—Meu amigo—disse o sacerdote, profundamente comovido,—desde que me

ordenei notei algumas coisas que não compreendia, porém em que cri, pela

obediencia passiva, a que somos obrigados. Hoje tenho ouvido algumas que

julgo serem verdadeiras, porém desejo ficar só para me ajoelhar deante de

Deus, e pedir-Lhe que mostre o que devo fazer. Tudo o que neste momento

podesse dizer-lhe não seria ditado por uma consciencia livre, pois

que me encontro sob a influencia dos seus argumentos. Todavia, eu lhe

prometo obrar conscienciosamente, e, para que tenha uma prova disso, vou

fazer-lhe uma promessa e um pedido.

O joven prestou toda a sua atenção, e o sacerdote prosseguiu:

—A promessa é esta: não tornarei a dizer missa até que Deus me convença

de que é um erro tudo quanto o senhor acaba de me dizer; o pedido é que

me deixe a sua Biblia para que eu possa lêl-a e confrontal-a com a minha.

Uma coisa mais: se o Senhor me disser que a egreja da qual sou sacerdote

não é de Cristo, renunciarei ás ordens e me separarei dela.

O joven e o padre Francisco combinaram o dia em que se veriam outra vez,

e, depois duma breve oração que o evangelista fez, este saiu da casa do

sacerdote, pedindo a Deus a sua conversão.

CAPITULO XXIV

As duas cartas

Os nossos leitores certamente que ainda não perderam de memoria a

personagem principal da nossa historia, o mestre Julião.

Este, bem como o seu amigo, o mestre João, continuam em M., e, se bem que

amiudadas vezes escrevam ás suas respectivas familias, nada temos dito a

esse respeito, porque tambem nada digno de especial menção tem ocorrido.

Alguns dias depois da entrevista do padre Francisco com o evangelista,

achava-se Dôres costurando a um canto da loja, quando um aprendiz se

dirigiu a ela e lhe disse:

—Mestra, está aqui uma carta.

Dôres ergueu de repente a cabeça e tomou a carta das mãos do rapaz; com a

rapidez do relampago, abriu-a, e, vindo sentar-se numa cadeira, começou a

ler a carta, que era concebida nestes termos:

Povoação de M...

«Querida esposa. Que, quando esta chegue ás tuas mãos gozes

saude em companhia do nosso filho, são os desejos de teu esposo.

«João e eu passamos sem novidade.

«Recebi a tua ultima, e, inteirado do que me dizes, agradeço-te

as noticias que me dás de tudo, porém especialmente ácerca dos

negocios do nosso estabelecimento; não esperava outra coisa do

sr. Mateus, que é um bom cristão.

«Saberás que já concluimos aqui as obras (o que falta agora

para fazer é pouco) e podemos ir a Madrid passar alguns dias

para comprar materiaes e descançarmos, emquanto os arquitetos

principiam outros trabalhos. Depois d’ámanha, pois, terei o

prazer de ver-te e de beijar o nosso querido Paulo.

«Dou graças ao Senhor, porque aqui ficam alguns que já conhecem

o Evangelho, os quaes se reunem todos os domingos e passam uma

hora e meia lendo a palavra da vida.

«Alegro-me tambem com o que me participas ácerca das visitas de

Mateus a casa do padre Francisco, e peço ao Senhor que converta

esse infeliz sacerdote.

«O sr. João diz-me que tenhas cuidado de observar, todas

as vezes que Mateus sobe as escadas do padre, se torna a

descel-as, pois que diz que não tem confiança nos catolicos,

porém eu digo que Deus é maior do que todos e que Ele guardará

Seus filhos de todo o mal.

«Hontem recebemos a ultima importancia do trabalho, e, como

já te disse, paguei ha tempos ao sr. João o dinheiro que nos

emprestou, e ainda temos uma economia dalgumas libras. Para

concluir, te direi que de saude vou bem. Pois até o sr. João

diz que estou muito gordo, o que não admira, porque quando aqui

cheguei quasi cahia de fome.

