que fez uma cruz na testa e na corôa, dirigiu-se para a sacristia.
A sacristia desta egreja é digna de ser observada.
Quasi todas, com pequenas excepções, são eguaes. Um compartimento maior
ou menor, com um armario a um dos lados, que serve ao mesmo tempo de
meza, o qual é de madeira e duma construção pesada. Nos seus gavetões
guardam-se os paramentos, a cera, etc.
Na parede lateral do lado oposto, ha uma especie de banco corrido, que
oculta um caixão a todo o comprimento, onde os sacerdotes guardam as
capas, quando se preparam para celebrar a missa.
Quadros misticos, um crucifixo, uma pequena taça de pedra com agua, onde
o sacerdote lava as mãos antes e depois da missa, compõem todo o adorno
daquele logar.
Devemos fazer especial menção duma antiquissima mesa, por detraz da qual
ha uma cadeira de couro, não menos antiga.
Fazemos menção especial destes dois objectos, que não faltam em nenhuma
egreja paroquial, não por sua antiguidade nem por sua beleza artistica,
mas sim porque naquela cadeira e por detraz daquela mesa senta-se um
sacerdote. Vejamos de que se ocupa ele.
Uma mulher entra na sacristia, dizendo que deseja mandar dizer uma missa
em tal ou qual altar; mandam-na ter com o sacerdote que está sentado á
mesa, o qual recebe o dinheiro e escreve num livro, respondendo depois:
«Pode-se ir embora, que a missa cá se dirá...»
Depois chegam duas senhoras, com um recem-nascido. Veem mandar dizer uma
_missa de parida_, como vulgarmente se chama. O clerigo recebe dinheiro
e diz: «A primeira que agora se fôr dizer é a missa que deseja». Costuma
suceder que alguma pessoa entra na sacristia pedindo o _Viatico_ para
algum enfermo, e então não falta sacerdote que não murmure:
—Não podem vir á noite? A esta hora tão impropria! Assim está em perigo o
doente?
E deste modo, ainda que o sacerdote se revista com as vestes proprias,
ainda que o sino dê o sinal do estilo, numa palavra, ainda que se
vá desempenhar aquele oficio no _mesmo instante_, não se faz sem
primeiramente se haver murmurado ácerca da hora, do frio, do calor, dos
muitos degraus que ha para subir, se o enfermo é pobre e habita nas
aguas-furtadas dum quinto andar. Em resumo, para aquele que vae com o
dinheiro na mão tudo está muito bem; para o pobre, porém, é outra coisa;
tudo se faz, mas sempre de má vontade.
Para terminar esta descrição, diremos que na sacristia, geralmente, reina
o melhor humor. Os sacristães, rodeados por seis ou oito meninos do côro
que olham com inveja para a sotaina, e aspiram chegar a serem sacristães
quando _haja logar_, ralham sobre a repartição mal feita dalguma propina,
ou sobre o dever de ajudar ou não á missa. Porém que ha a estranhar em
que os meninos do côro façam isto, quando os sacerdotes lhes dão tal
exemplo?
Numa palavra, se os nossos leitores querem inteirar-se a fundo e conhecer
as miserias da egreja romana, vão estudal-as no interior dalgumas
sacristias paroquiaes, na certeza de que verão com surpreza e escandalo o
que o autor destas linhas tem tido ocasião de ver.
Porém, voltando ao padre Francisco, achava-se sentado e absorto em suas
meditações, quando um dos sacristães se aproximou dele para lhe dizer que
era a hora de dizer missa.
O padre Francisco principiou a paramentar-se, recitando em latim, durante
esse ato, as rezas do ceremonial.
Recordou-se então de que nenhum dos apostolos havia usado aquelas vestes,
e, a seu pezar, olhava para elas agora com uma certa indiferença que lhe
seria impossivel explicar. Por fim tomou o calix e saiu para a egreja.
