desta sala uma quantia para mim bastante elevada, e se não concluo a obra
sofro um grande prejuizo.
—E que tenho eu com isso? Vá ter com os seus amigos protestantes que lhe
paguem.
—Senhora—exclamou, indignado, Julião,—os protestantes, meus amigos, ou,
para melhor dizer, meus amados irmãos, nada me devem; quem fez com que eu
empregasse em materiaes o fruto dos meus labores foram os condes de X,
que teem obrigação de me pagar.
—Pois bem—disse o conde,—paga-se-lhe tudo, para que se vá embora.
—Não—gritou a condessa,—não se lhe paga coisa alguma; se comprou
material, não o comprasse. Ou renega a sua religião, ou põe-se já na rua.
—Renegar Cristo!—exclamou Julião;—não, senhora condessa, isso é que não.
Cristo deu a Sua vida por mim, e não O vendo por um punhado de oiro. A
Escritura fala dum Judas, não fala de dois. Fique com o dinheiro, e faça
de conta que lho dei de presente.
—Não sei como me contenho—exclamou o conde;—se não fosse por sujar a mão,
fazia calar essa boca. Ponham este homem lá fóra—ajuntou ele, chamando
pelos creados.
—Não é necessario, que eu sei onde é a porta. Que Deus lhes perdôe o
prejuizo que me causaram.
Julião retirou-se. O palacio dos condes era situado na Castelana, e o
vidraceiro, assentando-se num banco que ficava á sombra duma arvore,
tirou a sua Biblia da algibeira, e, enxugando algumas lagrimas rebeldes,
leu estas consoladoras palavras: «_Nenhum te poderá resistir todo o tempo
que viveres: como fui com Moisés, assim serei comtigo; não te deixarei
nem te desampararei_». (Josué, 1:5).
Depois entrou em casa, e contou a sua mulher o que se havia passado.
—E que vaes tu fazer com esse material perdido?—perguntou lhe a esposa.
—Procurar—respondeu Julião—quem o compre, ainda que seja por menos preço.
—Ai, Julião! Não sei que estranho pressentimento me diz que o P.ᵉ
Francisco tem parte neste negocio.
Julião foi para a loja e poz-se a trabalhar. De tarde, o P.ᵉ Francisco
apareceu na loja, dizendo-lhe:
—Venho pagar-lhe uma divida.
O padre tirou um _porte-monnaie_ e, dando-lhe o dinheiro, disse-lhe:
—Parece-me que não está bom. A sua cara, pelo menos, indica que vocemecê
está mal de saude.
—Graças a Deus, não estou; porém tive hoje um grande desgosto.
—Vamos lá; questões domesticas, não é verdade?
—Não, senhor—respondeu Julião,—desgostos com os freguezes.
O padre compreendeu imediatamente tudo, pois o seu amigo, o confessor da
condessa de X... já lhe havia dito que Julião ia ser despedido. O P.ᵉ
Francisco conheceu que não devia dizer palavra, e ia a retirar-se quando
uma nova personagem entrou na loja de Julião.
—Boas tardes—disse ele ao entrar.
Todos responderam á saudação, acrescentando Julião:
—Como! O senhor por aqui?
—Homem—respondeu o recem-chegado em tom familiar,—venho ralhar comsigo.
—Ora essa!
—Encurtando razões. Quero abrir o café no dia primeiro. —Pois olhe, sr.
Mariano, como vê, já comprei o zinco e estão trabalhando nele; porém para
estar pronto para esse dia, é impossivel.
—Porém, faltando ainda quatro dias até lá, parece-me...
—Desculpe, mas são apenas tres dias!
—Como? Quinta, sexta, sabado, domingo, são quatro.
—Não, senhor, não deve contar o domingo.
—Já principiamos com exquisitices, não é verdade? Não seja doido nem
fanatico. Essas preocupações significam o retrocesso de oitenta anos.
—Será o que quizer, porém Deus é mais antigo do que o senhor; portanto,
entre Ele, que me manda não trabalhar, e o senhor, que manda que eu
trabalhe, devo obedecer antes a Ele do que ao senhor.
