E-text prepared by Pedro Saborano
DA IMPORTANCIA
DA
HISTORIA UNIVERSAL
PHILOSOPHICA
NA
ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS
DISSERTAÇÃO
PARA O CONCURSO DA PRIMEIRA CADEIRA (HISTORIA UNIVERSAL E PATRIA)
DO
CURSO SUPERIOR DE LETRAS
APRESENTADA PELO CANDIDATO
ALBERTO PIMENTEL
LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON EUGENIO CHARDRON
Porto Braga
1878
* * * * *
DA IMPORTANCIA
DA
HISTORIA UNIVERSAL
PHILOSOPHICA
NA
ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS
* * * * *
DA IMPORTANCIA
DA
HISTORIA UNIVERSAL
PHILOSOPHICA
NA
ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS
DISSERTAÇÃO
PARA O CONCURSO DA PRIMEIRA CADEIRA (HISTORIA UNIVERSAL E PATRIA)
DO
CURSO SUPERIOR DE LETRAS
APRESENTADA PELO CANDIDATO
ALBERTO PIMENTEL
LIVRARIA INTERNACIONAL
DE
ERNESTO CHARDRON EUGENIO CHARDRON
Porto Braga
1878
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Porto: 1878--Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62
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DA IMPORTANCIA
DA
HISTORIA UNIVERSAL
PHILOSOPHICA
NA
ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS
João Baptista Vico, remontando-se á infancia poetica das sociedades
humanas, vai encontrar a origem da _curiosidade, filha da ignorancia e
mãi da sciencia_, n'um phenomeno natural que effectivamente devia de
impressionar profundamente os sentidos e a imaginação dos homens
primitivos.
Acceitando da tradição biblica o facto do diluvio, e dando á terra o
tempo sufficiente para enxugar da inundação universal e para exhalar os
vapores seccos proprios a formarem o raio, descreve a impressão que no
espirito dos gigantes _vigorosos_ e _robustos_, que então povoavam a
terra, causára o coriscar d'aquelle meteóro através do ether, e o
interesse com que ficaram olhando para o céo que desde logo consideraram
como um immenso corpo animado, o qual alguma cousa queria decerto
exprimir por meio d'essa estranha linguagem de fogo.
Personificando toda a immensidade do céo no grande deus chamado Jove,
que tinha por sceptro o raio, e que por toda a parte os seguia, por isso
que toda a terra era coberta pelo céo, o que, segundo Vico, explica a
phrase _Jovis omnia plena_, que Platão julgou dever traduzir por ether,
os gigantes da terra renderam o primeiro culto á curiosidade, d'onde,
como de uma semente abençoada, devia brotar o fructo precioso de todos
os conhecimentos humanos.
Quer acceitemos a tradição religiosa do diluvio universal, determinado
por Deus para refundir toda a humanidade com a familia salva na arca de
Noé, quer consideremos essa inundação geral como uma simples phase
geologica, caracterisada por phenomenos glaciarios, o facto poeticamente
narrado pelo philosopho napolitano subsiste em essencia, e, a nosso vêr,
é de todo o ponto provavel, e quasi certo, que fosse um phenomeno
meteorologico o primeiro estimulo da curiosidade humana.
Vico lembra, afim de fazer acceitar a sua asserção, que ainda hoje os
phenomenos naturaes lançam uma profunda impressão no animo de muitas
pessoas, e cita especialmente, entre todos esses phenomenos, o da
apparição de um cometa.
Despertada a imaginação do homem pelo sentimento da curiosidade, entrou
elle no periodo mais laborioso e ao mesmo passo poetico da infancia da
humanidade. Era até ahi como um pobre cego lançado na vastidão de um
mundo desconhecido e mysterioso. Mas a chamma electrica do raio veio,
para assim dizer, rarear as trevas da sua immensa cegueira; essa luz
estranha converteu-se para elle, como se não fosse movel e fugitiva mas
fixa e duradoura, n'uma como estrella de guia, que o obrigou a altear o
pensamento para além das brenhas da terra em que como selvagem vivia.
Assim como a criança tem deante de si, sem o presentir, sem o suspeitar,
uma tarefa enorme a cumprir, o peso d'uma responsabilidade immensa,
porque chegará um dia em que ella devera crear, permitta-se-nos a
expressão, o mundo da sua existencia, construindo um ninho como as aves,
organisando uma familia, norteando-a, como piloto, através dos mares
aparcellados da vida; assim a humanidade era, n'esse periodo da sua
infancia, chamada a cumprir a grandiosa missão de adaptar o mundo
inteiro, como um ninho enorme, ás necessidades da sua existencia, de
desbravar os caminhos por onde devia fazer a jornada dos seculos; de
aproveitar todas as forças da natureza e as suas proprias, de as
harmonisar, de as educar convenientemente para um fim commum; de pegar
dos elementos creados e fundir com elles a gigantesca estatua da
humanidade, com toda a perfeição relativa de contornos e relevos que
hoje tem, porque a humanidade não era mais na sua infancia que um esboço
que importava accentuar, um molde que cumpria encher, uma força que
tinha de desenvolver-se a si propria.
Mas assim como a criança lentamente e quasi inconscientemente enceta a
obra do seu futuro, carreando uma pedra dia a dia, dando hoje um passo,
outro ámanhã, refundindo o seu espirito com o auxilio da primeira
instrucção; assim tambem a humanidade se foi transformando por
successivos esforços e progressos, fazendo hoje uma conquista, ámanhã
uma creação, enchendo a pouco e pouco o molde vazio em que, estatua,
tinha de fundir-se e completar-se.
