Entretanto o ministro disse-lhes como o haviam informado do sucedido e

aconselhou prudencia, entrando depois na casa mortuaria, seguido dum

grande numero de pessoas.

Um silencio profundo, sómente interrompido pelos soluços entrecortados

dalgumas pessoas, reinava na sala onde estava depositado o cadaver de

Josefa.

Junto á janela do pateo estava apinhado um grande numero de pessoas,

tanto visinhas como estranhas, e diz-se que o proprio Padre Francisco,

que morava no andar superior, estava entre o povo, vestido á secular, com

o fim de perturbar a ordem. O corredor e o portal estavam atulhados de

pessoas.

Depois que o ministro proferiu algumas palavras, disse:—Agora vamos

celebrar um culto ao Senhor, e para isso vamos pedir-Lhe o Seu auxilio.

Todos os circunstantes se descobriram, e a voz do ministro se elevou em

tom solene, dizendo:

«—Em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo. _Amen._

—Cantemos o hino seguinte:

Tu és a minha esperança,

Achou minha alma em Ti

A paz e segurança

Que carecia aqui.

Desde que a Ti conheço,

Desde que Te abracei,

Receios mais não sinto

Nem tremo mais da lei.

A espada da justiça

Suspensa sobre mim,

Foi já descarregada,

Meu Salvador, em Ti.

O golpe que levaste

Foi só em meu logar,

Porquanto, assim quizeste

Por fiador ficar.

Ah! quanto amor sentias,

Meu Salvador, Jesus!

Quando por mim morreste

Na ensanguentada cruz.

E quanto não me cumpre

A vida consagrar

A Ti, que Te ofereceste

Minha alma resgatar.

Terminado o hino, que produziu opiniões desencontradas nas pessoas

presentes, o ministro, abrindo a sua Biblia, disse:

Escutae, meus irmãos e amigos, o que está escrito na Palavra de Deus, na

primeira Epistola de S. Paulo aos Corintios, cap. 15.

* * * * *

Quando o ministro terminou a leitura, disse:

Meditemos agora sobre o versiculo 22 do capitulo que acabamos de ler.

Amados irmãos e amigos: Deus, por um ato da Sua infinita misericordia,

reuniu-nos hoje aqui em redor dum cadaver para obrigar-nos a pensar no

que somos e quando e como morreremos. Com relação ao primeiro ponto, o

que é a vida do homem, as Escrituras nos dizem que é vaidade, e que os

seus dias passam como a sombra. No livro do Eclesiastes lemos: «Quem sabe

qual é o bem do homem na vida? Todos os seus dias são vaidade, os quaes

passam como sombra.» Agora na presença deste cadaver, que é um dos muitos

testemunhos sagrados que existem, o homem perguntará: «Nasci eu tão

sómente para sofrer e morrer?» Não, certamente. O homem não foi creado

para sofrer e morrer, o homem foi creado para gozar e ser feliz; porém o

homem, por um ato do seu livre arbitrio, atraiu a morte sobre si e sobre

toda a terra.

Pouco a pouco foram-se todos retirando, e muitos daqueles que ali tinham

ido por curiosidade ou por espirito de critica sairam, dizendo o que

disse a mulher que foi ver se descobria no caixão o presunto, o vinho e

os pães:

—Não se pode dizer nada em presença disto. O que é certo é que isto é

mais serio e ha nisto mais verdade do que em tudo o que vêmos na nossa

egreja. Desde hoje, ainda que eu o não seja, defenderei os protestantes,

e ámanhã... ámanhã, quem sabe?...

O enterro de Josefa, ou, antes, a sua morte, foi um acontecimento para os

visinhos da casa que já conhecemos.

[Illustration: «Então como vae o trabalho?»

Pag. 100.]

Faziam-se os mais singulares comentarios; e na visinhança falava-se

animadamente disto. Para podermos apreciar a sensação que aquele ato

causou, ouçamos alguma coisa do que se diz.

Estamos no corredor do terceiro andar da mesma casa em que morava Julião.