«Pobre esposa, quanto tens sofrido! Porém, repara como o bom

Deus nos tem abençoado!

«Sem mais, dá lembranças aos oficiaes, á familia do nosso

amigo, beijos ao menino, e tu recebe o amor de teu esposo.

_Julião._»

Dôres deu graças a Deus pela carta que tinha recebido, e depois saiu

precipitadamente pela porta que dava para o corredor, em direcção á casa

da familia de João.

Dôres levava a carta na mão, e, ao abrir a porta, encontrou-se com

Antonia, que, com outro papel na mão, vinha para sua casa.

—Carta!—exclamaram ao mesmo tempo as duas jovens assim que se viram.

—De meu marido—disse Dôres.

—De meu pae—respondeu Antonia.

—Pois vamos para tua casa—respondeu Dôres—ali as leremos; não é bom que

tua mãe fique só.

—Como queiras—respondeu Antonia.

Ambas entraram na carpinteria, onde estava a senhora Brigida chorando de

alegria.

Antonia começou a ler.

«Povoação de A...

Querida esposa e filha. Muito me alegrarei que ao receber esta

gozeis a mais perfeita saude, que é o que eu mais desejo; eu

estou bom, para o que queiraes mandar.

«Brigida e Antonia, estou certissimo de que ides receber um

alegrão, quando receberdes estas curtas letras.

«Sim, certamente que vos alegrareis.

«Sabereis que depois d’ámanhã chegamos a casa, pois que por

agora concluimos aqui o trabalho.

«Vou dar-vos um abraço, forte, muito forte; sois vós as duas

pessoas a quem mais quero neste mundo.

«Tambem quero muito a Dôres e a seu filho, sem falar em seu

marido, que é o melhor homem que debaixo do céu existe. Está

sempre a prégar e com a Biblia na mão. Eu tenho-lhe dito

muitas vezes:

«Oh homem, não vê que se riem de si nas suas proprias

barbas?—Porém ele tem mais paciencia do que Job, que, segundo

creio, foi o homem mais paciente do mundo.

«A mim faz-me sofrer muito, porque quando vejo que ha alguem

que se ri das nossas crenças não sei que faria; porém Julião

sempre me está a repreender, dizendo: «Senhor João, Jesus diz:

Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração:—veja que

os discipulos de Jesus não hão de ser homens colericos: veja

que, porque não somos do mundo, por isso nos aborrece o mundo.»

Com estas e outras razões faz de mim tudo quanto quer.

«Outra coisa: O padre Francisco ainda vos molesta por causa

dos cultos? Que vontade tenho de ir, para o confundir a ele e

á gente! Todas as manhãs oramos por ele, Julião e eu; porém,

se Deus não faz um milagre, deixará esse senhor de ser padre

romano quando eu deixar de ser carpinteiro. Aquele é o seu

oficio, como este é o meu; emfim, eu, para não ocupar-me dele,

não quero outra coisa mais senão que nos deixe em paz.

«Não vos incomodo mais; saudades a Dôres, beijos a Paulo,

lembranças aos oficiaes da casa, aos aprendizes e a todos os

que perguntem por mim. Recebei saudades de Julião.

«E agora disponde, no que vos aprouver, deste que vos estima e

deseja ver,

_João_.»

—Vês?—disse Brigida.—Nada nos diz meu marido das obras nem dos ganhos;

sómente tem na imaginação o padre, de quem não gosta, pelo mal que a

todos nos tem feito.

—A mim—exclamou Antonia—pouco me importam as noticias com respeito a

interesses; o principal é saber que teem saude e que veem breve.

—Claro—respondeu Brigida,—porém repito-vos que o seu eterno pesadelo é o

padre.