Pelo desenvolvimento da humanidade no momento actual é-nos facil avaliar
a grandeza do seu trabalho através dos seculos, desde a origem do mundo
até hoje. Religião, linguagem, agricultura, governo, industrias,
commercio, artes, sciencias, tudo isso ella foi creando por um trabalho
lento, que principiou por elementos simples, como se póde por exemplo
ver na linguagem, onde o monosyllabo veio finalmente a converter-se nas
linguas de flexão; na religião, onde a primeira elevação da alma para as
forças da natureza, que foram encarnadas em symbolos grosseiros, veio a
transformar-se na concepção grandiosa da divindade immaterial e
absolutamente perfeita; no estabelecimento dos estados, onde o poder
theocratico veio a parar nas modernas fórmas de governo que se pódem
variar segundo o interesse geral; na agricultura, onde a rude cultura da
terra, a que o instincto impellia, se desdobrou na agronomia moderna,
sciencia complexa, a que as invenções dos Dombasle, Fowler e Howard
servem de diadema auriluzente; nas industrias, onde a vida pastoril
exercida pelas tribus nómadas, e a da pesca, exercida pelas povoações
costeiras, vieram a multiplicar-se na immensa diversidade de profissões
e officios a que se dedicam as classes contemporaneas; no commercio,
onde a simples troca de productos, n'uma área muito limitada, veio a
metamorphosear-se nas grandes operações commerciaes que se alargam por
todo o mundo, graças á invenção da moeda, aos progressos da navegação,
aos rapidos meios de transporte; nas artes, onde os instrumentos de
silex se transmudaram nos mais completos processos mechanicos, e os
megalithos, que tanto se teem estudado hoje[1], vieram a converter-se
nos grandiosos monumentos de nossos dias; nas sciencias, onde, por
exemplo, a astronomia caminhou desde os pastores da Chaldéa, que
contemplavam os astros, sentados nas eminencias penhascosas, pelo
silencio da noite, até que essa sciencia celeste terminou com Newton,
como diz Larousse, a sua evolução historica.
Durante esta obra de seculos, emquanto as bellas instituições da
humanidade se fixavam na terra tão nova como ella, ao mesmo tempo que as
plantas enraizavam no solo e bebiam os succos nutritivos n'uma
exuberancia caudal, os homens, como a criança, só poderam olhar para
deante, para o futuro. O seu berço ficava ainda tão perto que não havia
tempo de ter brotado d'elle esse doce sentimento que as lagrimas
purificam, e que não poucas vezes conduz á reconstrucção do passado pela
memoria,--a saudade; ou antes, como diz Cantu[2], _os antigos tinham
ainda muito poucas ruinas deante de si_, phrase que Edgar Quinet repetiu
[3],--e sendo o passado o campo aberto ás investigações da historia,
onde quasi não havia passado não podia haver historia.
Sim. Dai um montão de ruinas ao homem, e conseguireis fazer d'elle um
historiador. Uma vertebra, que no fim de contas é uma ruina do vasto
edificio zoologico, bastou a Cuvier para a reconstrucção do passado. É
pelo esqueleto das gerações que nos antecederam que os sabios de nossos
dias teem realisado as mais assombrosas conquistas da sciencia moderna.
Mas havia transcorrido o tempo e as nacionalidades tinham sahido
recentemente do berço, porque a humanidade gastára longo periodo da sua
infancia na vida errante e rude primeiro que podesse constituir-se em
tribu, e que da tribu nascesse a nação. Como acontece com as grandes
obras d'arte, as instituições humanas foram modeladas por um esboço, e
aperfeiçoadas depois. O esboço da nação foi a tribu.
Parece-nos, porém, questionavel a fixação do periodo de desenvolvimento
humano em que se constituiram as primeiras sociedades.
«Na verdade, diz Cantu, como podiam os laços do matrimonio e da
paternidade tomar-se deveres antes do homem comprehender o bem que
d'isto deriva e os meios de o alcançar? Como conceberia as vantagens da
sociedade o que nunca as tivesse experimentado? Para que os homens se
unam entre si, e façam um pacto social, é forçoso que possuam uma
linguagem commum para se entenderem uns aos outros, e fórmas de
convenção, de assembléas, e de representação; isto é, que estejam
reunidos já em sociedade.»
Não concordamos, a este respeito, com a opinião de Cantu, pelas razões
seguintes.
As relações naturaes a que o auctor da _Historia universal_ allude na
primeira interrogação, e que, segundo elle, importam a comprehensão dos
deveres que d'ellas derivam, annullam, assim encaradas, a idéa de
instincto, facto comprovado em todas as especies animaes, e até nas
vegetaes. Para as aves, por exemplo, os laços d'essas relações naturaes
convertem-se em deveres, e todavia nós não podemos suppôr nas aves a
noção moral de dever. Emquanto, entre algumas familias aladas, a mãi
acalenta o ovo, o pai divaga procurando alimento para a femea, e muitos
naturalistas citam o facto de certas aves _educarem_ seus filhos no que
chamaremos _arte do vôo_, antes de os abandonarem a si mesmos.
Quanto á segunda interrogação, convem distinguir entre o facto de
constituir sociedade e o conhecimento das vantagens que d'ella resultam.
Tambem poderemos suppôr nas aves, que se agremiam em grandes bandos, o
conhecimento das vantagens que d'essa aggremiação resultam? As formigas,
que vivem e trabalham em commum, obedecerão simplesmente ao instincto de
conservação, ou serão impellidas pela elevada idéa da utilidade de
associação?
Quanto á terceira interrogação, isto é, á necessidade de uma linguagem
commum para que os homens possam reunir-se por um pacto social,
desejamos accentuar mais largamente a nossa maneira de pensar.
Não somos da opinião dos que affirmam que haja tribus completamente
privadas de linguagem, mas entendemos com sir John Lubbock[4] que essas
tribus possuem todas uma linguagem, comquanto muito imperfeita e
complicada de signaes.
Bastará citar em abono d'esta asserção o facto de entre os indios
kiawa-kaskaia as tribus communicarem diariamente entre si, segundo o
testimunho de James[5], ignorando completamente a linguagem umas das
outras. «Pelo que não é raro, diz James, vêr dous individuos,
pertencentes a tribus differentes, sentados no sólo, conversando
facilmente por signaes. São muito habeis em exprimir por este modo as
suas idéas, e apenas interrompem o jogo das mãos, a longos intervallos,
por um sorriso ou por uma palavra pronunciada no idioma dos indios crow,
o mais espalhado ainda entre elles.»
Por onde nos é licito vêr que sobre a mais imperfeita e rudimentar
linguagem, a dos signaes, estabelecem os indios kiawa-kaskaia as mais
cordeaes relações de sociabilidade com as tribus visinhas. Finalmente, a
theoria de Vico, dos _povos mudos_, exprimindo-se por meio de corpos ou
de imagens, que tinham alguma relação natural com as idéas que queriam
exprimir, por exemplo, _tres espigas_ para significarem a idéa abstracta
de _tres annos_[6], é manifestamente muito mais acceitavel do que a de
Cantu, porque se funda na propria natureza humana, e destroe a opinião
de que sem uma linguagem, no estado de perfeição em que Cesar Cantu
parece suppol-a, a associação humana é inadmissivel.
O dr. Luiz Büchner[7] confirma a opinião de Vico. Crê, segundo Westropp,
que o homem primitivo foi necessariamente um sêr mudo, e a linguagem
articulada uma acquisição lenta e gradual; que ella teve por origem os
gritos espontaneos de prazer e dôr, a que succederam os sons imitativos
(_onomatopéas_), razão por que na grande variedade de todas as linguas
(cerca de tres mil) ha um numero consideravel de sons equivalentes, e
até mais ou menos analogos. Cita uma observação de William Bell, a
respeito do monosyllabo _loh_, empregado em muitas linguas para designar
a luz, a chamma, e que procede da simples exclamação _oh!_ precedida de
um _l_ ou de uma vibração da lingua. Crê que a pouco e pouco se foram
formando os polysyllabos, pela repetição de um som simples, como nas
palavras _mamã_, _papá_ ou pela agglutinação das syllabas. «Depois,
observa finalmente, o simples grito, correspondente a um sentimento, foi
_imitado pelos companheiros d'aquelle_ que o soltou, e acabou por
tornar-se um signal representativo fixo servindo a designar o proprio
sentimento.»
Aqui temos nós a linguagem, não como base de sociedade, mas, ao
contrario, tomando a sociedade como base da sua perfeição.
Estabelecida a procreação pelo instincto, força irresistivel da natureza
humana, que principiou a manifestar-se no homem desde os seus primeiros
passos na terra, achando-se ainda embryonarias todas as forças moraes e
intellectuaes, que por um lento progresso permittiram depois as mais
elevadas concepções, e as mais assombrosas conquistas, foi ainda o
instincto que levou a humanidade a lançar mão das primeiras industrias,
da vida pastoril, da caça, da pesca, do commercio, segundo as condições
naturaes dos paizes. «Assim as diversas industrias, diz Cantu, nasceram
e cresceram na razão dos lugares; porém a agricultura foi a que
introduziu maiores mudanças na constituição moral. O homem, querendo,
quando cultivou um campo, seguir com a vista as esperanças que lhe dava,
construiu junto d'elle uma habitação; então aquelle sentimento tão
imperioso, que chamamos amor da patria, apparece, e a estabilidade do
lar domestico dá origem á associação civil.» Mas o _lar domestico_ a que
se refere Cantu está longe de ser a moralidade pela familia, pela
familia que a monogamia santificou. O agricultor vivia rodeado dos seus
escravos, e dos filhos; de procedencias diversas, escravos tambem. O pai
era o _senhor_; governava pela força. A mulher era simplesmente uma
_cousa_, um instrumento de reproducção; e as mais das vezes era
arrebatada á sua tribu por violencia. Portanto, as primeiras familias
foram uma reunião de escravos dominados por um chefe, só muito tarde,
como mostra Lubbock[8], baseando-se nos trabalhos de Bachofen, M. Lennan
e Morgan, é que se reconheceu que os filhos eram parentes de seu pai e
de sua mãi. Mesmo em Roma, a palavra familia significava--escravos.--A
mulher e os filhos só por serem escravos eram considerados familia.
Vico mostra, por uma observação philologica, a verdade d'estas
affirmações. Sustentando, como na formação da linguagem, os _verbos_
vieram depois dos _nomes_, e como os primeiros verbos foram
certamente aquelles que são como que os _generos_ ou os _radicaes_ de
todos os outros, exemplo, _sum_, que contém _todas as cousas
metaphysicas_,--_sto_, que exprime a immobilidade, e _eo_, que significa
o movimento, observa por ultimo que estes verbos apenas tiveram a
principio o modo _imperativo_, porque no _estado de familia_, e na
excessiva pobreza de linguagem que então havia, só os _paes_ davam
ordens a seus _filhos ou a seus criados_, ao passo que estes,
_submettidos ao terrivel imperio do chefe de familia, obedeciam sem
murmurios ás suas ordens_[9]. Ainda hoje, entre os kalmuckos do Volga, o
azorrague é o sceptro e o symbolo do poder domestico[10].
Foi certamente com esta mesma força de auctoridade que nasceu o chefe de
tribu. Se a reunião de algumas pessoas carecia de uma que a regesse, a
reunião de algumas _familias_, por maioria de razão, carecia de um
magistrado que a governasse. Os chefes de _familia_ ou _senhores_
reuniam-se para se entregarem, em condições de segurança, ao exercicio
da caça. Escolhiam certamente d'entre elles, para os dirigir, o que mais
se assignalava pela destreza e certeza de caçador. Reconhecida a sua
superioridade natural, ficava sendo o dominador da tribu. E esta
authoridade devia ser tanto mais respeitada e temida, quanto era certo
que se baseava n'um facto indestructivel e inevitavel, revestido de
caracter divino, porque a força era um attributo que não dependia da
vontade do homem.
Da agglomeração das tribus nasceu a nação, como da agglomeração das
_familias_ havia nascido a tribu.
Sendo, porém, maior o numero de governados na nação do que na tribu, era
preciso que o chefe escolhido para governal-os dispozesse de qualidades
physicas ainda muito mais consideraveis. A mais importante de todas
essas qualidades era a força, que, n'uma raça de valentes, não podia
deixar de considerar-se um direito hereditario para governar. Cesar
Cantu observa que o vocabulo _dynastia_ (de _dynamis_, força) indica a
origem de um tal poderio.