—Porém, não conhece que Deus não se intromete nessas coisas? Que lhe
importa a Deus que vocemecê trabalhe ou não? Não faça mal a ninguem, que
trabalhar não é pecado, não é verdade, sr. padre Francisco?
—Deus quer—respondeu o padre Francisco—que se santifiquem os dias de
festa. No domingo e mais dias preceituados pela egreja deve-se ouvir
missa... depois... se é preciso trabalhar, pode-se fazer mediante
licença. Julião, porém, como é protestante...
—Quê! vocemecê é protestante?—exclamou o freguez.
—Sou cristão evangelico—respondeu Julião.
—Pois, mestre, assim não está bem. Não vê que todos os freguezes o vão
deixar? Protestante é a coisa peor que pode haver! porque é não ser
hespanhol.
—O que é ser protestante—exclamou Julião, já um pouco exaltado—é ser
mais hespanhol do que muitos; protestante é ser bom filho, bom pae,
bom esposo, bom amigo e um bom crente em Jesus. Os catolicos romanos
desprezam os mandamentos de Deus e submetem-se ao capricho dos homens;
chamam doidos e fanaticos áqueles que os guardam, taes quaes se encontram
na Biblia, e crêem em milagres, em bulas, em reliquias, em infernos com
caldeiras de pez, em diabos grandes e diabos pequenos, em serpentes que
se enroscam, em um purgatorio de que Jesus não teve a menor noticia, em
um _limbo_, em bulas a gosto do comprador... em tudo, menos em Jesus e no
Evangelho.
—Julião, Julião—disse o sacerdote,—não fale de tal modo, porque não faz
mais do que dizer blasfemias.
—Ao catolico romano pouco se lhe importa ir á missa e dali ao baile; isto
no dia do Senhor. E que proveito tira da missa?
—Ouve o Evangelho, ou uma parte dalguma epistola.
—Sim? Pois peço-lhe ao senhor, que é catolico romano e que certamente ha
de ter ouvido alguma missa, que nos diga o que sabe do Evangelho que tem
ouvido na egreja?
—Senhores—respondeu ele,—a falar a verdade, costumo ir poucas vezes á
missa, porém eu não sei o que o sacerdote diz... Está disposto a fazer a
obra para o dia que indiquei?
—Estou, sim, senhor—respondeu Julião,—porém, pelo que diz respeito a
trabalhar no domingo, não trabalho.
—Quer dizer que pelas suas exquisitices vou ser prejudicado, não abrindo
o estabelecimento no dia que quero. Vamos, Julião, seja razoavel,
deixe-se de protestantismos e trabalhe, que é isso o que lhe dá de comer.
—Sr. Mariano, é completamente inutil que se empenhe em fazer-me trabalhar
ao domingo, pois por todo o dinheiro do mundo não o farei.
—Nesse caso, ponto final na questão. Não o incumbirei de mais trabalhos.
—Bem, como quizer; obedeço a Deus, e é quanto basta.
O padre Francisco quiz aparentemente harmonizar a questão, porém foi tudo
em vão. A voz de Deus, que ordenava ao nosso amigo o guardar o dia de
descanço e santifical-o, teve mais força do que tudo.
Minutos depois, o freguez de Julião saiu, e juntamente com ele o padre
Francisco.
Julião entrou no seu quarto para orar, dizendo:
—Jesus, Tu me dizes: «E todo aquele que não traz a sua cruz e não vem
apoz mim não pode ser meu discipulo.»
CAPITULO XIV
Da loja á agua-furtada
A desgraça pairava sobre a casa de Julião.
Em pouco tempo aquela casa, antes tão feliz, veiu a ser a casa da dôr e
da aflição. Já se não ouvia na loja o bater do martelo nem as alegres
canções dos operarios.
Por todas as partes se havia espalhado a noticia de que o vidraceiro era
protestante, e, por consequencia, o descredito foi geral.
