ouvido muitas cousas agradaveis, relativamente
á belleza da mulher, que, dizia elle, consistia principalmente nos
olhos e nos hombros. Os della, como sabemos, eram magnificos. E quasi
não tratou de outra cousa,--os hombros e os olhos;--a proposito de
uns e outros contou varias anecdotas succedidas com elle, algumas sem
interesse, mas fallava tão bem! e o assumpto era tão della! É verdade;
lembrava-se agora que, apenas elle a deixou, Palha veiu ter com ella,
sentou-se na cadeira, ao lado, e disse-lhe o nome do rapaz, porque
ella não ouvira bem á pessoa que lh'o apresentara era Carlos Maria,--o
proprio do almoço do nosso Rubião.
--É a primeira figura do salão, disse-lhe o marido com orgulho de vêr
que se occupára tanto tempo com ella.
--Entre os homens, explicou Sophia.
--Entre as senhoras és tu, acudiu elle mirando-se no collo da mulher,
e circulando depois os olhos pela sala, com uma expressão de posse e
dominio, que a mulher já conhecia e que lhe fazia bem.
Quando acabou de recordar tudo, já iria longe o rapaz; ao menos, foi
uma interrupção na serie de tedios que lhe tomavam a alma. Tinha uma
dor nas costas, que se calára por instantes. Voltou logo, teimosa,
aborrecida; Sophia reclinou-se na cadeira e fechou os olhos. Quiz ver
se passava pelo somno, mas não pôde. Os pensamentos eram tão teimosos
como a dor, e ainda mais ruins que ella. De quando em quando um bater
de azas, rapido, quebrava o silencio: eram as pombas de uma casa
visinha que tornavam ao pombal. Sophia a principio abriu os olhos, umas
duas vezes; depois, acostumou-se ao rumor, e deixou-os fechados, a
ver se dormia. Passado algum tempo, ouviu passos na rua, e levantou a
cabeça, suppondo que era Carlos Maria que regressava; era um carteiro
que lhe trazia uma carta da roça. Entregou-lh'a em mão. Ao sair do
jardim, tropeçou o carteiro no pé de um banco e caiu de bruços,
espalhando as cartas no chão. Sophia não pôde conter o riso.