—Diga-me cá, senhora Francisca. Esteve hontem no enterro _protestante_?

—Sim, senhora Amalia, estive, e creia que o que diziam do pão e do vinho

é mentira.

—Como?

—É o que lhe digo, e, se não se fia em mim, pergunte-o á senhora Vitoria,

que foi comigo.

—Filha—disse Vitoria,—o que lhe sei dizer é que aquilo é mais serio do

que o que imaginei, e que nada se parece com os nossos enterros. No

enterro dos protestantes ha mais caridade do que nos nossos.

—Pode muito bem ser—replicou Amalia—que os padres falem mal dessa

religião porque não lhes convenha que ela se estabeleça entre nós.

—Senhoras—disse Vitoria,—proponho que vamos á egreja protestante para

vermos o que aquilo é.

—Sim, sim, iremos.

—Porém, amigas—disse Francisca,—não teem observado que caracter tão bom é

o da familia de Julião?

—Sim, sim—respondeu Vitoria,—não negam um favor a ninguem. Olhe, quando

meu marido caiu enfermo, Dôres foi a primeira que veiu perguntar se

era preciso alguma coisa, e ao sair deixou-me um duro, que eu lhe quiz

restituir, e que ela nunca quiz receber. São muito caritativos.

Assim continuam falando; porém deixemol-as para irmos ouvir dois amigos

nossos.

—Creio, querida Brigida, que já estarás convencida, e que se antes

julgava mal era porque me haviam dito o contrario do que tenho visto.

—Minha mãe, não resista ás verdades do Evangelho. Viu como morreu a mãe

de Dôres. Que fé não manifestou até ao seu ultimo suspiro! E, como vê,

ela não se confessou nem comungou, e no emtanto recebeu a morte com a

alegria que todos presenciámos.

—É verdade, é verdade!

—Creia-me, minha mãe, no que lhe digo. Venha comnosco á capela, e verá

como ali se fala de Jesus. Tenha fé para ter vida em sua alma. Jesus é

tudo, e sem Jesus não ha nada. Jesus é amor, como Seu Pae é amor; e se

o amor do Pae se demonstra duma maneira tão manifesta, em dar Seu Filho

para morrer por nós, não foi menor o amor de Jesus em dar-Se a Si por nós.

—Bom, bom; irei á capela, e verei. A verdade é que tenho visto coisas que

me teem agradado.

Taes eram as disposições em que esta familia se achava. Em casa de Julião

reinava a mais completa tranquilidade. A loja foi aberta no outro dia

á hora do costume, e tudo voltou a seguir o seu curso ordinario. A fé

daqueles dois esposos havia resistido áquela durissima prova.

CAPITULO XII

Intrigas do confessionario

Passado um mez depois da morte de Josefa, estava Julião uma manhã

trabalhando á sua banca, quando uma joven se apresentou na loja, dizendo:

—Senhor mestre, meu amo manda dizer que venha comigo para pôr uns vidros

que se quebraram.

Julião olhou com bastante surpreza para a rapariga, e por fim

respondeu-lhe:

—Diga a seu amo que dentro dalguns minutos lá irei.

A rapariga saiu, e Julião dirigiu-se imediatamente á sala onde estava sua

mulher, para lhe dizer:

—Não sabes, Dôres, quem me chamou para me dar trabalho?

—Se tu ainda mo não disseste...

—Pois acaba de estar na loja a creada do P.ᵉ Francisco, que me mandou

chamar para lhe ir pôr uns vidros. Que julgas disto?

Dôres ficou um tanto pensativa, e depois disse:

—Penso que esse homem te chama para fazer-te mal.

—A mim?

—Sim, a ti, ou, antes, a nós.

—Confio em Deus, e isso me basta.

Julião saiu, e dentro de poucos momentos estava no gabinete do sacerdote.

Depois de se saudarem mutuamente, o P.ᵉ Francisco disse:

—Certamente que ha de estranhar que eu o mandasse chamar, não é verdade?

—Com franqueza—respondeu Julião,—nem estranho, nem deixo de estranhar.