Ao subir os degraus do altar-mór, sentia esvaecimentos de cabeça; porém,
apezar disso, continuou.
Segundo o costume, recitou as primeiras orações, e, ao chegar ao
_confiteo deo_, etc; quiz concentrar-se comsigo para fazer uma confissão
digna, porém naquele momento assaltou-o este pensamento: Primeiramente
pensou que nem S. Paulo nem S. Pedro deviam ter celebrado missa
recitando aquela oração, pois, de contrario, eles mesmos se pediriam
perdão dos seus proprios pecados; segundo, se, como é de supôr, esta
oração não se dizia no tempo dos apostolos, claro é que era um remendo
deitado depois, e em tal caso a missa não era como a celebraram os
apostolos.
Imediatamente o assaltou outro pensamento:
—Que nescio sou em pensar assim! Claro é que nem S. Pedro nem nenhum
apostolo disse esta oração; porém nem por isso a missa está alterada,
visto que desde o _introito_ até ao Evangelho não são senão orações
preliminares, que não formam parte da missa. Deixemos, pois, de pensar
nestas coisas.
Continuou na celebração. Por fim chegou ao Evangelho; o menino do côro
que ajudava á missa mudou o missal da esquerda para a direita do altar, e
o sacerdote principiou a ler o Evangelho, que naquele dia era o cap. 4 de
S. João, ou a passagem de Jesus com a samaritana.
O sacerdote lia rapidamente; porém ao chegar aos versiculos 21, 22 e 23,
uma luz penetrou no seu espirito, e por um momento parou na leitura, até
que com muita atenção e pausa tornou a ler:
«_Vós adoratis quod nescitis..._»
—Sim—pensou o padre Francisco—«Vós adoraes o que não sabeis». Isso
sucede á maioria dos catolicos. Que sabe ácerca de Deus essa gente que
se ajoelha atraz de mim? Como pode estar orando com recolhimento, se
está olhando para mim com toda a atenção, para se ajoelhar quando eu me
ajoelho, e levantar-se quando eu me levanto?
«_Ced venit hora—prosseguiu lendo—et nunc est, quando veri adoratores
adorabund Patrem in spiritu et veritate. Nam et Pater tales quoe rit, qui
adorant eum, in spiritu et veritate oportet adorare._»
—Oh—disse o padre—eis aqui uma doutrina na qual nunca havia posto
a atenção. «Os verdadeiros adoradores adorarão o Pae em espirito e
verdade, porque Ele é Espirito e verdade; além disso, porque tambem o
Pae busca taes adoradores para que O adorem.» O Senhor, pois, deseja um
culto espiritual, porém certamente que o culto que nós, os catolicos,
Lhe rendemos tem muito pouco de espiritual, é antes externo e material.
Jámais pensei nisto.
O sacerdote continuou a missa, e concluiu-a, saindo da egreja sem falar a
ninguem.
As devotas que costumavam ouvir a missa que ele dizia sahiam, dizendo:
—Hoje sim, que o padre Francisco disse uma missa bem comprida!
Ao chegar a casa escreveu a seguinte carta:
Madrid... Embaixadores...
Meu caro Sr. Mateus N.
Apezar de ter resolvido não incomodal-o mais, sinto muito ter
de o fazer, pedindo-lhe que venha por esta sua casa quando lhe
seja possivel, tendo em conta que uma alma que sofre necessita
da sua presença.
Seu afectuosissimo,
_Francisco Maria dos Anjos_.
CAPITULO XXIII
Romano e evangelico
Passaram dias terriveis para o padre Francisco. Nestes dois dias comeu
pouco, dormiu menos e permaneceu encerrado em casa, sem sair á rua, nem
mesmo para dizer missa.
No fim destes dois dias bateram á porta. A creada veiu abrir, e anunciou
logo:
«O sr. Mateus.»
—Que entre! que entre!—disse o padre, que não poude conter-se, indo ele
mesmo á porta.—Bemvindo, bemvindo seja, senhor Mateus.
