—«Louva, ó alma minha, ao Senhor; eu louvarei ao Senhor durante a

minha vida; cantarei salmos ao meu Deus por quanto tempo eu viver. Não

queiras confiar nos principes, nem nos filhos dos homens, em quem não

ha salvação. Sairá o seu espirito e tornará á sua terra; naquele dia

perecerão todos os pensamentos deles. Ditoso aquele de quem é protector o

Deus de Jacob e cuja esperança é no Senhor seu Deus, o qual fez o céu e

a terra, o mar e todas as coisas que neles ha; o que guarda verdade para

sempre, faz justiça aos que sofrem injuria; dá sustento aos famintos.

O Senhor desata os que estão em grilhões; o Senhor alumia os cegos; o

Senhor levanta os oprimidos; o Senhor ama os justos; o Senhor guarda

os peregrinos, ampara o orfão e a viuva, e destruirá os caminhos dos

pecadores. O Senhor reinará pelos séculos; o teu Deus, oh Sião, reinará

por todas as gerações».

(Sal., 145). Senhor, graças Te damos por tudo o que tens feito para nós,

em nome de Jesus. _Amen._»

Depois duma curta pausa, Dôres disse:

—Senhor, aumenta a nossa fé e perdôa os nossos momentos de duvida, por

amor de Jesus. _Amen._»

Quando se levantaram de orar, Julião correu a dar noticias de João a

Brigida e a Antonia, e em seguida foi ao banco receber a letra. Uma hora

depois Julião e Dôres almoçavam, e duas horas mais tarde já Julião tinha

falado com o senhorio, ficando outra vez senhor da loja, pelo que foi

tirado o papel que anunciava que a loja se alugava.

O padre Francisco notou aquilo, e disse comsigo, esfregando as mãos de

alegria:

—Olá! Então já está alugada a loja! Agora, se o vidraceiro quizer

estabelecer-se, terá que ir procurar outra. Sinto com isto um grande

prazer. Oh! como estou alegre!...

CAPITULO XVIII

Pobre padre Francisco

Depois dum dia em que a Providencia de Deus havia tão misericordiosamente

tirado a Julião dos apuros em que se achava, este, com o coração inundado

de gozo, preparou-se para prégar na casa que o visinho, por um impulso

espontaneo, lhe havia cedido para lá falar de Deus.

O padre Francisco não podia levar a bem estas coisas. Sagaz e manhoso,

media a grandes passos o soalho do seu gabinete, vestido de habitos

talares, com um barrete de veludo preto na cabeça, e o cigarro na boca;

passeava ali, meditando no modo de exterminar Julião e com ele a _má

semente_, quando umas ligeiras pancadas soaram na porta.

—Entre—disse o padre Francisco.

A creada foi dizer-lhe que a sr.ª Joana desejava vêl-o.

—Que entre—disse o padre.

Momentos depois entrou uma mulher, que saudou o padre, beijando-lhe a

mão, e dizendo-lhe:

—Disseram-me que vossa senhoria deseja falar-me, e por isso venho aqui

para saber o que deseja.

—Os meus agradecimentos. Diga-me: hontem á noite foi ouvir o vidraceiro?

—Sim, senhor; agora já não fala no corredor, mas sim em casa do sr.

Hipolito. Á noite foi lá muita gente; e olhe que disse coisas muito boas;

falou de Deus, das tentações de Jesus, quando o diabo Lhe disse que

convertesse as pedras em pães, e quando o Senhor lhe disse que a Deus

sómente se deve adorar... A este respeito disse que era um grande pecado

a gente pôr-se de joelhos deante dos santos... finalmente, falou muito

bem...

—Basta, basta—exclamou o padre Francisco.—Senhora Joana, aquilo que

Julião disse não foi mais do que uma serie não interrompida de erros,

condenados pela egreja, pelo papa, pelos concilios e por todos aqueles

que teem sido reconhecidos por santos. Aposto que não falou bem dos

padres?

—Nem bem, nem mal.

