mesmos. Todos temos pecado. Cada um de nós é um filho prodigo, nosso pae
é Deus, e perdoar-nos-ha Ele? Sim, certamente, porque «se o estipendio
do pecado é a morte, a graça de Deus é a vida perduravel em Cristo
Jesus» (_Rom. 6: 23_). Deste modo se explicam as palavras de Jesus:
«Assim vos digo que haverá maior jubilo no céu sobre um pecador que se
arrepender do que sobre noventa e nove justos que não hão mister de
arrependimento» (_Luc. 15: 7_). Não crê, querida Antonia, que Deus quer e
pode perdoar-lhe desta maneira?
—Oh! dificil é explicar o que sinto; sómente posso dizer que creio de
todo o coração que Jesus é meu Salvador e que estou salva.
—Que o Senhor abençoe a sua fé.
Todos se levantaram para se despedirem; Julião e sua familia dirigiram-se
para casa.
João e as mulheres ficaram falando, com louvor, de Julião. Brigida
sómente repetia:
—Não, não, a mim não ha nada que me arranque das minhas opiniões. Parece
verdade, parece...
Pouco tempo depois toda a gente, menos a tia de Antonia, que ficava
aquela noite a cuidar dela, se retirou para descançar.
CAPITULO VIII
A calunia
Passaram quinze ou vinte dias desde que Julião anunciou o Evangelho em
casa de mestre João. Antonia, obtendo sensiveis melhoras, havia entrado
em convalescença, e, se bem que ainda fraca, costumava vir para o pateo,
onde passava algum tempo acompanhada por Dôres, ambas sentadas, lendo ou
conversando.
—Numa dessas tardes, depois de terem lido e meditado sobre uma passagem
do Evangelho, Dôres disse á sua amiga:
—Antonia, ámanhã é o dia em que devo ir buscar os brincos.
—Ámanhã!... Eis aqui a primeira parte de Santo Antonio!... Não sei como o
direi a meu pae.
—Ouve, Antonia; Julião não teria inconveniente algum em dar-nos os 600
reales que custa o concerto; graças a Deus, hoje temos essa quantia;
porém alguem poderá reparar em que tratamos de enganar teus paes.
—Sim, Dôres, sim; o melhor é que nós mesmas digamos tudo a meu pae.
—E porque não dizêl-o a tua mãe? Não julgas que seria melhor?
—Não, Dôres; infelizmente, minha pobre mãe, imbuida pelos conselhos de
algumas pessoas, está muito reservada para comigo; o outro dia vi-a
ajoelhar-se deante de Santo Antonio, e ouvi-lhe pedir a minha morte,
chorando copiosamente.
—A tua morte!
—Sim. Minha mãe julga que eu estou condenada, e, segundo pude
compreender, essa crença dimana daquilo que algum padre lhe tem dito,
pois que ela dizia ao Santo entre outras coisas: «Santo Antonio, peço-te
que faças entrar no bom caminho a minha filha; prometo que mandarei dizer
uma missa todos os primeiros sabados de cada mez, e isto emquanto eu
viva, se fizeres com que minha filha volte ao seio da Egreja Catolica
Romana. Porém se isto não pode ser, dá-lhe um momento de arrependimento,
e depois manda sobre ela um raio da tua divina graça e leva-a para ti.»
As duas amigas guardaram silencio, profundamente impressionadas ao
considerarem a oração dirigida por Brigida ao Santo. Depois de alguns
momentos, Antonia disse:
—Agora chama meu pae, para lhe falarmos dos brincos.
Dôres ia chamar João, quando este apareceu no limiar da porta.
O carpinteiro tinha mudado completamente. Desde que sua filha se poz boa,
recobrou o seu genio alegre; e, relativamente ás suas idéas, devemos
dizer que tambem haviam experimentado alguma mudança, como já tivemos
ocasião de ver.
—Passava—disse ele, sorrindo-se—da sala para a oficina, vi-as juntinhas e
disse: Vamos ver de que se ocupam as duas amigas.
Antonia fez sinal á sua amiga para que principias-se a conversa, Dôres
compreendeu-a, e disse ao sr. João, rindo-se:—Realmente quer saber do que
estavamos falando?
