romana consiste em não prégar. Se em vez de fanatizar com reliquias e
outras coisas, se ensinasse ao povo a palavra de Deus, e o que disse
Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguem vem ao Pae senão
por mim», e estas outras: «Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo»,
o povo não estaria tão cego e não fiaria a sua salvação de reliquias
ridiculas e falsas, e que só servem para nos apartar de Jesus e
conduzir-nos ao inferno.
Umas pancadas dadas na porta vieram interromper a conversação.
—Entre—disse o padre Francisco.
A creada entrou na sala, anunciando que a comida estava na meza.
—Vamos, sr. Mateus, vamos para a meza, e emquanto comemos teremos ocasião
de conversar.
E o padre Francisco, tomando o joven pelo braço, encaminhou-se para a
sala de jantar.
CAPITULO XXI
A conferencia
Ás tres e meia horas da tarde, o padre Francisco e o seu hospede estavam
sentados á meza. Quando já tinham comido algumas colheres de sopa, o
padre Francisco, numa voz meliflua, disse ao joven:
—Amigo Mateus, desejei vivamente falar comsigo, movido da melhor boa
vontade, e peço-lhe que ponha de parte as nossas diferenças religiosas,
para que conversemos como se fossemos alheios ás questões que vamos
tratar.
O joven manifestou com a cabeça um sinal de assentimento, e o padre
Francisco, continuando o seu discurso, disse:
—Sempre me chamou a atenção a propaganda tão tenaz que os protestantes
fazem em Hespanha, sem embargo de que pouco podem adeantar. Vocês
espalham livros, pagam a missionarios, pagam o aluguer das casas onde
prégam, as quaes, apezar de estarem sempre vasias, custam bom dinheiro...
Quem paga para tudo isto e qual o fim que teem em vista?
—Eu, por minha vez, devia perguntar-lhe: Quem enche as chamadas arcas
de S. Pedro? Donde saem essas somas que vão engrossar os tesouros do
pontifice italiano?
—Os bons catolicos é que...
—Desculpe-me, senhor padre Francisco, já sei qual a resposta; essas somas
saem, em sua grande maioria, da nobreza, que, em logar de socorrer as
necessidades do seu proprio paiz, manda dinheiro para uma coisa de que
não quero ocupar-me.
«Pois bem: existem fóra daqui homens que crêem em Cristo; estes homens
sabem que sómente nesse nome é que podemos ser salvos; compreendem que
uma parte do que o Senhor lhes dá devem empregal-a no serviço do mesmo
Deus, e em vez de darem a um homem para que o empregue á sua vontade,
sustentando soldados e outras coisas, enviam aos paizes onde o Evangelho
é ignorado missionarios que préguem o nome de Jesus, custeiam a despeza
dos livros que falem d’Ele, e sobretudo dedicam somas enormes á impressão
da Biblia na lingua de cada povo.
—O maior de todos os males!—exclamou o padre Francisco.—Isso é o peor de
tudo.
—Como?—disse o joven, surpreendido.—Diz que a vulgarisação da Palavra de
Deus entre o povo é a coisa peor da propaganda evangelica?!...
—Sim, senhor—afirmou o padre Francisco, acrescentando:—Supondo mesmo que
a tradução está feita com a melhor boa fé, quem se lembra de pôr nas mãos
dum povo ignorante um livro tão profundo como a Biblia? Eu mesmo não me
atrevo a estudar a Biblia, nunca a leio, com medo de extraviar-me. A
Santa Biblia foi sómente escrita para homens doutos e instruidos, e não
se deve mostrar ao povo, e muito menos deixal-a em suas mãos, pois que
isso serviria tão sómente para o perder.
—Não tem razão no que diz—disse Mateus,—e no que afirma vae de encontro
ao que está escrito, pois recordo-me perfeitamente de que o Salmista diz:
«_Tocha resplandecente para os meus pés é a tua palavra, e luz para o
meu caminho..._» (Sal. 118: 105).