—Aposto que não falou bem da egreja romana?

—Não disse nem uma palavra.

—Não importa, esse silencio é um pecado. Disse alguma coisa de Maria

santissima?

—Não, senhor.

—Já se vê; pois se os protestantes não crêem nela!... Todos esses

propagadores de nova especie não são senão pessoas que teem por oficio

enganar os outros, a troco duma certa quantia que recebem para isso.

—E com que interesse?...

—Oh!—interrompeu o padre Francisco—Vocemecê não pode compreender o

interesse que teem, nem o fim que teem em vista. Se não fossem os

sacerdotes, já teria desaparecido a religião dos nossos paes! Para socego

da sua alma, eu peço-lhe que não vá ouvir essas más doutrinas.

—Muito bem, senhor padre Francisco—respondeu a mulher, farei tudo o que

mande.

—Porém é mister, em troca, ajudar a egreja.

—Sim, senhor, sim, eu a ajudarei.

—Bem; pois pode fazer com que nessa casa não se préguem mais heresias, e

eu a recompensarei.

—Como?

—A habitação onde mora fica pelo lado de cima do quarto onde préga esse

doido. Agora o que podemos fazer é arranjarmos gente para fazer muito

barulho, correr dum lado para o outro, assobiar, arrastar as cadeiras,

etc. etc. Deste modo, como o ruido os distrairá, não poderão entender-se,

e acabará por não ir ninguem á reunião. Eu darei duas pesetas por cada

noite em que haja reunião.

—Será servido, senhor padre Francisco, não pelo interesse do dinheiro,

mas sim para agradar a Deus, e esta mesma noite começaremos a tarefa;

asseguro-lhe que esta noite não se entenderão. Porém o meu quarto é muito

pequeno, e não alcança senão uma parte da sala onde eles se reunem: seria

bom dizer áquele que vive no quarto do lado para que faça o mesmo.

—Bem; arranje tudo e faça o que bem lhe pareça, comtanto que consigamos o

fim desejado: interromper as reuniões.

—Bem; assim se fará.

O padre Francisco deu tres pesetas á mulher, que hipocritamente não

queria recebel-as; porém por fim aceitou-as e saiu.

Poucos momentos depois de ficar só, o padre Francisco tornou a encetar o

monologo interrompido pela chegada da sr.ª Joana.

—Deste modo—dizia comsigo—não poderão durar muito as reuniões, porém o

caso é que todos falam bem do que dizem essas pessoas. Não, pouco tempo

lhes durará o passatempo; agora já é outra coisa: se o meio de fazer

barulho não surtir efeito, vou ter com o senhorio, ofereço-lhe cinco

pesetas mais do que Julião lhe dá, e com certeza que o despede.

De repente olhou para o relogio de parede e exclamou:

—Com a bréca! Dez horas menos vinte, e ás dez tenho de dizer missa!...

Vamos!

Em seguida poz a capa, e, depois de recitar algumas orações em latim

deante dum crucifixo de marfim, saiu.

—Terão já aberto a loja que pertenceu a Julião?—pensava ele ao descer a

escada;—sendo assim, entro e direi ao novo inquilino que deite bastante

agua benta em todos os cantos para afugentar o diabo.

Nisto chegou á rua, e efectivamente a loja do vidraceiro estava aberta,

se bem que nas estantes não houvesse nada e os vidros estivessem sujos.

Evidentemente o novo inquilino estava-se mudando.

O padre Francisco foi pôr por obra o seu pensamento; chegou á porta da

vidraça, levantou o fecho, abriu, e um grito saiu de sua boca. No meio da

loja estava um homem dando ordens para a colocação dos objetos, e esse

homem era... era... Julião.

A surpreza não permitiu que o padre Francisco dissesse uma palavra.

Voltou a fechar a porta, e, palido e convulso, entrou outra vez no portal

para perguntar ao porteiro como é que Julião estava na loja, donde dias

antes havia sido despedido.

—Porque voltou de novo a alugal-a—respondeu o porteiro.