—Sim, senhora.
—Mas se lhe custar cara a sua curiosidade?
—Ah! então vocês vão pôr a preço o seu segredo?
—Sim, senhor. Não o vendemos por menos de seis libras.
—Nesse caso, eu vol-as darei sem regatear.
—E nós—disse Antonia—confiamos na sua palavra.
Dôres, deixando o seu ar alegre e tomando outro mais serio, disse:
—Sr. João, deve estar muito agradecido a Deus, que lhe restituiu a sua
filha. Tambem deve estar crente de que, terminando a doença de Antonia,
terminaram as consequencias da vespera e do dia de Santo Antonio; porém
realmente não terminaram.
—Mas a que vem esse discurso—perguntou o sr. João, acrescentando:—De
vagar, de vagarinho.
—Então já que assim o quer, lá vae. Na vespera de Santo Antonio, na
ocasião da dança, cairam ao chão alguns pares. Antonia tambem caiu, como
sabe, e na queda perdeu um brinco de diamante, cuja compostura valia
precisamente as seis libras que valia o nosso segredo.
Dôres em seguida calou-se. Mestre João ficou pensativo, e depois
perguntou:
—Onde está o brinco?
—Em casa do ourives—respondeu Dôres.
—Porém tua mãe sabe-o?
—Não, meu pae; eu dei a guardar o brinco a Dôres para que o entregasse
a vocemecê, se eu morresse, e, se me restabelecesse, pensava mandal-o
concertar, sem dizer-lhe nada, e por meio do meu trabalho arranjar a
quantia precisa para a compostura, porém Dôres aconselhou-me a que
dissesse isto mesmo a meu pae.
—Bom conselho; vou dar-te o dinheiro, e eu direi a tua mãe o que se me
oferecer sobre o caso; ou ela pega no santo e o põe onde eu o não veja,
ou queimo-o para aquecer a cola. Não quero cá em minha casa mais santos
de tal natureza. Tua mãe que vá com o santo e quantos desgostos nos tem
causado. Nada, nada, para fóra de minha casa idolos de madeira. Não quero
que haja aqui outra coisa senão a Biblia; isso me basta.
O carpinteiro e sua filha meteram-se em casa, e poucos momentos depois
apareceu Antonia ao limiar da porta para dar o dinheiro a Dôres.
As duas amigas separaram-se sem reparar numa pessoa que as escutava, e
que exclamou quando elas desapareceram:
—Que descoberta! Corro a ver se encontro o P.ᵉ Francisco para dizer-lhe o
que vi e ouvi. Suas palavras eram muito misteriosas. Não, não as esqueço,
e logo... lhe deu muito dinheiro, muito, muito.
Aquela que assim falava subiu as escadas com a agilidade que lhe
permitiam os seus muitos anos.
Como havemos de encontrar esta personagem, vamos descrevel-a a largos
traços.
Era a comadre Claudina, uma mulher que andava pelos seus setenta anos
de edade. O nome com que vulgarmente era conhecida no bairro era o da
_tia dos enredos_, e realmente que assim era. O seu prazer era falar
duns e outros, e não poucas dissenções tinha causado em muitas casas.
Sustentava-se esta mulher de esmolas que lhe davam.
Não implorava a caridade publica, porém sabia perfeitamente levar a vida
para arranjar donativos da Sociedade de S. Vicente e outras; além disso,
nunca faltava ás festas de egreja, e ali se colocava junto da pia da
agua benta, que oferecia ás senhoras da fidalguia, recebendo em troca,
como esmolas, algumas moedas. Além disso, fazia quantos recados lhe
mandavam, levando sempre o rosario na mão. Eterna bisbilhoteira, nada se
sabia da sua vida, senão o que ela dizia: que era de muito boa familia, e
que nunca quiz casar-se, apezar de se lhe oferecerem vantajosas ocasiões.
Deste ser tão repugnante serviu-se o P.ᵉ Francisco para se pôr ao facto
da vida intima das duas familias, a de mestre Julião e a de mestre João.