—Meu pae—insistiu Antonia—tem um coração nobre. Homem rude, sabe amar

com toda a sua alma, e odeia menos do que parece. Estou certa de que, se

ámanhã o padre Francisco se visse em alguma dificuldade e meu pae podesse

tiral-o dela, fal-o-hia com grande prazer, pois que é este o seu costume.

—Amigas—disse Dôres, interrompendo a conversa,—recebemos boas noticias, e

por isso devemos dar graças a Deus.

Em seguida todas se pozeram de joelhos em oração a Deus, rogando-Lhe por

aqueles dois seres que tão queridos eram ás tres mulheres.

No aposento em que oravam estava o altar com Santo Antonio; porém nem uma

palavra houve para o santo.

CAPITULO XXV

O regresso

No dia marcado nas cartas por Julião e o sr. João, chegaram ambos a

Madrid.

Suas familias foram esperal-os á estação do caminho de ferro, e agora

todos juntos se acham na loja de Julião, conversando, e entre outras

pessoas se encontra o joven Mateus, pois terminado o culto daquela noite,

como soubesse que o seu amigo Julião chegava, foi tambem esperal-o.

Depois das primeiras saudações, e no momento em que os achamos sentados

conversando em casa de Julião, Mateus falava assim:

—Pois sim, meus amigos, durante a vossa ausencia aconteceram muito boas

coisas nesta casa.

—Pelo que diz—perguntou Julião,—o culto continuou a fazer-se sem

interrupção?

—Sim, senhor.

—E continúa a vir gente?

—Já se vê que sim.

—E diga-me—interrompeu o sr. João,—o padre tem-os incomodado?

—Ah!—exclamou o evangelista.—Pobre padre Francisco! Neste momento a sua

alma passa por uma luta terrivel;—a luta entre o bem e o mal, entre a

verdade e o erro, entre o seguir as verdades do Evangelho e as praticas

romanas. Tal é a sua situação; o pobre sacerdote luta, porém creio que

essa luta lhe será proveitosa.

—Sim, sim, pensem no padre—disse o carpinteiro—e verão o que lhes sucede.

—Não sei—disse Mateus,—porém parece-me que o padre Francisco deixará os

erros de Roma.

—Pois senhor—insistiu o sr. João,—muito desejarei que assim suceda,

porém...

—Nada, senhores—interrompeu Julião,—a obra não é nossa, a obra é de Deus.

Ele tem que obrar; nós, com as nossas duvidas e com a nossa falta de fé,

fazemos o que fizeram as multidões no tempo de Jesus:—impossibilital-O,

com as nossas incredulidades, de que obre maravilhas.

Depois dalgumas palavras mais, Mateus manifestou intenção de se retirar

para que os dois recem-chegados descançassem. Julião propoz que se

tivesse um pequeno culto de acção de graças ao Senhor, pelo regresso dos

dois ao seio de suas familias, e, feito isto, cada qual retirou-se para

sua casa.

No dia seguinte, assim que circulou a noticia da chegada de Julião, quasi

todos os visinhos foram visital-o e apertar-lhe a mão.

As mulheres não cessavam de falar sobre a vinda de Julião, e tanto assim

que muito depressa chegou a noticia aos ouvidos do padre Francisco, que

permanecia em sua casa, sem sair dela e sem querer receber ninguem.

O pobre sacerdote lia sem cessar a Biblia, orava continuamente, e a sua

alma ia-se abrindo cada vez mais para recolher nela a verdade.

O padre Francisco havia envelhecido dez anos. Estava palido, com os olhos

encovados, e tanto assim que a sua governante, assustada, lhe tinha

proposto, por vezes, que se chamasse um medico, ao que ele se havia

recusado abertamente.

No momento em que soube da chegada do vidraceiro, um raio de alegria

iluminou o seu palido semblante, e imediatamente mandou chamar Julião, o

qual, recebido o recado, dirigiu-se a casa do sacerdote, emquanto Dôres

foi dar a noticia ao sr. João e á sua familia.