Tal abalo produziu esta noticia no sacerdote que, cambaleando, como se

estivesse ébrio, subiu com custo os degraus da escada, recolheu-se em

casa, e naquele dia não disse missa.

CAPITULO XIX

Evangelicos e romanos

Ao aceitar o dinheiro que tão generosamente lhe mandou o seu visinho

João, Julião aceitou tambem as condições das obras que ele lhe ofereceu

para tomar de empreitada. Por este motivo foi forçado a sair de Madrid,

mas, como não queria que se suspendessem as reuniões, encarregou delas

um joven evangelista, o qual continuou prégando durante o tempo em que

Julião esteve ausente.

O joven a quem Julião deu o encargo de continuar a obra por ele

principiada fêl-o apezar de quantos obstaculos lhe pozeram para o

dissuadir disso o padre Francisco e os seus.

Entretanto, os costumes duma grande parte dos visinhos iam-se reformando

notavelmente, graças á poderosa influencia do Evangelho.

—Bons dias, senhora Dôres—diziam á esposa do nosso amigo.

—Bons dias—respondeu ela—; então como vamos?

—Muito bem. Diga: haverá esta noite culto?

—Sim, senhora; esta noite, como todas as outras.

—Alegro-me muito com isso, porque não quero que meu marido perca um.

Não sabe que desde que ouviu o Evangelho está mudado? Não sabe que já no

domingo não foi jogar á bola?... Nem se embebedou. Saiu pela manhã, ás

dez e meia; e eu desde logo voltei-me para Deus para pedir-Lhe: «Senhor,

permiti que o meu José não se embebede hoje». Á meia hora depois do

meio-dia disse-me: «Francisca, prepara-te e prepara o pequeno, que vamos

dar um passeio». Acredite-me, Dôres, que julguei que estivesse sonhando.

Quando fui para a alcova para vestir-me, pulava de alegria.—Imagine, ha

doze anos que estamos casados e ha onze que não sahia com ele. Vesti-me,

arranjei o pequeno, e quando chegámos á porta da rua, sabendo o seu

costume de, logo que sahia, se dirigir para o jogo da bola, encaminhei-me

para esse lado, mas ele disse-me: «Vamos por este lado, pois que odeio

o sitio onde se joga a bola: quantas bofetadas te dei por ir ali!».

Interroguei-o ácerca do caso, e disse-me que desde uma noite em que o

seu marido leu e falou sobre um texto que diz, «Não vos enganeis, porque

nem os que se dão a bebedices entrarão no reino de Deus», essas palavras

gravaram-se-lhe de tal modo no coração, produzindo-lhe tal impressão, que

desde então até agora não tornou a embebedar-se.

—Muito me alegro pelo que me diz ácerca da mudança de seu marido—disse

Dôres—; pelo que deve dar graças a Deus, não a meu marido; pois só Deus é

o que pode mudar os corações, e Ele é quem mudou o coração de seu marido.

—Diga-me, senhora Dôres: sendo tão bom aquilo que o seu marido diz,

porque é que os padres lhe fazem tanta guerra?

—Pois a razão é clara: emquanto eles, por exemplo, dizem que ha um

purgatorio, meu marido e todos os que crêem na Biblia, que é a Palavra

de Deus, negam a existencia de tal logar; porque na Palavra nada se diz

a tal respeito. Emquanto os padres, dizendo que são os sucessores dos

apostolos, asseguram que praticam o que aqueles praticaram, nós, os

cristãos evangelicos, lhes perguntamos com a Biblia na mão em que logar

disse missa algum dos apostolos, ou lhes pedimos que nos mostrem as

indulgencias concedidas por S. Pedro ou S. Paulo.

—Tem toda a razão. Até depois.

Entretanto, os visinhos partidarios do catolicismo, ou, antes, aqueles

que, sendo indiferentes a toda a denominação religiosa, eram cegas

maquinas do padre Francisco, faziam os maiores esforços, já que não

podiam impedir as reuniões, ao menos para estorvar a tranquilidade que

deve reinar nelas.