A velha ouviu a conversa, e, sem saber do que se tratava, correu a casa
do P.ᵉ Francisco para dizer-lhe o que muito bem lhe pareceu, porém
mentindo, e por tal modo que bem se pode dizer que a ela estava reservada
a condenação descrita no Apocalipse, cap. 21: 8: «e... a todos os
mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a
segunda morte.»
Assim que chegou a casa do P.ᵉ Francisco, disse-lhe:
—Senhor, descobri uma coisa espantosa. Esta tarde, quando vinha da
egreja, de assistir á festividade das _Quarenta horas_, vi á porta a
filha do carpinteiro com a mulher do vidraceiro. Estavam tão absortas na
conversa que não repararam em mim. Eu aproximei-me, quanto pude, delas, e
ouvi que Antonia dizia á sua amiga: «Ahi tens o dinheiro, e arranja tudo
isso depressa. Tenho dó de meus paes! Oh! se minha mãe soubesse!...» E
passou-lhe para a mão uma certa soma de dinheiro.
O sacerdote ficou pensativo por alguns instantes, dizendo por fim:
—E quanto dinheiro julga que Antonia deu a Dôres?
—Pelos modos vinte libras—respondeu a velha.
—Tanto!
—Sim, senhor, deu-lhe até oiro, que eu bem vi.
O padre despediu a velha, recomendando-lhe o maior segredo, e dando-lhe
uma peseta.
Claudina esperava maior recompensa do que esta, pelo que, quando chegou
á porta da rua, começou a murmurar do padre, e fez comsigo o firme
proposito de contar tudo ao mestre carpinteiro.
Logo que a velha saiu, o P.ᵉ Francisco mandou chamar Brigida, e dentro de
poucos momentos estava esta sentada ao lado do sacerdote, que lhe dizia:
—Acabaram de dizer-me que viram sua filha dar dinheiro á mulher do
vidraceiro, uma soma bem boa.
—Minha filha! Ah! senhor! isso é uma calunia.
—Muito folgarei que assim seja.
—Sim, senhor, assim é, pois que minha filha não é uma ladra.
—Eu não disse tanto. Porém donde tirou Antonia o dinheiro que deu a Dôres?
—Tel-o-hia dado á minha filha a mulher de Julião para que o guardasse.
Esta razão de Brigida pareceu transtornar o padre. Aquilo podia ser
verdade. Comtudo, disse á mulher do carpinteiro:
—Creio que não me enganaram quando me disseram isto; porém, pelo sim pelo
não, será bom que vocemecê conte o dinheiro que tem em casa, para ver
se lhe falta algum. Eu—acrescentou—não digo que sua filha de proposito
e caso pensado a roubasse, mas podia dar-se o caso de que o fizesse
aconselhada pela mulher de Julião, que é um agente dos protestantes.
Brigida despediu-se do sacerdote, e saiu em direcção de casa. Quando lá
chegou, seu marido tinha saido e sua filha estava em casa de Dôres.
Sobressaltada com o que o P.ᵉ Francisco lhe havia dito, dirigiu-se á
comoda, abriu uma das gavetas e tirou uma saquinha em que marido e mulher
guardavam o fruto das suas economias. Despejou depois todo o dinheiro
sobre a comoda e começou a contal-o.
Quando acabou, uma palidez mortal cobria o seu rosto.
—Ter-me-hia enganado!—disse ela comsigo; e tornou a contar.
Por fim, depois de contar duas, tres e quatro vezes o dinheiro, guardou-o
na mesma saquinha, pôl-o no mesmo sitio, e deixando-se cair, quasi
desfalecida, numa cadeira, exclamou:
—Parece-me um sonho!... Seiscentos reales! Não; Antonia não foi... ela
tão boa, tão... porém D. Francisco sabe mais do que eu... sim, sim,
enganaram-na. Ah! tratantes! Logo que venha João, dar-se-ha parte á
autoridade, e cadeia com eles... Ah!—exclamou meio sobressaltada—e as
joias que ela trazia na noite de Santo Antonio?... Onde as terá? Sim, já
sei que ela me disse que as tinha na gavetinha do toucador.
