—Não quero saber do que disse o confessor; o que eu quero é falar com

ela, e tanto basta. O confessor encheu-me de muito medo, impoz-me uma

penitencia que... finalmente, quero ver Dôres.

—Minha filha, socega, não penses em nada, nem te recordes de nada.

—Minha mãe—disse Antonia, já bastante agitada—já disse que quero ver

Dôres, e hei-de vêl-a. Ela entende-me e diz-me umas coisas que ninguem as

sabe dizer... quero ver Dôres, já disse... e se fosse possivel...

Mestre João, desejoso de ouvir o que dizia sua filha, tinha-se aproximado

pé ante pé da alcova, escutou a petição de sua filha, e em seguida entrou

e disse resolutamente.

—Para que queres ver Dôres?

—Para falar com ela—respondeu Antonia.

—Pois espera, que eu mesmo vou chamal-a.

—Muito obrigada, meu pae, muito obrigada...

João saiu da alcova, e sua mulher apoz ele, dizendo-lhe:

—Porém espera, homem; vê o que fazes!

—O que faço?—perguntou ele muito secamente.

—Então sempre vaes chamar essa mulher?

—Sim; e não só a ela como tambem o seu marido.

—Homem, tu estás...

—Estou como queiras que esteja, porém agora vou chamal-os. Pede-o minha

filha, e é quanto basta.

—Porém o padre Francisco disse que não e... não.

—E minha filha diz que sim, e... e sim.

E João, sem fazer caso do que dizia sua mulher, acompanhada no mesmo tom

pela tia de Antonia, saiu em direcção da oficina de Julião, pedindo a

este a sua mulher e sua mãe que fossem a sua casa, logo que fechassem a

porta.

Dôres, acompanhada de seu marido, entrou na casa de sua amiga.

—Antonia—disse Dôres muito baixinho.

—Ah! és tu?—respondeu a filha do carpinteiro, reanimando-se.

—Como estás?

—Mal, Dôres, muito mal; porém não sei que voz secreta me diz que desta

vez ainda não morro.

—Tem confiança em Deus e está socegada, filha, esperando que a Sua

vontade seja feita... porém não fales mais...

—Mas eu quero falar-te.

—E a cabeça?

—A cabeça já não me doe tanto. Oh! se tivessem continuado as mesmas

dôres de hontem, certamente que já não seria deste mundo... Não podiam

deixar-nos sósinhas?—disse para duas mulheres, suas visinhas.

—Sua mãe—respondeu uma delas—disse que a não deixassemos nem um instante

só.

—Pois saiam agora e vão para a sala.

—Olha—disse Antonia quando se viu sósinha com Dôres—tu és a pessoa em

quem tenho mais confiança, e por isso, se eu morrer, desejo encarregar-te

de certas coisas...

—Antonia, querida Antonia—interrompeu Dôres—não te alteres, socega. Não

disseste ainda ha pouco que não morrerias desta vez?

—Não me altero, Dôres, e tão pouco penso em morrer.

Depois de descançar um momento, disse:

—Recordas-te de que, no dia de Santo Antonio, em que fui para o campo, ao

despedir-me de ti te disse: _Mau dia vou ter?_

—Sim.

—Vê então como acertei sem ser profetiza. Por mais que pedisse de todo o

meu coração ao Santo, não fui ouvida dele.

—Olha, Antonia, e crê o que te vou dizer: Em logar de pedires a Santo

Antonio, pede em nome de Jesus. Foi Ele que te remiu com o Seu sangue;

Ele te chama; para que deixar a Deus pelo homem, o certo pelo duvidoso?

—Sim, sim, tens razão... Olha, hontem quando me deram o _Santissimo_

pareceu-me que estava tranquila, porém hoje, que a minha cabeça está um

pouco mais leve, as duvidas assaltam o meu espirito; pois que a verdade é

que, quando me confessei, com a cabeça já quasi perdida, o P.ᵉ Francisco

me falou da morte, do inferno, e não sei de quantas coisas mais. No

estado em que tinha a cabeça, a minha confissão...

