Um philosopho allemão, que Edgar Quinet vulgarisou na Europa, levanta

sobre a theoria de Montesquieu um edificio tão brilhante como arrojado;

segundo Montesquieu, o homem é influenciado pelo clima; segundo Herder,

a natureza é o molde d'onde a humanidade sahe conformada. Herder, cuja

largueza de vistas abrange todos os elementos da humanidade, estudados

desde a origem dos tempos, no seu desenvolvimento harmonico e

progressivo, o que lhe dá uma incontestavel vantagem sobre os

philosophos que o precederam, parte da geographia physica para chegar a

uma synthese assombrosa. «É com um admiravel instincto--diz Quinet--que

Herder segue o contorno dos rochedos e dos rios, que se perde nos

desertos, que penetra com um olhar o interior de um paiz, para encontrar

na natureza externa o primeiro mobil das tendencias e determinações dos

povos[40].» A theoria de Herder é muito mais complexa do que a de

Montesquieu, e é claro que, lançando mão de todos os elementos

offerecidos pela natureza, abrange maior numero de verdades. Herder,

como observa Quinet, estuda até os contornos dos rochedos e dos rios, as

linhas da natureza; os perfis das montanhas e as sinuosidades do alveo

dão-lhe a idéa das tendencias dos povos que vivem n'essas paragens. Com

effeito, o scenario de um theatro fornece a primeira concepção das

paixões que se irão desenvolver no drama. No grande palco do mundo

acontece o mesmo. O aspecto da natureza torna o germano dotado de uma

tempera robusta[41]. Em Portugal, os povos nascidos nas duas montanhosas

provincias da Beira sahem aptos para as maiores rudezas do trabalho; são

principalmente elles os que executam a tarefa das ceifas no Alemtejo,

onde vão todos os annos, arrostando um sol canicular, abrazador,

chegando a morrer n'um só estio e n'uma só comarca, a de Elvas,

quatrocentos ceifeiros, de fouce em punho, como verdadeiros heroes do

trabalho[42]. Os povos do Algarve nascem marinheiros pela fatalidade da

situação geographica, arrojam-se ás maiores ousadias da navegação, como

a que no principio d'este seculo realisaram, indo dous homens n'um

cahique ao Rio de Janeiro. Herder tinha razão. Um só rio, o sinuoso e

extenso Douro, basta a caracterisar a vida da maior parte dos habitantes

d'uma provincia. O conhecimento pratico, a observação de algumas

povoações portuguezas leva-nos a estabelecer o principio de que a fórma

geometrica dos rios determina os costumes dos povos circumpostos. As

correntes em linha recta são as que produzem menor pureza de vida; pelo

contrario, os rios meandrosos, difficeis, occasionando um trabalho

continuo e perigoso santificam, para assim dizer, os costumes. Estudemos

esta theoria no rio Douro. Os barqueiros d'este rio entregam-se a um

trabalho por tal modo intenso e ininterrompido, que chega a ser uma

religião. Pendurados das fragas afim de tirarem os barcos á sirga,

empenhados em vencerem os perigos dos _pontos_, verdadeiras cataratas,

havendo previamente, de barrete na mão, confiado as suas vidas a Deus,

são completamente absorvidos pela preoccupação do trabalho. Extenuados,

quando recolhem ao lar domestico, dedicam-se á vida de familia, ao

descanço patriarchal da lareira; regulando ainda assim o tempo por modo

que muitos d'elles cultivam a sua vinha, a sua pequena horta, no

intervallo das viagens. Mas nos rios placidos, rectilineos, a navegação

não é um trabalho, é, pelo contrario, um pretexto de ociosidade. A

propria corrente leva o barco, os barqueiros não bebem para

fortalecer-se; bebem para embriagar-se, por _deboche_. Quando chega a

noite, procuram as casas devassas, as rameiras do caes.

Herder, desenvolvendo a theoria de Vico, abrangeu todos os meios

cosmologicos; não se preoccupou só, como Montesquieu, com os agentes

astronomicos, e deu a devida importancia á acção geral da natureza. No

estado actual da sciencia é preciso tambem ter em vista os modificadores

sociologicos, posto que muitas vezes nos pareçam sujeitos aos

cosmologicos. As profissões industriaes, por exemplo, não raro dependem

de uma influencia puramente local. Jacques de Boisjoslin confirma esta

opinião, avisando de que as aptidões profissionaes podem enganar sobre

as verdadeiras disposições das raças, por isso que frequentemente

derivam do clima, da pressão da natureza[43].