A pobre mulher, meio louca, entrou na alcova de sua filha, abriu a
gavetinha do toucador, e procurou com a maior anciedade. Encontrou o
colar, porém faltavam os brincos.
—Mais esta ainda—exclamou.—Oh! Santo Antonio bemdito! Virgem do Amparo!
Que fazer agora?... Vou já a casa do sr. padre Francisco pedir-lhe o seu
conselho.
Brigida saiu, sem dizer nada em casa, em direcção da morada do padre
Francisco.
Emquanto Brigida subia as escadas da casa do padre Francisco, chegava
Antonia á sua, com os brincos que já Dôres havia trazido do ourives.
Seu pae já vinha perto de casa. Chegava á porta no mesmo momento em que a
comadre Claudina sahia da sua.
—Guarde-o Deus, senhor João—disse a velha.
—Que Ele a acompanhe—respondeu o carpinteiro, dirigindo-se para dentro de
casa.
—Senhor João—gritou a velha,—ouça uma coisa.
—Que é que tem para me dizer?
—Nada, senão que sinto muito a desgraça que acaba de o ferir.
—A mim?
—Sim, senhor... porém... já sei, vocemecê, como é tão bom, não quererá
fazer-lhe mal algum... De resto, eles bem o mereciam.
—Senhora Claudina—exclamou o carpinteiro com impaciencia,—peço-lhe o
favor de falar claro, que tenho pressa.
—Porém não sabe o que sucedeu em sua casa?
—Não, senhora; como vê, chego agora de fóra e...
—Pois já tenho pena de ter principiado; mas emfim... Ouvi dizer na
visinhança que Dôres aconselhou sua filha a que lhe désse dinheiro, e
esta tarde viram Antonia dar dinheiro a Dôres. Eu, no seu caso, metia na
cadeia Julião, sua mãe e sua mulher.
O carpinteiro encarou com desprezo a velha, e dirigiu-se a casa,
deixando-a á porta.
Entrando, deu as boas tardes aos seus oficiaes, e subiu logo á sala, onde
achou sua filha lendo.
—Boas noites, filha—disse ele.
—Boas noites, meu pae—respondeu Antonia.—Aqui estão os brincos, que Dôres
já me trouxe.
—A proposito—interrompeu-a seu pae, pegando nos brincos,—sabes que te
viram dar o dinheiro a Dôres, e diz-se pela visinhança, sem duvida com má
intenção, que Dôres te aconselhou a que lhe dês dinheiro.
—Santo Deus!—exclamou Antonia;—pode ser isso verdade?
—Sim, agora mesmo acaba de mo dizer a velha Claudina.
—O pae já sabe quem é essa mulher.
—Sim, já o sei; porém, quer seja ou não verdade o que ela diz, é bom
estar prevenido. E tua mãe?
—Não sei; quando cheguei a casa, não estava cá.
—Parece-me que em todo este negocio anda a mão do padre Francisco.
Tua mãe não está em casa, porém a roupa com que costuma sair está ali
pendurada.
—Talvez que esteja aqui perto falando com alguma visinha.
—Ou então em casa do padre Francisco... Espera, vou subir lá acima ao
ultimo andar, onde mora o padre Francisco, para ver se tua mãe lá está...
Oh! se ela lá estiver...
—Meu pae, peço-lhe que não se deixe levar do seu genio; tenha mão em si.
—Descança, que não farei mais do que dizer a tua mãe que desça cá para
baixo.
Antonia ficou orando em silencio para que Deus tivesse compaixão de sua
mãe, emquanto o carpinteiro subia as escadas que conduziam ao ultimo
andar, que era a morada do padre Francisco, para ver se sua mulher estava
lá ou não.
Efectivamente, estava ali chorando a pobre Brigida, e escutando os
conselhos do padre Francisco.
Assim que este viu o marido de Brigida, levantou-se para o receber, e,
apezar da resistencia que ele opoz, obrigou-o a entrar.
O padre, quando ele entrou, fechou a porta por dentro, e, quando mestre
João se sentou, disse-lhe:
—Deus certamente que lhe inspirou a idéa de vir aqui. Provavelmente
ignora o que sucedeu em sua casa.