Para que os nossos leitores possam formar uma idéa do que costumam fazer

os inimigos do Evangelho, referiremos o que se passou um domingo á noite

em casa do sr. Hipolito, emquanto se celebrava o culto.

Como dissemos, era domingo.

Ás oito horas da noite, a habitação do sr. Hipolito estava cheia de

gente. Num dos extremos da sala ha uma mesa, e por detraz dela está um

joven de vinte a vinte e cinco anos de edade, vestido modestamente: fala

sobre o que está escrito no Evangelho de S. Mateus, cap. 7:16. _«Pelos

seus frutos os conhecereis»._

Emquanto ele se esforçava por demonstrar aos seus ouvintes como cada um

mesmo podia conhecer-se e dar a conhecer aos outros se era cristão, o

teto da sala parecia vir abaixo.

Pancadas no soalho, gargalhadas, cantigas em altas vozes, ruido de

objetos que rodavam em direcções opostas, um barulho similhante ao duma

habitação de loucos, e não dum aposento onde vivessem creaturas racionaes.

Além do incomodo que isto causava, distraindo aqueles que escutavam, não

pode dizer-se o mal que isto causava ao prégador, distraindo-o tambem e

obrigando-o a levantar a voz e a não descançar um momento afim de manter

a atenção do auditorio.

—Sim—dizia ele,—pelos frutos bons ou maus de cada um, isto é, por meio

das nossas obras na vida diaria, é que conhecemos e damos a conhecer se

somos cristãos...

Neste momento uns fragmentos de gesso cairam do teto, emquanto que se

sentia um ruido infernal.

Alguns dos que estavam escutando sairam e dirigiram-se á habitação do

visinho de cima para pedir-lhes que fizessem menos barulho.

Penetremos nós ali para ver em que se ocupam aqueles servos de Roma.

Em uma pequena habitação acham-se umas vinte pessoas de ambos os sexos,

que ao som duma guitarra desafinada saltam, pateiam, correm, vão e veem.

Sobre uma mesa suja e imunda está um grande jarro com vinho.

A desordem que reinava era medonha. Ao principiar a festa, a dona da casa

havia-lhes dito que o objeto da reunião era impedir, por meio do barulho,

os cultos protestantes que se celebravam no quarto que ficava pelo lado

de baixo. Para melhor os animar, disse-lhes um sem numero de desatinos

que devemos calar, e por fim declarou-lhes que o padre Francisco lhes

pagava aquele jarro de vinho, pão e queijo, para passarem agradavelmente

aqueles momentos.

Quando souberam que o fim com que ali se reuniam era para dar escandalo,

fizeram-no com a maior alegria.

Cantavam as mais grosseiras canções, misturadas com freneticos _morras_

dados aos protestantes; e não é de estranhar que fizessem tudo aquilo em

nome da religião, visto que era um sacerdote quem pagava a despeza, e

tudo era feito por inspiração sua.

As pessoas que se dirigiam a este foco de infamia chegaram por fim. Ao

aparecerem, cessou o barulho, e um deles, que vivia na casa, disse á

senhora Joana:

—Vimos pedir-lhes que façam menos barulho, pois aquilo que estão fazendo

é indicio de má creação, que não podemos tolerar.

—Nós—replicou a senhora Joana—estamos em nossa casa, onde ninguem manda,

e onde podemos fazer o que muito bem nos der na vontade.

—Sim, menos incomodar os visinhos; é esta uma casa em que vivem muitos

moradores, e portanto não ha que atender á comodidade particular, mas sim

á geral.

—Sabe o que lhe digo?—respondeu, desagravando-se, a senhora Joana—pois

se nós os incomodamos com o barulho do baile, bailem vocês tambem:

e incomodar-nos-hemos dessa maneira mutuamente e... Além disso, se

vocês não estivessem fazendo bruxarias, não teriam dado logar a isto.

Sobretudo, estou em minha casa... e o que disse está dito.