—Antonia, só Deus pode perdoar os pecados; portanto, só a Ele é que deves

confessar-te; dize-Lhe, pois: «Pae, pequei contra Ti, mas por amor de

Jesus Cristo perdôa todos os meus pecados».

—E dize-me Dôres, Deus perdoa assim tão facilmente? Não haverá nada que

purgar?

—Não, não ha nada, porque Cristo purgou tudo.

—Ai, Dôres, se eu pudesse crêr nisso, que bem sentiria!

—Se queres, esta noite virá Julião, e ele te falará a esse respeito.

—Sim, quero, que venha. Tenho um encargo a fazer-te. Abre a gaveta

daquele toucador e vê se ali ha uma caixinha; dentro dela ha uns brincos,

a um falta-lhe fazer o aro; sabe quanto custa e dize-mo.

Dôres obedeceu, fazendo o que Antonia lhe havia recomendado.

As duas amigas pouco depois despediram-se, e Dôres saiu em direcção a sua

casa.

Vejamos entretanto o que fazem mestre João, sua mulher e a tia de

Antonia, irmã de João, que estão na oficina.

—Tenho dito—dizia a sr.ª Brigida—que não quero que essa mulher esteja

ahi, e não estará.

—E Antonia—respondeu o carpinteiro—disse que quer que esteja, e estará.

—Porém tu queres perder a alma da pequena? perguntou sua irmã.

—O que vós ambas quereis é que eu perca a paciencia, e então...

—Essa mulher cheira-me a enxofre, João.

—E dize-me, querida Brigida, não te cheirava a enxofre quando lhe

recomendavas que tivesse cuidado da nossa casa?

—Então não sabia o que eles eram.

—Sim, que o sabias, porque na noite em que baptizaram o seu filho foste á

capela dos protestantes vêl-o baptizar.

—Eu não sabia que eram tão maus como são.

—Porém eles que te fizeram?

—A mim nada, porém o P.ᵉ Francisco sabe-o muito bem, e por isso ele diz

o que diz. Estou certa de que agora Dôres está dizendo a nossa filha que

não acredite em Deus nem nos santos, para que morra em pecado e seja

condenada.

—Isso—observou a tia—se não a matar.

—Quando digo que...

—Esta noite—interrompeu Brigida—vou chamar o P.ᵉ Francisco para que

confesse outra vez Antonia.

—E eu, se torno a ver o padre dentro de minha casa, vós e ele saireis

correndo pela porta. Repara, Brigida, que estou meio louco, que jámais te

faltei ao respeito; porém eu sei que Dôres não diz a nossa filha nenhuma

coisa má, e que não quero o padre em minha casa. Se até aqui tenho sido

fraco, agora não o sou.

—Digo-te que virá o P.ᵉ Francisco... e ha-de vir.

A disputa terminou, saindo mestre João a tratar dos seus negocios, e

Brigida saiu apoz ele para ir falar com o padre, a quem disse:

—Ah! meu padre! minha filha quiz ver a mulher de Julião, e meu marido foi

chamal-a.

—Pois é necessario impedir que ela lhe fale.

—Oh! senhor! Já estão falando ha bastante tempo!

—Porém, qual é a opinião de seu marido a tal respeito?

—Meu marido diz que Dôres não diz coisa alguma que seja má a Antonia!

—Então como se entende isso? Não diz nada que seja mau? Julgue a senhora

por si mesma. A primeira coisa que sem duvida lhe terá dito é que não

faça caso daquilo que eu lhe disse; que será bom que se entregue a Deus

e que tenha confiança n’Ele (e isto para a enganar, pois que este é o

sistema dos protestantes), porém que não satisfaça a penitencia, porque

é uma loucura que dá muito incomodo; tambem lhe terá dito que pode muito

bem salvar-se sem recorrer a nenhum santo; e que não creia de maneira

nenhuma no poder e intercessão de Maria Santissima.

«Oh! contra a bemaventurada Virgem certamente que terá dito coisas que

não estão na cartilha; como, por exemplo, que nunca existiu, que não foi

pura e...