Edgar Quinet lança-se com vivo enthusiasmo na theoria de Herder: «A

figura dos continentes, dos rios, dos mares, das montanhas,--escreve

elle com o seu bello colorido poetico--, quasi por toda a parte ha

determinado a das sociedades; de modo que cada continente é um molde

onde a Providencia vasa as raças humanas para que ahi tomem a fórma

eterna dos seus designios; e o primeiro propheta escreveu o seu livro

nas linhas mudas dos continentes ainda deshabitados[44].»

Cousin, depois de haver prescripto ao movimento geral da Historia tres

épocas, ligadas não só por uma relação de successão mas tambem de

geração, tres épocas baseadas sobre as tres unicas idéas que o

pensamento humano póde conceber, o _infinito_, o _finito_, a _relação do

finito com o infinito_, sendo que estes tres elementos podem coexistir

n'uma mesma época posto que seja o predominio de um o que a caracterisa;

Cousin liga tambem uma alta importancia á situação geographica e chega á

conclusão de que para _tres épocas differentes, tres theatros

differentes_.

A theoria de Herder tem sido, porém, accusada por alguns philosophos de

imprimir ao homem um caracter de passividade, que o reduz á condição de

escravo da natureza que o rodeia, e elle proprio, como lhe é censurado,

não póde explicar pela geographia physica todos os desenvolvimentos da

civilisação. Para elle, a linguagem humana é uma instituição divina,

posto que até certo ponto nos pareça que, reproduzindo os primeiros

homens as vozes da natureza pela onomatopea, segundo Vico, podia Herder

explicar por esse mesmo facto a origem da linguagem, e pela situação

geographica a euphonia ou a aspereza de certos dialectos.

Uma outra accusação consiste em não se haver Herder remontado á origem

ethnica das raças, encarando-as apenas no estado em que as encontrou,

quando estudou o caracter de cada uma como elemento da Philosophia da

historia; pelo que calumniou toda a raça aryana, e portanto os germanos,

a que pertencia, quando representou como rebeldes a toda a cultura os

celtas e os slavos, que foram a guarda-avançada da colonisação

europêa[45].

Como quer que seja, Herder accendeu a esplendida aurora que devia

illuminar, principalmente em nossos dias, o estudo de todos os grandes

problemas da sciencia e da humanidade, a que, depois d'elle, se tem

dedicado grande numero de espiritos luminosos e fortes, cujas theorias

não podemos mencionar n'um trabalho que, como este, tem de ser realisado

n'um periodo fatal e curto.

O ponto de vista religioso de Bossuet e o ponto de vista politico de

Vico ficaram desde Herder offuscados pelo conjuncto synthetico de todos

os elementos da civilisação humana: as raças, as linguas, as religiões,

as artes, as litteraturas, os systemas de governo e de philosophia, etc.

Duchinski achou vinte e oito elementos de critica historica: 1.

Hydrographia; 2. Plasticidade do sólo; 3. Physionomia dos habitantes; 4.

Hygiene, doenças; 5. Climatologia; 6. Mythos; 7. Tradições peculiares a

cada raça; 8. Faculdades musicaes e poeticas; 9. Tendencia dos povos á

vida sedentaria agricola ou a vida nómada mercantil; 10. Lugar da mulher

na sociedade; 11. Faculdades religiosas, desenvolvimento das seitas; 12.

Vestuario; 13. Alimentos, e bebidas; 14. Desenvolvimento da vida

provincial e das idéas federativas; 15. Maior ou menor predisposição

para a adoração do principio do mal; 16. A geologia e sobretudo a

geologia agricola; 17. A botanica; 18. A zoologia; 19. As linguas sob o

ponto de vista lexicographico; 20. As linguas sob o ponto de vista

euphonico; 21. As linguas sob o ponto de vista dos caracteres da

civilisação; 22. As linguas sob o ponto de vista das tradições

historicas que apresentam; 23. Pureza e impureza relativa dos costumes;

24. Grau do poder creador do espirito; 25. Grau de parentesco entre os

povos sob o ponto de vista das relações historico-politicas; 26.