O carpinteiro num instante formou o seu plano, e disse num tom fingido:
—Vim aqui em procura de minha mulher; e estranho que ela esteja aqui,
quando o seu logar era em sua casa.
Brigida não se atrevia a olhar para o marido; o sacerdote disse:
—Sua esposa veiu aqui procurar, no seio da verdadeira religião, remedio
para os seus males.
—E porque, se tem algum pezar, mo não comunica a mim primeiro? Com que
direito vem confiar os seus desgostos a um homem que não é o seu marido?
—Parece-me, sr. João, que duvida de sua esposa e de mim.
—De minha esposa não duvido, porém de si duvido.
—Talvez preferisse antes que sua mulher fosse aconselhar-se com o
vidraceiro, não é verdade?
—Certamente; ele é um homem casado, e como pae de familia conhece o que
são os pezares que muitas vezes nos torturam.
—Bom hipocrita é o tal Juliãosinho! Forte maroto.
João não pôde conter-se por mais tempo, e, erguendo-se, bastante
excitado, disse:
—P. Francisco, se não estivesse em sua casa, tel-o-hia ensinado a ter
cuidado com a lingua. Diga-me, o senhor que se chama ministro de Jesus
Cristo: Em que pagina do Evangelho aprendeu a insultar assim uma pessoa
que não está presente? Onde estão essa caridade e amor que devem revestir
um ministro do Senhor? P. Francisco, muito pouco sei ainda do Evangelho,
porém digo-lhe que o senhor será um ministro do papa ou do arcebispo, mas
não é um ministro de Jesus.
—Repito o que ha pouco disse. Sofrerei com paciencia tudo o que disser.
Com que então, porque não sou casado, não sirvo para dar conselhos a uma
mulher casada? Então não pode haver religião, porque nenhum ministro é
casado nem nunca o foi.
—Perdão... O senhor sabe perfeitamente que na primitiva egreja os
sacerdotes eram casados, e a noite passada ouvi ler uns versiculos da
Biblia a Julião, os quaes dizem que os bispos e diaconos devem ser todos
casados.
O carpinteiro voltou-se para sua mulher e disse-lhe:
—Vá, vamos daqui para fóra.
—Espere um pouco, mestre; ouça lá uma historia. Ha em Madrid uns aldeãos
que teem uma filha. Esta filha cae doente, muito doente. Uns visinhos,
muito amigos do pae, entram-lhe em casa e aproveitam-se da confiança que
depositam neles para abrir as gavetas e roubar o que encontram. Sucede,
porém, que a pobre enferma... passemos por alto alguns pormenores... a
enferma tem na gaveta do seu toucador umas joias que lhe são roubadas por
uma sua amiga; e, como se isto não fosse bastante, apenas se restabelece,
a sua amiguinha a seduz para que roube seus paes, e hoje os visinhos da
casa em que vivem viram a joven, ainda mal convalescente, entregar á sua
amiga uma boa soma. Conhece as personagens desta historia?
—Sim, senhor.
—Continuará a crêr na sinceridade religiosa de Julião e sua familia?
—Mais do que nunca—exclamou com exaltação o carpinteiro.
Brigida e o P.ᵉ Francisco entreolharam-se, possuidos de grande surpreza.
—Mais do que nunca—prosseguiu mestre João,—porque conheço o infame
caluniador que sómente trata de perder um honrado pae de familia.
—Senhor João!...
—Senhor P.ᵉ Francisco, prudencia, e escute-me como eu o tenho escutado.
Na vespera da festa que tantas desgraças acarretou a minha familia,
minha esposa adornou minha filha com as joias que eu lhe dei no dia do
nosso casamento. Quando minha filha dançava perdeu uns diamantes dos seus
brincos, e, prescindindo eu tambem dalguns pormenores, direi que minha
pobre filha entregou esses brincos a Dôres para que os mandasse concertar
se ela se restabelecesse, e para que mos entregasse, se morresse. Minha
filha julgava que Dôres adeantava o dinheiro, pagando-lhe ela a pouco e
pouco. Dôres, porém, por ser sua amiga, aconselhou-a a que me contasse
tudo.
