—Pois olhe, se tem esse desejo, Julião vae fazer algumas reuniões neste
mesmo quarto, e pode assistir a elas.
—Não sabe quanto me alegro em saber isso. Não faltarei; porém diga-me:
Quando é que seu marido principia?
—Esta mesma noite ás 8 horas, e, visto que a senhora é a primeira
moradora da casa que o sabe, peço-lhe que...
—Não diga nada? Descance que...
—Pelo contrario, peço-lhe que o diga a todas as pessoas que muito bem
lhe parecer. Seria um grande prazer para nós que todos os moradores e a
visinhança ouvissem o Evangelho.
—Pois então eu lhe asseguro que toda a visinhança o saberá.
Em poucos momentos, todos os moradores da casa sabiam que Julião ia
dar reuniões protestantes, e todos se dispozeram a ir ouvil-o, uns por
curiosidade e outros por zombaria.
Quando o padre Francisco soube isto, exclamou:
—Já começa! e eu que julgava que esse homem cederia á fome e á miseria!
Na minha vida não tenho visto pessoa mais teimosa! Que fazer? Ah! se se
promovesse um escandalo, podia suceder que o senhorio os despedisse da
casa; e o escandalo, sim, ha de dar-se. Parece mentira que os homens se
obcequem a este ponto... No emtanto, isto faz-me supôr que Julião recebe
alguma paga.
Assim continuou o padre, falando comsigo.
Por fim veiu a noite, e, ainda que alguma coisa fria por ser outono,
a gente apinha-se nos corredores, por não caberem todos os que haviam
concorrido dentro do quarto.
Ás oito horas em ponto da noite, Julião entrou no quarto, saudando todas
as pessoas.
Depois dirigiu-lhes a palavra da seguinte maneira:
—Amigos, bastante embaraçosa é para mim a situação em que me encontro ao
dirigir-vos a palavra. Falo-vos por duas razões: a primeira porque a isso
Deus me envia, para que vos anuncie as novas de salvação que se encontra
em Jesus Cristo; a segunda, a menos importante, para me justificar do
que dizem, pois que, na opinião de muitos, duvida-se do meu caracter e
da minha honra. Parece que muitos dos que estão presentes estranharão
que um protestante vá falar do cristianismo, quando, segundo dizem por
ahi, nós os protestantes somos uns herejes, uns incredulos, que duvidam
de tudo. Se isto é ou não verdade, ides vós julgal-o ouvindo dos meus
labios a minha profissão de fé, na qual eu, bem como todos os cristãos
evangelicos, a quem vós chamaes protestantes, cremos. Para que bem o
compreendaes, escutae com atenção.
«Creio em Deus Pae Todo Poderoso, Creador do céu e da terra. Creio em
Jesus Cristo seu Unico Filho, Nosso Senhor; O qual foi concebido por
obra do Espirito Santo; Nasceu de Maria Virgem; Padeceu sob o poder de
Poncio Pilatos; Foi crucificado, morto e sepultado; Desceu aos infernos;
Ao terceiro dia ressuscitou dos mortos; Subiu ao céu; Está sentado á mão
direita de Deus Pae Todo Poderoso; Donde ha de vir a julgar os vivos e os
mortos.
Creio no Espirito Santo; Na Santa Egreja Catolica; Na comunhão dos
santos; Na ressureição da carne; Na vida eterna. Amen.»
Um murmurio de vozes de aprovação e surpreza rompeu de todos os labios.
As vozes que mais se distinguiram foram:
—Esse Credo é egual ao nosso!
—Crêem em Deus!
—E na Virgem!!!
—E em que Cristo foi concebido pelo Espirito Santo!!!