Estatistica; 27. Encadeamento dos factos historicos. 28. Grau de

parentesco com relação ás origens. E certamente não se poderia Duchinski

gabar de ter enumerado todos os materiaes que sabe aproveitar a

Philosophia da Historia, em cujo campo o menor elemento fornece uma

caracteristica, o que não deve admirar depois que se conheceu que uma

alga microscopica, a _Trichodesmium erythræum_, produz certa coloração

particular do mar Vermelho.

Afim de estudar todos estes elementos, para chegar á synthese da

humanidade, era preciso desenvolver, refundir e até crear um grande

numero de sciencias correlativas a elles. É o que se tem feito até hoje.

Cada sciencia especial acode a offerecer ao investigador uma poderosa

alavanca que ha-de ajudar a levantar a humanidade á altura precisa para

receber de frente toda a luz da Philosophia. A Historia, que fôra

outr'ora simplesmente a narração de factos, tornou-se, portanto, a mais

complexa de todas as sciencias. Foi uma transformação assombrosa.

Atearam-se os grandes debates da sciencia moderna, os sabios lançaram-se

á descoberta da verdade, tomando a Philosophia por instrumento. O nosso

seculo tem assistido as mais brilhantes investigações. A Philosophia

positiva metteu hombros ao colosso do passado, e iniciou um dos cyclos

mais admiraveis da humanidade, se não o mais assombroso de todos elles.

Parece-nos conveniente insistir n'este ponto, por isso que lavra ainda

em alguns espiritos uma certa desconfiança sobre o estado de perfeição

dos modernos trabalhos scientificos. O conhecimento d'esta desconfiança

foi que nos determinou a escolhermos para dissertação de concurso o

vasto assumpto de que vimos tratando, seguramente muito superior ás

nossas forças.

Odysse-Barot é um d'esses espiritos desconfiados. «Vemos apparecer cada

anno, diz elle[46] numerosas e interessantes monographias, obras

especiaes de um incontestavel valor; mas não passam de uteis materiaes,

que seria tempo de pôr em obra. A Historia está no ponto em que se

achavam: a astronomia antes de Keppler, Copernico e Newton; a chimica

antes de Lavoisier e Berzelius; a physica antes de Archimedes; a

zoologia antes de Geoffroy Saint-Hilaire; a geologia antes de Cuvier; a

physiologia antes de Harvey. A lei da attracção universal será mais

difficil de formular do que a lei da attracção celeste? Sabemos como se

movem os astros, e ignoramos como se movem os povos! Podemos determinar

a curva que descrevem os mundos, e não sabemos absolutamente nada da

orbita que percorrem as nações! Porque não descobrirão a lei da

aggregação dos homens, como souberam achar a lei da aggregação das

moleculas de um corpo? Não haverá uma chimica social do mesmo modo que

ha uma chimica organica ou uma chimica mineral? Será que as forças

chamadas cohesão e affinidade não possam actuar senão sobre os gazes, os

liquidos ou os solidos? Acaso a humanidade ignora o que é uma

combinação, uma liga? Não tem seus reagentes, suas decomposições, seus

precipitados? Descobriu-se a lei da circulação do sangue no homem: a

historia espera o seu Harvey, para encontrar a lei da circulação do

sangue nas sociedades. A historia espera o seu Archimedes, que nos dê a

formula da dynamica e da statica politicas, etc.»

Realmente, isto é querer desconhecer até onde teem chegado os progressos

da actividade humana dentro do campo da possibilidade, e exigir da

humanidade o impossivel.

Com a sabia orientação da Philosophia positiva, o espirito humano

caminha energicamente para as acquisições scientificas que as mais

pacientes observações preparam todos os dias. Foi trabalhosa e demorada

a jornada até esta conquista, porque o espirito humano teve de

atravessar successivamente o estado theologico, base e estimulo de todo

o progresso, porque é preciso um ponto de apoio qualquer para firmar os

primeiros passos, e o estado metaphysico, transição do estado theologico

para o estado positivo.