—É que eu estou convencido de que o senhor é um homem de bem, mas um

pouco exaltado em assuntos de religião; um dia virá, porém, em que caia

em si e se arrependa; finalmente, eu rogarei á Virgem para que assim

suceda. Agora cumpra a missão para que o mandei cá chamar.

—Sim, senhor, tomarei a medida e irei em seguida colocar os vidros.

Julião saiu; e o padre, passeando pela casa, dizia, falando comsigo mesmo:

—Já está lançada a rêde, e o peixe cairá nas suas malhas.

Julião entrou em seguida, e, emquanto punha os vidros, disse-lhe o P.ᵉ

Francisco:

—Tome lá um cigarro, sr. Julião.

Julião aceitou o cigarro que o padre lhe ofereceu, e em seguida foi

ocupar-se do seu serviço.

Passados alguns momentos, o P.ᵉ Francisco disse:

—Então, como vae o trabalho?

—Bem, graças a Deus.

O sacerdote não sabia como principiar a conversa que tinha por fim

averiguar quem eram os que com Julião frequentavam a capela evangelica.

Assim é que, com uma refinada sagacidade, disse:

—Eu não vejo um grande movimento de obras em Madrid. Não ha construções;

quem tem dinheiro guarda-o, e isso não é bom sinal.

—Pois agora vae ter logar um grande numero de edificações, e eu espero

tomar de arrematação tudo o que diz respeito á minha arte, num novo

bairro que se vae abrir.

Os olhos do padre faiscaram raios de alegria, porém dissimulou quanto

pôde, e, com ares de indiferença, disse ao vidraceiro:

—E quem é o capitalista que vae empreender essas construções?

—O conde de X...—respondeu Julião, emquanto colocava um vidro no caixilho

da janela.

O padre saltou de alegria. Se Julião o tivesse visto, desde logo teria

suspeitado de alguma coisa; porém, felizmente para o sacerdote, e

infelizmente para ele, estava de costas, ocupado no seu trabalho, e não

pôde notar coisa nenhuma.

—Isso é bom, mestre, isso é bom—disse o P.ᵉ Francisco—ter bons freguezes;

agora o que é preciso é não os deixar fugir.

—É casa que paga muito bem aos operarios e artistas a quem dá trabalho.

—Diga-me agora: no caso de que seu filho viva, que modo de vida pretende

dar-lhe?

—Ele é ainda muito pequenino para falarmos disso; porém, sem embargo, o

que eu lhe afirmo é que não violentarei a vocação de meu filho; ofereci-o

ao Senhor, e teria muito gosto em poder vêl-o um ministro d’Ele.

—Porém, homem, se me permite, dir-lhe-hei que não pode haver um fiel

ministro do Senhor fóra da egreja romana.

—Perdõe, sr. P.ᵉ Francisco; porém, se um individuo prega o Evangelho com

fidelidade, esse tal é um fiel ministro do Senhor.

—Bem, não nos metamos em discussão; porém creia-me, e é só isso o que lhe

digo, que se não muda de idéas a mão de Deus retirar-se-ha de si.

—Pois eu creio exactamente o contrario, porque Deus me ama.

Nisto Julião terminou o trabalho da colocação dos vidros, e em seguida

despediu-se do P.ᵉ Francisco, que lhe disse que lhe mandaria, dahi a

momentos, a importancia da obra.

Quando Julião saiu, o P.ᵉ Francisco exclamou:

—Anda, imbecil; vendeste-te a ti mesmo. Então queres que essa creança

cresça, para que ámanhã seja uma vibora para os catolicos?! Antes disso

morrerás tu de fome! A guerra está declarada... Ou eu te reduzo á

miseria, ou tu renegas o protestantismo. A senhora do conde de X... é

confessada dum amigo meu, e já podes, miseravel vidraceiro, contar com a

freguezia perdida. Agora mais do que nunca, vou ser seu amigo, e veremos.

Entretanto, Julião chegou ao portal onde se encontrou com mestre João, o

qual disse ao vêl-o:

—Olá, sr. João, como vamos?