—Pode dizer o que quizer, porém não ha provas suficientes que autorizem o
povo a que leia a Biblia.
—Como assim, se a palavra de Deus está cheia dessas autorizações? A
Biblia era lida publicamente na sinagoga. Moisés recebeu ordem do
Senhor para a ensinar ás pessoas adultas, ás creanças, e até mesmo aos
estrangeiros que habitavam entre o povo de Israel.
—Porém observe, Mateus, que então era outra coisa, pois ainda não tinha
vindo Jesus Cristo, e era preciso recorrer á profecia; mas hoje, que
Cristo já veiu, de modo nenhum devemos recorrer ao Antigo Testamento,
para nos inspirarmos nas antigas praticas.
—Se bem que não me conformo com essa opinião—replicou o joven,—no emtanto
recorramos, pelo menos, ao Evangelho, e...
—Isso mesmo fazemos nós—disse o padre Francisco,—pois que todos os dias
na egreja se lê o Evangelho e alguns trechos das Epistolas.
—Sim? E diga-me em que lingua são lidos o Evangelho e esses trechos das
Epistolas.
—Em latim, por ser o idioma universal da egreja.
—Como diz que o latim é a lingua universal da egreja, quando a egreja é
composta de italianos, hespanhoes, portuguezes, francezes, inglezes, e de
outras nações, e cada qual fala a sua lingua particular? Quem fala hoje
em dia latim? Á excepção do clero, creio que ninguem. Então é preciso
falar a cada um na sua propria lingua.
«Que significa o facto de, quando os apostolos receberam o Espirito
Santo, começarem a falar diversas linguas? Significa certamente que
deviam contar as maravilhas de Deus a cada povo, na sua propria lingua,
para que ele podesse entender. Os apostolos falavam diversas linguas,
depois de terem recebido o Espirito Santo, e, segundo alguns crêem, sem
saberem eles mesmos que falavam lingua estranha: mas seja como fôr, se o
Senhor obrou tal milagre é porque convem que o Evangelho seja prégado ao
povo na sua propria lingua, para que ele o possa entender. Assim S. Paulo
diz, na sua primeira Epistola aos Corintios, cap. 14: 18 e 19: «_Graças
dou ao meu Deus, que falo todas as linguas que vós falaes; mas eu antes
quero falar na egreja cinco palavras da minha inteligencia, para instruir
tambem os outros, do que dez mil palavras em lingua estranha._»
O padre Francisco ficou silencioso, sem saber que responder, vencido
pelos argumentos do joven. Porém acrescentou logo:
—Sim, tudo o que diz parece verdadeiro, porém eis ahi o que resulta de
ler a Biblia sem os comentarios da egreja.
—Pois eu digo a V. que, lendo a Biblia com as notas do padre Scio, se
encontram os mais solidos argumentos em favor da minha asserção.
—Bem—disse o padre Francisco,—acabemos de comer, e, visto que o senhor
assim o deseja, iremos consultar a Biblia.
—Se lhe parece—disse Mateus,—discutiremos se as Sagradas Escrituras devem
ou não ser lidas pelo povo.
—Sim, discutamos—respondeu o padre,—porém, antes disso, permita que
lhe apresente os argumentos que tenho a meu favor, pois que, se eles o
convencerem, pouparemos palavras inuteis. O primeiro argumento que posso
apresentar é a tradição—coisa esta muito digna de se ter em conta. Porque
é que nenhum bispo tem permitido até hoje que a Biblia circule livremente
nas mãos do povo?... O segundo é que, ao instituir Cristo a familia
sacerdotal, como pode dizer-se em hipotese, claro está que foi só para
que os sacerdotes, e sómente estes, sejam depositarios e interpretes
da Biblia... Depois... Depois... Os concilios!... Essas assembleias de
homens doutissimos! Poços de sabedoria humana e divina!... Os papas!...
Essa cadeia não interrompida de homens cheios do Espirito Santo, que vem
comunicando-se duns para os outros desde o primeiro que teve o primado!