Temos, finalmente, fixada a nação, a nacionalidade, sob o imperio da
força, origem dos grandes como dos pequenos estados, em todos os paizes
e tempos. Citemos dous exemplos, ao acaso. «Romulo e os seus
successores, diz Montesquieu[11], estiveram quasi sempre em guerra com
os povos visinhos para ter cidadãos, mulheres ou terras; voltavam a
cidade com os despojos dos vencidos; eram feixes de trigo e rebanhos: o
que causava uma grande alegria. Eis-aqui a origem dos triumphos que
foram no futuro a principal causa das grandezas a que esta cidade
chegou.» A origem da moderna e pequena monarchia portugueza encarna-se,
para assim dizer, na athletica figura de Affonso Henriques, o terrivel
perseguidor dos mouros, o guerreiro de estatura agigantada.
A propria origem das primeiras nacionalidades as impelliu á guerra, que,
segundo Victor Cousin[12], é o instrumento terrivel mas necessario da
civilisação. «A hypothese de um estado de paz perpetua na especie
humana--diz elle--é a hypothese da immobilidade.» Comquanto não nos
exalte em favor da guerra esta opinião de Victor Cousin, somos todavia
levados a acreditar que a vida das primeiras nacionalidades se
fortaleceu pela guerra, como o corpo de uma criança se fortalece pela
gymnastica. Além do que, a victoria, lisonjeando o orgulho dos povos,
nobilitava, para assim dizer, as suas aspirações de grandeza, e
arrastava-os a assignalarem a si mesmos uma origem divina, aspiração que
é a primeira fonte das tradições poeticas d'esses mesmos povos[13].
Acordada, portanto, a imaginação popular, cerca-se o berço das nações
das brumas do maravilhoso.
Os quatro livros sagrados de Confucio, reconstruidos de memoria, depois
de haverem sido queimados, e acrescentados com tradições, fazem remontar
a historia da China, especialmente o ultimo livro, a um passado
fabuloso. Na mais antiga parte dos _Vedas_, o _Rigveda_, os indios
agradecem a intervenção do poder celeste nos seus combates. Indra
protege a carnificina, como nós, quando procurámos uma origem
maravilhosa, fizemos intervir Christo na batalha de Ourique.
Por um lado as tradições poeticas, as narrativas fabulosas geraram a
Historia. Por outro lado os factos reaes, especialmente os combates,
misturados com as legendas phantasticas, desenvolveram-na.
Como para haver Historia é preciso que haja ruinas, a guerra foi o maior
elemento da Historia, porque produz cadaveres, e os cadaveres são as
ruinas da humanidade. Os seculos não passavam impunemente, sem fazer
destroços. Na China, a monarchia dos _Hia_, que durou quatrocentos
annos, acabou acompanhada de graves perturbações. Eis-aqui como foram
augmentando os materiaes da Historia: ruinas e destroços.
Foi assim que, semelhante ao sol que nasce velado pelos vapores
coloridos da manhã, surgiu, na successão dos tempos, a historia de cada
nação, envolta nas tradições maravilhosas da sua origem poetica.
Que interessado enthusiasmo não devia de ser, porém, o dos primeiros
homens que puderam quebrar imaginariamente o sello sagrado da sepultura
das gerações que os precederam no perimetro da sua nação, e soprar-lhes
vida nova, imitando a fabula de Pygmalião, o estatuario divino, e
dar-lhes pensamento e voz, e ouvil-as, e collocal-as á volta de si
mesmos, vendo-as passar em turbilhões phantasticos como na formosa
ballada da dança dos mortos! O historiador, por uma arrojada abstracção,
collocava-se fóra do seu paiz, e com uma poderosa alavanca, muito
semelhante á que o sabio Archimedes pedira ao rei Hieron, levantava a
terra que lhe fôra berço com o peso enorme das gerações que a povoaram,
mostrando-a suspensa aos olhos do mundo. Era realmente assombrosa esta
nova conquista do pensamento humano, tanto mais que podia o homem
transmittil-a aos seus successores por meio da tradição escripta.
Sentiu-se decerto orgulhoso de si mesmo o homem que pôde legar aos seus
descendentes essa preciosa cadêa de ouro que o prendia ao passado, á
vida de seus avós, á gloria da antiguidade; fez, para assim dizer, um
presente de seculos aos seus descendentes, que, por sua vez,
arremessaram para a immensidade do futuro a outra extremidade da
corrente de ouro, a que as gerações subsequentes haviam de encadear
novos anneis.
Chegado á grande conquista do que chamaremos _faculdade historica_, isto
é, ao desenvolvimento intellectual que permittiu transpor os limites da
vida individual para se internar no estudo da vida nacional, apossou-se
o homem de um poder verdadeiramente superior, que lhe permittia
reconstruir o passado.
Se é attribuido a Christo o poder de ter resuscitado um só homem pelo
milagre, o homem logrou resuscitar a nação pela Historia.
Mas os primeiros historiadores deveram forçosamente de assemelhar-se a
estas arvores que, exuberantes de seiva na primavera, se cobrem
totalmente de flôres, como a amendoeira. A imaginação, excitada pela
tradição poetica[14], estava n'elles em pleno vigor, pompeava as suas
galas luxuriantes, á maneira das florestas virgens que se enredam em
labyrinthos de phantasiosas ramarias.
Sendo certo que o ardor da imaginação arrasta á excessiva credulidade,
os primeiros historiadores foram profundamente credulos, e bordaram as
suas narrações com todas as tradições, legendas e fabulas, que a
imaginação acceitára com prazer ou até com enthusiasmo.
Herodoto é um historiador poeta, que divinisa a Grecia; Tito-Livio dá
largas á imaginação para descrever e declamar; Suetonio contenta-se com
colleccionar anecdotas, que, por via de regra, tanto costumam lisonjear
os espiritos frivolos, porque são um brinco para a imaginação.
Na successão dos tempos o christianismo, com o seu cortejo de legendas
piedosas, com as exagerações proprias da exaltação da fé, contribuiu por
sua vez, e não pouco largamente, para prolongar o predominio da
imaginação na Historia, e retardar o advento do criterio philosophico e
independente.
Toda a gente sabe como a imaginação dos povos occidentaes se exaltava
com a posse das reliquias de um santo, n'uma época ainda relativamente
proxima de nós. Sicard, duque de Benevento, declarava guerra a Amalfi só
para obter os restos mortaes de Santa Triphomena. Theodoro, bispo de
Metz, preava em Roma, na presença do papa, a cadêa de S. Pedro, e jurava
que não a largaria sem que primeiro lhe cortassem as mãos, porque a
desejava possuir[15]. Jerusalem, a cidade celeste, apparecia ás
imaginações christãs como um sagrado jardim rociado pelas lagrimas de
Maria e pelo sangue de Jesus, e povoado das rosas de Engaddi, dos cedros
do Libano, das oliveiras de Gethsemani, para nos servirmos de uma
expressão alheia.
A cavallaria, em que o elemento christão se accentuou de modo a gerar as
ordens militares religiosas, veio ainda inçar a Historia com as
aventuras dos paladinos, com os matizes d'essa vida de imaginação, tão
futil mas tão pittoresca. A febre da cavallaria chegou a ser tamanha,
que bastará citar um só facto para comproval-a. Quando Carlos V foi
coroado em Bolonha, tocou com a espada na cabeça dos que desejavam ser
cavalleiros, dizendo a cada um: _Esto miles._ Mas como todos gritassem
em volta do rei: _Sire, sire, ad me, ad me_, Carlos V, estendendo a
espada sobre a multidão, viu-se obrigado a dizer: _No puedo mas. Estote
milites, estote milites, todos, todos_[16].
Na época a que nos vimos referindo, os historiadores engrinaldavam as
suas lucubrações com as flôres colhidas pela mão do amor e com as rosas
cortadas nos hortos de Jerusalem, pois que tanto valiam umas como
outras, como claramente demonstra o annel nupcial com que S. Luiz
brindou Margarida de Provença, o qual era formado de margaritas e de
lizes alternados, tendo no meio um cruciflxo circuitado por esta
inscripção: _Hors cet anel pourrions-nous trouver amor_[17]?
Na historia portugueza andaram por muito tempo dous episodios, que
tiveram por origem o maravilhoso da tradição religiosa e o maravilhoso
da tradição cavalheiresca. Referimo-nos ao milagre de Ourique, refutado
por Herculano, e á instituição da ordem de S. Miguel da Ala, refutada
por fr. Francisco de S. Luiz.
Quando havia de soar, porém, a hora em que o maravilhoso, o predominio
da imaginação, devia ser banido da Historia? em que essa especie de
_peccado original_ devia desapparecer batido pelo criterio philosophico?
Coube aos tempos modernos a gloria de refundir a Historia, de lhe dar um
novo rumo, de alargar as suas vistas espraiando-as por sobre toda a
humanidade. A primeira idéa da Historia universal nasceu no seculo XVII,
época relativamente muito recente, mas esta nova e grandissima conquista
do pensamento humano só tarde podia chegar. Era preciso deixar accumular
ruinas sobre ruinas, destroços sobre destroços, dar tempo a que os
imperios desabassem, a que as religiões desapparecessem, a que os
cadaveres dos homens e das instituições se amontoassem, para que de cima
de todos esses enormes escombros se levantasse sereno e altivo o
pensamento humano, semelhante a uma grande aguia, e alçasse o vôo até
pairar n'uma esphera superior e poder medir, com segura agudeza de
vista, a profundeza dos destinos da humanidade na successão dos seculos.
Victoria immensa foi essa, triumpho assombroso o que permittiu que o
homem alargasse por todo o mundo o dominio do seu espirito, que
reconstruisse a humanidade como os primeiros historiadores haviam
reconstruido a nação; que zombasse da morte animando as cinzas dos
cadaveres e povoando com elles, por um poder maravilhoso do espirito, os
imperios que tinham apparecido e desapparecido á face da terra, como
plantas marinhas que ora surgem fluctuando no dorso da onda, ora se
escondem nos sulcos profundos do oceano!
Desde o momento em que o homem pôde realisar esta synthese estupenda, o
maravilhoso, as tradições fabulosas fugiram espavoridos do dominio da
Historia. Outr'ora, como observa Edgar Quinet, «cada nação se fazia o
centro e o fim do universo, e se impunha á adoração do genero
humano[18]»; agora era o genero humano que se impunha á admiração de
cada nação. Perante o enorme conjuncto dos povos, já não podia pensar-se
em assignalar a origem de cada um singularmente; desapparecia o orgulho
nacional, o excessivo sentimento de amor patrio que procurava revestir
essa origem de ouropeis poeticos; agora era preciso procurar a filiação
da humanidade, estudar a sua apparição na terra, as suas divisões e
evoluções, e tomando a peito a resolução de tamanhos problemas não havia
tempo para estar a inventar fabulas, que ficavam esmagadas, como flôres
inuteis, sob o carro da nova idéa, ou antes da nova sciencia vencedora.
Como flôres inuteis, dissemos nós, e todavia devemos reflectir, avisados
por Victor Cousin[19], que os primeiros erros são inevitaveis e ao mesmo
passo uteis, porque fornecem a base de todo o progresso. De feito, não
se póde entender a idéa de progresso senão á vista de primordios que se
tornam defeituosos quando comparados com trabalhos posteriores. «Sem as
attrahentes chimeras da astrologia, sem as energicas decepções da
alchimia, por exemplo, onde teriamos nós haurido, pergunta Augusto
Comte, a constancia e o ardor necessarios para recolher as longas series
de observações e de experiencias que, mais tarde, teem servido de
fundamento ás primeiras theorias positivas de uma e outra classe de
phenomenos[20]»?
Até agora tinhamos diante de nós a Grecia, Carthago ou Roma, e feita a
historia separada de cada uma d'essas nações, julgavamos que tudo estava
feito. Pelo contrario, tudo principiará agora a fazer-se, tomando por
elementos de trabalho as ruinas d'esses emporios. Desde o momento em que
nos collocamos n'um plano superior a todas as nações, creamos a Historia
universal, e, conhecendo pela Historia universal os factos da vida dos
povos, salteou-nos o desejo de averiguar as relações que poderiam
existir entre os factos e as idéas, de conhecer se todos esses factos
seriam obra do acaso, ou se cada povo teria sido impellido por um mobil
secreto para o cumprimento de determinada lei e encarregado de
desempenhar uma missão no grande conjuncto da civilisação geral.
De tal desejo nasceu, no seculo XVIII, a Philosophia da historia.
Assim como a medicina seria uma sciencia imperfeitissima, destinada a
caminhar ás cegas, se a physiologia não houvesse podido penetrar na vida
interior do corpo humano, assim a Historia universal ficaria condemnada
a contemplar tão sómente o enorme vulto do gigante que se chama
humanidade, se a philosophia, desempenhando missão semelhante a da
physiologia no campo das sciencias medicas, não perscrutasse o que ha de
intimo e de secreto no seio d'esse colosso, se, por outras palavras, não
habilitasse a escrever a verdadeira historia da humanidade[21].
Uma nação constitue-se, florece e cahe. No fim de contas, pergunta um
philosopho[22], o que é uma nação de mais ou de menos na humanidade? E
tem razão. A Historia não passa além do tempo marcado á existencia
d'essa nação, quer dizer, acompanha-a até ao seu ultimo dia, mas a
Philosophia da historia procura estudar a influencia que essa nação
extincta imprimiu na sorte da humanidade, qual o papel que representou
no grande concerto dos destinos da civilisação.
Os povos são individualidades conscientes. Ora todos os factos
praticados por individualidades conscientes, embora hajam sido
determinados por causas variadas, representam uma idéa.
A Historia estuda os factos; a Philosophia estuda a idéa que cada um
d'esses factos envolve.
Portanto a Philosophia completa a Historia.
Bossuet, o sabio prelado de Meaux, foi quem primeiro executou a idéa de
uma Historia universal. Dedicando o seu vasto trabalho ao
Delphim,--vasto, sobretudo, em relação a época--procura lançar a vista
sobre a successão dos seculos, afim de que no espirito do principe
permaneçam gravados os traços geraes da vida da humanidade se por
ventura se lhe desluzirem da memoria os episodios das historias
particulares.
«Esta maneira de historia universal--diz elle[23]--é, a respeito da
historia de cada paiz e de cada povo, o que uma carta geral é para as
cartas particulares. Nas cartas particulares estudaes miudamente um
reino ou uma provincia em si mesmos; nas cartas universaes aprendeis a
situar todas as regiões do mundo conjunctamente; vêdes o que Paris ou a
ilha de França é para o reino, o que o reino é para a Europa, e o que a
Europa é para o universo.»
Realmente, este espectaculo offerecido por Bossuet ao Delphim era
assombroso, mas não se póde considerar como propriamente uma invenção do
prelado de Meaux. Por isso dissemos anteriormente que foi elle quem
primeiro _executou_ a idéa de uma Historia universal.
Bossuet, traçando o plano da sua obra, antepõe a tudo o mais a historia
do povo de Deus, _que foi o fundamento da religião_. Escreve, portanto,
sob o ponto de vista religioso, ou antes faz-se um echo da Igreja. A sua
obra é, para assim dizer, um desdobramento da Biblia, e toda a
originalidade que revela está, como observa Cousin, na execução. Vendo
caminhar o povo de Deus á face da terra, sempre guiado pelo milagre, que
faz, por exemplo, com que a vara de Moysés aparte as aguas do mar
Vermelho, Bossuet vê em todos os passos d'esse povo a mão de Deus, o
espirito do Senhor. O plano descoberto por Bossuet na mobilidade dos
acontecimentos humanos é traçado pela Providencia. «Mas lembrai-vos, meu
senhor--conclue o prelado de Meaux[24]--que esta longa cadêa das causas
particulares que fazem e desfazem os imperios, depende das ordens
secretas da divina Providencia.» Embora arrastado pelas convicções
profundamente religiosas do seu tempo e do seu espirito, e até pelo
dever da sua posição social, Bossuet tem um ponto de vista exclusivo,
unico, intransigente; mas em todo o caso imprime á Historia um caracter
philosophico, porque determina um mobil e um fim a todos os
acontecimentos humanos.
O exclusivismo de Bossuet é seguramente, pelo menos á luz da sciencia
moderna, o maior defeito da sua obra. Havendo elle comparado a Historia
universal a um mappa-mundi, onde se póde vêr o que Paris é para a
França, a França para a Europa, e a Europa para o universo, esquece-se
comtudo, perante o espectaculo da Providencia, embevecido em extasis
religiosos, de estudar as relações dos povos entre si para se elevar até
á humanidade. Elle preoccupa-se com o povo de Moysés como se esse povo
constituisse por si só a humanidade. Na historia dos imperios, a que
consagra a terceira parte da sua obra, procura systematicamente a
ligação, que reputa necessaria, com a historia do povo de Deus. Não só o
Oriente falta no grande livro de Bossuet,--pondera Cousin[25]--assim
como a historia das artes, da industria e da philosophia; mas tambem as
religiões e as instituições politicas dos differentes povos são algumas
vezes tratadas de modo um pouco superficial, se bem que de longe a
longe, e por exemplo na historia romana, haja relampagos de uma
sagacidade superior e paginas que lembram Machiavel e antecipam
Montesquieu.»
Lançada a primeira pedra no vasto edificio da Historia da humanidade,
uma de duas cousas havia fatalmente de acontecer: ou a obra de Bossuet
ficaria esquecida e, portanto, perdida, ou novos obreiros viriam
continuar a fabrica gigantesca. Felizmente, um homem verdadeiramente
superior, um «d'estes genios descobridores que alcançam as verdades na
sua maior generalisação»[26], appareceu em Italia, illuminando com os
relampagos do seu genio a grande obra da historia das idéas humanas,
porque, já o dissemos, a historia dos povos não é outra cousa, ou antes
creando elle proprio uma sciencia nova, _scienza nuova_, a _rainha das
sciencias_, «porque as sciencias devem começar onde a materia e o
objecto de que tratam principiam, e esta começará de feito com os
primeiros pensamentos dos primeiros homens, e não com as primeiras
reflexões dos philosophos sobre as idéas humanas[27].
É claro que nos referimos a João Baptista Vico.
O immortal philosopho napolitano, cujas obras despertam a mais
sympathica admiração e o mais profundo interesse, extrahe da _noite
profunda e tenebrosa que envolve a antiguidade_, uma affirmação
completamente nova e surprehendente: _O mundo civil foi certamente feito
pelos homens_ ou, n'uma phrase mais synthetica ainda, _a humanidade é
obra de si mesma_.
Remontando-se á origem do mundo das nações, ou mundo civil, João
Baptista Vico acceita a tradição biblica de que a terra fôra repovoada
pelos descendentes de Noé, os quaes, rompendo os laços de familia por
ligações passageiras e arbitrarias, se espalharam na _grande floresta da
terra_.
A infancia da humanidade é semelhante, segundo Vico, á infancia do
homem.
Os homens são mudos na sua origem. Vivem apenas porque o instincto os
leva a conservarem-se. Mas o primeiro trovão e o primeiro raio lançaram
no seio da humanidade nascente uma luz nova, a primeira noção da
divindade, como já mostramos no principio d'este trabalho.
A commoção que o primeiro phenomeno meteorologico produziu no homem,
desprende-lhe a lingua: póde, finalmente, pronunciar o primeiro
monosyllabo.
O desenvolvimento da palavra faz-se lentamente na humanidade como no
homem. A insufficiencia da linguagem é supprida por signaes, por gestos
ou pela grosseira representação dos objectos na casca das arvores,
origem dos hieroglyphos. Para facilitar a articulação das primeiras
palavras, os homens fallam cadenciadamente: é a origem dos cantos, dos
versos, da pantomima e da dança. Desenvolvidos os orgãos da voz, as
primeiras palavras são a copia dos sons da natureza. Depois as palavras
perdem a significação natural e tomam uma significação convencional; o
mesmo acontece na escriptura, a partir dos hieroglyphos.
O homem, assustado pelo trovão e pelo raio, escondeu-se nas cavernas da
terra, receando d'um poder superior a elle; e ahi occultou tambem a sua
companheira. D'esta juncção nasceu a familia, a que o homem teve de
procurar alimentos, tendo de sahir, para encontral-os, dos recessos das
cavernas. Do accordo dos deveres e das necessidades, a que esta primeira
sociedade deu origem, nasceu o direito natural.
Segundo a formosa theoria de Vico, vêmos, pois, como o homem é um
producto de si mesmo, e o mundo civil é feito pelo homem.
Na existencia de cada povo, Vico encontra a idade dos deuses, ou a época
em que a imaginação e o medo divinisam as forças da natureza; a idade
dos heroes, ou a época em que os homens, imaginando que tudo é obra dos
deuses, attribuem a si mesmos uma origem divina; finalmente, a idade
historica, em que o heroe se humanisa, e em que a natureza humana se
torna intelligente, modesta, dôce e razoavel, obedecendo por
consequencia á lei da consciencia, da razão e do dever, como diz o
proprio Vico[28].
Dentro do circulo fatal d'estas tres idades ou naturezas, é que a vida
dos povos se desenvolve e completa. Chegado ao grau de perfeição que
fica assignalado, cada povo extingue-se como uma flôr que attingiu o seu
maximo desenvolvimento. Outro povo, como outra flôr, o ha-de vir
substituir dentro do mesmo circulo fatal.
Toda a theoria de Vico se póde representar graphicamente por uma serie
de linhas parallelas, que a nosso vêr exprimem perfeitamente o seu
_corsi_ e _ricorsi_, o progresso e retrocesso dos povos. Segundo esta
theoria, os governos começam pela _unidade_ nas monarchias de familia;
pelo _menor numero_, nas aristocracias heroicas; pelo _maior numero_,
nas republicas populares, e acabam pela _unidade_, como principiaram,
nas monarchias civis. A successão d'estes periodos abrange a vida de
cada povo.
Assim, Vico, traçando, nos tempos da primeira barbarie, a longa linha de
_corsi_, encontra os paes de familia exercendo um governo, cuja
authoridade pretende derivar dos deuses. Esse é o periodo do mutismo; a
expressão do pensamento é gesticulada, hieroglyphica (_Monarchias de
familia_). Os homens errantes refugiam-se junto dos paes de familia, que
lhes não querem reconhecer direito algum. Os adventicios revoltam-se.
São vencidos pelos paes de familia. Revoltam-se de novo. Os paes de
familia procuram fortificar-se formando uma classe e regulando os
direitos das _gentes minores_, dos adventicios (_Aristocracias
heroicas_). Segue-se o periodo em que a continuação das revoltas por
parte das _gentes minores_ obtem concessões que produzem finalmente o
governo humano, isto é, do maior numero (_Republicas populares_). A
estas épocas de agitação succede naturalmente um periodo de repouso, a
monarchia. Mas cumpre notar que por isso que as monarchias e as
republicas populares são ambas uma expressão do _governo humano_, podem
succeder-se alternadamente.
Tracemos agora, segundo Vico, parallela á linha de _corsi_, a linha de
_ricorsi_ no periodo da segunda barbarie.