—Sim, meus amigos—continuou Julião,—nós, isto é, os cristãos do
Evangelho, cremos em tudo o que está escrito na palavra de Deus. Quanto
dizem de nós é uma completa calunia. Jámais duvidámos da virtude de
Maria, mãe, não de Deus, porque Deus não teve pae nem mãe, porém sim mãe
de Jesus, emquanto homem como nós. Nós não confiamos em ninguem senão em
Cristo, porque sabemos que em nenhum outro ha salvação; _porque do céu
abaixo nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual os homens devem
ser salvos_ (ATOS 4:12). Não confiamos nas obras que possamos fazer,
pois que, por melhores que elas sejam, não são mais do que «trapos de
imundicie». Não nos submetemos ao jugo de Roma, porque na palavra de Deus
não se ordena que o cristão esteja sujeito a tal ou qual egreja, mas sim
a Cristo, e porque esta egreja tiranisa as consciencias, obrigando a crer
em dogmas taes como a infalibilidade, que nos faz ver a figura do papa
retratado na segunda Epistola de S. Paulo aos Tessalonicenses, cap. 2.º,
ver, 3 e 4, onde se diz, falando da segunda vinda do Senhor: _«Ninguem de
modo algum vos engane; porque não será sem que antes venha a apostasia,
e sem que tenha aparecido o homem do pecado, o filho da perdição, aquele
que se opõe, e se eleva sobre tudo o que se chama Deus, ou que é adorado,
de sorte que se sentará no templo de Deus, ostentando-se como se fosse
Deus»._ Nós, os protestantes, não fazemos caso dos dias de jejum, porque
S. Paulo diz: «_Ninguem vos julgue pelo comer nem pelo beber_» (Col.
2: 16). Tambem sabemos, para que nos acautelemos deles, que «_alguns
prohibirão casar-se, e mandarão abster-se das coisas que Deus creou
para que com acção de graças participassem delas os fieis e os que teem
conhecido a verdade_» (1.ª a Tim. 4: 3). Não fazemos caso algum dos
mandamentos romanos, no que diz respeito a dar dinheiro ou velas, ou
coisas similhantes para o culto, pois que na Palavra de Deus achamos
escrito: «_Ninguem vos desencaminhe, afectando parecer humilde, e dar
culto aos anjos, que nunca viu no estado de viador, inchado vãmente no
sentido da sua carne_» (Col. 2: 18).
Algumas vozes de aprovação sairam dentre os ouvintes.
—Sim, meus amigos—prosseguiu Julião,—dos protestantes dizem-se muitas
coisas que assim não são.
«Nós, os protestantes, cremos na Virgem dos Evangelhos, mas não na Virgem
da egreja romana, porque a Virgem desta egreja em nada se parece com
aquela. Não lhe rezamos por duas razões: a primeira porque não sabemos
rezar; sabemos sim orar a Deus; e a segunda porque nem os apostolos, nem
as tres Marias, nem nenhuma das personagens do seu tempo o fizeram. E
que diremos ácerca das bulas? As bulas! Famosa chave romana que abre e
fecha as portas do céu, desde o minimo preço de dois reales[3] até somas
um tanto consideraveis. Roma tem bulas para todos, já vêdes—acrescentou
em tom ironico.—Roma tem bulas até para defuntos. Emfim, Roma não perde
ocasião de tirar dinheiro. Desde que uma pessoa nasce até que morre,
paga dinheiro e mais dinheiro para os cofres da egreja. Dinheiro para
baptizar, dinheiro para casar, dinheiro para enterrar, dinheiro para
missas, dinheiro para tudo. Ah! os sacerdotes desta egreja não teem em
conta que S. Paulo vivia á custa do trabalho de suas mãos, e que nem
S. Pedro nem os demais apostolos foram subvencionados pelo Estado: não
tiveram pé de altar, nem direitos paroquiaes, nem casulas batidas a oiro,
nem calices de prata, nem baculos do mesmo metal, nem tiara, nem mitra,
nem chapéu cardinalicio, nem foram abades, nem conegos... Porém, se não
tinham nada disto, em troca recebiam, para administral-o, o dinheiro dos
ricos, e com isso a egreja vivia com algum desafogo. Este era o costume
apostolico, e por ser este costume que nós defendemos acusam-nos de
herejes e nos excomungam, e não fazem mais porque Deus não lhes permite.
Meus amigos, já vos são conhecidas em parte as doutrinas dos cristãos
evangelicos; agora julgae por vós mesmos. Ámanhã á mesma hora de hoje,
se vos dignardes vós escutar-me, falaremos dalgum ponto do Evangelho;
porém, antes de vos retirardes, sabei duas coisas: primeira, que «_de tal
maneira Deus amou o mundo que lhe deu o Seu Filho Unigenito, para que
todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna_» (S. João 3:
16). A segunda é que «_nenhuma condenação ha para os que estão em Cristo
Jesus_» (Rom. 8: 1). Que o Senhor nos abençôe. Amen.
Julião retirou-se para a alcova, e a gente tambem saiu, discutindo entre
si; alguns foram felicital-o.
O padre Francisco, que havia estado observando tudo, dizia a sós comsigo:
—E não houve escandalo! E esse homem que vae convencel-os! Como evitar
isso?