—Ah!—exclamou o carpinteiro—já começamos de novo? Pois eu asseguro-vos

que, se acaso trama alguma coisa contra vocês, lhes mostrarei o que vale

este velho.

Entretanto, o padre Francisco, frente a frente de Julião, contava-lhe os

seus temores, as suas duvidas, descobria-lhe, emfim, o estado de sua alma.

—Pois para mim—disse-lhe o vidraceiro depois de o ouvir—a coisa é clara e

a solução desta questão é simples; V. antes não conhecia a verdade, pelo

que procedia julgando servir a Deus; hoje a verdade lhe foi revelada por

meio da Palavra da Vida; agora, pois, não tem mais do que dois caminhos a

seguir: ou ter a fé dos anjos, ou ter a fé do demonio.

—Não compreendo—disse o padre.

—Pois creio que me explico bem—disse Julião.—Os demonios crêem em Deus,

e, comtudo, tremem; os anjos crêem em Deus e se deleitam n’Ele. Se V. viu

a luz, Cristo, e não a segue, por esta unica razão está no caminho da

perdição; e devo advertil-o de que o Evangelho já lhe foi anunciado, e

Jesus já Se lhe manifestou. Se teme mais aquilo que dirão de si, se teme

a anciedade, se receia perder a sua posição aqui no mundo, se não teme a

ira de Deus para com aqueles que rejeitam a Jesus, resiste ao Espirito

Santo, e é este o mais terrivel pecado que o homem pode cometer.

Julião calou-se, e o sacerdote, que se achava numa grande agitação

nervosa, passados alguns instantes, disse:

—No caso de que eu me decidisse pelo Evangelho, como V. o compreende, que

deveria fazer?

—A primeira coisa era crêr no Senhor Jesus, como o unico Salvador e

Intercessor entre Deus e os homens; a segunda coisa era abandonar

completamente as praticas romanistas, resignar todos os cargos que

exerce no seio da sua Egreja e fazer a sua profissão publica da sua fé

na presença duma congregação de cristãos evangelicos, dedicando-se em

seguida a prégar a verdade, com o mesmo afinco e zelo com que antes

prégava o erro. Finalmente, se quer ver o que deve fazer, se é convertido

ao Senhor, veja e estude o que fez S. Paulo quando deixou de ser Saulo.

—Sim—exclamou o padre Francisco—é preciso que eu prefira o bem a tudo, a

verdade ao erro. Porém o mais dificil para mim, o que mais me tortura, é

a idéa «do que dirão de mim os meus colegas.»

—Por muito que digam, esteja certo de que nenhum deles vae responder por

V. no dia do juizo. Se tem medo _do que dirão_, do mundo, tema antes _o

que dirá_, do sangue de Jesus, tema o que dirá aquele manso Cordeiro,

quando Ele se levantar para lançar-lhe em rosto o desprezo que tem do

Seu sacrificio já feito. «_Eu_—disse o Senhor—_eu mesmo vos consolarei_.

_Quem és tu para teres medo dum homem mortal, e do filho do homem, que

assim como o feno se secará? E te esqueceste do Senhor, teu opifice, que

estendeu os céus e fundou a terra, e todo o dia tremeste continuadamente

á vista do furor daquele que te atribulava e se tinha disposto para te

perder; onde está agora o furor do que te atribulava?_» (Isaias, 51: 12 e

13) Desgraçado daquele que pelo mundo abandona a Deus.

—Não falemos mais; creio em meu coração que devo fazer o que diz, porém

ha alguma coisa que mo impede; dentro de poucos dias terá noticias minhas.

Depois duma breve oração, Julião despediu-se do padre Francisco,

profundamente convencido de que Deus trabalhava no coração do sacerdote.

Quando chegou a sua casa, estava lá o mestre João, que ao vêl-o disse:

—Aposto em que o padre mais uma vez o enganou!

