sobre a theoria de Montesquieu um edificio tão brilhante como arrojado;
segundo Montesquieu, o homem é influenciado pelo clima; segundo Herder,
a natureza é o molde d'onde a humanidade sahe conformada. Herder, cuja
largueza de vistas abrange todos os elementos da humanidade, estudados
desde a origem dos tempos, no seu desenvolvimento harmonico e
progressivo, o que lhe dá uma incontestavel vantagem sobre os
philosophos que o precederam, parte da geographia physica para chegar a
uma synthese assombrosa. «É com um admiravel instincto--diz Quinet--que
Herder segue o contorno dos rochedos e dos rios, que se perde nos
desertos, que penetra com um olhar o interior de um paiz, para encontrar
na natureza externa o primeiro mobil das tendencias e determinações dos
povos[40].» A theoria de Herder é muito mais complexa do que a de
Montesquieu, e é claro que, lançando mão de todos os elementos
offerecidos pela natureza, abrange maior numero de verdades. Herder,
como observa Quinet, estuda até os contornos dos rochedos e dos rios, as
linhas da natureza; os perfis das montanhas e as sinuosidades do alveo
dão-lhe a idéa das tendencias dos povos que vivem n'essas paragens. Com
effeito, o scenario de um theatro fornece a primeira concepção das
paixões que se irão desenvolver no drama. No grande palco do mundo
acontece o mesmo. O aspecto da natureza torna o germano dotado de uma
tempera robusta[41]. Em Portugal, os povos nascidos nas duas montanhosas
provincias da Beira sahem aptos para as maiores rudezas do trabalho; são
principalmente elles os que executam a tarefa das ceifas no Alemtejo,
onde vão todos os annos, arrostando um sol canicular, abrazador,
chegando a morrer n'um só estio e n'uma só comarca, a de Elvas,
quatrocentos ceifeiros, de fouce em punho, como verdadeiros heroes do
trabalho[42]. Os povos do Algarve nascem marinheiros pela fatalidade da
situação geographica, arrojam-se ás maiores ousadias da navegação, como
a que no principio d'este seculo realisaram, indo dous homens n'um
cahique ao Rio de Janeiro. Herder tinha razão. Um só rio, o sinuoso e
extenso Douro, basta a caracterisar a vida da maior parte dos habitantes
d'uma provincia. O conhecimento pratico, a observação de algumas
povoações portuguezas leva-nos a estabelecer o principio de que a fórma
geometrica dos rios determina os costumes dos povos circumpostos. As
correntes em linha recta são as que produzem menor pureza de vida; pelo
contrario, os rios meandrosos, difficeis, occasionando um trabalho
continuo e perigoso santificam, para assim dizer, os costumes. Estudemos
esta theoria no rio Douro. Os barqueiros d'este rio entregam-se a um
trabalho por tal modo intenso e ininterrompido, que chega a ser uma
religião. Pendurados das fragas afim de tirarem os barcos á sirga,
empenhados em vencerem os perigos dos _pontos_, verdadeiras cataratas,
havendo previamente, de barrete na mão, confiado as suas vidas a Deus,
são completamente absorvidos pela preoccupação do trabalho. Extenuados,
quando recolhem ao lar domestico, dedicam-se á vida de familia, ao
descanço patriarchal da lareira; regulando ainda assim o tempo por modo
que muitos d'elles cultivam a sua vinha, a sua pequena horta, no
intervallo das viagens. Mas nos rios placidos, rectilineos, a navegação
não é um trabalho, é, pelo contrario, um pretexto de ociosidade. A
propria corrente leva o barco, os barqueiros não bebem para
fortalecer-se; bebem para embriagar-se, por _deboche_. Quando chega a
noite, procuram as casas devassas, as rameiras do caes.
Herder, desenvolvendo a theoria de Vico, abrangeu todos os meios
cosmologicos; não se preoccupou só, como Montesquieu, com os agentes
astronomicos, e deu a devida importancia á acção geral da natureza. No
estado actual da sciencia é preciso tambem ter em vista os modificadores
sociologicos, posto que muitas vezes nos pareçam sujeitos aos
cosmologicos. As profissões industriaes, por exemplo, não raro dependem
de uma influencia puramente local. Jacques de Boisjoslin confirma esta
opinião, avisando de que as aptidões profissionaes podem enganar sobre
as verdadeiras disposições das raças, por isso que frequentemente
derivam do clima, da pressão da natureza[43].