—Eu—respondeu o carpinteiro—vou bem, graças a Deus. Porém donde vem o

visinho?

—Aposto que não atina.

—Eu não.

—Pois venho do andar de cima, de pôr uns vidros.

—De casa do P.ᵉ Francisco?—perguntou mestre João, surpreendido.

—Sim, senhor, de casa do P.ᵉ Francisco mesmo. Mandou-me chamar, subi e

portou-se comigo muito bem.

—Pois sabe você o que vejo em tudo isso? É que o padre trama alguma coisa

contra si.

—Isso mesmo me disse Dôres; porém não deixa de ser um mau pensamento,

tanto da sua parte como da parte dela. Não abrigue em si maus

pensamentos, sr. João, pois já sabe que Jesus disse: «Não julgueis para

não serdes julgados, pois que com a medida com que medirdes vos medirão a

vós tambem».

—É verdade isso, amigo; porém tambem deve saber que no mesmo capitulo

Jesus disse: «Pelos frutos os conhecereis». Já vou aprendendo alguma

coisa da Biblia.

—Alegro-me muito com isso, sr. João, alegro-me muito. Até logo.

Ambos os visinhos se separaram, indo cada qual para sua casa.

* * * * *

Estamos no interior da egreja de ..., em Madrid.

Á direita da porta da entrada ha um canto escuro, e nele uma especie de

guarita, mais ou menos artistica, que é aquilo a que a egreja romana

chama um _confessionario_.

Ali dentro senta-se uma personagem mais sombria ainda; junto á grade do

confessionario está uma senhora elegantemente vestida. Não podemos saber

se é nova ou velha, porque tem o rosto coberto com um véu negro.

Aproximemo-nos silenciosamente, e, ainda que nos alcunhem de indiscretos,

escutemos a confissão desta senhora, a qual pode interessar-nos alguma

coisa. Neste momento fala o padre.

—Quanto tempo tem V. Ex.ª deixado passar desde que se confessou pela

ultima vez?

—Quinze dias, meu padre—respondeu a penitente;—mas não me dê esse

tratamento, peço-lhe.

—Quinze dias! Porque esteve todo esse tempo sem vir ao tribunal da

penitencia?

—Meu padre, não tenho podido, porque... nos foi necessario, umas vezes,

receber em nossa casa, outras ir ao Paço, e ainda outras ocuparmo-nos de

coisas similhantes.

—Isso não é desculpa, mas, emfim, sente-se arrependida de ter deixado

decorrer todo esse tempo sem vir lavar a sua alma?

—Sinto-me, sim, senhor.

—Passemos a outro assunto. Cumpriu a ultima penitencia?

—Sim, padre, e acrescentei tres missas no altar de S. Sebastião.

—A Virgem lhe recompensará essa acção.

—Ah, meu padre, tenho tanto de que acusar-me! Sou uma tão grande pecadora!

—Animo, filha, animo! Entregue todos os seus cuidados ao confessor, que

acha sempre disposto a perdoar, pois que lhe foi conferido esse poder por

Jesus Cristo, quando Este disse: _Et quodcumque ligaveris super terram

erit ligatum est in coelis, et quodcumque solveris super terram, erit

solutum est in coelis._ Comecemos agora a confissão pelos mandamentos.

—Acuso-me de não amar a Deus, pois que, se O amasse, não O teria ofendido.

—Adeante.

—Posto que não tenha muito o costume de jurar, creio que o fiz.

—Quantas vezes por mez?

—Não me lembro, meu padre.

—Quantas vezes por dia?

—Não posso tambem dizer.

—Quantas vezes por hora, ao menos?

—Não sei, já disse.

—Em resumo, não sabe coisa alguma... É natural. Tanto tempo sem se

confessar! E com respeito ao terceiro mandamento, o de guardar os dias

santificados?[2]

—Acuso-me de, na quarta-feira da semana passada, que era dia de festa,

não ter ido á missa.

O padre fez um movimento brusco, e exclamou numa voz a custo reprimida:

—Isso é demais, senhora condessa. Não posso tolerar que caia em

similhantes faltas, e se V. Ex.ª...