Saudaram-se mutuamente e entraram logo no escritorio.
Depois de tomarem assento, disse Mateus:
—Hontem á noite, ás onze e meia, recebi a sua carta, pois que estive numa
povoação prégando, e, como lhe disse, cheguei hontem a essa hora; por
isso apressei-me hoje em vir, e aqui me tem ás suas ordens.
—Meu amigo, é impossivel dizer-lhe as angustias que sofro. O meu espirito
luta, e mesmo de noite não posso descançar. No dia em que lhe escrevi,
não pude dizer a missa com a tranquilidade de espirito necessaria: á
noite, antes de me deitar, li a Biblia, e fui acometido de horriveis
pesadelos.
E o padre Francisco contou ao joven os sonhos que teve durante a noite, e
tudo o mais que lhe sucedeu na missa. Depois continuou:
—Que significa tudo isto? Porque sofre tanto a minha alma? Eu lhe peço,
sr. Mateus, que me diga franca e lealmente se o que crê o crê do coração;
se assim é, qual é a base da sua fé, porque difere das crenças da Egreja,
porque tem em pouca conta a missa... numa palavra, desejo que me diga
sinceramente se obedece á sua consciencia, ou se, tanto o senhor como
os da sua seita, estão filiados para, sob a capa do Evangelho, destruir
a Egreja catolica, e substituil-a pelo seu protestantismo. Fale-me com
toda a franqueza, na certeza de que ninguem saberá esta nossa conversa,
e em troca terá restituido a tranquilidade e o repouso á minha alma.
Finalmente, sr. Mateus, ou me demonstra clara e terminantemente as
erradas crenças que eu confesso, ou diz-me que os protestantes obedecem a
planos duvidosos, pois de contrario porque protestam?
O padre Francisco calou-se; o seu olhar estava fito no semblante do
evangelista, como se quizesse magnetisal-o. Passados alguns segundos,
disse Mateus:
—Senhor padre Francisco, tenho-o estado escutando com toda a seriedade
de animo, e compreendi que a sua alma necessitava dum tal desafogo.
Agora vou responder á primeira das suas perguntas, pois que, para
melhor inteligencia, vou dividil-as em dois grupos. Deseja saber qual
é o caracter do protestantismo. Bem; aqui, em nome do Senhor, a quem
desde que sou convertido jámais invoco em vão, lhe asseguro que os
protestantes, ou, antes, os cristãos evangelicos, não obedecem, em
materias religiosas, a planos duvidosos; que por nenhuma causa desejam
que o mundo se perca, que não odeiam os ministros, nem os fieis da Egreja
romana, antes pelo contrario teem compaixão deles, e, por ultimo, que os
protestantes desejam que o Evangelho, em toda a sua pureza, se estabeleça
em toda a superficie da terra, e que, conforme as palavras do Senhor, o
mundo seja cheio do conhecimento do Seu nome. Agora, a segunda parte da
minha resposta é que a unica regra de fé dos protestantes é a palavra de
Deus, conforme se acha contida nos livros do Antigo e Novo Testamentos;
que acatamos tudo quanto a Biblia diz; que nos submetemos aos seus
ensinos e rejeitamos pela base tudo aquilo que está em contradição com as
Escrituras ou que não achamos nelas estabelecido. Isto posto, e antes de
passarmos a outro ponto, devo perguntar-lhe se depois disto, e do mais
sobre o que vamos falar, o Senhor, pelos meus labios, lhe pozer á vista
os erros dos romanistas, promete não resistir por mais tempo ao Espirito,
antes pelo contrario obrar conforme ele lhe dite?
—Sim, senhor—respondeu o sacerdote.
—Pois bem, observe, á face do Evangelho, os erros da Egreja de que é
ministro. Mas para proceder com metodo, tratemos da questão pessoalmente,
quero dizer, como se V. fosse o fundador do romanismo e eu do
protestantismo.