Edgar Quinet lança-se com vivo enthusiasmo na theoria de Herder: «A
figura dos continentes, dos rios, dos mares, das montanhas,--escreve
elle com o seu bello colorido poetico--, quasi por toda a parte ha
determinado a das sociedades; de modo que cada continente é um molde
onde a Providencia vasa as raças humanas para que ahi tomem a fórma
eterna dos seus designios; e o primeiro propheta escreveu o seu livro
nas linhas mudas dos continentes ainda deshabitados[44].»
Cousin, depois de haver prescripto ao movimento geral da Historia tres
épocas, ligadas não só por uma relação de successão mas tambem de
geração, tres épocas baseadas sobre as tres unicas idéas que o
pensamento humano póde conceber, o _infinito_, o _finito_, a _relação do
finito com o infinito_, sendo que estes tres elementos podem coexistir
n'uma mesma época posto que seja o predominio de um o que a caracterisa;
Cousin liga tambem uma alta importancia á situação geographica e chega á
conclusão de que para _tres épocas differentes, tres theatros
differentes_.
A theoria de Herder tem sido, porém, accusada por alguns philosophos de
imprimir ao homem um caracter de passividade, que o reduz á condição de
escravo da natureza que o rodeia, e elle proprio, como lhe é censurado,
não póde explicar pela geographia physica todos os desenvolvimentos da
civilisação. Para elle, a linguagem humana é uma instituição divina,
posto que até certo ponto nos pareça que, reproduzindo os primeiros
homens as vozes da natureza pela onomatopea, segundo Vico, podia Herder
explicar por esse mesmo facto a origem da linguagem, e pela situação
geographica a euphonia ou a aspereza de certos dialectos.
Uma outra accusação consiste em não se haver Herder remontado á origem
ethnica das raças, encarando-as apenas no estado em que as encontrou,
quando estudou o caracter de cada uma como elemento da Philosophia da
historia; pelo que calumniou toda a raça aryana, e portanto os germanos,
a que pertencia, quando representou como rebeldes a toda a cultura os
celtas e os slavos, que foram a guarda-avançada da colonisação
europêa[45].
Como quer que seja, Herder accendeu a esplendida aurora que devia
illuminar, principalmente em nossos dias, o estudo de todos os grandes
problemas da sciencia e da humanidade, a que, depois d'elle, se tem
dedicado grande numero de espiritos luminosos e fortes, cujas theorias
não podemos mencionar n'um trabalho que, como este, tem de ser realisado
n'um periodo fatal e curto.
O ponto de vista religioso de Bossuet e o ponto de vista politico de
Vico ficaram desde Herder offuscados pelo conjuncto synthetico de todos
os elementos da civilisação humana: as raças, as linguas, as religiões,
as artes, as litteraturas, os systemas de governo e de philosophia, etc.
Duchinski achou vinte e oito elementos de critica historica: 1.
Hydrographia; 2. Plasticidade do sólo; 3. Physionomia dos habitantes; 4.
Hygiene, doenças; 5. Climatologia; 6. Mythos; 7. Tradições peculiares a
cada raça; 8. Faculdades musicaes e poeticas; 9. Tendencia dos povos á
vida sedentaria agricola ou a vida nómada mercantil; 10. Lugar da mulher
na sociedade; 11. Faculdades religiosas, desenvolvimento das seitas; 12.
Vestuario; 13. Alimentos, e bebidas; 14. Desenvolvimento da vida
provincial e das idéas federativas; 15. Maior ou menor predisposição
para a adoração do principio do mal; 16. A geologia e sobretudo a
geologia agricola; 17. A botanica; 18. A zoologia; 19. As linguas sob o
ponto de vista lexicographico; 20. As linguas sob o ponto de vista
euphonico; 21. As linguas sob o ponto de vista dos caracteres da
civilisação; 22. As linguas sob o ponto de vista das tradições
historicas que apresentam; 23. Pureza e impureza relativa dos costumes;
24. Grau do poder creador do espirito; 25. Grau de parentesco entre os
povos sob o ponto de vista das relações historico-politicas; 26.