—Oh! que horror! que horror!—exclamou Brigida com os olhos fóra das

orbitas, como tomada dum grande espanto, e acrescentou:

—E não poderá vir agora comigo, que não está em casa meu marido?

—Sim, sr.ª Brigida.

—Então corramos a salvar minha filha.

O sacerdote saiu em companhia da sr.ª Brigida, para visitar Antonia. Na

oficina já estava mestre João, que, oferecendo uma cadeira ao padre, lhe

disse:

—Poderá dizer-me a que devo a honra da sua visita?

—Sim, senhor—respondeu o P.ᵉ Francisco;—sua mulher disse-me coisas muito

graves e serias.

—Minha mulher fala mais do que aquilo que deve...

—Não se altere, sr. João—disse o sacerdote, acrescentando:—Não trate

assim sua pobre mulher.

—Nunca—respondeu mestre João—tratei mal a minha mulher nem a ninguem,

porém agora empenharam-se em se oporem áquilo que eu ordeno, e isto não

posso consentil-o.

—Mas em que se opõem á sua vontade?

—Em que não quero que contrariem minha filha no estado em que ela está.

—Aquele que mais quer mal a Antonia é vocemecê.

—Eu?

—Sim, senhor; vocemecê, que lavra a eterna condenação dela, lançando-a no

inferno, onde será para sempre atormentada, porque, estando prestes a sua

ultima hora, vocemecê, seu pae, ácerca de pessoas que...

—Essas pessoas são tão dignas como V. S. e como eu—exclamou o carpinteiro

com certa energia, e acrescentou:—Que mal lhe fizeram Dôres e seu marido

para que fale dessa maneira?

—São uns herejes—respondeu o sacerdote—que renegam a fé cristã.

—P.ᵉ Francisco, se não tivesse em atenção o seu caracter sacerdotal,

dir-lhe-hia claramente que aquilo que diz não é verdade.

—Como! eu minto!—exclamou o padre, levantando a voz.

—Ouça, sr. padre: na minha casa ninguem levanta mais a voz do que eu.

—Eu sou um ministro de Deus e tenho poder para erguer a minha voz

sagrada, sempre e onde seja necessario.

—João, sê prudente—disse a sr.ª Brigida em voz suplicante.

—Cala-te—respondeu o marido; e em seguida, dirigindo-se ao padre,

disse-lhe:—Para que veja como eu respeito esses direitos, peço-lhe que me

diga franca e claramente o que quer, ou então que saia de minha casa.

—Bem—respondeu o padre,—venho confessar sua filha, pois de contrario

morre em pecado e será condenada, por ter falado com essa mulher que está

excomungada.

—E eu digo-lhe que não confessará minha filha, e que, pelo contrario,

o Sr. Julião e sua mulher estarão constantemente em minha casa e á

cabeceira de minha filha.

—Pois eu não respondo pela sua alma, nem nenhum santo estará á sua

cabeceira quando exale o ultimo suspiro, e, o que é mais ainda, ninguem

lhe dirá uma missa por sua alma, pois que será inutil.

—Tão inutil será então como o é agora. Não fui senão uma vez á capela

dos protestantes, e nessa ocasião tirei mais proveito do que em todas

as vezes que fui á missa. Ali se lê e prega o Evangelho. Ali o ministro

roga a Deus pela nação, pelo governo, pelos enfermos, pelos pobres e

pelos aflitos. Ali os assistentes tomam parte no culto cantando hinos.

Ali falam em hespanhol, de modo que o senhor e todos podem entender o que

se diz. O senhor que lingua fala quando diz missa? Tanto pode ser mouro,

como grego, como latim; o que eu sei é que não entendo palavra.

—Nem faz falta que entenda; o que lhe faz falta é crêr.

—Mas crêr em quê?

—No valor da missa.

—Porém, que valor tem a missa?

—Muito.

—Pois eu dou-lhe uma libra para que diga uma missa afim de que minha

filha fique boa.

—A missa não cura senão as enfermidades da alma.