—Senhor João—respondeu Julião,—oremos ao Senhor pelas almas que trabalham

por abandonarem o mal, e ás quaes Satanaz persegue e põe mil obstaculos

para as impedir de se acercarem do Senhor. A conversão dum sacerdote

romano é para Satanaz um verdadeiro desespero.

CAPITULO XXVI

O padre Francisco

Já haviam decorrido oito dias desde que Julião tinha regressado a Madrid,

e quatro desde que ele havia falado com o padre Francisco.

Julião tornou a encarregar-se do culto que se celebrava em casa.

Uma noite, depois de prégar, anunciou aos concorrentes que na noite

seguinte um novo prégador desejava dirigir-lhes a palavra, e taes coisas

disse e por tal modo encareceu o assunto, chamando a concorrencia dos

assistentes, e especialmente dos visinhos, que na noite de que vamos

falar a sala do culto, corredor e mais dependencias, donde se podia

ouvir, estavam atulhadas de gente.

No semblante de todos via-se desenhados os desejos mais veementes de

conhecer o novo prégador.

Chegou, por fim, a hora de principiar o culto, e a curiosidade ia

satisfazer-se.

Julião ocupou a cadeira que ficava pelo lado detraz da meza, invocou o

auxilio do Senhor, cantou-se como de costume um hino, fez-se oração, e em

seguida Julião leu o cap. 55 de Isaias.

Em logar de tomar o texto para prégar, Julião afastou-se para um dos

lados da meza, quando acabou de ler. Neste momento abriu-se uma porta de

vidraça, que ficava pelo lado de traz dele, e entrou um individuo, que

veiu ocupar o logar do prégador.

Este individuo, vestido de preto, fez com que todos os concorrentes

exclamassem, possuidos de profunda admiração:

—Oh! O padre Francisco!!!

Houve uns momentos de assombro geral, durante os quaes foram sentar-se a

ambos os lados da meza Julião e o joven evangelista Mateus.

Passados aqueles momentos, o padre Francisco disse:

—«Sim, amigos meus, é o padre Francisco, que, tendo ouvido na palavra de

Deus o convite a «todos os sedentos para virem ás aguas», cheio de sêde

acode pressuroso a esse manancial de aguas divinas; o padre Francisco,

que ouviu ainda a tempo o aviso de Deus: o padre Francisco, emfim, que,

impelido hoje por uma força desconhecida, por uma voz que lhe grita:

«para deante» vem para fazer aqui, e depois em outra parte, uma confissão

dos seus erros, e uma profissão de fé. Todos sabeis quem eu sou, todos me

conheceis: e por isso mesmo a vós outros, antes do que a ninguem, venho

dizer-vos que creio no milagre portentoso do Santo, porque dos meus olhos

tambem cairam as escamas do erro.

«Eu era cego, guia de cegos; e ai! sem o pensar, a quantos precipitei eu

no barranco!

«Nescio de mim que, tendo o Evangelho em minhas mãos, jámais estudei as

verdades nele contidas, fiando-me sómente na interpretação rotineira que

me haviam ensinado nas cadeiras de teologia que cursei.

«Porém, graças a Deus, vim ao reconhecimento da verdade que ha em Cristo

Jesus, e hoje abandono o erro que está na Egreja de Roma. De hoje em

deante serei cristão de Cristo, porém não cristão do Papa; serei prégador

do Evangelho, porém não serei sacerdote; perderei com isso a minha

reputação, o meu credito, tudo; porém não me importa; ganhei a Cristo; é

quanto basta; e a todos quantos julguem ver no meu procedimento um fim

interesseiro, emprazo-os para deante do Tribunal Supremo, naquele dia em

que «todo o oculto será manifesto.»

«Sim, separo-me dos erros de Roma, porque aprendi no Evangelho qual é o

caminho onde se serve a Deus, e o meio que existe para entrar no céu.

Se me separo da Egreja de Roma, é porque esta egreja dá ao homem um sem

numero de intercessores, ao passo que a Palavra de Deus me ensina «que ha

um Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.»

«Separo-me da Egreja de Roma, porque ela diz que o homem se salva por

suas boas obras, fazendo deste modo que ele tome parte em sua salvação, e

isto em menoscabo de Cristo, o unico Salvador, porque está escrito ácerca

dele: «_Em nenhum outro ha salvação, porque do céu abaixo nenhum outro

nome foi dado aos homens pelo qual possamos ser salvos_», e em menoscabo

da Palavra, que diz:

_«Pela graça sois salvos pela fé, e isto não de vós, pois é dom de

Deus.»_ Separo-me da Egreja Romana, porque nela tudo é material e nada

espiritual, fazendo um vil negocio das coisas mais santas; pois que do

mesmo modo vende tanto os sacramentos, como as bulas, como as missas,

como as indulgencias, etc., etc., sem ter em conta que foi dito por

Jesus: «_De graça recebestes, de graça dae._»

«Não posso por mais tempo permanecer no seio da Egreja Romana, que conta

entre os seus dogmas o da _Transubstanciação_. Meus amigos, estudei

essa questão ha poucos dias, e estou intimamente convencido de que

Jesus e Seus apostolos nada disseram ácerca da missa, nem tão pouco a

instituiram, nem, e ainda muito menos, a disseram.

«Separo-me da Egreja Romana, porque vi que ela alterou as praticas

estabelecidas por Jesus e os apostolos, aumentando, tirando ou

modificando sacramentos, como vou passar a expôr: O baptismo que a

egreja ministra não é o que ministraram nem João, nem Paulo, nem nenhum

dos apostolos. Em primeiro logar, faz o seguinte: exorcismo do sal, que o

sacerdote põe nos labios da creança; o exorcismo da creança, soprando-lhe

sobre o rosto, por tres vezes; outro exorcismo de sal; o presbitero põe

saliva no nariz e nos ouvidos do recem-nascido, e tambem o unge nos

hombros e no peito, com o oleo dos catecumenos. Como já disse, procurei

com todo o cuidado na Palavra de Deus, para ver se ela autorizava taes

praticas, e não achei sequer a menor sombra destas superstições. Filipe,

Paulo e Pedro, e todos quantos administraram o baptismo, sómente exigiam

a fé em Cristo, sem usarem exorcismos, nem velas, nem unturas. Baptizavam

em qualquer ponto onde havia agua, tendo presente o mandamento de Cristo:

«Ide e ensinae, baptizando em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo.»

Depois do baptismo cobram-se 24 reales, o que indica que por esta quantia

Roma introduz na familia cristã um ser qualquer.

«Protesto contra a confissão romana, e aceito a Biblia. Pela primeira, o

homem se confessa ao homem, a quem não ofendeu, e esquece o verdadeiro

ofendido; o penitente envergonha-se dum homem e não se envergonha de

Deus. Eu fui confessor, e conheço os segredos do confessionario, pelo que

vos digo que fujaes dele. O homem deve confessar-se a Deus.

«Declaro que adiro ao Evangelho em toda a sua pureza; que o prohibir

aos homens a leitura da Palavra de Deus é uma pratica que tem por fim

levar os homens a que não vejam o erro em que vivem e o abandonem, com

menoscabo da autoridade de Deus, que ordena em muitas passagens da sua

Palavra que esta seja lida, sabida e estudada por todos os homens. Roma,

porém, prohibe ao povo a leitura das Escrituras, e manhosamente procede

do mesmo modo para com os sacerdotes, para que tanto uns como outros não

vejam as adulterações e corruções que essa egreja tem feito, alterando

umas coisas e introduzindo outras.