Em vão Julião sofria tudo com paciencia; em vão visitava os seus antigos
freguezes; em vão, na aparencia, clamava ao Senhor: parecia que o céu e a
terra o haviam abandonado.
Para maior desgraça, sua esposa, torturada pelos sofrimentos, tinha
decaido da fé, e isto era o que mais o atormentava.
Até o seu proprio amigo, o mestre João, que era o unico que poderia
ajudal-o, estava fóra de Madrid, ocupado numas obras; tudo, pois, como já
dissemos, se pronunciava contra ele.
Assim chegou o dia em que Julião teve de deixar a loja da casa que
habitava, indo alugar a agua-furtada da mesma, para onde foi trabalhar
como simples oficial.
Faltavam tres dias para fazer a mudança. Julião não estava em casa, e
Dôres estava só, dando o peito a seu filho, quando sentiu abrir a porta
da loja.
Levantou-se para ver quem entrava, e dirigindo-se á porta deu de rosto
com o padre Francisco, que, depois de a cumprimentar, lhe disse:
—Julião está em casa?
Sabido é que Dôres olhava desde ha muito com certa desconfiança para o
padre, pois que julgava que ele era o causador das suas desgraças, e
assim é que com grande reserva e muito secamente lhe respondeu:
—Não, senhor; saiu.
O padre compreendeu o que se passava no espirito daquela mulher, e num
momento concebeu o seu plano.
—Pois realmente sinto-o—disse o sacerdote,—pois que vinha falar com ele,
afim de ver se queria encarregar-se duma obra.
—Pois não posso dizer-lho, porém parece-me que actualmente lhe será
dificil, pois que não temos os meios necessarios para comprar os
materiaes.
—Não importa isso; se seu marido quizer, os donos da obra lhe adeantarão
tudo o que seja preciso. Porém, estranho vê-los nesse estado, sem terem
nada que fazer, quando tinham tão boa freguezia!...
—Pois olhe—disse Dôres com intenção,—alguem tem a culpa disto.
—Não me parece que alguem possa ter culpa, ou se compraza com os males
que sofrem. O unico culpado de tudo isso é o seu esposo, por causa
dessas idéas que tem e que tão desprezadas são de todos. Se seu marido
não tivesse a insensatez de se fazer protestante... Ora veja lá,
protestante... uma coisa que não tem razão de ser... que acabará em breve
e que... finalmente... consta lhes que muitos clerigos tenham passado
para essa seita?
—Sim, senhor; sei dalguns.
—São aqueles que não quizeram sujeitar-se aos seus votos e para quem
a religião era uma coisa pesada. Finalmente, Dôres, creia-me, o que
lhe está sucedendo não é mais do que um aviso de Deus, um preludio de
acontecimentos mais graves; não me admiraria se ámanhã lhes morresse o
seu filho.
—Cale-se, senhor!
—E era um grande favor que a Virgem lhes fazia, pois que seria melhor
para ele morrer do que ficar eternamente condenado.
—E porque ha de o meu filho ser condenado?
—Porque a educação religiosa que lhe derem não pode ser boa.
—Nós o educaremos na fé do Salvador e nas maximas do Evangelho.
—Sim, porém dum Evangelho corrompido, e mostrando-lhe um Salvador que o
não poderá salvar, porque lhe falta a autorização de Sua bemdita Mãe.
—Padre Francisco, Jesus não necessita de autorização de ninguem, pois que
«salva quem quer».
—Que lhe pedirá seu filho que a senhora não lhe faça? Pois tambem Jesus
não pode fazer senão o que Sua bemdita Mãe manda. Emfim, noutra ocasião
falaremos mais detidamente sobre este assunto. Queira dizer a seu esposo
que esta tarde virei falar-lhe, e que a obra, de que o venho encarregar,
lhe fará ganhar uma boa quantia. Passe bem, sr.ª Dôres; medite em tudo o
que temos falado, e creia-me: sem Maria, nem o céu seria céu. Tome esta
estampasinha e reze deante dela umas Avé-Marias, pois de cada vez que o
fizer ganhará cem dias de indulgencia.