O bom do padre trazia a cabeça numa braza viva, pensando como havia
de inutilizar o seu inimigo, sem se lembrar de que era melhor tomar o
parecer que o fariseu Gamaliel deu no conselho de Jerusalem, celebrado
contra os apostolos, em que disse: «_Não vos metaes com estes homens, e
deixae-os; porque, se este conselho, ou esta obra, vem dos homens, ela se
desvanecerá; porém, se vem de Deus, não a podereis desfazer, para que não
pareça que até a Deus resistis_» (Atos 5: 38-40).
CAPITULO XVI
Um sermão, um desafio, e uma hora de fé
Os visinhos da casa de Julião estavam alvoroçados. Entre eles tinha-se
despertado um movimento religioso como poucas vezes se tem visto.
Merecia a pena ás oito horas da noite o ir ver o interior da casa; pateo,
corredor, janelas, tudo estava atulhado de pessoas, que levantavam a
cabeça para olhar para um corredor do quarto andar, donde um homem lhes
falava.
Tinham decorrido cinco noites desde que Julião pela primeira vez falára
no corredor, e coisas maravilhosas tinham acontecido.
Na sexta noite do culto, achava-se Julião prégando, e tinha tomado para
texto as palavras de Jesus: «_Porque onde estão dois ou tres reunidos em
Meu nome, ahi estou Eu no meio deles_» (S. Mat. 18: 20).
O nosso amigo estava quasi no fim da sua prégação, depois de ter exposto
aos seus ouvintes quão grande era o amor do Salvador, que, depois de ter
dado a vida pelos pecadores, estava disposto a recebel-os, pois que,
só com invocal-O, Ele Se aproximava dos corações. Depois de tudo isto,
disse:
«Temos, pois, que onde se reunem dois ou tres em nome do Senhor, ali está
a egreja. Portanto, meus amigos, não é necessario ir a tal ou tal egreja,
nem escutar esta ou aquela pratica, não; se dois ou tres cristãos se unem
em um caminho ou num deserto, e ali elevam os seus corações para orar, ou
antes para falar de Jesus, ali está a Egreja com o seu divino Esposo no
meio.
«Mais facil é que o Senhor habite em uma pobre agua-furtada, onde uma
familia faz a sua oração matutina, do que num templo onde os sentidos se
deleitam e o espirito se distrae com o som do orgão, o espectaculo do
luxo e os perfumes do incenso. Sabei que o Senhor «não habita em templos
feitos por mãos de homens», como diz o profeta: «_O céu é o Meu trono,
e a terra o estrado dos Meus pés. Que casa Me edificareis vós, diz o
Senhor, ou qual é o logar do Meu repouso? Não fez, porventura, a Minha
mão todas estas coisas?_» (Atos 7: 49—50). Assim fala o Senhor. Não são,
pois, as afilagranadas cupulas duma catedral, ou os sumptuosos tetos
dum templo, nem os canticos latinos, nem o incenso, nem as luzes, nem o
luxo, os objetos que fazem com que o espirito de Deus desça das mansões
celestes onde habita; antes pelo contrario, essas coisas afugentam o
Espirito de Deus.
—As suas malditas idéas, sim, que o conduzirão a si e áqueles que o
escutam aos infernos—disse uma voz do fim do corredor.
Todos os olhares se dirigiram para o sitio donde havia saido a voz, e
deram com o padre Francisco, que, aceso em ira, apostrofava o vidraceiro.
Taes insultos lhe dirigiu que os assistentes começaram a gritar:
—Fóra, corvos! Fóra, corvos! Não queremos latinorios.
—O Evangelho é claro, e os padres não querem que a gente o leia, para que
se não venham a descobrir os seus embustes.
—Fóra, fóra o padre!
—Silencio, meus amigos—gritou Julião.
A vozeria cessou, e então o vidraceiro, dirigindo-se ao padre Francisco,
disse-lhe:
—Podia não interromper a nossa reunião por um modo tão pouco delicado.
Não sei porque seja tratado assim aquele que diz a verdade.
—Você nem diz nem conhece a verdade—exclamou o padre Francisco.
E acrescentou com concentrado odio:
—Você é um miseravel que recebe dinheiro dessas malditas sociedades
inglezas para perder a Hespanha, para subjugal-a...
—Sr. padre Francisco—disse Julião num tom veemente—O senhor é um
caluniador. Certamente que a si é que eu devo o prégar o Evangelho; pois
saibam todos que, por causa desse senhor, perdi a minha loja e a minha
posição. Tão caritativo, fez quanto pôde para a minha miseria e para a
miseria da minha familia.