Todos estes são concordes em que a Biblia deve ser prohibida para aqueles
que, alterando a sua significação ou dando-lhe uma interpretação forçada,
podem extraviar as almas, precipitando-as no inferno. Mateus, seja
franco; o senhor mesmo não experimentou duvidas ácerca do dogma cristão
ocasionadas pela leitura da Biblia sem notas? Responda-me, porém faça-o
com franqueza, dizendo o que realmente sente.
—Vou responder-lhe com a franqueza que deseja. Principio pela sua ultima
pergunta. Não, senhor; jámais experimentei duvidas ácerca do dogma
cristão quando principiei a ler a Biblia; o que, sim, senti desde logo
que possui o sagrado livro foi uma sensação de temor e respeito, que
não posso explicar. Ao ler as manifestações do amor de Deus, fiquei
assombrado; depois, com as Epistolas, aprendi uma porção não pequena
de doutrina, e por ultimo o livro dos _Atos dos Apostolos_ me ensinou
a evangelizar. Eis aqui do que me serviu a Biblia. Hoje em dia, que me
acho familiarizado com a sua leitura, esquadrinho o Antigo Testamento,
estudo as profecias, a minha alma canta lendo os Salmos, sofre com Job e
goza com José, aprendendo quaes são os juizos de Deus, que Se serve de
tantos meios para fazer bem ao homem. Sim, padre Francisco, a leitura
da Biblia enche o espirito de santas emoções, demonstra a enormidade do
pecado, tornando-o odioso á nossa alma, e nos faz ver antecipadamente
os inefaveis gozos que a misericordia dum Deus de amor nos prepara nos
logares que hoje nos são desconhecidos.
Depois dalguns momentos de silencio, durante os quaes o padre Francisco
se mostrou muito pensativo, o joven evangelista prosseguiu:
—Agora passemos a outra coisa, da qual falarei pouco, pois que quero
falar com a Biblia. Diz V. que nunca na antiguidade houve quem lesse a
Biblia, querendo, sem duvida, dar a entender que até ao seculo XVI não
houve quem se ocupasse na tradução do sagrado texto em lingua vulgar.
«Contra esta asserção fala o bispo Ulfilas, que viveu no seculo IV, o
qual, quando os godos invadiram a Hespanha, havia já traduzido para o
gotico as Sagradas Escrituras; levanta-se Recesvinto, que viveu no ano
de 650-672, rei dos godos, que entre as suas virtudes contava um desejo
insaciavel de conhecer os misterios das Escrituras, no que respeitava á
sua salvação; levanta-se um João, bispo de Sevilha, que no seculo III
traduziu a Biblia para o arabe, afim de que os arabes que tinham invadido
a Hespanha podessem lêl-a e instruir-se nas verdades cristãs; D. Jaime
I, que reinou nos anos de 1213 a 1276, e que tão pouco está conforme com
V., padre do seculo XIX, pois, emquanto que V. crê que a interpretação da
Biblia pertence aos sacerdotes, aquele rei, dizem as cronicas, possuia
um conhecimento profundo das Sagradas Escrituras, as quaes explicava e
prégava como o mais consumado mestre de teologia, em qualquer cidade onde
se achasse. Este rei não sómente prégou ao povo, senão que no concilio
de Lyon, e perante o Papa Gregorio X e mais prelados, tomou para texto
as palavras de Isaias: «Levanta-te; resplandece, etc., etc.,» as quaes
desenvolveu com notavel admiração de todos. Outro hespanhol, Luiz de
Gusmão, mestre de Calatrava, mandou traduzir a Biblia, no ano de 1432,
ao sabio judeu Moisés, e, como este opozesse algumas dificuldades,
conseguiu o nobre mestre, á força de dinheiro e ameaças, convencer o
judeu; a tradução fez-se, e numa nota do Moisés lê-se: «Até hoje tenho
gasto mil dobrões, desde que se principiou, até ao estado em que a
vêdes.» Devo advertir-lhe, sr. padre Francisco, que os mil dobrões de
então correspondem a umas 2500 libras esterlinas de hoje. Agora julga
ainda que não houve reis, bispos e nobres que lessem a palavra de Deus?