Mas, chegados a esta nova conquista, o que podemos exigir da Philosophia

positiva, sciencia que elevou a Historia á sua mais alta concepção? Que

nos permitta encarar todos os phenomenos como sujeitos a leis naturaes

invariaveis, e reduzil-as ao menor numero possivel, afim de

simplificarmos a universalidade dos conhecimentos humanos; que nos

permitta sujeitar a um systema claro e positivo todas as sciencias

fundamentaes estudadas nas suas relações communs como elementos

constitutivos de um todo harmonico, e portanto tambem nas suas relações

com esse mesmo systema, com esse todo. Esta grande, esta immensa obra de

simplificação deve-se á Philosophia positiva. Mas para que a Philosophia

positiva podesse constituir-se com o caracter de universalidade que lhe

é proprio, era preciso abraçar todas as ordens de phenomenos. Por isso a

Philosophia positiva teve de inventar uma nova sciencia, que se

propozesse estudar uma especie de phenomenos, que não podia incluir-se

na dos astronomicos, na dos physicos, na dos chimicos, nem finalmente na

dos physiologicos, e creou a _physica social_, que se trata de estudar

com o vagar que a sua dependencia de todas as outras sciencias de

observação exige, e que virá completar a constituição da Philosophia

positiva.

Mas todos estes grandes, estes grandissimos progressos do espirito

humano, toda esta colossal obra de simplificação e generalisação poderá

produzir o conhecimento exacto, certo das causas das leis estudadas ou

da explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica?

Responde o proprio Comte, o grande apostolo do positivismo: «Na minha

profunda convicção pessoal, considero estas empresas d'explicação

universal de todos os phenomenos por uma lei unica como eminentemente

chimericas, ainda quando são tentadas pelas mais competentes

intelligencias. Creio que os meios do espirito humano são muito fracos,

e o universo muito complicado para que uma tal perfeição scientifica

possa estar ao nosso alcance, e até penso que se faz geralmente uma idéa

muito exagerada das vantagens que de tal conquista resultariam

necessariamente, se ella fosse possivel[47].» É o proprio Augusto Comte

que nos vem dizer que considera defezos á razão humana todos os

mysterios que a philosophia theologica procurava explicar facilmente;

que o espirito humano deve reconhecer, no estado positivo em que se

acha, a impossibilidade de obter noções absolutas, de conhecer as causas

intimas dos phenomenos, a origem e o destino do universo[48].

Estamos, pois, lançados na ampla estrada de uma sciencia toda humana, e

havemos de chegar até onde os recursos humanos nos possam levar. É

preciso tempo e trabalho para que a folha da amoreira se converta em

sêda. A astronomia esperou o seu Keppler, como a historia espera o seu

Archimedes. Odysse-Barot pede a formula da dynamica e da statica

politicas: portanto, o que pede são duas theorias scientificas, que se

devem considerar como factos logicos. Ora só por uma profunda observação

d'esses factos se póde chegar ao conhecimento das leis logicas[49]. A

Philosophia positiva, auxiliada pelas sciencias de observação já

perfeitamente conhecidas, procura preencher a lacuna que respeita aos

phenomenos sociaes para attingir o seu caracter de universalidade.

Segundo esta nova marcha do espirito humano, toda positiva e

observadora, a Historia teve de estudar profundamente a natureza para

chegar, finalmente, á exacta concepção do lugar que n'ella occupa o

homem. A geologia tem, portanto, attingido um notavel estado de

florecimento. A historia da terra desdobrou-se em capitulos com uma

nitidez admiravel, desde a nebulose, que pelo resfriamento se converteu

na esphera terrestre, até nossos dias. Excavando nas entranhas da terra,

para extrahir, como um minerio precioso, a sua historia, a sciencia

encontrou os destroços animaes e vegetaes que geraram a paleontologia.

Nas camadas terciarias do globo appareceram os instrumentos de pedra, a

que o vulgo chama ainda hoje _pedras de raio_[50], e que effectivamente

foram considerados como productos da natureza antes que Mercati os

considerasse como armas defensivas do homem no estado da sua rudeza

primitiva. O achado de alguns fosseis, que pareceram humanos, a par com

os esqueletos de alimarias ante-diluvianas, veio depois, ao cabo de

longos debates, e de novos achados, desfazer o erro anthropocentrico,

confirmar a existencia prehistorica do homem e por conseguinte o emprego

dos instrumentos de silex. Foi assim que do consorcio da geologia com a

paleontologia nasceu a archeologia. Então, á luz do grande facho da

archeologia, pôde a Historia reconstruir as idades primitivas do homem.