O padre Francisco saiu, mas ainda Dôres estava com a tal estampasinha na
mão quando Julião, abrindo a porta, e observando que sua esposa tinha um
papel na mão, aproximou-se, perguntando-lhe o que era.
—Uma imagem da Virgem Maria que me deu o padre Francisco—respondeu ela.
—E como ou com que fim te deu o padre Francisco esse papel?
Dôres contou a seu marido o sucedido, e depois disse:
—Que pensas fazer?
—O que penso fazer?—respondeu Julião.—Dizer ao padre Francisco que não
torne a falar-te de religião, e, pelo que respeita á obra, far-lha-hei se
podér, mas que não venha cá falar-me em condições, porque...
—Julião, chega-te á razão e pensa no nosso filho. Além disso, o padre
Francisco apresentou-me umas razões de bastante peso, ácerca da Virgem.
—Para grandes provas me tem reservado o Senhor, e a mais dura é ver a tua
falta de fé. Escuta-me, Dôres, e jámais duvides da palavra d’Aquele que
disse: «Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão...»
—Julião, a minha fé vacilou alguma coisa, porém eu rogarei a Deus para
que a aumente.
—Bem, oremos a Deus.
Ambos os esposos ajoelharam, e pouco depois ouviu-se a voz de Julião, que
pronunciou esta singela oração:
«Senhor, aumenta a nossa fé; agora mais do que nunca, necessitamos de
crêr para sermos fieis... Não sabemos até onde nos provarás, porém
estamos seguros de que Tu nos ajudarás. Sim, Pae Eterno, se temos sido
fieis no tempo da prosperidade, justo é que o sejamos no tempo da
adversidade.
Agora dá-nos a Tua benção, pelo amor de Jesus. Amen.»
Chegou por fim o dia destinado para que o nosso amigo Julião desocupasse
a loja.
A senhora Brigida e Antonia estão em casa de Dôres.
—O caso é—disse Brigida—que, se meu marido estivesse em Madrid, daria o
dinheiro a teu esposo e não havia necessidade de fechar a loja.
—Julião—respondeu Dôres—certamente que não aceitaria dinheiro, não tendo
probabilidade de o pagar.
—Que coisas tens, Dôres!—exclamou Antonia.—Se meu pae emprestasse
dinheiro a Julião, não fecharias a loja, e pode ser que com o andar do
tempo melhorasseis de situação. Eu sei que a Biblia prohibe ter dividas;
porém é claro que, entre irmãos, e quando é por uma precisão, não é
prohibido, pois que a palavra de Deus manda que os irmãos se socorram
entre si.
—Dize-me, Dôres—perguntou a mulher do carpinteiro,—não poderia ser que
Julião pedisse alguns dias de espera, e entretanto eu escrevia a meu
marido? Oh! se nós chegassemos a saber isto a tempo, teriamos escrito a
João sem vós o saberdes, e tudo se arranjaria...
—Direi isso mesmo a Julião—disse Dôres,—e logo lhes participarei a
resolução dele.
Assim continuaram conversando, emquanto que Julião, que se achava na loja
empacotando as ferramentas, falava com o padre Francisco.
—Porém que é isso?—dizia o padre.—Então muda de casa?
—Não, senhor—respondeu Julião,—deixo a loja.
—Deixa a loja?
—Que quer? Algumas pessoas não vêem outra coisa mais senão aquilo que os
seus olhos alcançam, e querem que os outros façam o mesmo. Amigo, o sr.
conde de X... e outros hão de algum dia experimentar o que está escrito:
«Não oprimirás o teu proximo, nem o roubarás; não retenhas o trabalho
do jornaleiro em tua casa—até ámanhã». Sim, aqueles que procedem como
o conde de X..., que me fez comprar um material que depois para nada
me serviu, não compreendem que o Senhor, um dia, lhes pedirá estreitas
contas, pois que Ele disse: «Não negarás a paga a teu irmão indigente e
pobre, ou ao peregrino, que mora comtigo na terra, e está de tuas portas
para dentro; mas pagar-lhe-has no mesmo dia o preço do seu trabalho antes
do sol posto, porque é pobre, e disso sustenta a sua vida; não suceda que
ele clame contra ti ao Senhor, e isto se te impute a pecado» (Deut. 24:
14 e 15).