—Olá!—acrescentou, dirigindo-se aos seus amigos,—toca a bailar. Viva a

religião! Morram os protestantes!

Era quasi certo que romanos e protestantes viriam ás mãos, se não se

apresentasse a autoridade do logar, acompanhado do dono da casa em que se

celebrava o culto evangelico.

A dita autoridade foi presenciar a reunião evangelica, e foi testemunha

ocular de tudo o que se passou; pelo que, chegando á porta do quarto, no

momento mesmo em que Joana pronunciava as palavras que já conhecemos,

disse:

—Boas noites, senhores.

Aquelas «boas noites» fizeram com que o socego se restabelecesse.

—Parece-me que é demasiado o barulho que vocês fazem, e venho dizer-lhes

que isso incomoda os visinhos.

Um dos homens, que estava tocando a guitarra, levantou-se e, dirigindo-se

ao recemchegado, sem saber quem era, disse-lhe:

—Quem é você para falar assim? Creia que já me aborrece tanto palavriado,

e, se me chega a mostarda ao nariz, nem você nem nenhum dos protestantes

que estão lá em baixo fica com um cabelo na cabeça.

—Parece-me que o vinho faz com que fale desse modo, aliás...

—Se não se cala—interrompeu o homem,—arremesso-lhe daqui mesmo onde estou

com... Já lhe disse, quem é você? É porventura algum protestante?

—Sou quem agora mesmo o leva para a casa de detenção; sou o regedor da

freguezia.

E ao ouvir isto todos ficaram como estatuas.

—Senhor regedor—disse, passados alguns momentos, a dona da casa, com

uma entoação tão servil agora como antes tinha sido insultante—senhor

regedor; eu lhe confessarei por que razão estamos fazendo o que vê, se

nenhum mal nos fizer.

—O escandalo sempre é escandalo, e o meu dever é castigal-o; porém queira

dizer.

—O padre Francisco, que vive no andar superior, dá-nos algumas pesetas

para fazermos barulho e interrompermos as reuniões protestantes que se

celebram lá em baixo, e nós sem saber... pois... o faziamos.

—Bom; vamos ter com o padre; porém venha a senhora comigo.

Todos desceram, e, ao passarem pela porta, aberta de par em par, da

casa do sr. Hipolito, ouviam a voz do prégador, que, terminando o culto,

orava, dizendo naquele proprio instante:

—«Senhor, perdôa aos nossos visinhos lá de cima, que em sua cegueira

profanam o Teu santo dia, dando escandalo. Senhor, eles crêem que desse

modo abafarão a Tua palavra; já vês o seu erro. Entretanto faze que nós

demos frutos que manifestem a diferença que ha entre os que Te conhecem e

os que Te não conhecem.

CAPITULO XX

O Cristo das Completas e um lignum crucis

Como acabamos de ver, o regedor, acompanhado da senhora Joana, entrou

na casa do padre Francisco. Não nos dizem os nossos apontamentos o que

se passou entre eles, porém o que sabemos é que as reuniões evangelicas

continuaram com toda a regularidade.

O mesmo padre Francisco parecia ter perdido o seu antigo ardor, e agora

nada fazia contra aqueles a que ele chamava seus inimigos, se bem que não

cessasse de pensar e tornar a pensar comsigo sobre o caso.

Depois de pensamentos desencontrados, acabou por desejar ter uma

conferencia com o joven que dirigia os cultos.

Esta solução pareceu-lhe a melhor de todas.

—Sim—disse ele comsigo,—esse joven é muito creança ainda, e com

habilidade poderei informar-me por ele do que realmente ha nessas

sociedades. Ao mesmo tempo poderei convencel-o dos seus erros, e não me

será impossivel conseguir dele que uma noite, em vez de celebrar o culto,

como eles dizem, faça uma retractação das suas doutrinas; nesse caso eu

triunfava, e acabava com essa maldita obra, e depois...

O padre esfregou as mãos de contente, e depois tratou de indagar onde e

como poderia dirigir-se ao joven evangelista.