Chamou á primeira, _de pedra_, e subdividiu-a em _paleolithica_ ou dos

instrumentos de pedra lascada; _mesolithica_ ou dos instrumentos de

pedra lascada e de osso; _neolithica_ ou dos instrumentos de pedra

polida; e á segunda, idade dos _metaes_, subdividindo-a em idade de

bronze[51] e idade de ferro. A descoberta de fosseis humanos, e dos

instrumentos prehistoricos, veio dar desenvolvimento a um grupo de

sciencias que teem necessaria relação entre si.

No primeiro plano d'este grupo, apparece a anthropologia, ramo da

historia natural que trata do homem e das raças humanas, sciencia que se

póde considerar originada pelo positivismo moderno, comquanto os gregos

já designassem pelo vocabulo _anthropologos_ aquelles que discutiam

sobre o homem. O problema da origem do homem impoz-se á meditação dos

sabios, como uma das mais importantes questões a resolver. Apartaram-se

as opiniões, os campos. A primeira base de toda a discussão foi o

Genesis. A opinião polygenista tirava argumento de serem os filhos de

Deus representados como raças provenientes de Adão, e os filhos dos

homens como raças não adamicas[52] e de que a Biblia apenas se referia

aos povos semitas, particularmente aos judeus[53]. A opinião monogenista

contrapunha que todas as raças descendiam primitivamente de Adão e Eva,

e consecutivamente dos tres filhos de Noé salvos do diluvio; que a

influencia dos meios cosmicos produzira a variedade das raças. Esta

discussão veio a generalisar-se, a emancipar-se da sua origem biblica, a

diffundir-se pelo campo da sciencia, e até da politica[54].

O _transformismo_ é uma phase nova d'esta grande questão, que envolve

uma idéa antiga[55]. Lamarck sustenta que as especies se transformam

passando de uma para outra, tanto no reino animal como no vegetal: o

homem é uma transformação lenta do macaco. Procurando a origem dos

sêres, Lamarck encontra os germens primordiaes ou mónadas, provenientes

de geração espontanea. N'este systema, os meios de transformação

explicam-se pela adaptação dos orgãos ás condições da existencia.

Cuvier, Geoffroy Saint-Hilaire e outros, sahiram em defeza das idéas

orthodoxas, que parecia haverem triumphado quando appareceu Carlos

Darwin, cuja theoria se póde definir: _A selecção natural por a lucta

pela existencia, applicada ao transformismo de Lamarck_[56]. Segundo

Darwin, todos os seres organisados se transformam incessantemente sob o

imperio de uma lei de selecção natural (_natural selection_), e todas

estas transformações têem por causa a lucta pela vida (_struggle for

life_), isto é, o combate eterno dos sêres vivos entre si pelos meios de

existencia. Todas as especies vivas descendem, segundo Darwin, de um

pequeno numero de prototypos ou mesmo de um só. Em virtude da selecção

natural todas as variações uteis são conservadas, e todos os desvios

nocivos eliminados[57]. Comquanto Carlos Darwin se abstivesse de

applicar a sua theoria á especie humana particularmente, os que a

defendem fazem essa applicação como consequencia logica das asserções

apresentadas por elle. A doutrina darwiniana foi o ponto de partida de

um longo debate que ainda dura. Entre os allemães que se filiaram na

escóla do transformismo, avulta Hæckel, que para explicar a origem do

homem parte das primeiras cellulas conhecidas, _moneras_, formadas por

geração espontanea. Estas cellulas foram-se dispondo em orgãos e, depois

de uma serie de transformações, que se podem classificar em vinte e dous

graus, apparece o homem.

Graças ao espirito de positivismo do nosso seculo, as sciencias

biologicas chegaram a este grau de desenvolvimento, e como que sopraram

vida nova á intelligencia humana cada vez mais ávida de saber.

Desdobram-se na tela da discussão os mais graves problemas, como por

exemplo o das gerações espontaneas, que tanto preoccupou a Academia das

Sciencias de Paris, depois que em 1858 o professor Pouchet lançou o pomo

da discordia ao seio dos quarenta immortaes[58]. Certo é que muitos

d'esses grandes problemas não estão ainda resolvidos, como por exemplo o

do transformismo, mas não é menos certo que as modernas investigações

vão cada vez produzindo novas acquisições, e que, pelo que toca ao

transformismo, a doutrina da mutabilidade e da evolução morphologica dos

seres organisados vai cada dia ganhando maior terreno.