—Bem, muito bem—disse o padre Francisco;—principiemos pela missa. Eu
digo, e a Egreja o confirma, que Jesus foi quem instituiu a missa, quando
instituiu o sacramento da Eucaristia.
—E eu—disse Mateus—digo que, antes de mais nada, precisamos de definir a
missa. Pergunto, pois: o que é a missa?
—A missa—respondeu o sacerdote—é um sacrificio, no qual o sacerdote
oferece a Deus, em sacrificio incruento, a Jesus Cristo, Filho de Deus.
Este sacrificio pode aplicar-se em beneficio dos defuntos cujas almas se
acham no purgatorio, por algumas faltas que cometeram neste mundo.
—Perfeitamente—replicou o evangelista.—É assim como o entende a Egreja
romana; no emtanto, eu digo-lhe que não ouvi jámais tantos erros em tão
poucas palavras. Em primeiro logar, como procederam os apostolos em
relação ao partir do pão? No cap. 2 dos Atos, ver. 42 a 46, leio que
eles, com as pessoas convertidas, participavam da comunhão entre si,
celebrando o partir do pão nas casas, e todos com alegria glorificavam a
Deus.
«Agora, pois, sabemos que os apostolos não se serviram desta especie de
obreia, que a egreja romana emprega na comunhão, senão que comiam o pão
como Jesus lhes ordenou; tambem bebiam vinho, não sómente os apostolos,
como todos quantos participavam da comunhão, coisa contraria ao que faz o
sacerdote romano, que priva do calix o povo, o que me dá direito de lhe
perguntar: Quem instituiu o sacramento, o sacerdote ou Cristo?
«O Senhor, falando do calix, diz: «BEBEI TODOS DELE». Quem é V. para
opôr-se á vontade do Fundador, que quiz que todos se aproveitassem do
Seu sangue? Em segundo logar, a missa não foi instituida por Cristo, nem
por Seus apostolos, porque um papa, Damaso, bispo de Roma, no ano de
368, instituiu o _confiteor_; Gelasio, no ano de 492, compoz os _Hinos_,
_Coletas_, _Responsorios_, _Graduaes_, _Prefacios_, e tambem acrescentou
o _Vere dignum et justum est_. Simaco, no ano de 512, decretou que nos
domingos e festas principaes dos martires se cantasse a _Gloria in
excelsis Deo_. Pelagio, pelo ano de 556, acrescentou a comemoração dos
defuntos. Gregorio I, pelo ano de 600, fez as _Antifonas_ e o _Introito_,
ordenando que a _kirie-eleyson_ se cantasse nove vezes, e do mesmo modo o
_Aleluia_. Além disso, tambem ordenou este papa que o _Pater Noster_ se
cantasse em alta voz, e sobre a hostia consagrada; tambem acrescentou ao
canon: _Dies que nostres in tua pace disponas_.
O padre Francisco estava verdadeiramente assombrado, o que deixava ver
claramente pelo gestos com que acompanhava as palavras de Mateus, que
continuou assim:
—Sergio, que morreu em 701, ordenou que o _Agnus Dei_ se cantasse tres
vezes antes de partir a hostia. Gregorio III acrescentou á secreta
missa: _Quorum solemnitas hodie in conspectu tuae magestates celebratur,
domine deus noster, in toto orbe terrarum_. Nicolau I acrescentou as
_sequencias_. Não me negará V. que Sixto I acrescentou o Sanctus, Sanctus
Dominus Deus Sabaoth. Inocencio I, pelo ano de 405, acrescentou o osculo
de paz. Leão I inventou o _Orate, frates_, o _Deo gratis_, e acrescentou
ao canon _Senatum sacrificium_, _immaculatam hostiam_, e o _Hanc igitur
oblationem_. E, depois de tudo isto, não vê V., meu caro amigo, que
Cristo não instituiu a missa, mas sim que esta foi obra em que muitos
colaboraram?
O padre continuou silencioso. Mateus prosseguiu:
—Existe outra prova maior do que todas, que demonstra claramente a
extraordinaria mentira de que Cristo instituiu a missa. O grande _Te
igitur clementissime Pater_ é uma parte da missa, na qual se faz menção
do papa, do bispo e do rei, o que é uma prova irrecusavel de que nem
instituiu a missa, nem tão pouco a disse, pois que no Seu tempo ainda não
havia papas nem bispos. No _Communicates_ faz-se menção da Virgem e dos
muitos santos que não existiram senão muitos anos depois dos apostolos,
como S. Cipriano, S. Lourenço, S. Crisostomo, S. Cosme, Damião e outros.
Ora isto prova a verdade da minha asserção. Agora convem observar a
subtileza romana. Não põem no canon a S. Pedro, porque, se o pozessem,
poderia dizer-se que aquele apostolo tinha procurado a nossa propria
gloria. Com isto convenço o mais pertinaz ou cego de que nem Cristo nem
nenhum dos apostolos disseram missa, nem conheceram o que isso era.
O sacerdote deu um suspiro e disse:
—Triste coisa é a gente encontrar-se em presença da fria verdade que
esmaga! Oh! que Deus perdôe a todos.
O evangelista continuou:
—Agora passemos ás Escrituras. V. apresenta-me como razão das suas
crenças a autoridade dos homens; e eu aceito-a para confundir essa
autoridade com a de Deus. A essencia, o fundamento, da missa, está
contida no artigo V. do Credo do Papa Pio IV, que diz assim: «Confesso,
eu mesmo, que na missa se oferece a Deus um verdadeiro, proprio e
propiciativo sacrificio pelos vivos e defuntos, e que no santissimo
sacramento da Eucaristia estão _verdadeira, real e substancialmente_
o corpo e o sangue, _juntamente_ com a alma e a divindade, de Nosso
Senhor Jesus Cristo, e que se verifica uma _conversão_ de toda a
substancia do vinho no Seu sangue, á qual conversão chama a Egreja Romana
TRANSUBSTANCIAÇÃO. Tambem confesso que sob qualquer das duas especies se
recebe Cristo total e completamente, e que são um verdadeiro sacramento.»
Este artigo, ensinado aos catolicos, obriga-os a crêr em varias coisas;
porém as duas principaes são: primeira, que na missa se oferece a Deus
um sacrificio de propiciação pelos vivos e pelos mortos; segunda, que
na missa, e sob as especies do pão e do vinho, está real, verdadeira e
substancialmente Cristo, com a Sua alma e divindade.
Depois disto, e dado o caso de que alguem ousasse levantar-se contra tal
impiedade, ou não podesse admitir uma tal crença, vem-nos o concilio de
Trento decretar em sua sessão 22, canon III, o seguinte:
«Se alguem disser que o sacrificio da missa é sómente um sacrificio
de louvor e acção de graças, ou uma mera comemoração do sacrificio
feito sobre a cruz, e que não é propiciatorio, ou que aproveita sómente
áquele que o recebe, e que não deve ser oferecido pelos _vivos_ ou pelos
_mortos_, por seus pecados, castigos, penitencias mal cumpridas e outras
necessidades, seja _anatema_.»
Todo o catolico romano está obrigado a calar-se e a acatar esta doutrina,
esteja ou não conforme com ela, sob pena de ser fulminado pelo anatema.
O ensino, pois, desta egreja é que, cada vez que um sacerdote celebra
missa, oferece a Deus um sacrificio proprio e propiciatorio pelos vivos
e pelos mortos. Quem é o sacrificado neste sacrificio? Cristo, o mesmo
Cristo do Golgota, o Jesus de Belem.
Quando principiámos esta discussão, disse-lhe que, tal como a queda e o
caido, assim tinha que ser a redenção e o Redentor. Agora—acrescentou,
tirando do bolso a Biblia—contra a doutrina de que o sacrificio de Cristo
possa repetir-se ou renovar-se, temos o cap. 6, vers. 9 e 10 da Epistola
de S. Paulo aos Romanos.