Como se atrevem os senhores a afirmar coisas que não conhecem nem sabem?
Porém, vamos ao texto.
—Vejamos; eu acho na palavra de Deus o mandamento de ensinar a Biblia ás
creanças, e aqui, no livro chamado o Deuteronomio, cap. 6, vers. 6-9,
leio o seguinte:
E as palavras que eu hoje te intimo estarão gravadas no teu
coração; e as referirás a teus filhos, e as meditarás assentado
em tua casa, e andando pelo caminho, ao deitar-te para dormir
e ao levantar-te; e as atarás como sinal na tua mão; e elas
estarão e se moverão deante dos teus olhos, e as escreverás no
limiar e nas portas da tua casa.
—A primeira coisa que tenho que opôr a isso—respondeu o padre Francisco—é
que esse texto pode estar alterado, ou não ser exato, pois o senhor diz
que esse livro é uma Biblia completa, o que não pode ser, pois que tão
extensa materia não pode estar contida em tão pequeno volume; e, visto
que não está anotado, não podemos nós interpretal-o.
—Muito bem—replicou o joven;—nesse caso faça favor de trazer a Biblia.
O padre Francisco dirigiu-se a um armario, e tirou de lá tres grandes
volumes.
Procurou entre eles, e por fim disse:
—Aqui está o texto que você cita; vou lêl-o.
O padre leu:
E estas palavras que eu hoje te intimo estarão em teu coração,
e as contarás a teus filhos, e as meditarás sentado em tua
casa, e andando pelo caminho, ao deitar-te para dormir, e ao
levantar-te: e as atarás como sinal na tua mão, e elas estarão
e se moverão deante dos teus olhos, e as escreverás no limiar e
portas da tua casa.
—Diga-me que diferença ha entre o que está na minha Biblia e o que está
na sua?—perguntou Mateus.
—Realmente nenhuma, respondeu o padre; porém aqui ha algumas notas, e
estou certo de que elas discordam da opinião dos senhores. Vejamos. E
onde diz: «E as contarás a teus filhos» ha uma nota que explica este
texto, dizendo:
«_Instruirás nelas a teus filhos, pois a isto se reduz a perfeição do
homem._»
O padre Francisco ficou sem saber o que dizer, e Mateus, aproveitando
aqueles momentos, disse:
—Pois, longe de discordar da nossa opinião, é esse mesmo o nosso sentir.
Já vê, pois, que estamos de perfeito acordo.
—Mas diga-me—disse o padre Francisco,—não tem nenhuma nota na sua Biblia
sobre esse texto?
—Não; nem precisa é; na Biblia não queremos opiniões de homens.
Neste ponto houve alguns momentos de silencio, depois dos quaes o padre
Francisco, como iluminado por uma ideia, disse:
—Porém, Mateus, não estamos nós divagando? Não lhe dizia eu que esse
livro extravia os ignorantes? Pense, e veja bem que estamos tratando a
questão num terreno falso. Nos tempos de Moisés devia-se ler e meditar
nestas coisas; porém veiu Jesus Cristo e encerrou a Antiga Aliança; de
modo que estes mandamentos são inuteis, porque não nos pertencem a nós.
—Certamente—respondeu Mateus.—Vamos agora ao Novo Testamento. No
Evangelho de S. João, cap. 5, ver. 39, lemos:
«_Examinae as Escrituras, pois julgaes ter nelas a vida eterna, e elas
mesmas são as que dão testemunho de mim._»
—Aqui, como vê,—acrescentou o joven—é Cristo que fala.
—Sim—replicou o padre,—porém fala ácerca dos judeus que não queriam
reconhecel-O como Messias. Este texto nada tem que ver comnosco, os
cristãos.
—Eu não creio assim, mas recorreremos a outros. Na segunda Epistola de S.
Paulo a Timoteo, cap. 3, ver. 14 a 17, lemos:
«Mas _tu persevera_ nas coisas que aprendeste, e que te
foram confiadas, sabendo de quem as aprendeste, e que _desde
a infancia foste educado nas Sagradas Letras, que te PODEM
INSTRUIR para_ a salvação, pela fé que é em Cristo Jesus. Toda
a Escritura divinamente inspirada é util para ensinar, para
repreender, para corrigir, para instruir na justiça, afim de
que o homem de Deus seja perfeito, ESTANDO PREPARADO PARA TODA
A OBRA BOA.»
—Peço-lhe, sr. padre Francisco, que examine este texto na sua Biblia e
veja que instruções dá S. Paulo a um seu discipulo que está á frente duma
egreja.
O padre Francisco quasi tinha medo de pegar na Biblia; por fim, depois de
muito instado pelo evangelista, tomou o livro, percorreu o texto, leu-o
para si e disse:
—Sim, o texto é egual ao que leu.
E, ocultando o rosto entre as mãos, calou-se; parecia que o seu espirito
estava como que envolvido em terriveis lutas.
Depois dum breve espaço de tempo, o sacerdote ergueu a cabeça e disse ao
joven:
—Meu amigo, se soubesse o que me vinha a acontecer, isto é, que havia de
ter este desassocego de espirito que agora sinto, jámais teriamos falado
a tal respeito; finalmente, deixemos de discutir, e separemo-nos para não
nos vermos mais.
—Separarmo-nos!—exclamou, comovido, o joven—Separarmo-nos! De modo
nenhum, sr. padre Francisco; agora mais do que nunca desejo que a nossa
amizade principie. Sim, sr. padre Francisco; estudaremos juntos a palavra
de Deus. Lendo a Biblia, conhecerá Cristo, tal como Ele é; lendo a
Biblia, beberá no manancial da agua pura, que refrescará a sua alma,
apagando-lhe o fogo das obras vãs em que hoje se engolfa. Nos Atos dos
Apostolos achará qual foi a constituição e o regimen da Egreja primitiva,
e verá como a egreja em que milita, apezar de se chamar apostolica, não
conserva nada dos apostolos. Ali verá que Pedro não teve primado algum.
Pelas Escrituras jámais poderá provar que aquele apostolo estivesse
em Roma. Ali, finalmente, encontrará que nem os apostolos nem aqueles
que com eles se juntavam renderam culto á Virgem, nem a nenhuma outra
creatura, nem tinham confessionarios nem confissão feita ao ouvido do
sacerdote.
—Pois, sr. Mateus—disse o padre Francisco depois duma breve pausa,—aquilo
que diz parece ser verdade, porém falaremos noutra ocasião; deixe-me
meditar e pensar, porque creio que... emfim... não me declaro vencido.
—Bem, não quero incomodál-o mais—acrescentou o joven,—porém ámanhã,
quando vá dizer a sua missa, recorde-se de que no Novo Testamento está
escrito que Jesus, com UM SÓ SACRIFICIO, fez perfeitos aqueles que
santificou; assim que, se foi com um só sacrificio, aquele que o senhor
celebre é completamente inutil. Agora, rogo-lhe em nome de Jesus que leia
a Biblia; ela lhe fará conhecer o erro em que está; e não quizera sair
daqui sem que me désse a sua palavra de ler os capitulos 5, 6, 7, 8 e 9
da Epistola aos Hebreus.
Depois de cinco horas de discussão, o joven saiu daquela casa e, ao
despedir-se, disse ao sacerdote;
—Não tornaremos a ver-nos?
—Não sei—respondeu o padre,—veremos; se Deus quizer, sim; senão cada qual
seguirá o seu caminho.
Ambos, depois de se apertarem a mão, se separaram.
CAPITULO XXII
Temor, inquietação e duvidas
Quando o sacerdote ficou só, fechou-se no seu quarto, depois de dar ordem
á creada de que por ninguem nem por coisa nenhuma o fosse incomodar.
O padre Francisco sentou-se á mesa do escritorio, sobre o qual poz o
candieiro e a Biblia.
Depois apoiou os cotovelos na mesa, ocultou o rosto entre as mãos, e
nesta posição esteve muito tempo.
Durante este intervalo só se ouvia o oscilar da pendula do relogio, que
vinha perturbar o profundo silencio que ali reinava.
Por fim, o padre Francisco, mudando de posição, disse:
—Ah! Que revolta confusão de idéas surgem no meu espirito... Sim, sinto
uma sêde insaciavel de saber a verdade do assunto... Esse joven é mais
sabio do que eu julgava, seus argumentos são de peso, e suas palavras
teem tal expressão de verdade que, se não me convenceram, pelo menos
fizeram penetrar a duvida no meu espirito.
O sacerdote calou-se, e depois duma breve pausa continuou comsigo:
—As citações que fez, e que lemos nesse livro—dizia, apontando para a
Biblia,—tão gravadas ficaram na minha mente que jámais as esquecerei...
Oh! receio ter cometido um pecado, lendo este livro! Porém... Porventura
não li eu as notas e não vi que estão conformes com a explicação e até
mesmo com a aplicação que delas fez o joven?... E, no fim de tudo, os
Evangelhos e as Epistolas que nós lemos á missa... Ah! a missa! Parece
que tão pouco acredita nela! Não, pois neste ponto não lhe concedo nada;
eu sei que Jesus instituiu a missa quando instituiu o sacramento da
Eucaristia, e sei que os apostolos tambem disseram missa...
Novamente o padre Francisco se calou, porém ao cabo dalguns momentos
continuou:
—Emfim, vou ver o que é a verdade... Lerei os capitulos que me disse da
Epistola aos Hebreus... Certamente que lerei as notas; e assim não haverá
receio de que o meu espirito se extravie.
O padre Francisco abriu a Biblia, procurou a Epistola e principiou a ler
o capitulo 4, depois de ter recitado uma breve oração em latim.
Diversas foram as impressões que o padre Francisco recebeu durante a
leitura; impressionavam-no sobremaneira os versiculos 14 e 15 do cap. 4;
o 20 do cap. 6; porém sobretudo surpreendeu-o o que estava escrito nos
versiculos 24 e 28 do cap. 7, e não poude passar mais adiante.
Ali, viu clara e terminantemente a falsidade de que a missa seja o
sacrificio de Cristo.
No versiculo 21 do citado cap. 7, leu ácerca de Cristo:
«_Que não tem necessidade, como os outros sacerdotes, de oferecer todos
os dias sacrificios, primeiramente pelos seus pecados, depois pelos do
povo, porque isto o fez uma vez, oferecendo-Se a Si mesmo._»
Recorreu o sacerdote ás notas, desejoso de que elas lhe fizessem
compreender outra coisa distinta daquilo que ele compreendia, isto é, que
depois do sacrificio de Cristo teria havido alguma razão poderosa para se
celebrar a missa. Ancioso, cravou os olhos no livro e leu:
«Ofereceu-Se a Si mesmo, não por pecados proprios, como
impiamente disse Socino, pois que o Apostolo lhe chama Santo,
Inocente, Imaculado, senão que satisfez ao Pae por nós. O
ter-Se _oferecido uma vez_ não exclue os sacrificios da _Egreja
Cristã_, porque o mesmo que se efectuou cruento sobre a cruz
está expresso no incruento dos nossos altares». (Conc. Trid.
Sessão 22, cap. 11).
O padre Francisco deu um murro em cima da mesa e exclamou:
—Claro que a missa é uma representação do sacrificio de Cristo, porém
esta nota do Concilio de Trento está abertamente em oposição com aquilo
que nós ensinamos, isto é, que na missa sacrificamos a Cristo real e
verdadeiramente, pois que temos em nossas mãos um Cristo real, material e
verdadeiro. Não posso compreender isto, porém creio que o sacrificio de
Cristo não se repete mais... Oh! que está dando entrada no meu coração a
heresia!... Nada, nada... porém, sim, a olhos vistos se pode observar que
existe uma contradição entre os nossos ensinos e as nossas praticas...