Voltam os tempos divinos. Os reis são os defensores da religião,
magestades sagradas. Revestem a dalmatica dos diaconos. A corôa é
encimada pela cruz. Fundação das ordens religiosas armadas. Os signaes
dos brazões correspondem á linguagem hieroglyphica.--Regressam os tempos
heroicos pelo feudalismo. Os barões são os heroes; os servos são as
_gentes minores_.--Finalmente, os esforços dos vassallos para
conquistarem a liberdade, em virtude da lei de que a potencia livre de
um estado deve passar ao acto, vencem os esforços dos _senhores_ e dão
origem ao governo do _maior numero_, isto é, aos governos democraticos
modernos.
Vico, encontrando o parallelismo dos _corsi_ e _ricorsi_ na linha
d'extensão, não o pôde comtudo achar na duração e intensidade dos
periodos, porque o da segunda barbarie foi muito menos longo e profundo
que o da primeira.
A theoria de Vico tem sido mais ou menos impugnada, sem que da
impugnação se possa deduzir menospreço pela elevada concepção do
philosopho napolitano, que evidentemente se baseia na divisão dos
tempos, feita pelos egypcios e pelos chinezes. Cantu acha que a theoria
da _Scienza nuova_ tem o inconveniente de sobrepôr a razão á liberdade;
de inutilisar todos os esforços tendentes a realisar um progresso
continuo; finalmente, que ella é desmentida pela constituição da
sociedade americana, que se organisou sem deuses, sem heroes e sem
feudatarios, á custa da industria e da concorrencia[29]. Cousin encontra
na theoria de Vico o vicio da preponderancia do elemento politico, da
omissão quasi completa da arte e da philosophia, e sobretudo do estudo
da civilisação oriental, dominada pela religião; finalmente, da omissão
relativa aos destinos da humanidade em geral na sua marcha de refluxo em
refluxo[30]. O snr. dr. Theophilo Braga acha que se ha erro n'aquella
divisão dos tempos consiste em fazer o computo de tal modo, que os
periodos subsequentes sejam excluidos dos primeiros[31].
Mas Cantu, como Cousin, faz justiça ao talento brilhantissimo de Vico,
cuja arrojada intuição, em pleno seculo XVIII, espanta realmente.
Comquanto Vico fique hoje muito atrazado em vista do estado actual da
sciencia, sobretudo pelo que toca aos modernos debates sobre a origem
das especies, distribuição geographica das raças humanas, pluralidade
dos mundos, suspeitada já por Giordano Bruno, e á questão da influencia
dos meios, não póde deixar de reconhecer-se que não só previu muitos dos
mais transcendentes problemas da sciencia moderna, taes como o da origem
da linguagem, cuja resolução antecipou, mas tambem que deixou na sua
obra os germens de muitas sciencias novas[32], e que foi o fecundador da
maior parte das theorias modernas, entre as quaes a Philosophia da
Historia.
A obra de Vico foi continuada por Montesquieu n'um plano igualmente
superior. Como Vico, Montesquieu occupa-se da relação do direito com os
costumes, mas introduz na sciencia da Historia um elemento novo, que
todavia já Hippocrates, Platão, Aristoteles e outros sabios da
antiguidade haviam suspeitado: a influencia dos climas no caracter e
vida dos povos. Bossuet havia introduzido na Historia universal o
elemento religioso: Vico, o elemento racional; Montesquieu introduziu o
elemento climatologico.
O auctor do _Espirito das Leis_, fanatico pela sua doutrina, exagera os
effeitos do clima, comquanto devesse attender a totalidade dos meios
cosmologicos como Herder, mas o que é certo, e a sciencia moderna o tem
demonstrado, é que o homem, e mais adeante nos demoraremos n'este ponto,
quando tratarmos de Herder, nasce e vive sob a influencia da natureza
que o rodeia. O clima produz as sensações habituaes, que, no decurso dos
tempos, constituem a sensibilidade definitiva[33]. Nas obras d'arte, e
de litteratura, que são as que mais profundamente caracterisam a
civilisação de um povo, como mais de espaço veremos, importa considerar,
segundo Taine[34], tres forças primordiaes, a raça, o _meio_, e o
momento. Estabelecida a verdade da influencia climatologica no _homo
duplex_, Emilio Deschanel[35] procura no estylo de cada escriptor a
caracteristica do temperamento, do _clima_, dos habitos, etc. Pelletan,
considerando o sólo como um collaborador forçado do destino d'uma raça,
reconhece a necessidade de se escrever a _geographia do progresso_[36].
Não se póde levar tão longe, porém, a fatalidade exclusiva do clima, sob
o ponto de vista da temperatura, que haja de se fechar os olhos a
contradicções flagrantes, a que os proprios factos historicos dão
relevo, embora Montesquieu veja ainda no fundo d'essas contradicções a
influencia climaterica. Assente que os climas frios são os que dão o
vigor, a energia, e os climas quentes a molleza e a indolencia, o
proprio Montesquieu[37] foi obrigado a notar contradicções nos
caracteres de certos povos do Meio-dia. «Os indios são naturalmente
faltos de coragem, diz elle; os proprios filhos dos europeus, nascidos
nas Indias, perdem a do seu clima.» Esta ultima affirmação acha-se
plenamente confirmada no precioso livro de um viajante hollandez[38], o
qual, tratando da maneira de viver dos portuguezes na India, faz notar a
ociosidade a que se entregavam, a ponto de explorarem a honra de suas
proprias mulheres[39]. Pois não obstante a indolencia peculiar ao clima
da India, onde a luz e o calor parece conservarem-se n'uma primavera
ininterrompida, os costumes indianos são violentos e barbaros: os homens
submettem-se a males incriveis, as mulheres lançam-se ao fogo.
Montesquieu explica ainda este facto pela preguiça do espirito dos
indios, a qual é devida á indolencia do corpo, produzida pelo clima. A
preguiça do espirito traz, realmente, a immobilidade nas leis e nos
costumes; sem embargo, como observa Voltaire, a influencia dos climas é
algumas vezes desmentida pelos factos historicos: em resposta á asserção
de que os povos dos paizes quentes são timidos como os velhos, lembra
Voltaire que os arabes conquistaram em oitenta annos maior territorio do
que aquelle que o imperio romano possuia.