Cheio de alegria, pegou na pena e escreveu a seguinte carta:

«Madrid... Embaixadores n.º...

Sr. Mateus N.

Se bem que não tenha a honra de o conhecer, senão por tel-o

visto algumas vezes, peço-lhe me conceda o especialissimo favor

de aceitar um talher á minha meza, ás tres horas da tarde do

dia de ámanhã, ou do dia que designe.

Espero que não verá nisto qualquer traição: estou disposto a

dar-lhe quantas provas de segurança julgue convenientes, pois

tenho sómente por objectivo falar-lhe sobre religião.

Seu afectuosissimo

_Francisco Maria dos Anjos_.»

Ao anoitecer daquele mesmo dia, o padre Francisco recebeu uma carta nos

seguintes termos:

«Madrid...

Sr. P.ᵉ Francisco Maria dos Anjos

Aceito a honra que me concede, e ámanhã ás tres horas da tarde

estou á sua disposição. Nada receio, porque Deus irá na minha

companhia; sómente peço a V. que, se vamos tratar de assuntos

da religião, seja com a Biblia na mão.

Seu afectuosissimo servo, que deseja ser seu irmão em Jesus,

_Mateus N._»

No dia seguinte, poucos minutos antes das tres, o joven evangelista

batia á porta do padre Francisco, que veiu logo receber o seu hospede,

estendendo-lhe a mão com a expressão mais afectuosa, e dizendo-lhe:

—Seja bemvindo, senhor Mateus; entre, entre na minha habitação, onde

descançará e jantará comigo.

Entraram juntos na sala, e, passados alguns momentos de silencio, disse o

padre Francisco:

—Queira desculpar que, sem o conhecer, lhe oferecesse um talher á minha

meza.

—É para mim subida honra—respondeu o joven—o receber uma tal prova da sua

bondade para comigo.

Seguiram-se alguns momentos de silencio, durante os quaes o joven não

desviava os olhos dum precioso armario de pau preto, que o padre tinha em

frente da meza de jantar.

—Bonito movel!—exclamou Mateus.

—Realmente—exclamou o padre Francisco—é uma bonita peça, porém o que é

mais bonito e tem mais valor é o que está dentro.

O padre Francisco levantou-se, dirigindo-se ao armario, e poz o dedo num

botão amarelo, o que deu logar a que as portas se abrissem, deixando ver

uma especie de capela com o seu altar, imagens e uma lampada de prata,

cuja luz ardia continuamente. Ao abrir-se o armario, o padre Francisco

tirou o _solideo_, fez uma reverencia ao altar e, voltando-se para

Mateus, disse-lhe:

—Venha ver, que ha aqui coisas esplendidas.

O joven aproximou-se do altar, sem se inclinar nem fazer o menor sinal de

reverencia.

—Veja—prosseguiu o padre Francisco—o meu pequeno tesouro. Essa Virgem do

Pilar, que é de prata, tem um merito artistico extraordinario. Aquele

crucifixo de marfim é tambem muito bom, e custou-me, quando estive

em Roma, trinta e cinco libras. Vê aquele S. Pedro? Foi presente da

minha madrinha de baptismo, que mo deu quando cantei missa, e então meu

padrinho, para que eu tivesse o par completo, mandou-me fazer aquele S.

Paulo. São ambos de oiro. Meu tio mandou-me do Brazil, quando era mordomo

do arcebispo daquele paiz, esta reliquia: é um pedacinho dum dos degraus

da casa de Anás. Porém ainda não lhe mostrei o melhor, que é aquele

Cristo.

O padre Francisco apontava para uma téla, onde estava pintado um Nazareno

com a cruz ás costas: representava-O de meio corpo e quasi do tamanho

natural.

—_É o Cristo das Completas_, imagem muito milagrosa. Saiba que já falou.

—Já falou, esse pedaço de linho!—exclamou Mateus.