—Meu padre—murmurou, aterrada, a dama,—não me dê esse tratamento. Quando

me trata por condessa, fico a tremer, porque é para mim um sinal de que

está zangado.

—E estou-o, com efeito, minha senhora; não assistir á missa em dia de

preceito é uma coisa horrivel. Não posso perdoar-lhe. Chore, chore, mas

lembre-se de que o que é necessario são atos e não lagrimas.

—Imponha-me a penitencia que quizer; estou disposta a cumpril-a; por

minha parte mandarei hoje dizer duas missas no altar das almas.

—Bem, bem, é preciso emendar-se, porque o diabo, oh! o diabo é muito

sagaz, e, como sabe que a senhora condessa é tão boa, quer distrail-a do

cumprimento dos seus deveres, e isso é obra de Satanaz. Vá, continue.

—O quarto, honrar pae e mãe; mando dizer muitas e muitas missas por alma

de meus paes, e assim os honro; amo e respeito os _ministros do altar_.

—Tem rezado pelo nosso pae espiritual, o Sumo Pontifice?

—Sim, padre; tenho rogado a Deus para que aumente os seus dias e a sua

_infalibilidade_, para bem da egreja.

—Isso é muito louvavel, minha filha, e a Virgem vê com agrado tudo o que

fazemos.

Passemos ao quinto mandamento.

—Disso não tenho que acusar-me.

Não é estranho que a condessa de X... não sentisse remorsos na sua

consciencia em face deste mandamento; pois ela, como a maior parte dos

catolicos, ignorava que não mata o seu similhante só aquele que dá um

tiro ou uma punhalada, cometendo peor acção aquele que mata a honra do

individuo; pois que a calunia é peor do que um punhal.

Porém continuemos escutando a confissão, pois que, absorvidos nas nossas

reflexões, deixámos de ouvir um mandamento. O padre diz:

—Tem alguma coisa de que acusar-se com respeito ao setimo mandamento?

—Não, padre; pelo menos que eu me lembre.

—E com respeito ao oitavo?

—Padre, algumas vezes tenho mentido.

—Quantas?

—Não me lembro, padre.

—Porém, mentiras graves ou leves?

—Não, senhor; não são graves.

—Nada diremos do nono; porém o que me diz ácerca do decimo mandamento?

—Digo, padre, que desejo servir a Deus e amal-O sobre todas as coisas.

—Deseja servir e amar a Deus?

—Sim, padre.

—Pois essa é a tarefa mais dificil e, portanto, a mais meritoria nestes

tempos. A heresia tem invadido tudo; hoje diz-se mal de tudo; põe-se em

duvida o poder da Virgem, e fazem-se esforços inauditos para destruir a

religião que recebemos dos nossos paes.

A condessa deu um suspiro.

—Sim—continuou o padre,—é preciso desagravar a tão fortemente agravada

Virgem Maria, e os maiores inimigos que tem a religião são os

protestantes.

—E quem são essas pessoas?

—É uma canalha, senhora condessa, uma canalha; inimiga do clero e da

nobreza... Porém são de uma sagacidade pasmosa, metem-se em toda a parte

e, como pertencem ás mais infimas camadas da sociedade, necessitam de

trabalhar para comer, e não se lhes importa comer o pão daqueles proprios

a quem odeiam... Oh! aquelas pessoas que teem operarios devem ser muito

cautelosas em saberem a gente que empregam no seu serviço!

—Hoje mesmo falarei ao administrador da minha casa, e, se houver lá algum

operario nessas condições, será imediatamente despedido.

—Pois era ahi que eu queria chegar, sr.ª condessa. V. ex.ª tem muito

perto de sua casa um protestante.

—Jesus! Maria Santissima!

—Sim, senhora, é o mestre vidraceiro a quem o sr. conde vae dar trabalho

no novo bairro que projeta mandar edificar. Certamente que todo o

dinheiro que ganha o empregará contra os padres, e em favor dos da sua

seita.

—O vidraceiro é protestante!

—Sim, senhora; tão protestante como o foi sua mãe, a qual morreu sem se

confessar, exatamente como se fosse um cão.

—Pois nas poucas vezes que o vi pareceu-me bom homem. O outro dia vi-o

falar com os creados, e chamou-me a atenção o interesse com que o

escutavam.

—Provavelmente estaria prégando as suas perversas doutrinas.

—E que devo fazer?

O confessor figurou uma grande surpreza e exclamou:

—Pergunta v. ex.ª o que deve fazer? E v. ex. diz que serve a Deus?

—Padre, padre—interrompeu a condessa, chorando copiosamente,—não me

atormente; perdão, senhor, perdão... Aconselhe-me o que devo fazer...

—É de todo o ponto preciso que v. exª e o sr. conde chamem esse homem, e,

se ele não abandonar o seu erro, devem despedil-o e retirarem-lhe toda a

protecção.

—Porém, padre, ele pode dizer que não é protestante ou que deixa de o

ser; e nesse caso que fazer?

O padre ficou pensativo, e depois respondeu:

—Em qualquer dos casos, v. ex.ª não o despede até que eu a avise; porém,

se teima em confessar as suas idéas e é pertinaz, então rua com ele no

mesmo instante.

—Assim o farei, meu padre; porém permite-me uma pergunta?

—Sim, senhora.

—Como soube isso do vidraceiro?

—Senhora, nós, os ministros da religião, velamos pelas almas que nos

estão confiadas. Vamos, porém, adeante. Tem mais alguns pecados de que

acusar-se?

—Sim, mas não me lembro deles.

—Bom; eu perdôo-lhe todos os pecados, tanto os confessados como os

esquecidos, _sub conditione_.

—Como?

—Com a condição de que ha de fazer o que lhe tenho dito.

—Sim, padre, sim.

—Pois agora vou dar-lhe a seguinte penitencia: jejuar durante sete

dias, rezando em cada dia, á hora a que devia almoçar, um rosario, tres

salvé-rainhas e tres crédos; além disto, deve ouvir sete missas, sendo

quatro pagas por v. ex.ª, em desagravo de Maria Santissima e pelas

bemditas almas do purgatorio; isto como justa expiação de ter ficado sem

missa no dia preceituado pela egreja como dia de guarda.

—Agora, pergunto-lhe: sabe de alguma esmola que eu possa fazer?

—As freiras de A. precisam dum sino maior do que aquele que teem.

—Pois bem, eu me encarregarei disso. Far-lhes-hei presente dum sino cujo

som seja claro e se ouça distintamente ao longe.

—Bem, filha, muito bem; isso é muito meritorio, pois que o sino é a voz

de Deus. (Pobres visinhos dos arredores do convento!).

—Agora—continuou o padre,—prepare-se para eu a absolver.

A condessa curvou-se, dizendo o acto de contrição, emquanto que o

sacerdote pronunciava algumas palavras em latim. Depois deu a mão

a beijar á condessa, e saiu do confessionario, emquanto que ela se

levantava pensando na penitencia que tinha de cumprir.

Agora tres perguntas e tres respostas:

Quem perdeu nessa confissão?

O nosso amigo Julião e os visinhos do convento de A.

Quem ganhou?

As freiras do convento de A. e outros.

É esta a confissão que Nosso Senhor Jesus Cristo e os apostolos

ordenaram, em Seu nome?

Os leitores que respondam.

CAPITULO XIII

Frutos do confessionario

Julião estava um dia com sua mulher, com a mulher do carpinteiro e com

Antonia, celebrando um culto de familia.

O texto que estudavam era aquele que se acha escrito nos Proverbios,

que diz: A maldição de Jehovah está sobre a casa do impio, porém Ele

abençoará a morada dos justos.

Julião dizia:

—Deus não pode faltar ás Suas promessas; portanto, confiemos na Sua

divina misericordia, que Ele certamente não poderá deixar de nos

socorrer. Se o Senhor nos causa hoje aflições, aceitemol-as como uma

benção dele; se nos manda alegrias, recebamol-as egualmente, porque dele

dimanam.