Estatistica; 27. Encadeamento dos factos historicos. 28. Grau de
parentesco com relação ás origens. E certamente não se poderia Duchinski
gabar de ter enumerado todos os materiaes que sabe aproveitar a
Philosophia da Historia, em cujo campo o menor elemento fornece uma
caracteristica, o que não deve admirar depois que se conheceu que uma
alga microscopica, a _Trichodesmium erythræum_, produz certa coloração
particular do mar Vermelho.
Afim de estudar todos estes elementos, para chegar á synthese da
humanidade, era preciso desenvolver, refundir e até crear um grande
numero de sciencias correlativas a elles. É o que se tem feito até hoje.
Cada sciencia especial acode a offerecer ao investigador uma poderosa
alavanca que ha-de ajudar a levantar a humanidade á altura precisa para
receber de frente toda a luz da Philosophia. A Historia, que fôra
outr'ora simplesmente a narração de factos, tornou-se, portanto, a mais
complexa de todas as sciencias. Foi uma transformação assombrosa.
Atearam-se os grandes debates da sciencia moderna, os sabios lançaram-se
á descoberta da verdade, tomando a Philosophia por instrumento. O nosso
seculo tem assistido as mais brilhantes investigações. A Philosophia
positiva metteu hombros ao colosso do passado, e iniciou um dos cyclos
mais admiraveis da humanidade, se não o mais assombroso de todos elles.
Parece-nos conveniente insistir n'este ponto, por isso que lavra ainda
em alguns espiritos uma certa desconfiança sobre o estado de perfeição
dos modernos trabalhos scientificos. O conhecimento d'esta desconfiança
foi que nos determinou a escolhermos para dissertação de concurso o
vasto assumpto de que vimos tratando, seguramente muito superior ás
nossas forças.
Odysse-Barot é um d'esses espiritos desconfiados. «Vemos apparecer cada
anno, diz elle[46] numerosas e interessantes monographias, obras
especiaes de um incontestavel valor; mas não passam de uteis materiaes,
que seria tempo de pôr em obra. A Historia está no ponto em que se
achavam: a astronomia antes de Keppler, Copernico e Newton; a chimica
antes de Lavoisier e Berzelius; a physica antes de Archimedes; a
zoologia antes de Geoffroy Saint-Hilaire; a geologia antes de Cuvier; a
physiologia antes de Harvey. A lei da attracção universal será mais
difficil de formular do que a lei da attracção celeste? Sabemos como se
movem os astros, e ignoramos como se movem os povos! Podemos determinar
a curva que descrevem os mundos, e não sabemos absolutamente nada da
orbita que percorrem as nações! Porque não descobrirão a lei da
aggregação dos homens, como souberam achar a lei da aggregação das
moleculas de um corpo? Não haverá uma chimica social do mesmo modo que
ha uma chimica organica ou uma chimica mineral? Será que as forças
chamadas cohesão e affinidade não possam actuar senão sobre os gazes, os
liquidos ou os solidos? Acaso a humanidade ignora o que é uma
combinação, uma liga? Não tem seus reagentes, suas decomposições, seus
precipitados? Descobriu-se a lei da circulação do sangue no homem: a
historia espera o seu Harvey, para encontrar a lei da circulação do
sangue nas sociedades. A historia espera o seu Archimedes, que nos dê a
formula da dynamica e da statica politicas, etc.»
Realmente, isto é querer desconhecer até onde teem chegado os progressos
da actividade humana dentro do campo da possibilidade, e exigir da
humanidade o impossivel.
Com a sabia orientação da Philosophia positiva, o espirito humano
caminha energicamente para as acquisições scientificas que as mais
pacientes observações preparam todos os dias. Foi trabalhosa e demorada
a jornada até esta conquista, porque o espirito humano teve de
atravessar successivamente o estado theologico, base e estimulo de todo
o progresso, porque é preciso um ponto de apoio qualquer para firmar os
primeiros passos, e o estado metaphysico, transição do estado theologico
para o estado positivo.
Mas, chegados a esta nova conquista, o que podemos exigir da Philosophia
positiva, sciencia que elevou a Historia á sua mais alta concepção? Que
nos permitta encarar todos os phenomenos como sujeitos a leis naturaes
invariaveis, e reduzil-as ao menor numero possivel, afim de
simplificarmos a universalidade dos conhecimentos humanos; que nos
permitta sujeitar a um systema claro e positivo todas as sciencias
fundamentaes estudadas nas suas relações communs como elementos
constitutivos de um todo harmonico, e portanto tambem nas suas relações
com esse mesmo systema, com esse todo. Esta grande, esta immensa obra de
simplificação deve-se á Philosophia positiva. Mas para que a Philosophia
positiva podesse constituir-se com o caracter de universalidade que lhe
é proprio, era preciso abraçar todas as ordens de phenomenos. Por isso a
Philosophia positiva teve de inventar uma nova sciencia, que se
propozesse estudar uma especie de phenomenos, que não podia incluir-se
na dos astronomicos, na dos physicos, na dos chimicos, nem finalmente na
dos physiologicos, e creou a _physica social_, que se trata de estudar
com o vagar que a sua dependencia de todas as outras sciencias de
observação exige, e que virá completar a constituição da Philosophia
positiva.
Mas todos estes grandes, estes grandissimos progressos do espirito
humano, toda esta colossal obra de simplificação e generalisação poderá
produzir o conhecimento exacto, certo das causas das leis estudadas ou
da explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica?
Responde o proprio Comte, o grande apostolo do positivismo: «Na minha
profunda convicção pessoal, considero estas empresas d'explicação
universal de todos os phenomenos por uma lei unica como eminentemente
chimericas, ainda quando são tentadas pelas mais competentes
intelligencias. Creio que os meios do espirito humano são muito fracos,
e o universo muito complicado para que uma tal perfeição scientifica
possa estar ao nosso alcance, e até penso que se faz geralmente uma idéa
muito exagerada das vantagens que de tal conquista resultariam
necessariamente, se ella fosse possivel[47].» É o proprio Augusto Comte
que nos vem dizer que considera defezos á razão humana todos os
mysterios que a philosophia theologica procurava explicar facilmente;
que o espirito humano deve reconhecer, no estado positivo em que se
acha, a impossibilidade de obter noções absolutas, de conhecer as causas
intimas dos phenomenos, a origem e o destino do universo[48].
Estamos, pois, lançados na ampla estrada de uma sciencia toda humana, e
havemos de chegar até onde os recursos humanos nos possam levar. É
preciso tempo e trabalho para que a folha da amoreira se converta em
sêda. A astronomia esperou o seu Keppler, como a historia espera o seu
Archimedes. Odysse-Barot pede a formula da dynamica e da statica
politicas: portanto, o que pede são duas theorias scientificas, que se
devem considerar como factos logicos. Ora só por uma profunda observação
d'esses factos se póde chegar ao conhecimento das leis logicas[49]. A
Philosophia positiva, auxiliada pelas sciencias de observação já
perfeitamente conhecidas, procura preencher a lacuna que respeita aos
phenomenos sociaes para attingir o seu caracter de universalidade.
Segundo esta nova marcha do espirito humano, toda positiva e
observadora, a Historia teve de estudar profundamente a natureza para
chegar, finalmente, á exacta concepção do lugar que n'ella occupa o
homem. A geologia tem, portanto, attingido um notavel estado de
florecimento. A historia da terra desdobrou-se em capitulos com uma
nitidez admiravel, desde a nebulose, que pelo resfriamento se converteu
na esphera terrestre, até nossos dias. Excavando nas entranhas da terra,
para extrahir, como um minerio precioso, a sua historia, a sciencia
encontrou os destroços animaes e vegetaes que geraram a paleontologia.
Nas camadas terciarias do globo appareceram os instrumentos de pedra, a
que o vulgo chama ainda hoje _pedras de raio_[50], e que effectivamente
foram considerados como productos da natureza antes que Mercati os
considerasse como armas defensivas do homem no estado da sua rudeza
primitiva. O achado de alguns fosseis, que pareceram humanos, a par com
os esqueletos de alimarias ante-diluvianas, veio depois, ao cabo de
longos debates, e de novos achados, desfazer o erro anthropocentrico,
confirmar a existencia prehistorica do homem e por conseguinte o emprego
dos instrumentos de silex. Foi assim que do consorcio da geologia com a
paleontologia nasceu a archeologia. Então, á luz do grande facho da
archeologia, pôde a Historia reconstruir as idades primitivas do homem.