—Julião—disse o padre Francisco,—não deve admirar-se de que todos lhe
voltem as costas; as suas idéas religiosas não são de molde a atrair-lhe
as afeições do mundo.
—Sim, a mim não me admira que o mundo me aborreça, quando Jesus, o meu
Salvador, disse: «Se o mundo vos aborrece, sabei que primeiro do que a
vós me aborreceu Ele a mim. Se vós fosseis do mundo, amaria o mundo o
que era seu; mas porque vós não sois do mundo, antes eu vos escolhi do
mundo, por isso é que o mundo vos aborrece» (S. João 15: 18, 10). Aquilo
que realmente me admira é que pessoas que aparentam um tal escrupulo não
sintam remorsos em sua consciencia em roubar a um pobre, como eu, o fruto
do seu trabalho, e não hesitem em lançal-o na miseria.
—Julião, deixemos de parte essa questão. O senhor pode adquirir do conde
X... mais do que aquilo que perdeu. Renuncie por um momento a essas
preocupações, abra os olhos á luz, e creia em si. Eu venho encomendar-lhe
uma obra, que pode dar-lhe alguns lucros; quer fazel-a?
—Sr. padre Francisco, não posso empreender obra alguma, por pequena
que seja, pois não tenho dinheiro para material nem para as ferias dos
oficiaes.
—Não lhe importe isso—disse o padre;—eu ofereço-lhe aquilo de que
necessite. A pessoa que encomenda a obra lhe adeantará o dinheiro preciso
para os materiaes e para as ferias.
—E que obra é essa?—perguntou Julião.
—Tudo o que pertence á sua arte, na egreja de S. N., notando que tem
muito que fazer; é obra que durará muitos mezes.
—Muito bem; não tenho nisso o menor inconveniente. E não me imporá
condição alguma que me torne impossivel o aceitar a obra?
—Não, nenhuma; pois que a condição imposta para todos aqueles que ali
trabalham é tão simples que ninguem até hoje deixou de a aceitar.
—Qual é?
—O paroco diz missa ás nove horas da manhã, á qual deseja que assistam
todos os artistas que ali trabalhem.
—E assistem todos?
—É natural. Quem se recusará a isso?
—Suponhamos, sr. padre Francisco, que o paroco me impõe essa condição, e
que me nego a assistir á missa, o que me sucederá nesse caso?
—Nesse caso não poderá continuar a trabalhar na egreja.
—Pois então é inutil que tornemos a falar mais nisso; pela minha parte
não assisto á missa.
—Porquê?
—Creio inutil repetir-lhe aquilo que já por tantas vezes lhe tenho dito
sobre o assunto. Não tendo a missa para mim o valor que vós lhe daes, não
posso nem devo assistir a ela.
—Porém pense bem que está na maior miseria, e não sómente vocemecê, como
sua mulher e seu filho.
—Pois o Senhor, que tem cuidado das avesinhas e dos lirios dos campos,
cuidará de mim, de minha mulher e de meu filho.
—Vamos; quer encarregar-se?
—Sim, senhor.
—Nesse caso, espero que vá á missa.
—Não, senhor, eu não posso assistir a um acto que a minha consciencia
reprova.
—Então não estranhe que a fome bata á sua porta: será um castigo de Deus,
que o avisa por minha boca.
—Não, não é um aviso; diga antes uma tentação de Satanaz, permitida por
Deus, para provar a minha fé.
—Julguei que podia valer-lhe em alguma coisa, porém enganei-me. É dificil
deter em sua carreira o homem que marcha a passos agigantados para o
precipicio. Que a Virgem tenha misericordia de si.