«Assim o fizeram, e esta mesma tarde lhes entreguei o dinheiro que custou
a compostura. Veja como tão cruelmente caluniaram uma familia honrada,
tão sómente porque o senhor ou outra qualquer pessoa viu minha filha dar
o dinheiro á sua amiga. Sabe agora qual é o seu dever? Quer cumprir com o
dever que o seu ministerio lhe impõe?
—Eu o que creio é que vocemecê está contando uma historia para salvar o
vidraceiro. Aposto que não aparecem os brincos.
Mestre João, já meio fóra de si, levantou-se de novo, e, tirando do bolso
um pequeno embrulho, disse:
—E chama-se ministro do Senhor! Não, e mil vezes não. Não o é.
Abriu o embrulho, tirou de dentro uma caixinha, abriu-a, e mostrou
os brincos, cujas pedras, sob a acção da luz do candieiro, brilharam
intensamente, ferindo a vista dos circunstantes. Então o carpinteiro,
voltando-se para sua mulher, disse-lhe:
—São estes os teus brincos?
—São—respondeu Brigida, depois de os ter examinado.
—Então, P.ᵉ Francisco, sabe agora qual é o seu dever?
—Qual?
—Como cristão, como sacerdote, deve descer e pedir perdão a Julião, a
Dôres e a minha filha, que tão cruelmente caluniou.
—Pedir perdão! Vocemecê está louco! Quem são eles para me perdoarem?
—Não quer pedir perdão ás pessoas ofendidas?
—Não.
—Pois ámanhã terá de ser chamado á presença do juiz.
João guardou as joias, e, voltando-se para sua mulher, disse-lhe:
—Já vês que classe de gente é esta. Eles exigem aos outros o que eles não
querem fazer. Espero que terás emenda.
Dito isto, saiu atraz de sua mulher.
P.ᵉ Francisco ficou sem saber o que dizer.
CAPITULO IX
Novos acontecimentos
Logo que chegaram a casa, João, dirigindo-se a sua filha, disse-lhe.
—Vês como não me enganei? Vês como a mão do padre andava metida neste
negocio?
—O que se passou?—perguntou Antonia a seu pae, deixando o livro que
estava lendo.
O carpinteiro contou a sua filha tudo o que tinha sucedido, e ao terminar
disse:
—Se tua mãe não tomar emenda com isto, digo-te que não tem juizo. Com
relação ao padre, vamos chamal-o á presença da autoridade.
—Meu pae—disse Antonia,—grande é o poder de Deus, e, como Ele disse, a
mentira não pode permanecer. A respeito de fazer mal ao padre Francisco,
creio que Julião não permitirá isso, pois Jesus perdoou na cruz e orou
mesmo pelos Seus proprios algozes, e Ele mesmo disse: «Abençoae aqueles
que vos amaldiçoam; _e orae por aqueles que vos caluniam_.
Dito isto, saiu mestre João.
Brigida permaneceu calada, e Antonia deu razão ao que seu pae acabára de
dizer, exprimindo-se assim:
—Sim, minha mãe não seja insensata, procurando a salvação por um outro
caminho, que certamente a conduzirá á perdição. Como pôde escutar, sem se
exaltar, a voz que lhe disse: «Sua filha é uma ladra»?
—Ai! minha filha! Eu nunca cri nisso, porém já vês que me faltava o
dinheiro, faltavam-me os brincos, e já podes calcular que desconfiava de
que alguem nos tivesse roubado. Porém tu me perdoarás, não é verdade?
—Como!—exclamou Antonia—eu perdoar-lhe! Demos graças a Deus e peçamos-Lhe
que, do que acaba de suceder, resulte um grande beneficio para a sua alma.
Entremos agora em casa de Julião.
Deve ter ali sucedido alguma coisa de extraordinario, e, para nos
inteirarmos do que se está passando, escutemos o que mestre João diz ao
seu visinho:
—Mas o que ha?—perguntava João ao seu visinho.
—Que minha mãe tem uma pneumonia.