Chamou á primeira, _de pedra_, e subdividiu-a em _paleolithica_ ou dos
instrumentos de pedra lascada; _mesolithica_ ou dos instrumentos de
pedra lascada e de osso; _neolithica_ ou dos instrumentos de pedra
polida; e á segunda, idade dos _metaes_, subdividindo-a em idade de
bronze[51] e idade de ferro. A descoberta de fosseis humanos, e dos
instrumentos prehistoricos, veio dar desenvolvimento a um grupo de
sciencias que teem necessaria relação entre si.
No primeiro plano d'este grupo, apparece a anthropologia, ramo da
historia natural que trata do homem e das raças humanas, sciencia que se
póde considerar originada pelo positivismo moderno, comquanto os gregos
já designassem pelo vocabulo _anthropologos_ aquelles que discutiam
sobre o homem. O problema da origem do homem impoz-se á meditação dos
sabios, como uma das mais importantes questões a resolver. Apartaram-se
as opiniões, os campos. A primeira base de toda a discussão foi o
Genesis. A opinião polygenista tirava argumento de serem os filhos de
Deus representados como raças provenientes de Adão, e os filhos dos
homens como raças não adamicas[52] e de que a Biblia apenas se referia
aos povos semitas, particularmente aos judeus[53]. A opinião monogenista
contrapunha que todas as raças descendiam primitivamente de Adão e Eva,
e consecutivamente dos tres filhos de Noé salvos do diluvio; que a
influencia dos meios cosmicos produzira a variedade das raças. Esta
discussão veio a generalisar-se, a emancipar-se da sua origem biblica, a
diffundir-se pelo campo da sciencia, e até da politica[54].
O _transformismo_ é uma phase nova d'esta grande questão, que envolve
uma idéa antiga[55]. Lamarck sustenta que as especies se transformam
passando de uma para outra, tanto no reino animal como no vegetal: o
homem é uma transformação lenta do macaco. Procurando a origem dos
sêres, Lamarck encontra os germens primordiaes ou mónadas, provenientes
de geração espontanea. N'este systema, os meios de transformação
explicam-se pela adaptação dos orgãos ás condições da existencia.
Cuvier, Geoffroy Saint-Hilaire e outros, sahiram em defeza das idéas
orthodoxas, que parecia haverem triumphado quando appareceu Carlos
Darwin, cuja theoria se póde definir: _A selecção natural por a lucta
pela existencia, applicada ao transformismo de Lamarck_[56]. Segundo
Darwin, todos os seres organisados se transformam incessantemente sob o
imperio de uma lei de selecção natural (_natural selection_), e todas
estas transformações têem por causa a lucta pela vida (_struggle for
life_), isto é, o combate eterno dos sêres vivos entre si pelos meios de
existencia. Todas as especies vivas descendem, segundo Darwin, de um
pequeno numero de prototypos ou mesmo de um só. Em virtude da selecção
natural todas as variações uteis são conservadas, e todos os desvios
nocivos eliminados[57]. Comquanto Carlos Darwin se abstivesse de
applicar a sua theoria á especie humana particularmente, os que a
defendem fazem essa applicação como consequencia logica das asserções
apresentadas por elle. A doutrina darwiniana foi o ponto de partida de
um longo debate que ainda dura. Entre os allemães que se filiaram na
escóla do transformismo, avulta Hæckel, que para explicar a origem do
homem parte das primeiras cellulas conhecidas, _moneras_, formadas por
geração espontanea. Estas cellulas foram-se dispondo em orgãos e, depois
de uma serie de transformações, que se podem classificar em vinte e dous
graus, apparece o homem.
Graças ao espirito de positivismo do nosso seculo, as sciencias
biologicas chegaram a este grau de desenvolvimento, e como que sopraram
vida nova á intelligencia humana cada vez mais ávida de saber.
Desdobram-se na tela da discussão os mais graves problemas, como por
exemplo o das gerações espontaneas, que tanto preoccupou a Academia das
Sciencias de Paris, depois que em 1858 o professor Pouchet lançou o pomo
da discordia ao seio dos quarenta immortaes[58]. Certo é que muitos
d'esses grandes problemas não estão ainda resolvidos, como por exemplo o
do transformismo, mas não é menos certo que as modernas investigações
vão cada vez produzindo novas acquisições, e que, pelo que toca ao
transformismo, a doutrina da mutabilidade e da evolução morphologica dos
seres organisados vai cada dia ganhando maior terreno.