—Folgo imenso com que tenha falado da Virgem, pois que me esquecia de
dizer-lhe duas coisas: a primeira é que me faça o favor de não falar
a minha mulher ácerca de religião; a segunda é que não lhe torne a
dar estampas de santos ou de virgens, pois que, como pode muito bem
compreender, não deve meter-se onde não o chamam.
—Se eu dei a sua esposa alguns conselhos, foi porque a encontrei triste e
aflita. Eu, na minha qualidade de sacerdote, tenho o dever de consolar os
tristes.
—Muito bem: porém aquilo que disse a minha esposa, em vez de servir
para a consolar, devia servir para acender em seu peito a duvida, e
estabelecer em minha casa uma guerra religiosa; portanto, que não torne a
suceder uma tal coisa.
—Quer isso dizer—respondeu o padre Francisco—que me prohibe de falar com
sua esposa, não é verdade?
—Sim, senhor: sobre assuntos de religião prohibo-lhe terminantemente que
lhe fale.
—Nesse caso é impossivel que Deus o ajude.
—Padre Francisco, parece-me que o culpado de que me tenham tirado o
trabalho em casa dos condes X... foi vossa senhoria.
—Pois fui eu, é verdade, que influi para que fosse despedido da casa.
—Então teve valor para perder desse modo um pae de familia?
—Basta, basta, Julião; estou cançado de lutar; venho oferecer-lhe o bem,
e o senhor rejeita-o; ha-de, por conseguinte, sofrer-lhe as consequencias.
—Padre Francisco: nem V., nem Roma, nem a fome, nem as ameaças são
suficientes para apartar-me do amor que ha em Cristo Jesus.
—Nesse caso, guerra e guerra sem treguas.
O padre saiu furioso da loja, e Julião, elevando os olhos ao céu,
exclamou:
—«Julga, Senhor, aos que me fazem dano, expugna aos que me combatem».
(Sal. 34: 1).
Emquanto isto sucedia, dialogavam assim Antonia e sua mãe na carpinteria:
—Sim—dizia Brigida,—escreve a teu pae, contando-lhe os apuros do nosso
amigo, e que imediatamente nos mande dinheiro.
—Quanto lhe peço?
—Não sei; porém explica-lhe o caso, e ele poderá calcular quanto é
preciso.
Antonia começou a escrever, e, depois dalguns instantes, leu a sua mãe a
seguinte carta:
«Madrid...
«Querido pae, muito me alegrarei que ao receber esta esteja de
saude; nós estamos boas.
«Escrevemos-lhe para referir-lhe uma coisa que muito o
entristecerá. Julião, o nosso amigo, deixa a loja, por manejos
dos seus inimigos, que quasi o reduziram á miseria.
«Deixaremos o nosso amigo sem auxilio?
«Não. Espero que meu pae atenderá aos rogos de sua esposa e
filha.
«Esperamos que aproveitará a ocasião de fazer alguma coisa por
amor de Jesus, tendo em conta que «Deus ama aquele que dá com
alegria».
«Sem mais, receba o carinho destas que o amam
_Brigida e Antonia_.
P. S.—Lembre-se daquilo que Dôres fez por mim quando estive
doente, e de que os desgostos que isso lhe ocasionou, e aquilo
que agora está sofrendo, tudo isso é consequencia do que
fez por mim. Os nossos amigos perdem-se se de pronto não os
socorremos».
—Bem, bem, filha—exclamou Brigida ao ouvir a leitura da carta;—escreves
melhor do que um ministro. Anda, vae deitar a carta no correio.
CAPITULO XV
Já começa!...
No dia seguinte ao dos acontecimentos referidos no capitulo anterior, os
tranzeuntes da Rua dos Embaixadores, ao passarem por certa casa, poderam
ler—JULIÃO, VIDRACEIRO, CHUMBEIRO, CHOCOLATEIRO—e colocado sobre a porta
um papelinho escrito pelo porteiro da casa, em pessima ortografia, com os
seguintes dizeres: «_Aluga-se esta loja; o porteiro tem as chaves e dirá
as condições_».