—Fóra, fóra o padre!—gritaram de novo as pessoas presentes.
—Silencio!—tornou a exclamar Julião—O sr. padre Francisco é um dos padres
de mais talento da freguezia; tem estudos, e diz que estou no erro; eu,
pelo contrario, não sou mais do que um pobre artista sem estudos, e,
mais ainda, com um futuro bem triste. Pois apezar disso, eu desafio-o a
discutir comigo na vossa presença.
—Bem, bem—exclamaram os circunstantes.
—Senhores—disse o padre Francisco, um tanto embaraçado,—eu não posso
discutir com este homem sem licença dos meus superiores; portanto não lhe
aceito o repto, antes o desprézo.
—Parece-me—disse Julião—que isso é uma evasiva; o senhor, se é, como diz,
ministro do Evangelho, não pode deixar de combater o erro onde quer que
se encontre; a sentinela que vê como o inimigo se aproxima da brecha que
ela guarda não espera que os seus chefes lhe mandem fazer fogo: assim o
senhor deve colocar-se em frente do erro sem aguardar licença de ninguem.
—Este—exclamou furioso o padre Francisco—não é logar proprio para
discutir. A casa é propriedade do senhorio, e não para que você venha com
o seu palavriado escandalizar os visinhos com suas corrompidas doutrinas.
—Fóra! fóra o padre!—disse uma voz.
—Fóra?—repetiu o padre.—Ámanhã vou dar parte ao senhorio de tudo quanto
aqui se está passando, e veremos se se lhes prohibe ou não amontoarem-se
nas escadas e no corredor, interrompendo a passagem.
—Pois senhores—gritou um dos moradores—em minha casa, de ámanhã em
deante, ha logar para nos reunirmos. Se o sr. Julião quizer, podem todos
juntarem-se ali sem escrupulo, e assim deixaremos as escadas livres, para
que o sr. padre Francisco possa descer e subir, sem que a sua sotaina se
amarrote.
Todos os moradores aplaudiram, emquanto que o padre Francisco entrou em
sua casa aceso em colera.
Julião concluiu o sermão, e, depois de ficar convencido de que na noite
proxima se celebraria culto em casa do visinho, que a tinha oferecido,
cada qual foi para sua casa, e meia hora depois o socego e silencio
reinavam em todas as habitações.
Julião e sua esposa estavam sentados em casa, conversando.
—E que vaes fazer?—disse-lhe a esposa.
—Não sei—respondeu Julião,—não sei; todas as portas se fecham; hontem
esperava trabalho, porém o mestre não ficou com a obra e não me pôde
admitir. Bem sabe Deus, querida esposa, que sómente sinto isto por
ti e por nosso filho. Os recursos esgotaram-se, e não vejo de pronto
como poderemos obter remedio. Eu sei que «Deus providenciará», sim,
indubitavelmente tem que o fazer. Fui vender a ferramenta, porém querem
valer-se da ocasião, e por aquilo que me custou duas libras sómente me
dão uma.
—Julião, já te disse que não vendas a ferramenta; se ámanhã nos
estabelecermos de novo, far-te-ha falta.
—Certamente, e não sei que estranho pressentimento me diz que tornaremos
para a loja que deixámos.
—Muito me alegraria com isso—disse Dôres,—porque foi naquela casa que
morreram os nossos paes. Sabes—acrescentou—que ámanhã tenho de ir ao
_Monte dos socorros_ empenhar alguns objetos.
—Ah! Dôres!—exclamou Julião—se tu tivesses fé! Dize: crês com todo o
coração o que está escrito na palavra de Deus?
—Sim, Julião.
O vidraceiro pegou na Biblia, que estava em cima da meza, e disse:
—Dôres, não temos dinheiro para comprar pão ámanhã, e, se não vaes
empenhar alguns objetos, nem mesmo umas tristes sopas podes dar ao nosso
filho, não é verdade?
Estas palavras arrancaram silenciosas lagrimas dos olhos de Dôres, que
apertou ao peito o filhinho, que ela beijou sofregamente, entretanto que
a creancinha se sorria, indiferente aos pezares daquela que a estreitava
em seu seio.
—Não chores—continuou Julião,—o Senhor mesmo nos ensinou a dizer: «Dá-nos
o pão nosso de cada dia»; pois bem, vamos orar, pedindo-Lhe esse pão.