O sacerdote, cançado por uma luta tão prolongada, decidiu ir refugiar-se
no leito, esperando encontrar repouso no sono.
Fez as suas orações do costume, porém podemos afirmar que nessa noite
os seus labios mais do que o seu espirito tomaram parte nos exercicios
piedosos, pois que o espirito, esse achava-se bastante perturbado.
Todavia, contra as suas esperanças, passou aquela noite preza de
pezadelos que o não deixaram dormir.
Impossivel nos seria descrever os sinaes de terror que se desenhavam
no rosto do padre Francisco ao levantar-se do leito, ao romper do dia.
Tremulo e agitado, principiou a vestir-se com uma precipitação desusada,
e exclamou:
—Oh Santissima Virgem do Pilar! Tu és boa, tu és pura, tu não quererás
que eu, que te amo até ao ponto de ter-te aqui encerrada nesta arca
santa, para que nem o proprio ar te dê; tu, oh flôr de Nazaré, oh estrela
da manhã, não quererás que eu me perca... Não sou eu sacerdote? Não te
amo mais do que a minha vida?... Não daria até o meu proprio sangue por
ti? Porque, pois, não me ouves?... Acaso já me não amas a mim? Em que te
ofendi? Oh Virgem Santissima, não te mostres indiferente quando eu te
oro; pelo contrario, concede-me o que te peço!... Agora vou dizer missa;
a ti a ofereço, excelsa Senhora; prepara-me tu, e perdoa-me todos os meus
pecados, que na tua presença confesso.
E o sacerdote, cruzando as mãos sobre o peito, inclinou a cabeça e disse
em voz baixa:
—Eu, pecador, me confesso a Deus[4] e á bemaventurada sempre Virgem
Maria, e ao bemaventurado S. Miguel Arcanjo, e ao bemaventurado S.
João Baptista, e aos santos Apostolos S. Pedro e S. Paulo e a todos os
Santos... que pequei gravemente por pensamentos, palavras e obras, por
minha culpa... por minha culpa... por minha gravissima culpa. Portanto,
rogo á bemaventurada Virgem, ao bemaventurado S. Miguel Arcanjo, ao
bemaventurado S. João-Baptista, e aos santos Apostolos S. Pedro e S.
Paulo, e a todos os Santos... que rogueis por mim a Deus, Nosso Senhor...
Amen... Jesus, Maria, José, perdoae-me o grave pecado de ler o que não
devia ter lido, e falado com quem não devia falar, que me fez sonhar
aquilo que eu não queria. Senhor, Maria, Santos que habitaes as mansões
celestes. Sumo Pontifice, Arcebispo da diocese, perdoae-me... _Amen._
O sacerdote, depois de se ter persignado tres vezes, levantou-se, e,
fechando o armario, dirigiu-se ao seu quarto; uma vez ali, poz a capa e,
tomando o gorro, saiu.
Emquanto ia a caminho da egreja, novos pensamentos se lhe cruzaram pelo
espirito, inquietando-o muitissimo.
Via em sua imaginação a Virgem do Pilar, deante da qual se tinha
ajoelhado, tão resplandecente, tão formosa... então, por uma
transformação, viu-a negra, sem aquela expressão de bondade no rosto que
sempre tinha, tal qual como quando estava nas mãos do artista; depois,
viu-a no cadinho derretida, e por ultimo acabou por perguntar a si mesmo:
«Ter-me-ha ouvido esse pedaço de prata?»
Como nesta luta estava interessada a cabeça e o coração, tornava-se ainda
mais amarga, porque o que aquela aprovava este rejeitava, e vice-versa;
assim que, depois da pergunta anterior, veiu-lhe ao espirito o seguinte
pensamento: «Porém, se eu me prostrei deante daquela imagem, não foi para
a adorar a ela, mas sim aquilo que representa».