—Pois então enganaram minha mulher, pois que eu sei que lhe aconselharam

a que mandasse dizer missa pela saude de minha filha.

—Parece mentira que um homem que tem em sua casa um altar dedicado a

Santo Antonio fale dessa maneira.

—O que vou fazer do Santo Antonio, mais tarde o verá. Como me ha-de ouvir

ele, se não é mais do que um pedaço de madeira? Fique sabendo que eu vi

esse Santo quando tinha cortiça. Do mesmo tronco de madeira fizeram o

Santo e um cavalo.

—Oh! não posso ouvil-o por mais tempo.

—Pois o que lhe digo é verdade; o escultor é muito meu amigo.

—Por ultimo, permite-me que confesse sua filha?

—Não, senhor.

—E que lhe fale?

—Tambem não.

—Julião falará com ela?

—Sim, senhor. E a mim me ensinará a viver; a sua casa é mais abençoada do

que a minha.

—Não durará muito essa benção, eu lho prometo, nem habitará por muito

tempo na casa onde mora.

—Pode fazer tudo o que quizer.

CAPITULO VII

A visita

Retrocedamos e voltemos a encontrar Dôres no momento de entrar em sua

casa, depois da visita que fez á sua amiga.

Julião e sua mãe, apenas a viram, perguntaram-lhe como estava Antonia, e,

ao saberem que ia melhor, Julião exclamou:

—«A oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o aliviará.»

—Deus é fiel—acrescentou a sr.ª Josefa.

Dôres contou a seu marido a conversa que tivera com Antonia, e o encargo

que ela lhe fez dos brincos.

Á hora do costume Julião fechou a porta da loja, e, munindo-se da sua

Biblia, saiu, acompanhado de sua mãe e Dôres, em direcção da casa de

mestre João. Bateram de mansinho á porta, que João veiu abrir.

—Entrem para a oficina. Antonia está dormindo, e o medico, bastante

surpreendido, disse que isto era um bom sinal.

Na carpinteria estavam a senhora Brigida, a tia de Antonia e mais tres

mulheres.

—Boas noites—disseram ao entrar.

—Boas noites—responderam com certa reserva as pessoas que ali estavam.

—Então Antonia está dormindo? Oh! isso é um bom sinal.

—E diga-me, sr.ª Brigida, se sua filha chegar a ter saude, a quem atribue

essa graça?

—Eu atribuo-a ao bemaventurado Santo Antonio, que jámais me negou o que

eu lhe tenho pedido.

—Permite-me, querida Brigida—interrompeu mestre João—que te diga que o

tal Santo Antonio não te ouviu na ocasião presente. Eu já dantes estava

certo, porém agora estou certissimo, de que Santo Antonio não te ouviu,

nem te ouve, nem jámais te ouvirá, ainda que o chames com uma buzina.

—Certamente que, tendo um marido tão pouco devoto como tu, ainda que

chame por todos os santos da côrte celestial, nenhum me ouvirá.

—Com que então eu sou um impio! E como o sabes tu? O que me pésa no

coração não é o ter-me oposto a que Antonia se confessasse, mas sim ter

sido tão fraco que permitisse que o padre Francisco a tenha confessado.

Tendel-o entendido? Demais, agora creio-me menos impio do que antes,

porque, em logar de não pensar nada em Deus, agora penso alguma coisa.

—Senhores—interrompeu Julião,—se me permitem, direi algumas palavras, as

quaes, com o auxilio de Deus, nos serão muito uteis para esclarecer esta

questão.

—Senhor Julião—disse Brigida,—todos sabemos as doutrinas que professa; eu

sei o que creio, e nada me desviará dessa crença.

—Muito bem, senhora Brigida—respondeu Julião,—porém permita-me uma

pergunta? Em que crê?

—Eu creio no que diz a Egreja.

—E que diz a Egreja?

—A Egreja diz... diz... diz o que diz; eu bem sei o que diz.

—Mulher—interrompeu o carpinteiro,—com essas razões ficamos inteirados.