«Confesso tambem que a Egreja de Roma comete uma grande maldade,

alterando o mais respeitavel de todos os sacramentos; falo da sagrada

Eucaristia. A egreja romana, querendo corrigir o que Jesus fez, prohibe

o calix aos fieis no ato da comunhão, ao passo que o Senhor diz: «_Bebei

todos dele_» referindo-se, não sómente aos discipulos, mas a quantos

depois deles haviam de comemorar «_a morte do Senhor até que venha_.»

«Finalmente, protesto contra tudo o que Roma faz, por duas razões: ou

porque tudo está viciado, ou porque está em contradição manifesta com as

práticas apostolicas e com a vontade de Deus.

«Confesso que, emquanto fui sacerdote (pois desde hoje deixo de o ser),

procedi impelido pelo zelo e fanatismo, de que estava possuido, e porque

cria fazer um serviço a Deus! Quanto me enganei! Deus me perdôe!

«Confesso que procurei fazer muito mal a este amigo—e apontava para

Julião—em seus interesses; confesso que, a solicitações minhas, o capelão

duma familia nobre influiu sobre certa dama, de quem era confessor, e

Julião perdeu, não sómente o trabalho de certa casa, como tambem as

economias que havia empregado em materiaes para aquele trabalho; d’ahi

principiou a decadencia da casa de Julião, e por isso teve ele que

fechar a sua loja, e aqui cometi outro pecado maior. Quando se achava

na miseria, fui oferecer-lhe recursos em troca da sua consciencia.

Confesso que por minha parte empreguei todos os esforços para impedir a

celebração dos cultos aqui nesta casa, valendo-me de quantos meios bons

ou maus estavam ao meu alcance; confesso que chamei este joven—disse ele,

apontando para Mateus—com má intenção, e confesso, por fim, que fui tão

grande pecador que sómente pela maravilhosa misericordia de Deus estou

convencido de que Ele me perdoará, pois que lho peço em nome de Jesus

Cristo, e vós todos a quem ofendi me perdoareis egualmente, porque sois

cristãos e porque vol-o peço pelas entranhas misericordiosas de Cristo.»

Havia nas palavras do padre Francisco tal convicção e tal acento de

verdade que, ao ouvil-as, algumas vozes se ouviram, dizendo:

—Sim, sim, está perdoado.

E a todas estas vozes sobressaiu uma, que disse:

—Bem, bem, senhor padre Francisco, V. é um bom sacerdote, liberal,

honrado e honesto; perdôo-lhe tudo e estimo-o.

Foi mestre João quem disse isto.

CONCLUSÃO

Não se pode descrever a sensação que a profissão do ex-sacerdote romano

fez no auditorio. Profundamente impressionado, não pôde prosseguir no

discurso, pelo que Mateus, levantando-se e fazendo sinal de silencio,

disse:

—Irmãos e amigos. Acabamos de escutar as palavras de quem, tendo militado

sob as bandeiras do erro, abriu os olhos á luz, e hoje acode pressuroso a

refugiar-se em Cristo.

«Fez uma confissão de todos os seus atos assim como da sua fé, pelo que

nós devemos recebel-o. O Senhor não desprezou nenhum dos que iam ter com

Ele, o Senhor não desprezou o ex-padre romano; nós, portanto, não devemos

desprezal-o, mas sim amal-o. Agora oremos ao Senhor.

Depois que fizeram oração e cantaram um hino, todos os ouvintes foram

apertar a mão ao novo convertido, dirigindo-lhe as palavras mais

afectuosas. Ele, por sua parte, respondia a todos carinhosamente, e por

ultimo os ouvintes retiraram-se.

No dia seguinte, o padre Francisco devolveu ao seu superior as suas

licenças e a renuncia do seu titulo de sacerdote, e nunca mais, apezar de

quanto fizeram os seus antigos companheiros para o convencerem, tornou a

dizer missa; cresceu-lhe o cabelo, que cobriu a corôa, e dentro de poucos

mezes ninguem conhecia aquele que pouco tempo antes tinha sido padre

catolico.

Julião e a Biblia · 第 11 / 12 段