N'um curso regular de anthropologia, como aquelle que se professa no
Instituto anthropologico de Paris, sob a direcção de Paulo Broca, a
ethnologia, sciencia que se occupa da classificação, descripção,
repartição, filiação e evolução das raças humanas, tem um logar
importantissimo, e tanto se identifica esta nova sciencia com a Historia
philosophica, que só pelo estudo das raças constituiram alguns
historiadores uma Philosophia da Historia.
As analogias encontradas entre as linguas da Europa e o sanscrito
determinaram as affirmações a que se chegou sobre a unidade da raça
indo-européa ou aryana. Os resultados fornecidos pela investigação
levaram Francisco Boop a reconhecer o parentesco das linguas celticas,
que até ahi faziam grupo á parte, com o sanscrito, e com as demais de
origem aryana. Por onde nos é dado vêr como a ethnologia prosperou pela
applicação do methodo philologico. Aqui temos pois irmanadas duas novas
sciencias, por igual importantes, a ethnologia e a philologia. E não
diremos que a philologia é a base da ethnologia, porque muitas vezes a
linguagem de um povo está falseada por agentes historicos e sociaes,
taes como a conquista, o commercio, e a irradiação de focos
intellectuaes mais ardentes[59]. Mas, como quer que seja, acompanhar a
evolução das raças desde a sua filiação o mesmo importa que fazer
simultaneamente a historia das linguas respectivas e o estudo critico
das litteraturas sob o ponto de vista da archeologia, da arte e da
mythologia[60]. Os grandes problemas philologicos apenas começaram a
inspirar geral interesse no principio d'este seculo. O ponto de partida
dos modernos trabalhos sobre a sciencia da linguagem foi a _Grammatica
comparada das linguas indo-europêas_ por Francisco Boop. A antiguidade
classica, circumscripta ao estudo da civilisação italiana ou grega, não
podia elevar-se ás theorias geraes[61]. Além do que, era preciso que a
Historia fosse estudando a genealogia dos povos, reconhecendo-os, para
sobre o conhecimento pratico das linguas fundamentar a moderna sciencia
da linguagem[62]. No seculo actual a philologia começou a estudar as
ramificações das linguas, a comparal-as, a classifical-as, a criticar os
seus productos, como a Historia começou simultaneamente a estudar as
ramificações dos povos, a comparal-os, a classifical-os, a criticar as
suas manifestações. A linguistica, estudando a phonetica e a estructura
das linguas, veio prestar uma valiosa collaboração á philologia, porque
se o philologo não sabe nada da lingua em si mesma, diz Hovelacque, se
ignora a sua estructura e os elementos que a compoem, como poderá fazer
um juizo completo sobre os productos, os fructos d'esse agente, d'essa
lingua[63]? A Philosophia positiva, pela applicação dos seus processos
de simplificação e de generalisação, tratou de procurar as leis que
presidiram á formação das linguas, e assim é que a sciencia da linguagem
tem chegado á descoberta de factos importantissimos. Averiguou-se, por
exemplo, que a lingua chineza, a qual comprehende quarenta mil palavras,
apenas possue um peculio de quatrocentas e cincoenta raizes.
Lubbock[64] occupa-se em mostrar a identidade de raizes na linguagem de
muitas raças, e toma para exemplo as articulações _pa_ e _ma_, que para
a maioria dos povos significam _pai_ e _mãe_, por isso mesmo que são as
primeiras syllabas pronunciadas pela criança, as mais faceis, as mais
involuntarias, como observa Lefèvre[65]. Mas, aqui se levanta uma
importante questão. Como foram escolhidas estas raizes? Como é que
certas cousas foram indicadas por certos sons? Max Müller chama a esses
primitivos elementos das differentes famillias de linguas _typos
phoneticos_ produzidos por um poder inherente á natureza humana. E
acrescenta: «Existem, como diria Platão, por natureza; ainda que devemos
tambem declarar com Platão que quando dizemos por natureza, queremos
dizer pela mão de Deus.» Ha, porém, algumas palavras que, como _zas_,
provém da imitação de um som. Segundo Müller, as palavras d'esta especie
parecem-se com as flôres artificiaes: não têem raizes.