—Diga-me, sr.ª Brigida—esclamou Julião,—que conseguiu Antonia com a

confissão que fez ao P.ᵉ Francisco?

—Muito—respondeu a mulher do carpinteiro,—pois se daquela ocasião tivesse

morrido certamente que se salvava.

—Isso não é certo, pois que a confissão não salva ninguem, porém, apezar

de tudo, diga-me: quantas coisas são necessarias para fazer uma boa

confissão?

—Sim, senhor, são cinco; Catecismo do Padre Ripalda _sobre a penitencia_,

(pag. 54) exame de consciencia, dôr do coração...

—Ouve—interrompeu o marido,—eis ahi o que não tinha nossa filha; o que

ela tinha era uma forte dôr de cabeça.

—Cala-te e não digas loucuras... dôr de coração, proposito de emenda,

dizer os pecados ao confessor e cumprir a penitencia.

—Muito bem, e crê que sua filha, hontem de tarde, atormentada pelas dôres

da doença, estava nas disposições de ter esses requisitos, sem os quaes,

segundo a Egreja romana, não se pode fazer uma confissão capaz de obter o

perdão dos pecados? Vejamos: Antonia, em consequencia do ataque cerebral,

sofrendo da cabeça horrivelmente, vae confessar-se; preparam-na de

antemão para isso! dizem-lhe que o confessor irá dali a uma hora, e que é

preciso fazer exame de consciencia; nada menos do que passar em revista

tudo o que disse e fez desde a ultima vez que se confessou. Dali a uma

hora vem o confessor, e a joven, que não pode sequer abrir os olhos, e a

quem o menor ruido incomoda, tem que ouvir e responder ás perguntas que

ele lhe faz; isto se ela pode falar, pois que do contrario o confessor

pega-lhe na mão e começa a confessal-a pelos dedos. Depois disto, que

não é pouco, vem a penitencia, que geralmente consiste em rezar tantos

Padre Nossos, tantas Avé Marias, tantas Salvé-Rainhas, tantos Credos,

etc. Suponhamos agora que o penitente tem dôr do coração e muito

proposito de emenda; porém terá forças para cumprir a penitencia e fazer

exame de consciencia? Mas isto ainda não é tudo; dali a uma hora vem _o

Santissimo_, que muitas vezes é administrado ao enfermo no periodo agudo

da doença, e estão tão convencidos de que é dificil ao doente o tomar a

_particula_ que a todo o doente que a recebe pergunta o sacerdote: _Já

passou?_ Por consequencia, sr.ª Brigida, são estas as boas disposições

para a gente se salvar?

A mãe de Antonia calou-se, e algumas mulheres, e com elas o sr. João,

disseram maquinalmente:

—Tem razão.

Julião conheceu que estava senhor da situação, e, levado dum grande zelo

em anunciar o Evangelho, continuou desta maneira:

—A um enfermo não se deve falar senão de Jesus; na Palavra de Deus

encontram-se frases tão consoladoras como estas: «O sangue de

Jesus-Cristo nos purifica de todo o pecado». «Ainda que ande nos vales

da sombra da morte, não temerei mal algum». «Na verdade, na verdade, vos

digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna». «Eu, diz Jesus, sou

a ressurreição e a vida; aquele que crê em mim, ainda que esteja morto,

viverá». Estas palavras necessariamente comoverão o enfermo e o farão

exclamar:—E quem és tu?—E então o Filho de Deus responde ao enfermo: «Eu

sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a vida pelas Suas ovelhas». «Eu sou

Jesus». E «todo aquele que vem a mim, não o lançarei fóra»...

Quando Julião acabou de falar, fez-se um silencio profundo. Por fim, uma

das mulheres disse:

—Sabe que gostei muito do que acaba de dizer, e que nunca ouvi falar

assim?

—Parece que o que dizes tem visos de verdade—acrescentou a irmã de mestre

João.

—Senhora—disse Julião,—as palavras do Evangelho são verdadeiras; porém,

tornando á nossa questão, repito: Crêem que a confissão, feita da maneira

por que a Egreja a preceitúa, salva?

—Se não salva—respondeu Brigida,—temos feito tudo o que podemos para que

assim seja.

—Porém, amiga, é um deploravel erro crêr que a confissão feita ao ouvido

dum sacerdote pode abrir as portas do céu. Na Biblia Sagrada não ha uma

só palavra ácerca da confissão secreta; nem tão pouco os apostolos a

praticaram. Mas, apezar de tudo, a sua filha ficou mais tranquila, depois

que se confessou?

—Não, senhor—apressou-se a dizer mestre João.

—Desejou ver outra vez o seu confessor?

—Não, senhor; opõe-se tenazmente a isso—respondeu ainda o carpinteiro.

—Opõe-se a isso—disse Brigida—porque não falta quem lhe meta na cabeça

idéas corrompidas.

—Senhora Brigida—exclamou Julião—se diz isso referindo-se a minha esposa,

eu lhe asseguro que Dôres não disse a Antonia palavra alguma má. Estou

certo de que não lhe falou senão de Jesus, seu Salvador.

—Pois eu não sei outra coisa mais senão que minha filha não quer ver o

P.ᵉ Francisco, e ela terá as suas razões.

Neste momento a mulher que velava por Antonia entrou na oficina para

dizer que Antonia tinha acordado e que chamava. Suspendeu-se, pois,

a conversação, e todos se dirigiram para a sala, entrando Brigida tão

sómente na alcova.

Brigida aproximou-se do leito de sua filha e perguntou-lhe:

—Como estás, minha filha?

—Bastante melhor—respondeu a enferma, que acrescentou:—Dôres não veiu?

—Sim, está ali.

—Pois então que venha.

A mulher do carpinteiro saiu da alcova, e pouco depois todos entraram

nela. Trocadas algumas palavras referentes ao estado de Antonia, Julião

disse-lhe:

—Antonia, disseram-me que desejava ver-me. Diga-me: em que lhe posso ser

util?

—Ah! Julião, desejava vêl-o anciosamente, e agora essa anciedade aumentou.

A enferma calou-se por alguns instantes. Depois, fitando os olhos em

Julião, com uma expressão indescritivel, perguntou-lhe:

—Qual é o caminho que conduz ao céu?

Julião vacilou por alguns momentos, comovido pela anciedade daquela

pergunta, e por fim disse:

—Vou dizer-lho, querida amiga. Jesus é quem lhe responde: «Eu sou o

Caminho, a Verdade e a Vida; ninguem vem ao Pae senão por mim.» Jesus,

pois, é o caminho que conduz ao céu?

—Bem... porém que tenho a fazer para seguir esse caminho e entrar no céu?

—O mesmo Jesus o diz: «Não temas; crê sómente, e serás salva».

—Porém crêr, em quê ou em quem?

—«Se confessares com a tua boca ao Senhor Jesus e crêres do teu coração

que Deus O ressuscitou dos mortos serás salva.» «Crê no Senhor Jesus e

serás salvo». Isto é o que diz a Santa Palavra.

Julião ficou silencioso, observando o efeito que aqueles textos faziam na

enferma. Por fim, Antonia disse:

—Porém não tenho que fazer nada para salvar-me?

—A Palavra do Senhor diz-lhe: «Crê sómente e serás salva», e acrescenta:

«Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus por meio de Nosso Senhor

Jesus Cristo.»

—Porém, Julião, isso parece-me uma coisa impossivel, porque sou muito

pecadora...

—Sim? Pois precisamente por isso póde apropriar a si as palavras de

Jesus, que diz: «Não vim a chamar os justos, mas sim os pecadores». Pode

por isso considerar que Deus perdoa gratuitamente, mas, se ainda lhe

resta alguma duvida, atenda que é o proprio Jesus que vae falar: «O Filho

do Homem veiu buscar e salvar o que havia perecido; e todo aquele que vem

a mim, não o lançarei fóra».

—Ah! Julião, que doce consolação para a minha alma! Porém parece-me

impossivel que Deus me ame dessa maneira.

—Ouça o que diz a Sua Palavra: «De tal maneira Deus amou ao mundo, que

lhe deu Seu Filho unigenito, para que todo o que nele crê não pereça mas

tenha a vida eterna.»

—Oh! como Deus é bom! Porém, como nenhum dos meus confessores me disse

nada dessas coisas, senão que, ao contrario, o P.ᵉ Francisco, apezar da

fraqueza em que eu estava, me sobrecarregou com uma penitencia que...

—Os confessores sabem a razão por que calam essas coisas, e a menina

tambem algum dia o saberá. Agora o importante é que creia no bom Jesus, e

que o aceite como seu Salvador.

Houve outro momento de silencio; ninguem se atreveu a interrompel-o. Por

fim, mestre João disse:

—Parece incrivel que os padres não nos ensinem coisas tão boas como as

que Julião acaba de dizer-nos.

—Meu pae—disse Antonia,—desejo possuir um livro como o de Julião.

—Sim, minha filha, ámanhã mesmo o terás, se Julião me disser onde se

vendem.

—E que lhe parece tudo isto?—perguntou a sr.ª Josefa a Brigida.

—Oh! parece-me que é muito bom—respondeu esta,—porém a mim não ha nada

que me arranque ás minhas opiniões.

—Senhores—interrompeu Julião,—creio que incomodamos a enferma, e que

devemos retirar-nos.

—Não—replicou vivamente Antonia,—a mim não me incomoda; pelo contrario,

não sabe o bem que as suas palavras causaram á minha alma, e a paz que

sinto; porém de que modo pedirei perdão ao Senhor para o obter? Sou uma

pobre pecadora, que se encontra ás portas da morte.

—Visto que deseja falar, falemos. «Um homem teve dois filhos, e disse

o mais moço deles a seu pae: Dá-me a parte da herança que me toca. _E

passados não muitos dias_, depois de ter recebido a herança, partiu para

uma terra muito distante, num paiz estranho.» Um pecado nunca vae só;

sempre arrasta outro comsigo.

«O joven, ao ver-se em perfeita liberdade, e possuidor de grandes bens,

gastou tudo o que seu pae havia ganho. Porém gastou-o em coisas santas?

Em esmolas? Não; «dissipou toda a sua fazenda, vivendo dissolutamente.»

Bem depressa o joven se viu reduzido á pobreza. Que fazer? Deus enviou

áquele paiz uma grande fome, e o joven, só e pobre, teve que sofrer

aquela praga até ao ponto de desejar as landes que comiam os porcos

que ele guardava. Neste estado, entrando em si, veiu-lhe á imaginação

_a sua casa e o seu pae_. «Quantos jornaleiros—disse ele—ha em casa

de meu pae que teem pão em abundancia, e eu aqui pereço á fome!» Desta

reflexão nasceu outra em sua alma. Quanto tenho pecado! Que fazer?

«Levantar-me-hei, e irei buscar a meu pae, e dir-lhe-hei: Pae, pequei

contra o céu e deante de ti: já não sou digno de que me chames teu filho;

_faze de mim como dum dos teus jornaleiros_». Concedeu-lhe o pae o que

ele pediu? _Não, mil vezes não._ O pae vê vir lá ao longe um homem,

esfarrapado, coberto de pó. Alguns homens do povo passam junto dele,

olham-no de alto a baixo, porém não o conhecem. Ah! os olhos dum pae

vêem a uma grande distancia. O ancião reconhece naquele, que parecia um

mendigo, seu filho, e corre ao seu encontro, abraça-o, e, quando lhe

ouve a confissão que ele faz, reconhece o seu arrependimento, e não

diz! «Trazei-lhe uma enxada ou uma pá», mas sim: «Tirae depressa o seu

primeiro vestido e vesti-lho, metei-lhe um anel no dedo e uns sapatos nos

seus pés; trazei tambem um vitelo bem gordo, e matae-o para comermos e

para nos regalarmos.»

Julião e a Biblia · 第 2 / 12 段