Julião abriu a Biblia no Evangelho de S. João, cap. 16, e leu os
versiculos 23 e 25, dizendo:
—Escuta esta preciosa promessa feita por Jesus; «_Na verdade, na verdade,
vos digo: se vós pedirdes a Meu Pae alguma coisa em Meu nome, Ele vol-a
ha de dar. Vós até agora nada pedistes em Meu nome; pedi e recebereis,
para que o vosso gozo seja completo». «Tudo o que pedirdes em oração,
crendo, o recebereis»._ Agora, com tão ricas promessas, e tão bom
Intercessor, prostremo-nos deante de Deus.
CAPITULO XVII
O dinheiro do diabo e o dinheiro de Deus
Ás onze horas do dia seguinte áquela noite de que acabamos de falar,
achavam-se Julião e Dôres em sua casa, dialogando assim:
—Com que, nada encontraste?—dizia Dôres.
—Nada, Dôres, nada absolutamente.
—E vamos ficar assim todo o dia? Não temos dinheiro para comer, e nem
ainda acendi lume por não ter que cosinhar. O menino mama muito, e eu
sinto-me cair de fraqueza. Que vamos fazer?
Julião permaneceu em silencio por alguns momentos, e em seu rosto via-se
retratada a luta que atormentava a sua alma.
Nunca a tentação o havia perseguido com mais força. Via sofrer sua
esposa, e tudo o levava a perder a sua confiança em Deus. Por fim, depois
dum breve espaço de tempo, abanou a cabeça, como se quizesse afastar dela
alguma idéa que mais o atormentava, e disse em resposta a sua esposa:
—O que faremos? Esperar.
«Esperar que Deus responda á nossa oração.
Neste momento o padre e outro sacerdote apareceram á porta.
—Bons dias, senhores—disseram eles ao verem o vidraceiro e sua mulher.
—Bons dias—responderam eles, e Julião acrescentou:—Que pretendem?
—Vimos—respondeu o padre Francisco—falar comsigo.
—Nesse caso entrem.
Ambos entraram, e, emquanto Julião fechava a porta, Dôres ofereceu uma
cadeira a cada um deles.
O padre Francisco tomou a palavra, e disse a Julião:
—Julião, certamente estranhará a minha vinda a sua casa, não é verdade?
—E a que devo eu a honra da sua visita?
—Vimos ver se afinal nos harmonizamos.
—Não entendo.
—Pois olhe, a loja que ocupava está ainda por alugar; quer tornar a
ocupal-a?
—Não, senhor, porque para isso parece-me que seria preciso fazer alguma
coisa que nem sequer desejo que se me proponha.
O amigo do padre Francisco tomou a palavra e disse:
—Apezar de não ter a honra de o conhecer, fui convidado por este amigo
para lhe falar.
O padre calou-se, e depois duma breve pausa continuou:
—Eu sou o confessor da sr. condessa de X... e tenho bastante influencia
sobre ela. O amigo trabalhava naquela casa, e por suas exquisitas idéas
perdeu o trabalho. Porém, é a coisa mais simples eu falar com a condessa
e imediatamente poderá de novo ser readmitido ao trabalho no palacio. Já
falei com o sr. padre Francisco sobre aquilo que poderemos fazer por si,
e se abandona o mau caminho que trilha pode ainda ser feliz.
[Illustration: ...uma carta e uma letra de dezoito libras
Pag. 146.]
—Senhor padre—respondeu Julião,—agradeço o interesse que a minha
situação lhe desperta, porém é inutil que fale por mim á condessa. Hoje
é um dia em que ainda não almoçámos; porém, antes morrer de fome do que
negar o meu Salvador.
—Vamos, está resolvido a continuar a prégar aqui na casa?
—Mais do que nunca, respondeu Julião.
—Bonita prégação ha de fazer, se ainda não comeu.
—O Senhor me alimentará com a Sua palavra, pois que está escrito: «_Não
sómente o homem viverá do pão, mas de toda a palavra que sae da boca de
Deus_».
—Muito bem; pois agora mesmo lhe daremos duas libras se não prégar.
—Não prégar? Ora sempre os senhores teem coisas! O seu dinheiro pereça
com os senhores, que julgam amordaçar com ele a palavra nos meus labios.
O Senhor dá-me alguma coisa que vale mais do que algumas libras. Cristo
deu-me uma coisa, a minha salvação, a qual, apezar de os senhores
julgarem vendel-a a tanto por _missa_, não é comprada com todo o dinheiro
do mundo. Não prégar!