Depois que oraram, Julião veiu para a loja e principiou o seu trabalho.

Cerca das nove horas da manhã, apresentou-se na loja um individuo que

saudou afavelmente o mestre, dizendo-lhe em seguida:

—Mestre, o sr. conde mandou-o chamar.

Julião foi imediatamente.

No momento em que Julião foi introduzido na sala, o conde, recostado numa

cadeira, fumava tranquilamente, emquanto que a condessa estava sentada

numa outra, entretida a folhear um _album_.

—O mestre vidraceiro—disse o administrador, inclinando-se na presença dos

seus amos.

Julião saudou-os com um movimento de cabeça. O conde falou assim:

—Vocemecê foi sempre quem fez o trabalho cá da casa; porém, agora...

agora..., finalmente, agora a sr.ª condessa lhe dirá o que tem a dizer;

eu não posso ocupar-me de nada; tenho muito em que pensar; fala tu,

condessa.

—Vocemecê é que é o vidraceiro da casa?

—Sim, sr.ª condessa.

—Pois amigo, eu não posso, ainda que me pese, deixar de lhe dizer que não

estamos satisfeitos comsigo.

—Então em que ofendi eu os senhores condes?—perguntou Julião,

surpreendido.

—Quero que todos os nossos operarios tenham uma irrepreensivel conduta

religiosa, que cumpram fielmente todos os preceitos da egreja; do

contrario, serão despedidos, e não poderão contar comnosco para coisa

alguma. Diga-me uma coisa: costuma ouvir missa?

—Contando com a benevolencia de V. Ex.ª, atrevo-me a dizer que isto tem

toda a aparencia de uma confissão, e desde já declaro que só a Deus é que

me confesso. V. Ex.ª pergunta-me se vou á missa; mas eu pergunto, por

minha vez: «Para que hei de assistir á missa, se não compreendo o que o

padre diz?»

—Não estou para discussões: disseram-me que vocemecê era protestante, e

eu não quero negocios com essa gente.

—Sou cristão, minha senhora.

—Nesse caso, não tenho nada a dizer. Mas que vem a ser isso de não

entender a missa?

—E V. Ex.ª entende-a, porventura?

—Entendo.

—Pois pela minha parte, como desconheço a lingua de que se faz uso na

missa, nada daquilo tem significação alguma. Peço licença para lhe

observar uma coisa. S. Paulo, escrevendo aos Corintios, diz: «Dou graças

a Deus, que falo todas as linguas que vós falaes, mas eu antes quero

falar na egreja cinco palavras da minha inteligencia, para instruir

tambem os outros, do que dez mil palavras em lingua estranha».

—Nós não temos nada com o que S. Paulo disse ou deixou de dizer; os bons

catolicos devem guiar-se por aquilo que a egreja estabeleceu, e seguirem

o conselho dos seus confessores. A missa é o sacrificio de Cristo na

cruz, e os fieis podem, lá no seu intimo, aplical-a a este ou áquele fim.

—Senhora condessa, V. Ex.ª está num lamentavel erro. O sacrificio de

Cristo não se pode repetir.

—Não trato agora dessas questões, e o que desejo é que me diga

claramente: é catolico ou protestante? crê na Virgem? crê no Papa?

—Creio em Jesus Cristo, e só nele confio; se isto é ser protestante,

então sou-o, de facto.

—Ouves, conde?

—Ouço—respondeu este, e acrescentou:—De hoje em deante não quero mais

negocios comsigo, sr. Julião. Queira retirar-se, para não mais pôr os pés

nesta casa.

—Senhor conde, estou persuadido de que cumpri sempre com a minha

obrigação, e, se o ser cristão obsta a que eu entre em sua casa, não me

convem de fórma alguma estar aqui. Logo que terminar o trabalho que tenho

entre mãos, deixará de os incomodar a minha presença.

—Não, não—exclamou a condessa;—retire-se quanto antes.

Julião e a Biblia · 第 5 / 12 段