Sim, Julião tinha deixado a loja por não poder pagar o aluguer, e agora
vive na agua-furtada n.º 12, da mesma casa.
Como é costume entre amigos mostrar a casa em que vivem, Julião o faz a
todos os que se interessam na sua historia.
Depois de se subirem cento e quinze degraus, chega-se a uma galeria, ou,
melhor, a um corredor, em que fica a morada de Julião.
Consta de tres compartimentos—sala, cosinha e alcova.
Agora que estamos dentro da casa, ouçamos o que dizem o nosso amigo e sua
mulher.
—Crê-me—dizia Julião,—o Senhor tirou-nos a loja, fazendo-nos vir viver
para aqui. Por alguma coisa foi que o Senhor fez isto.
—E para que o fez Ele?
—Olha, Dôres, não crês que neste corredor se pode anunciar o Evangelho a
mais de duzentas pessoas?
—Creio, Julião, que não terás necessidade de chamar o ministro para isso.
—Não, realmente. Porque hei de ceder a outro as bençãos que eu posso
receber? Por certo que seria uma loucura.
—E que tencionas fazer?
—Uma coisa muito simples. Hoje mesmo convidas as visinhas para uma
reunião religiosa. Dizes que todo aquele que deseje ouvir as novas do
Evangelho pode vir aqui esta noite, ás oito horas em ponto.
—Bem, farei o que tu desejas, e que o Senhor nos abençôe.
Julião saiu de casa, e em poucos momentos Dôres estendia no corredor
algumas peças de roupa que tinha lavado.
—Bons dias, visinha—disse-lhe uma mulher do corredor em frente.
—Bons dias, senhora—lhe respondeu Dôres.
Dentro de si sentia uma coisa que lhe dizia: «Começa a trabalhar para
Jesus.»
—Está hoje um bonito dia!—disse a visinha.
—Realmente está um dia muito bonito. Veja que formoso está o céu! Quem
seria capaz de fazer um céu similhante a este? E ainda dizem que não ha
Deus!
—E quem se atreve a sustentar similhante disparate?
—Não faltam, infelizmente, pessoas que o façam; pessoas que não teem
religião nem consciencia.
—A proposito, Dôres, permite-me que entre em sua casa para lhe perguntar
umas coisas?
—Com muito gosto.
—Vou ver se fervem as panelas que deixei ao lume, e depois irei ter
comsigo.
Quando Dôres se viu sósinha, exclamou:
—Senhor, dá-me forças e aumenta a minha fé, se queres que faça alguma
coisa por Ti. Por amor de Jesus, concede-me o Teu santo Espirito. Amen.
—Posso entrar?—disse uma voz do lado de fóra.
—Entre—respondeu Dôres.
No mesmo momento entrou a mulher que tinha falado com Dôres.
Esta ofereceu-lhe uma cadeira, e ela, depois de tomar assento, disse-lhe:
—Então porque deixou a loja?
—Que quer a visinha—respondeu Dôres.—Caprichos da sorte, ou, melhor,
azares da vida.
—A mim disseram-me que foi por vocemecês serem protestantes que os
despediram da casa.
—Pois não é verdade: fomos nós que nos despedimos, porque o meu esposo
perdeu de repente o dinheiro que tinha, e bem assim a freguezia, por
causa das suas idéas religiosas.
—Porém, Dôres, perdôe-me que lhe diga. Eu não entendo uma palavra ácerca
das suas crenças religiosas. A mim disseram-me que os protestantes não
crêem em Deus, nem na Virgem, nem nos santos. Quando morreu sua mãe, ouvi
tudo o que o padre disse, e pareceu-me que no que dizia tinha razão;
assisti ao enterro, e fiquei impressionada: mas porque é que todos são
contra vocemecês?
—Por que razão foram todos contra Jesus? Eis aqui a causa: os que crêem
em Jesus são perseguidos porque o seu Divino Mestre o foi.
—Porém vocemecês crêem em Deus e na Santissima Trindade?
—Sim, senhora; nós cremos em tudo isso, e mais ainda cremos em tudo o que
está escrito na Biblia.