«_Sabendo que, tendo Cristo ressurgido dos mortos_, JÁ NÃO
MORRE, NEM A MORTE TERÁ SOBRE ELE MAIS DOMINIO. _Porque,
emquanto a Ele morrer pelo pecado, Ele morreu uma só vez; mas,
emquanto a viver, vive para Deus._»
Escute tambem o que dizem os textos seguintes:
«Cristo _uma vez_ morreu pelos nossos pecados; o Justo pelos
injustos, para nos oferecer a Deus (1.ª de Pedro 3:18).»
«E não entrou para se _oferecer muitas vezes_ a si mesmo,
como o Pontifice cada ano entra no santuario com o sangue
alheio; doutra maneira lhe seria necessario padecer muitas
vezes desde o principio do mundo, mas agora aparece uma só
vez na consumação dos seculos, para destruição do pecado,
oferecendo-se a si mesmo por vitima. Assim como está decretado
aos homens que morram uma vez, e que depois disto se siga o
juizo, assim tambem Cristo foi UMA SÓ VEZ imolado para esgotar
os pecados de muitos; e a segunda aparecerá sem pecado aos que
o esperam, para a salvação (Hebreus, 9:25—28).»
«Mas este, havendo oferecido _uma só_ hostia pelos pecados,
está _sentado para sempre_ á dextra de Deus, esperando o que
resta, até que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos
seus pés» (Hebreus, 10:12 e 13).
Estes textos do Novo Testamento, que acabo de ler, demonstram claramente
que a missa, ou, melhor, a pretenção de sacrificar a Cristo todos os
dias, e em muitos logares ao mesmo tempo, é contraria á vontade de
Deus, que quer um só sacrificio. Disto deduzo uma consequencia, e é a
seguinte—que os anatemas de Roma são contra Deus.
Agora é claro que para haver sacrificio é necessario haver vitima, e
desta aproveita-se a egreja romana por meio da sua transubstanciação,
porém tenha V. em conta «que sem derramamento de sangue se não faz
remissão». Ora, onde está na missa o derramamento de sangue? De que
instrumentos cortantes se serve o sacerdote nesse sacrificio? Quem
derrama ali o sangue? E que não digam os romanos que tudo ali se faz em
figura e memoria, porque em tal caso cae sobre eles o anatema tridentino;
é preciso crer, ainda que não se veja, que Cristo desce ás mãos do
sacerdote, e que este O oferece em sacrificio ao Eterno. Ah! Roma faz
muito bem em se servir, para representar a fé, duma matrona com os olhos
vendados.
Compreendo a razão por que Roma não quer o livre exame, pois que odeia a
luz! Pois bem, padre Francisco, o senhor é sacerdote romano, permita que
lhe diga que está nas trevas; não está em Deus, «porque Deus é luz.»
O joven calou-se, e o sacerdote disse:
—Ainda que a minha alma receba uma dulcissima consolação, ainda que
desejaria confessar-lhe tudo o que sinto, pode descançar. Porém, se não
quer, continue.
—Não estou cançado—respondeu o joven, acrescentando:—Além disso, desejo
terminar a questão que nos ocupa. Que Cristo, material ou corporalmente,
está na missa, que a Sua presença é verdadeira e real, no dizer da egreja
romana, não resta duvida, pois no canon I, sessão 13 do referido concilio
de Trento, diz-se: «Qualquer que negar que no sacramento da Eucaristia
se contém verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue de
Nosso Senhor Jesus Cristo, juntamente com Sua alma e divindade, e por
consequencia Cristo todo, mas afirmar que está ali em simbolo ou figura,
ou por Sua propria virtude, SEJA ANATEMA.
Torno, pois, não já a dizer que Roma anatematiza o Deus que ela adora,
senão que se opõe com seus decretos á vontade soberana de Deus. Como
pode estar Cristo no sacramento, ou na missa, duma maneira corporal? A
Escritura, em oposição a isto, diz:
«_Pelo que, se ressuscitastes em Cristo, buscae as coisas que são de lá
de cima, ONDE =Cristo= estará sentado á dextra de Deus_» (Col., 3:1).
«_Ao qual (Jesus) certamente é necessario que o céu receba até aos tempos
da restauração de todas as coisas, as quaes Deus falou por boca dos Seus
santos profetas, desde o principio do mundo._» (Atos, 3:21).
«_Mas Este (Jesus), havendo oferecido uma só hostia pelos pecados, ESTÁ
SENTADO PARA SEMPRE á dextra de Deus._» (Hebreus, 10: 12).
Como, pois, se atrevem os senhores a sustentar que Cristo desce a este
mundo, quando é preciso que esteja á dextra de Deus até que se cumpram
todas as profecias? Como podem sacrificar ou renovar o sacrificio
d’Aquele que com _um só_ sacrificio fez perfeitos os que santificou?
Porém vou fazer-lhe uma pergunta, á qual, se responder satisfatoriamente,
prometo crer, não digo na transubstanciação, mas em tudo o que de mim
exija o _infalivel_ romano. A pergunta é esta: Que Cristo é que Roma
sacrifica—o glorificado dos céus ou o terreno do Golgota? O primeiro,
atendendo ao que diz S. Paulo, «ha corpos celestes e corpos terrestres»,
é celestial, ou seja o Cristo glorificado; a esse tal é impossivel
sacrificar, porque já está glorificado, e portanto, além da Sua natureza,
que a isso se opõe, seria necessario fazer baixar um ser dum logar
de gloria a um mundo de padecimentos e a sofrer dôres. Se me dizem
que sacrificam o corpo de Cristo como está cá no mundo antes de ser
glorificado, digo que não pode ser, porque não existe, e porque o Cristo
que o sacerdote sacrifica não corresponde, nem em peso nem em tamanho,
ao Cristo que nasceu em Betlehem. Que Cristo é glorificado, e que o Seu
corpo é um corpo celestial, nós o sabemos, por aquilo que está escrito na
primeira Epistola de S. Paulo aos Corintios, cap. 15: 45-48, e ainda mais
pela leitura de todo o capitulo em que se diz que os que habitam nos céus
teem corpos celestiaes.
Depois duma breve pausa, o joven continuou:
—Se alguma crença eu tivesse ácerca da transubstanciação, bastar-me-hia,
para abandonal-a, ter lido no missal romano as regras sobre os defeitos
da missa, que V. conhecerá perfeitamente. Ha uma pagina de que eu
me recordo muito bem, e que diz: «Se uma hostia consagrada chegar a
desaparecer, por qualquer acidente, pelo vento, ou por milagre, ou fôr
devorada por um animal, consagre-se então outra». Como é possivel que
Aquele a quem os crentes obedecem, esteja exposto a ser levado pelo
vento? Como dizer que um milagre pode fazer desaparecer outro milagre?
Como dizer que Cristo está exposto a ser devorado pelos ratos, que se
dão perfeitamente nos retabulos carunchosos das egrejas? Como sei que
não ignora o que deverá fazer o sacerdote se uma mosca ou uma aranha
cair no vinho consagrado, que deve ser bebido, se da parte do sacerdote
não houver nauseas, não lho repetirei, porém, sim, direi alguma coisa da
famosa regra que diz: «Se no inverno se GELAR O SANGUE no calix, deve
envolver-se este em panos quentes; se isto não fôr bastante, coloque-se
dentro de agua quente perto do altar, até que se DERRETA O SANGUE, tendo
o cuidado de que não entre agua no calix.»
Pode haver, meu amigo, maior cumulo de impiedades? O sangue de Cristo
gelado! Então que Cristo é que sacrificam?