N'um curso regular de anthropologia, como aquelle que se professa no

Instituto anthropologico de Paris, sob a direcção de Paulo Broca, a

ethnologia, sciencia que se occupa da classificação, descripção,

repartição, filiação e evolução das raças humanas, tem um logar

importantissimo, e tanto se identifica esta nova sciencia com a Historia

philosophica, que só pelo estudo das raças constituiram alguns

historiadores uma Philosophia da Historia.

As analogias encontradas entre as linguas da Europa e o sanscrito

determinaram as affirmações a que se chegou sobre a unidade da raça

indo-européa ou aryana. Os resultados fornecidos pela investigação

levaram Francisco Boop a reconhecer o parentesco das linguas celticas,

que até ahi faziam grupo á parte, com o sanscrito, e com as demais de

origem aryana. Por onde nos é dado vêr como a ethnologia prosperou pela

applicação do methodo philologico. Aqui temos pois irmanadas duas novas

sciencias, por igual importantes, a ethnologia e a philologia. E não

diremos que a philologia é a base da ethnologia, porque muitas vezes a

linguagem de um povo está falseada por agentes historicos e sociaes,

taes como a conquista, o commercio, e a irradiação de focos

intellectuaes mais ardentes[59]. Mas, como quer que seja, acompanhar a

evolução das raças desde a sua filiação o mesmo importa que fazer

simultaneamente a historia das linguas respectivas e o estudo critico

das litteraturas sob o ponto de vista da archeologia, da arte e da

mythologia[60]. Os grandes problemas philologicos apenas começaram a

inspirar geral interesse no principio d'este seculo. O ponto de partida

dos modernos trabalhos sobre a sciencia da linguagem foi a _Grammatica

comparada das linguas indo-europêas_ por Francisco Boop. A antiguidade

classica, circumscripta ao estudo da civilisação italiana ou grega, não

podia elevar-se ás theorias geraes[61]. Além do que, era preciso que a

Historia fosse estudando a genealogia dos povos, reconhecendo-os, para

sobre o conhecimento pratico das linguas fundamentar a moderna sciencia

da linguagem[62]. No seculo actual a philologia começou a estudar as

ramificações das linguas, a comparal-as, a classifical-as, a criticar os

seus productos, como a Historia começou simultaneamente a estudar as

ramificações dos povos, a comparal-os, a classifical-os, a criticar as

suas manifestações. A linguistica, estudando a phonetica e a estructura

das linguas, veio prestar uma valiosa collaboração á philologia, porque

se o philologo não sabe nada da lingua em si mesma, diz Hovelacque, se

ignora a sua estructura e os elementos que a compoem, como poderá fazer

um juizo completo sobre os productos, os fructos d'esse agente, d'essa

lingua[63]? A Philosophia positiva, pela applicação dos seus processos

de simplificação e de generalisação, tratou de procurar as leis que

presidiram á formação das linguas, e assim é que a sciencia da linguagem

tem chegado á descoberta de factos importantissimos. Averiguou-se, por

exemplo, que a lingua chineza, a qual comprehende quarenta mil palavras,

apenas possue um peculio de quatrocentas e cincoenta raizes.

Lubbock[64] occupa-se em mostrar a identidade de raizes na linguagem de

muitas raças, e toma para exemplo as articulações _pa_ e _ma_, que para

a maioria dos povos significam _pai_ e _mãe_, por isso mesmo que são as

primeiras syllabas pronunciadas pela criança, as mais faceis, as mais

involuntarias, como observa Lefèvre[65]. Mas, aqui se levanta uma

importante questão. Como foram escolhidas estas raizes? Como é que

certas cousas foram indicadas por certos sons? Max Müller chama a esses

primitivos elementos das differentes famillias de linguas _typos

phoneticos_ produzidos por um poder inherente á natureza humana. E

acrescenta: «Existem, como diria Platão, por natureza; ainda que devemos

tambem declarar com Platão que quando dizemos por natureza, queremos

dizer pela mão de Deus.» Ha, porém, algumas palavras que, como _zas_,

provém da imitação de um som. Segundo Müller, as palavras d'esta especie

parecem-se com as flôres artificiaes: não têem raizes.

Da importancia da Historia Universal Philosophica na esphera dos conhecimentos humanos · 第 2 / 4 段