—Sim, senhor; queira ouvir a historia. Essa imagem achava-se exposta á

veneração dos fieis num convento; nesse convento havia uma freira tão

enamorada dela que cada vez que se ajoelhava para adorar passava ali

horas esquecidas. Sucedia com isto que, ainda que o sino tocasse para as

rezas, aquela esposa do Senhor não o ouvia e faltava sempre a elas.

«Uma tarde achava-se a freira em adoração á imagem e tocou o sino para

as _Completas_, porém ela não ouviu o toque, e então a divina imagem,

abrindo os seus divinos labios, avisou a sua amiga, dizendo-lhe: _Olha

que tocam para Completas_.

—Pois sr. padre Francisco, não posso acreditar no que diz. Falar um

pedaço de pano pintado!

—Como? Acaso não falou a burra de Balaão?

—Sim, senhor, porém aquele caso foi muito diferente, pois...

—Falaremos nisso depois do jantar. Veja outra preciosidade. Este _Lignum

crucis_ trouxeram-mo de Jerusalem. Cresceu tanto emquanto o trouxe ao

pescoço que tive que o cortar tres vezes durante um ano.

O joven, sem poder conter-se, soltou uma ruidosa gargalhada, mas,

reprimindo-se em seguida, disse ao padre Francisco:

—Espero que me desculpe este imprudente riso, que me veiu sem querer aos

labios; e logo que fechar o armario lhe contarei o motivo por que me ri

quando me contou a historia do _Cristo das Completas_.

O padre fechou o armario e sentou-se numa cadeira em frente do joven, que

disse:

—Ha pouco tempo achava-me eu numa loja de ourives desta capital; o dono,

que é meu amigo, deu a um aprendiz, para que o limpasse, um relicario que

ali tinham levado para esse fim. O relicario era nada mais nada menos do

que um _Lignum crucis_, e, ao dal-o o meu amigo ao aprendiz, disse-lhe

que tivesse todo o cuidado; porém o rapaz, apenas lhe pegou, deixou-o

cair. Oh dôr! pegaram no relicario, olharam para dentro, e a reliquia

havia desaparecido. Em vão a procuram, mas como é uma coisa sumamente

pequena não pôde ser encontrada. Em tal situação que fazer? Pois, senhor,

um oficial da casa cortou um pedacinho da cadeira em que estava sentado

e colocou-o no sitio em que devia estar a reliquia. Passado pouco tempo,

disse-me o meu amigo que a dona do relicario o procurara para lhe

arranjar uns brincos; então perguntaram-lhe pelo seu _Lignum crucis_, e

toda alvoroçada exclamou: «Cresceu extraordinariamente desde que o mandei

compôr, pois que já o cortaram duas vezes.»

—Pois bem—continuou Mateus,—o fenomeno compreende-se: a tal senhora levou

o relicario ao peito, e, como a caixinha era de papelão forrado de seda,

penetraram nela facilmente a humidade e o calor, o que fez com que o

pedacinho de madeira aumentasse de volume, obrigando-o assim a sair do

pequenissimo orificio destinado para a reliquia, pelo que foi necessario

cortar duas vezes o tal fingido _Lignum crucis_, que já dava de si

material para outros novos.

—Porém isso—exclamou o padre Francisco—foi uma acção má, um sacrilegio.

—Eu não quero nem pretendo agora julgar se a acção foi boa ou má; porém

quem disse a V. que a sua reliquia não é egual ao pedacinho de madeira de

que temos falado?

—Não, senhor; este foi trazido da Terra Santa.

—Bem, nesse caso será um pedacinho de madeira de Jerusalem, da Terra

Santa, e sempre é alguma coisa. Note que uma das coisas que deram logar

á Reforma foi o abuso das reliquias. Por todas as partes encontramos

ossos deste ou daquele santo, e o peor é que não é raro encontrar o mesmo

osso dum santo em quatro pontos distintos, e, se não, diga-o a celebre

queixada de Santa Apolonia.

—Isso...

Julião e a Biblia · 第 8 / 12 段