—Porém que diz o medico?
—Diz que por emquanto não pode emitir opinião segura: porém disse-me que
estivesse preparado para tudo.
—Não faça caso; os medicos dizem sempre isso.
—Cumpra-se a vontade de Deus.
Depois dalguns momentos de silencio, o carpinteiro disse:
—Não sabe o que sucedeu?
—O que foi?
João contou a Julião tudo o que havia sucedido, e tudo o que dele se
havia dito.
Quando Julião ouviu que o visinho tratava de levar o assunto aos
tribunaes, respondeu:
—De modo nenhum, sr. João. Jesus, meu Mestre, jámais fez tal coisa; ao
contrario, em vez disso, manda que eu peça por aqueles que me caluniam e
dizem mal de mim. O P. Francisco poderá lançar mão de tudo para fazer-me
mal, mas se Deus está comigo quem será contra mim?
—Foi isso mesmo o que disse Antonia; porém isso não é para o meu
caracter; pela minha parte, o meu desejo e a minha vontade eram castigar
o P. Francisco.
—Diga-me, sr. João: sabe o Padre Nosso?
—Sim, senhor.
—E costuma rezal-o?
—Pelo menos todos os domingos na egreja.
—Pois no proximo domingo não o reze; pois que, quando chegar áquelas
palavras, «Perdôa-nos as nossas dividas, assim como nós perdoamos aos
nossos devedores», pedirá a Deus, a quem vocemecê é devedor, que lhe
perdoe como está disposto a fazer ao P. Francisco. Jesus disse: «Mas,
se não perdoardes aos homens as suas ofensas, tão pouco o vosso Pae vos
perdoará as vossas».
—O visinho tem sempre maneira de me convencer.
—Não, meu amigo, a palavra de Deus é que o convence.
—Agora vou pedir-lhe um favor, e é que me permita que eu ponha á sua
disposição tudo o que houver em minha casa e de que sua mãe precise.
—Muito obrigado, em breve nós o incomodaremos. Todavia ainda não chegou
a ocasião de incomodar ninguem, a não ser o ministro da nossa egreja, a
quem já mandámos chamar.
—Como! Tão perigosa está sua mãe!
—Não, senhor; porém não devo aguardar que ela esteja nos paroxismos da
morte para que lhe falem de Jesus, seu Salvador.
João saiu, e Julião fechou a loja.
Assim que o carpinteiro contou em sua casa o que se estava passando em
casa do visinho, Antonia, que se ia deitar, mostrou desejos de ir a casa
de Dôres, e, como não houvesse ninguem que podesse dissuadil-a de tal,
pois que ainda não era de todo bom o seu estado de saude, ela e seus
paes, depois de fechada a loja, foram visitar Josefa.
Quando iam a entrar, chegava tambem um sujeito que batia á porta.
Julião foi abrir, e, ao ver esse sujeito, tirou o _bonet_, que costumava
trazer em casa, e saudou-o respeitosamente, dizendo-lhe:
—Boas noites, sr. ministro.—E em seguida aos seus visinhos:—Boas noites,
senhores.
Entraram todos, e chegados á sala, depois de trocados os primeiros
cumprimentos, o ministro, dirigindo-se a Julião, disse-lhe:
—Então que ha, amigo Julião?
—Minha mãe tem uma pneumonia, e desde que caiu doente não cessa de chamar
pelo senhor.
—E posso vêl-a?
—Sim, senhor; tenha a bondade de entrar na alcova.
Entraram todos.
O ministro, chegando-se junto do leito e inclinando-se um pouco para a
doente, disse em voz baixa:
—«A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja comsigo, irmã.»
—Ah! é o sr. ministro?—exclamou a enferma, procurando erguer a cabeça.
—Sim, sou eu, porém esteja quietinha. Como está?
—Muito mal e muito bem.
—Vejamos; queira explicar-se.
—Senhor ministro; sinto-me bem, porque creio que muito em breve irei ver
o meu Jesus, e sinto-me mal, porque sofro muitissimo no corpo.
Seguiram-se alguns momentos de silencio, findos os quaes disse o ministro: