momento, estaria preparada para se apresentar diante d’Ele?
—Oh! sim, senhor. Eu sou uma grande pecadora, porém sei que o sangue de
Jesus purifica de todo o pecado. Uma coisa me aflige, sr. ministro, e é o
saber que tenho sido ingrata desprezando o amor e a graça de Deus.
—Senhora, o perdão de Deus não tem limites, e Jesus morreu no Calvario,
dando a Sua vida pelos proprios ingratos. Agora o que é preciso é que
confie no que Ele disse: «Não temas; crê sómente, e serás salva».
—Assim o faço, senhor.
—Pois então esteja certa de que aquilo que agora sofre não é mais do que
a preparação para uma coisa melhor.
—Assim o creio; morrer é viver, porque é passar para uma outra vida em
que não haverá mais morte.
—Se é do seu agrado, vou ler-lhe alguns versiculos da Palavra de Deus.
—Sim, sim.
O ministro tirou do bolso uma Biblia, e, folheando-a, disse.
—Leiamos o cap. 11 do Evangelho segundo S. João, desde o versiculo 1 até
ao 45.
Todos estavam suspensos dos labios do bom servo de Deus.
As cinco pessoas que estavam presentes pareciam nem sequer respirar. A
enferma, essa parecia não sentir as dores que a torturavam; seguia até o
movimento dos labios do ministro.
Era evidente que o Espirito Santo estava naquela alma.
O ministro, quando acabou de ler, disse:
—Meus amigos, e minha irmã enferma, pouco posso acrescentar áquilo que
acabei de ler; sómente desejo que fixem a sua atenção, e especialmente
a querida irmã Josefa, nos versiculos 4 e 25; em que Jesus diz: «Esta
enfermidade não é para morte, mas para gloria de Deus, para que o
Filho de Deus seja glorificado por ela.» «Disse-lhe Jesus: Eu sou a
ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto,
viverá.» A estas palavras, o Senhor ressuscitou a Lazaro, precisamente
porque Jesus é a ressurreição e a vida. Nós estavamos mortos em nossos
delitos e pecados, porém veiu Jesus, que é a vida, e cada um que crê
n’Ele é um Lazaro levantado do sepulcro. Por essa mesma razão S. Paulo
exclama: «Onde está, ó morte, o teu aguilhão?... Graças sejam dadas a
Deus, que nos deu a vitoria por Nosso Senhor Jesus Cristo.»
—Ah!—exclamou a senhora Josefa—quanto bem derramou o senhor, com essas
palavras, na minha alma!
—Então demos graças a Deus.
Todos tomaram uma atitude reverente, e, ao cabo dalguns segundos,
ouviu-se a voz do ministro, que dizia:
«Oh! Senhor, nosso Deus! Tu dás a saude, e Tu dás a enfermidade. Tu dás a
morte, porém tambem depois da morte uma vida que nunca acabará. Senhor,
acabamos de escutar as palavras consoladoras de Teu Filho Jesus; concede,
Senhor, que elas dêem consolação á tua serva que está doente. Sara-a,
Senhor, abençôa-a, aumenta a sua fé em Jesus, e o amor para comtigo,
e, se fôr do Teu agrado chamal-a a Ti, prepara-a para isso. Ouve-nos,
Senhor, pelo amor de Jesus Cristo, _Amen_.
_Amen_—repetiram todos.
A enferma começou a delirar, em virtude da intensidade da febre.
Neste momento, Julião, inclinando-se para sua mãe, perguntou-lhe:
—Como está, minha mãe?
—Dentro em pouco não haverá para mim nem dôr, nem aflição, nem morte...
Tudo estará acabado... e eu com Jesus no céu, e Jesus comigo...
—Não falem com ela—disse o ministro;—está sob o dominio da febre.
Fez-se um profundo silencio, e depois ouviu-se a enferma, que com voz
debil dizia:
—Vejo um logar magnifico... ali ha um Cordeiro... vêdel-o? vêdel-o? É o
Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo.
A enferma, depois duma breve pausa, exclamou:
—Tenho sêde.
Dôres embebeu uma pequena esponja num liquido que tinha num copo, e
chegou-lha aos labios, chupando ela com avidez.
Seguiu-se outra pausa; o delirio aumentava, e tornou a ouvir-se a voz da
enferma:
—«A Jehovah chamei, estando em angustia, e Ele me respondeu...» «Jehovah,
ouve a minha oração e chegue o meu clamor á Tua presença...» «No dia
da minha angustia Te chamarei, porque Tu me respondes...» «Porque a
minha alma está cheia de males... e a minha existencia... proxima do
sepulcro...» «Agora, pois... nenhuma condenação ha... para os que estão
em Cristo Jesus.»
—Feliz delirio—exclamou Julião em voz baixa;—ele te faz gozar
antecipadamente da presença de Jesus, teu bemdito Salvador!
Dôres e Antonia choravam em silencio.
—Senhor!—disse com voz debil a enferma, dirigindo-se ao ministro:—Sinto
que morro.
—Bemaventurados—disse o ministro—os que morrem no Senhor.
—Eu sou uma grande pecadora.
—Pois precisamente porque todos somos grandes pecadores é que morremos...
O estipendio do pecado é a morte... Porém o bom Deus, que não quer a
morte do pecador, mas sim que ele se arrependa e viva, eis que á raiz do
pecado promete um perdão, dizendo: «Se o Meu povo se humilhar, e orar e
procurar o Meu rosto, e se converter dos seus maus caminhos, então Eu o
ouvirei desde os céus e perdoarei os seus pecados.» «Se os vossos pecados
fôrem da côr da escarlata, ficarão brancos como a neve; se fôrem roxos
como o carmezim, ficarão como a branca lã.»
—Eu tenho sido muito pecadora—disse Josefa, profundamente comovida.
—Jesus Cristo—continuou o ministro—veiu salvar os pecadores. Ele mesmo
disse: «Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.»
Vou ler o capitulo 5 da Epistola de S. Paulo aos Romanos.
O ministro leu-o, e tal impressão produziu, tanto nos circunstantes como
na enferma, que era profundissimo o silencio que reinava ali.
Evidentemente o Espirito do Senhor estava ali. Os textos que mais
chamaram a atenção de Josefa foram: «Justificados, pois, pela fé, temos
paz com Deus por meio de Jesus Cristo, porque, sendo ainda pecadores,
morreu Cristo por nós; logo muito mais agora, que somos justificados pelo
Seu sangue, seremos salvos por Ele da ira; porque, se, sendo inimigos,
fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, muito mais, estando
reconciliados, seremos salvos por Sua vida.»
—Oh!—exclamou a enferma—confio em Ti, bom Jesus, confio em Ti. Tu me
salvas, Tu me redimiste para Deus com o Teu sangue.
—Deseja que oremos?—perguntou o ministro.
—Sim, sim, senhor, oremos.
O ministro levantou-se da cadeira, no que foi imitado pelas pessoas
presentes, ficando os visinhos bastante surpreendidos, por ser a primeira
vez que presenciavam semelhante coisa.
—Oh Senhor!—exclamou o ministro com voz solene.—Perante um espirito
prestes a abandonar a materia, perante um corpo que vae descançar, porém
cuja alma vae viver, não podemos deixar de louvar e bemdizer o Teu nome.
Senhor, ainda que Tu não tenhas necessidade disso, nós vamos recordar-Te
as Tuas promessas, pois que nisso encontramos grande consolação. Tu
enviaste Jesus Cristo ao mundo, para que todo aquele que n’Ele crê não
pereça mas tenha a vida eterna. Oh bom Deus, cumpre esta promessa na
pessoa enferma por quem Te suplicamos. Teu Filho Jesus disse: «Eu sou a
ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto,
viverá». Senhor, infunde a fé de Jesus Cristo na enferma por quem Te
rogamos. Tu prometeste arremessar para as profundidades do mar os pecados
daqueles que confiam em Jesus; que isto seja assim para comnosco, e em
especial para com a nossa irmã enferma. Dá-lhe fé, para que ela tenha
animo para o tranze por que está passando; saude, se lhe convem, e
sobretudo uma abundante efusão do Teu Santo Espirito. Oh! Deus, pelos
merecimentos de Jesus, concede-nos isto... _Amen._
—_Amen_—repetiram todas as pessoas ali presentes, verdadeiramente
impressionadas.
—Senhor—exclamou Josefa, em voz fraca,—tenho a certeza de que Jesus está
á cabeceira do meu leito, com os braços abertos, aguardando a minha alma.
—Sim, minha irmã—disse o ministro.—Jesus está aguardando-a para a
conduzir á presença de Seu Pae, para receber a corôa de justiça que Ele
adquiriu para si por meio do Seu sangue. Não esqueça que Jesus disse:
«Não vos hei de deixar orfãos; virei ter comvosco. Eu sou a ressurreição
e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá.»
E, tendo dito isto, fez sinal de se retirar.
—Vá com Deus, senhor ministro—disse Josefa, procurando erguer a
cabeça:—que o Senhor o abençôe, assim como a sua congregação; se quando
voltar já tudo tiver acabado para mim..., recomendo-lhe meus filhos...
Josefa não poude continuar. Um ataque de tosse não lhe permitiu falar,
e, quando socegou, o ministro, depois de dirigir algumas palavras de
consolação á familia, saiu.
Depois dalguns momentos de silencio, Josefa chamou.
—Que deseja, minha mãe?—perguntou Julião.
—Traze-me cá o menino—respondeu ela com voz quasi ininteligivel;—quero
dar-lhe o ultimo beijo.
—Minha mãe, socegue. Para que afligir-se se todavia...
—Não, meu filho, esta lampada vae apagar-se; não trateis de infundir-me
esperanças. Para que quero viver, se Jesus me espera?... Trazei-me o meu
neto.
Dôres entrou na alcova, levando nos braços o menino adormecido.
Ajudaram a levantar a enferma, que ficou por alguns momentos encostada a
umas travesseiras, e tomou o menino nos braços.
Extraordinario contraste! A vida nos braços da morte!
—Está a dormir—disse Dôres.
—Não importa—respondeu Josefa;—traze-me... traze-me cá uma luz, quero
vêl-o bem á vontade... a lamparina não dá bastante luz.
Uma das pessoas presentes foi buscar um candieiro.
A enferma ficou durante alguns momentos contemplando o menino.
—Oh!—exclamou—assim devia dormir Jesus quando era menino... Desejaria
vêl-o acordado, e que se risse para mim. É tão doce o sorriso duma
creança!
Naquele instante o menino abriu os olhinhos, cujas finissimas palpebras
haviam sido feridas pela forte luz do candieiro.
O pequeno Paulo olhou para um lado e para outro e começou a sorrir-se.
—Oh!—exclamou Josefa.—Que bom é Deus, que me concede até as consolações
dos pequeninos!
Em seguida beijou Paulo, dizendo:
—Senhor, abençôa este menino e prepara-o para o Teu serviço por meio de
Jesus.
Tornou a beijal-o e entregou-o a Dôres.
Ás quatro horas da manhã a febre havia desaparecido.
A enferma, mais aliviada, chamou seus filhos, que entraram na alcôva.
—Chamo-vos—disse ela—porque vou para a minha morada.
Julião e Dôres choravam em silencio.
—Porque choraes?—perguntou ela.—Vou viver com Jesus, e ali vos espero.
Podereis desejar-me coisa melhor do que esta?
—Minha mãe—disse Julião,—minha querida mãe, nós amamol-a tanto que não
podemos deixar de sentir a sua falta.
—Não tendes nada que sentir... Escutae os meus ultimos conselhos.
A enferma tinha entre as suas mãos as mãos de seus dois filhos.
Depois duma curta pausa, Josefa falou assim:
—Meus queridos filhos, lembrae-vos de mim... Sêde fieis á fé do bom
Jesus, para que vejaes vir a morte com a mais completa tranquilidade.
Educae o vosso filho no amor de Deus... Ah!... todo o carinho que me
tendes a mim transferi-o para ele... Amae-vos muito, muito, muito. Orae
ao Senhor, e agora recebei a minha benção.
Julião e sua mulher ajoelharam-se, e a velha, voltando-se, ainda que com
custo, para o lado em que eles estavam, estendeu a mão sobre a cabeça
deles e disse:
—Senhor, por amor de Jesus, rogo-Te que abenções meus filhos. Que o amor
de Deus, a graça de Jesus Cristo e a comunicação do Espirito Santo seja
comvosco. _Amen._ A morte começa a vir... já a sinto. Sim, sim, minha
amiga, vem, vem, aproxima-me de Jesus... Dizem que a morte é horrivel...
Oh! não! Quão bela me parece!
Todos choravam.
A moribunda prosseguiu:
—Não choreis, mas alegrae-vos... Julião, meu filho, não te aflijas...
Hoje é domingo: no domingo vou para o céu; oh! que domingo mais ditoso
vou passar ao lado de Jesus!... Quando tinha saude, reunia-me com os
irmãos na egreja... Hoje me reunirei com os anjos e santos no céu... Ouvi
o meu ultimo desejo... Quando pela manhã vier o ministro, rodeae o meu
corpo e fazei aqui um pequeno culto. Agora dae-me um beijo.
Julião e sua mulher beijaram a enferma.
Depois, com as mãos de seus filhos entre as suas, disse:
—Já está aqui; vejo a Jesus, que estende para mim os Seus braços... Vou
para Ti, doce esposo da minha alma. Adeus, amigos... Adeus, Dôres...
Adeus, meu filho... Jesus... rece...be... meu espiri...to...
A enferma, que havia erguido a cabeça, pousou-a de repente sobre a
travesseira.
Um grito unanime ressoou na habitação.
—Adeus, minha mãe—exclamou Julião com o coração partido de dôr.—Adeus,
minha querida mãe. Goza em paz o descanço eterno... O Senhor o deu, o
Senhor o tirou... bemdito seja o nome do Senhor.
CAPITULO X
De corpo presente
Passados os primeiros momentos de confusão, que sempre sucedem num caso
como o que acabamos de presenciar, Julião, com uma tranquilidade de
espirito admiravel, principiou a dispôr tudo o que era preciso para as
ultimas homenagens que devia tributar áquela que fôra sua mãe.
Ás oito horas da manhã, um grupo de mulheres estava conversando num dos
corredores, e, antes de entrarmos no quarto mortuario, escutemos o que
dizem.
—Sabem vocês o que sucedeu?—dizia uma das mulheres.
—Sim—respondeu uma delas;—morreu a mãe de mestre Julião.
—Sim, morreu! exclamaram todas, menos uma que disse:
—Pois não senti vir o _Viatico_.
—É claro—disse outra—que não veiu o _Viatico_; pois que a defunta não se
confessou nem sequer recebeu a _extrema unção_.
—Jesus, Maria, José!—exclamaram todas em côro.
—Pois não sabem vocês que ela era protestante?—disse a primeira que
falou.
—Ah!!...
—Os protestantes não comungam nem se confessam.
—Então morrem como cães?
—Sim, senhora.
—Sabe a visinha o que fazem?—disse uma;—eu presenciei-o quando Antonia
esteve doente. Lêem um livro a que chamam a... a... Biblia. E na verdade
que esse livro tem coisas muito bonitas: fala de Deus, de Jesus Cristo
e...
—Por muito bom que isso seja—interrompeu outra,—não se confessar a gente
e não comungar é mau. Pelo menos deviam fazel-o á hora da morte. Eu,
pela minha parte, não sou daquelas que comem com os santos; desde que me
casei, e já lá vão vinte anos, que não tornei a confessar-me; porém á
hora da morte não passarei sem o fazer. Deve forçosamente ficar com cara
de excomungada, essa gente, depois de morta!
—Sim, sim, ficam negros como o carvão.
—Porém ainda não sabe o melhor—acrescentou outra.
—O que é?—perguntaram as outras com interesse de o saberem.
—É que, se não comungam, não querem, em compensação, que os seus mortos
morram á fome.
Uma ruidosa gargalhada soou no corredor.
—Porém, se estão mortos—disse uma,—como hão de morrer de fome?
—Pois ouça—disse um tanto irritada a outra;—eles crêem que depois de
mortos comem, e por isso põem-lhes no caixão um pouco de presunto, uma
garrafa de vinho e dois pães.[1]
—Ah!—exclamou uma—isso não é verdade. Quando o padre protestante veiu
ajudar a sr.ª Josefa a bem morrer, eu estava em sua casa, e ouvi-lhe
dizer umas coisas muito bonitas... e... por tal modo o disse que nos fez
chorar.
—Isso não é motivo para que eles não creiam que os mortos comem; olhe a
visinha: no outro dia leu meu marido um livro intitulado _O monstro das
sete cabeças_, que dizia que ha uma nação, lá muito longe, em que se
crê que os mortos veem do outro mundo a este chupar o sangue dos vivos;
chamam-lhe lam... lam... vampiros.
—Sim, sim, eu não os vi, porém sei que os protestantes metem no caixão do
morto o que já disse.
—Porém—disse uma—para que mais questões sobre este assunto? Vamos ver a
morta e dissiparemos estas duvidas.
—Sim, sim—exclamaram todas.
No mesmo instante dirigiram-se a casa de Julião.
Vamos nós tambem com elas.
Quando alguem se aproxima do logar onde ha um cadaver, parece que se
respira uma certa atmosfera glacial. Ao mais indiferente e ao mais
frivolo oprime-se-lhe o coração.
Quando as mulheres entraram na sala, havia nela varias pessoas, entre as
quaes estavam Antonia, sua familia, Julião e Dôres.
Um profundo silencio reinava ali.
No meio da sala, e sobre uma mesa coberta com um pano de baeta negra,
estava um caixão, e dentro dele o cadaver de Josefa vestido de preto, o
que fazia ressaltar a brancura dum lençol que havia de servir de sudario,
e que estava agora estendido ao lado do caixão.
O cadaver tinha na cabeça uma touca engomada e adornada com uma linda
renda, o que lhe dava ao rosto um aspeto agradavel.
Nenhum sinal havia imprimido a morte naquele rosto, que estava branco
como o arminho, sulcado de veneraveis rugas, com os olhos naturalmente
fechados, os labios ligeiramente entreabertos, como se ainda respirasse,
e, a não ser pela falta de movimento no peito, qualquer pessoa teria dito
que Josefa estava dormindo um sono tranquilo.
Em suas mãos, estendidas naturalmente, tinha uma _sempre-viva_, e em seu
peito seus filhos haviam colocado um _amor-perfeito_, como a ultima e
eterna recordação que os acompanharia durante toda a sua vida.
Entretanto as mulheres que tinham ido ali com o proposito de ver o
presunto, o pão e o vinho esforçavam-se inutilmente por descobrir aqueles
objetos. Porém tudo foi em vão.
Mas, se não viam a comida nem a bebida, descobriram em troca outra coisa
não menos importante. A sr.ª Josefa não tinha luzes!!!
Uma nova personagem entrou na sala, acompanhada duma mulher, um homem e
uma creança—uma familia das relações intimas de Julião e sua mulher.
Quando apareceu na sala, passou-se uma scena de lagrimas que não
tentaremos descrever.
Depois de darem desafogo ás lagrimas, aproximou-se do caixão essa pessoa
que havia entrado, e que era o ministro. Depois de contemplar por alguns
instantes o cadaver, disse:
—Ditosa tu, que estás agora gozando as delicias eternas na presença do
Senhor.
—Não é verdade, sr. ministro—disse Julião—que o rosto de minha mãe não
ficou desfigurado?
—Não; parece melhor do que quando estava doente. A que horas morreu?
—Ás cinco.
—Quaes foram as suas ultimas palavras?
—Jámais as esquecerei!... «Senhor Jesus, recebe o meu espirito.»
Houve uma pequena pausa. Por fim, o ministro disse:
—Vamos agora celebrar um pequeno culto, deixando os que já dormem no
Senhor para nos ocuparmos de nós, que ainda peregrinamos pelo mundo. Meus
amigos—acrescentou, dirigindo-se aos circunstantes—vamos celebrar o dia
do Senhor.
Depois, tirando do bolso um livro de hinos, com não pouca surpreza da
maior parte das pessoas presentes, cantaram tres estrofes do seguinte
hino:
Olha a linda violeta!
Dá na sombra seu odor;
Não se queixa, não deseja
Ser notavel, nem maior.
Para a violeta humilde,
Para a mais soberba flôr,
Sopra a mesma brisa amena,
Vem do sol egual calor.
Deus a toda a creatura
Marca o proprio logar;
Dá riqueza, dá pobreza,
Tudo como apraza dar.
Jesus ama e convida
Todos para os mesmos céus:
Ricos, pobres, jovens, velhos,
Poderão reinar com Deus.
As vozes do cantico atrairam para a casa de Julião as atenções da
visinhança, e por tal modo que se encheu a sala, e era grande o numero de
pessoas que escutavam á porta e no passeio aquilo que para eles era uma
grande novidade.
Como temos de falar do culto que se celebrou quando tiraram o cadaver de
casa, passamos por alto este que ali se realisou, contentando-nos apenas
com dizer que todos os que ouviram ficaram extremamente comovidos, e
realmente aquela morte serviu para a vida de muitos que até então nada
sabiam do nome de Jesus.
Terminado o culto, o ministro saiu, os visinhos foram-se retirando,
fazendo comentarios, porém tão grande é a ignorancia que, todavia, não
faltavam mulheres que dissessem:
—Não lhe pozeram no caixão nem o presunto, nem o vinho, nem os pães, mas
certamente que o farão quando o cadaver sair de casa.
CAPITULO XI
Um culto funebre
Ao cair da tarde do domingo de que nos ocupámos no capitulo anterior, um
grande numero de pessoas sahia da casa do nosso amigo Julião.
A maior parte das pessoas que foram ver o cadaver, depois que sahiam,
ficavam á porta ou na rua, formando pequenos grupos.
Quasi todos os que ali estavam reunidos eram membros da egreja a que
Julião e sua familia pertenciam.
O ministro, ao terminar o culto daquele dia na sua egreja, anunciou do
pulpito que tinha falecido uma irmã em Cristo; disse onde morava, a hora
a que devia realizar-se o enterro, e por isso se achavam ali tantas
pessoas reunidas.
A aglomeração de gente chamava a atenção e atrahia um grande numero de
pessoas.
Como era muito natural, entre a multidão não havia conformidade de idéas
ou de crenças, e por isso não era raro ouvirem-se dialogos mais ou menos
burlescos ou sérios, mas que denotavam a mais completa ignorancia ácerca
das Escrituras, e o fanatismo por parte duns e o conhecimento mais ou
menos profundo delas por parte doutros.
Ouçamos alguns desses dialogos.
—Que enorme quantidade de gente que vem ao enterro da
_protestante_!—dizia uma mulher a outra.
—Sim—respondeu ela.—Vem muita gente. Serão todos amigos de Julião?
—Não; veem para fazer numero e para que se diga depois que ha muitos
protestantes em Madrid.
—Ouçam lá—interrompeu outra mulher das que estavam no portal, e que
ouvira a conversa,—nós que estamos aqui não viemos para fazer numero, mas
sim porque nos amamos uns aos outros, como Cristo nos amou.
As duas visinhas ficaram por um momento silenciosas, fitando de alto a
baixo a mulher que havia interrompido a conversa. Por fim uma delas disse:
—E diga-me, minha senhora: neste enterro dão velas?
—Não, senhora, porque não precisamos de velas.
—Como se meteu na nossa conversa julguei...
—Quê?
—Que davam velas.
—Pois já fica sabendo que não.
—Parece-me que a senhora é uma dessas agentes do protestantismo que andam
a arranjar pessoas para a seita; porém advirto-lhe que aqui perde o seu
tempo, porque, pelo que respeita a nós, nem a senhora nem ninguem nos
engana. Vá, amigasinha, vá divertir-se no enterro, e passe muito bem.
Entretanto, um homem, já de edade avançada, discutia na rua com varios
jovens que o rodeavam.
—Sim, senhores: entre nós, quando um irmão morre, somos nós mesmos que o
conduzimos e o enterramos com as nossas proprias mãos, sempre na terra,
porque nos cemiterios evangelicos não ha _nichos_, nem _galerias_,
para os cadaveres, e que custam dinheiro; de modo que quem entra num
cemiterio catolico pode muito bem figurar-se que está lendo os preços dos
logares dum teatro, onde o rico se assenta num camarote, e o pobre vae
para a _geral_.
—Isso é muito natural—disse um.
—Não o julgo assim; pois, ensinando-nos os padres que uma das obras de
misericordia é enterrar os mortos, são eles proprios que levam dinheiro.
—Ouça lá—interrompeu outro,—tambem muitas vezes enterram de graça.
—Sim!—exclamou o velho—bonito enterro, não tem duvida! Comparemos.
Morre qualquer pessoa que deixa, por exemplo, uns dois mil duros. Então
a egreja, que é de todos, se converte no patrimonio dum. Ao longo das
naves colocam bancos cobertos de pano preto; acendem-se todos os altares;
as luzes, em volta da eça, não teem numero; no côro cantam-se os hinos
proprios, acompanhados por uma orquestra, que á noite terá de servir no
teatro; os sacerdotes trajam as suas mais ricas vestes e... que sei eu
quantas coisas mais; os padres cantam com toda a força dos pulmões, os
meninos do côro correm alegres dum lado para o outro: o sacristão anda
numa roda viva: o defunto é _gordo_ e... tanto basta... Porém morre
um pobre. Pois então a coisa muda completamente de figura. Uma mulher
miseravelmente vestida dirige-se a casa do pároco, e diz-lhe, entre
lagrimas e soluços, que lhe morreu seu marido, seu pae ou seu irmão; o
padre toma nota das indicações que a mulher lhe dá, porém quando vem a
saber que é pobre e que tem de fazer o enterro por _caridade_, diz-lhe
que se retire, e que á hora aprasada lá irão buscar o cadaver. Ora,
porque o padre tem que fazer, não vae a casa do defunto; os doridos
pedem aos visinhos que o acompanhem ao cemiterio; estes assim o fazem,
e, quando lá chegam, aproxima-se o padre, que diz um tal latinorio
qualquer, deita-lhe uma _hissopada_ de agua, a que chamam benta, e
retira-se. Ora diga-me: É isto uma obra de misericordia? Onde está aqui a
caridade?
—Que divertido é o velho!—disse um daqueles jovens.
—Que divertido! que divertido!—gritavam outros _bons catolicos_.
Neste momento ouve-se dizer: «Ahi vem o ministro.»
Efectivamente no meio do grupo que discutia apresentou-se um cavalheiro
vestido de preto, que disse.
—«Recebei o fraco na fé, e não para contendas de disputas.»
Em meio do silencio repentino que produziram as palavras desta personagem
os jovens criticos desapareceram.