—Porém—disse o confessor dos condes de X...—se o não faz por si, faça-o
ao menos por sua esposa e filho. Vocemecê é senhor da sua vontade para se
deixar morrer á fome, porém não deve obrigar os outros a que o façam.
—Julião—disse o padre Francisco—é tão credulo que julga ver entrar por
aquela porta o corvo de Elias com um pão no bico.
—Sr. padre Francisco, eu não estranharia ver entrar um corvo com pão;
pois Aquele que o mandou a Elias vive ainda e é todo poderoso para
mandar-me a mim, não um corvo, mas sim um anjo, que me conforte.
—Vá lá—disse o padre Francisco, levantando-se—apezar de não querer
ceder, e para que veja que não somos tão maus como julga, ahi tem essa
libra para que se remedeie; entretanto pense bem na sua situação.
O padre Francisco dirigiu-se a Dôres para dar-lhe a libra, mas, antes de
lha deixar cair no regaço, Julião suspendeu o braço do padre, dizendo-lhe:
—Agradeço-lhe do coração a esmola, porém guarde o seu dinheiro, pois que
nós para nada o queremos.
O padre Francisco, sem poder responder uma palavra, e metendo o dinheiro
no bolso, saiu furioso do quarto, seguido do outro sacerdote.
Quando os dois esposos ficaram sós, Julião exclamou:
—_Até quando, Senhor, Te esquecerás de mim? para sempre? Até quando
afastarás de mim a Tua face?_
«_O nosso Deus é refugio, e esforço, favorecedor nas tribulações_» (Sal,
12:1; 45:1).
—Dôres, o Senhor põe á prova a nossa fé; e sabe que o Senhor prova até ao
ultimo momento. Tem fé, que «Deus providenciará».
Passados uns momentos, durante os quaes Julião esteve exortando sua
esposa, bateram de novo á porta. Julião foi abril-a, e um carteiro
apareceu com uma carta para o vidraceiro.
Julião fechou a porta, e, dirigindo-se a sua esposa, disse-lhe:
—Será esta carta a resposta á nossa oração de hontem á noite?
Antes que Dôres respondesse, rasgou o _envelope_, e tirou de dentro dele
uma carta e uma letra de dezoito libras. Julião leu em voz alta:
«Povoação de ***
Querido visinho
«Desejo do coração que ao receber esta passe sem novidade
em companhia de sua mulher e seu filhinho. Eu gózo saude e
alegria, graças a Deus.
«Porém, como teve coragem para sofrer tanto sem...? Vamos,
digo-lhe que eu não tenho paciencia, e que o padre Francisco
não faria o que fez se eu ahi estivesse.
«Pensando bem, eu devia zangar-me comsigo, porque estar em
necessidade e não me pedir nada é coisa que não compreendo, e
que não é de amigo. Porque não me escreveu?
«Emfim, agora nada se remedeia do que deixo dito, visto o mal
já estar feito.
«Remeto-lhe essa letra para que torne para a sua loja, e
continue no seu negocio.
«Não se aflija com a idéa de que tem de me pagar essa quantia;
somos amigos e irmãos em Jesus; assim é que, emquanto não tiver
dinheiro de sobra, não mo pagará. Falei com o administrador
das obras onde estou trabalhando, e pode vir esta assinar a
escritura, cujas condições lhe remeto, para tomar a empreitada
da obra de pintura; é um bom negocio...»
Daqui em deante a carta falava de coisas relativas ao negocio
de ambos, e por fim dizia:
«Não o incomodo mais, senão para dizer-lhe que aqui não
trabalhamos aos domingos, e que o trabalhador que solta más
palavras eu o despeço.
«E minha mulher e minha filha continuam de saude?
«Faça-me muito recomendado a Dôres, á minha Brigida e á minha
filha; tambem me fará lembrado aos meus oficiaes, muitos beijos
no seu filhinho, e o visinho receba o carinho deste que deseja
muito vêl-o.
_João._»
Quando Julião acabou de ler a carta, olhou durante alguns momentos para
sua esposa, que parecia estar imersa num sonho, e por fim exclamou:
—«_Quando me via atribulado clamei ao Senhor, e Ele me respondeu_» (Sal.
19: 1). Eis aqui, Dôres, a resposta á nossa oração de hontem á noite.
Crês que Deus sempre providenceia?
—Sim, Julião, e peço perdão a Deus pela minha falta de fé.
—Este dinheiro é mandado por Deus, e devemos aceital-o; agora demos
graças ao Senhor por Sua misericordia.
Ambos os esposos se ajoelharam, e a voz de Julião se fez ouvir, dizendo: