Julião passou o dia trabalhando, e tanto ele como sua famili

[Illustration]

JULIÃO E A BIBLIA

[Illustration: «O pequenito parece que se vae saindo»

Pag. 10.]

_EMILIO MARTINEZ_

JULIÃO E A BIBLIA

TRADUZIDO DO HESPANHOL

POR

GUILHERME DIAS

3.ª EDIÇÃO

LIVRARIA EVANGELICA

RUA DAS JANELAS VERDES, 32

LISBOA

IMPRENSA LIMITADA

Marianos—Rua das Janelas Verdes

LISBOA

CAPITULO I

A benção de Deus

Ao cair duma tarde de primavera, entramos no pateo duma casa situada na

rua dos Embaixadores, em Madrid, onde nos chamaram, desde logo, a atenção

duas janelas que, a julgar pelo ruido que delas sahia, uma devia ser a da

oficina dum carpinteiro, e a outra a dum latoeiro.

Perto desta ultima janela, uma mulher já de edade, a julgar pelos seus

cabelos brancos, estava sentada, lendo com grande interesse um livro, que

tinha sobre os joelhos. Não podemos, pela posição em que ela está, ver

o seu rosto, porém chama-nos a atenção a seriedade com que lê o livro e

o desejo, que se lhe nota no rosto, de aproveitar na leitura os ultimos

instantes que lhe restam da luz do dia.

Não sabemos que estranha simpatia nos arrasta para aquela mulher.

De repente, entra no pateo um rapaz, que diz:

—Senhora Josefa, o mestre chama-a.

Então ela levantou a cabeça, porém a surpreza, em que estavamos, não

nos deixou ouvir a resposta. Aquele nome, aquelas feições e aquela

voz traziam-nos á memoria uma pessoa a quem muito estimavamos, e uns

acontecimentos que seguramente se nos tinham apagado da memoria.

Josefa atravessou o pateo e desapareceu.

—Quem é esta senhora?—perguntámos ao rapaz que neste momento recolhia a

cadeira em que Josefa estava sentada.

—A mãe do mestre—respondeu-nos ele, e desapareceu por uma porta, que

havia no pateo, e que dava passagem para a loja do vidraceiro.

Então sahimos para a rua, e, olhando para a _vitrine_ duma loja que ha ao

lado do portal, a nossa vista foi fixar-se no seguinte letreiro, que se

lê no cimo dela:

JULIÃO

VIDRACEIRO, CHUMBEIRO E LATOEIRO

Este nome tambem nos traz á memoria uma pessoa e um facto, e a nossa

surpreza foi grande quando a porta da loja se abriu e apareceu nela um

rapaz, a quem havia bastante tempo conheceramos quando era ainda menino,

disputando com um sacerdote.

Efectivamente, este homem é Julião, e a senhora que lia no pateo era

Josefa, a vendedeira.

Mas que mudança! Quem havia de reconhecer neste joven o filho de Josefa?

Pouco depois da epoca em que o conhecemos, o Senhor lhe proporcionou

trabalho em casa dum bom mestre, onde, ao fim dum ano, se cativou das

suas simpatias.

Era o mestre de Julião de edade avançada, viuvo e pae duma joven de 19

anos, que o tratava com todo o carinho duma boa filha, e a qual se

chamava Maria das Dôres.

Ao cabo dum ano, que Julião esteve á frente da casa, progrediu esta de

tal maneira que o mestre não deixava de falar em toda a parte no seu

oficial. Passados dois anos, depois que Julião estava em casa do mestre,

viu-se este atacado duma pneumonia, e, sentindo que os seus ultimos

momentos se aproximavam, chamou Julião e disse-lhe:

—Julião, tu tens-te portado em minha casa como um homem de bem... os meus

ultimos momentos aproximam-se, e desejo, já que outra coisa não pode ser,

que me dês a tua palavra de honra que continuarás em minha casa sendo o

que eras até aqui... Lembra-te de que esta casa é o amparo duma orfã, e

de que, se tu nos deixares, não sei o que será dela... eu bem queria...

mas...

E o ancião deteve-se como se temesse dizer alguma inconveniencia.

—Mestre—respondeu Julião soluçando,—Deus não quererá que morra, mas,

se essa fôr a Sua vontade, cumpra-se... eu lhe prometo que continuarei

velando pela casa com mais solicitude do que até aqui... e que Maria das

Dôres será para mim uma irmã... já que outra coisa não...

—Julião—disse-lhe o seu mestre,—fala claro; um velho que se acha ás

portas da morte faz-te este pedido.

—Pois bem—respondeu Julião,—já ha tempo que, comigo mesmo, tenho admirado

as virtudes e prendas que adornam sua filha, porém o receio de que me

atribuissem fins interesseiros, pela diferença de posições, obrigaram-me

a calar e a não dizer palavra.

—Graças te dou, oh meu Deus—exclamou o ancião,—porque coroaste os meus

desejos.

E, mandando chamar a filha, depois de consultar a vontade dela e de

receber a aprovação de Josefa, Julião e Maria das Dôres se receberam por

marido e mulher, na presença do oficial do registo civil. Pouco depois

falecia o mestre de Julião.

A benção de Deus se estendeu sobre os dois esposos até ao ponto de

conceder-lhes, como fruto do seu matrimonio, um menino, ao qual pozeram o

nome de Paulo.

Tal é o estado de Julião e sua familia.

Já que é nosso amigo, entremos na sua loja. Nada ha de extraordinario

que nos chame a atenção, excepto um quadro em cartão, colocado numa das

paredes, que diz:

_Lembra-te de santificar o dia de descanço. Trabalharás seis dias, e

farás neles tudo o que tens para fazer; o setimo dia, porém, é o dia de

descanço consagrado ao Senhor, teu Deus; não farás nesse dia obra alguma,

nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva,

nem o teu animal, nem o peregrino que vive das tuas portas para dentro;

porque o Senhor fez em seis dias o céu e a terra e o mar e tudo o que

neles ha, e descançou ao setimo dia; por isso o Senhor abençoou o dia

setimo e o santificou._

Vamos agora travar conhecimento com um dos visinhos de Julião,—o dono da

oficina de carpinteiro.

Chama-se João, homem de 65 a 68 anos. Apezar desta edade, ainda está

vigoroso, e, se não fôra por algumas dôres que sofre, em consequencia de

ter dormido muitas noites ao relento, no tempo da guerra dos sete anos,

estaria forte como um rapaz. O seu caracter é bom, liberal desde a medula

dos ossos, e é sargento da Guarda Nacional.

A sua familia compõe-se de Brigida, sua esposa, e uma joven de 18 a 20

anos, chamada Antonia, fresca e louçã como as flores de maio e na qual

ele faz consistir toda a sua felicidade.

João está despedindo os oficiaes e aprendizes, dizendo-lhes:

—Vinde ás dez horas; já sabeis que ámanhã é dia de Santo Antonio, e que

não se trabalha.

—Porém, mestre—observou um—a obra que ha oito dias encomendaram tem de se

entregar na segunda feira.

—Nesse caso, trabalharemos no domingo até ás tres horas da tarde. No dia

de Santo Antonio não se préga um prego em minha casa; é o dia do santo

do nome de minha filha, e tanto basta. Ás dez horas aqui vos espero para

o baile: não esqueçaes as guitarras; até eu hei-de bailar... É Santo

Antonio quem vae presidir á festa. Minha filha poz-lhe no altar o docel

de veludo, que me custou cerca de dez libras, e se lhe acenderão pelo

menos quarenta luzes. Ide ver o altar.

Todos ficaram admirados do bom gosto que presidiu ao adorno do altar, e,

pensando já no divertimento que iam ter, sairam alegres, esfregando as

mãos de contentes.

Quando o mestre ficou só, avistou Julião, que brincava com o filhinho, e,

dirigindo-se a ele, disse-lhe:

—Boas noites, visinho.

—Boas noites, sr. João—respondeu Julião.

CAPITULO II

Devoção e... vinho

O pequenito parece que se vae saindo.

—É verdade, sr. João—respondeu Julião. Depois de guardarem alguns

momentos de silencio, disse Julião:

—Porque não se senta, sr. João?

—Com muito gosto—respondeu este, sentando-se num banco ao lado de Julião,

e acrescentando: Como vamos com respeito a trabalho?

—Tenho mais do que o que se pode fazer. Acabo de tomar uma encomenda de

caldeirões para um regimento de artilheria, e trabalhamos sem cessar,

graças a Deus.

—Pois eu tambem tenho muito que fazer. Alem do trabalho da casa, ainda

tenho oito obras de fóra.

—Eu—continuou Julião—vou começar a fazer serão de ámanhã em deante.

—Como assim?—perguntou o carpinteiro—vae trabalhar ámanhã, que é dia de

Santo Antonio?

—E porque não? Ámanhã, no meu entender, é um dia como os outros.

—Certamente—replicou o sr. João.—Olhe, eu não sou lá muito amigo dos

santos; mas no dia de Santo Antonio não consinto que em minha casa se

prégue um prego. É santo a quem quero muito, porque é o advogado da minha

filha. É verdade que eu devia trabalhar ámanhã, porque na segunda feira

tenho de entregar umas travessas! Mas, dia por dia, prefiro trabalhar no

domingo.

—Trabalhar ao domingo é coisa que eu não farei, porque Deus assim o manda

e é preciso obedecer-Lhe.

Neste momento, Dôres, Brigida e Antonia assomaram á porta das suas

respectivas habitações, cumprimentando-se ao mesmo tempo.

Dôres pegou no menino, que estava ao colo do marido, e dirigiu-se para

a carpinteria, a cuja porta estava a sr.ª Brigida acenando-lhe para que

fosse ter com ela.

Deixemos os dois homens continuar na sua conversação e escutemos o que

dizem as duas mulheres.

—Que me quer, sr.ª Brigida?—disse Dôres ao chegar.

—Que nos deixes ver o teu filho.

—Pois está bem gorducho—disse com orgulho Dôres, apresentando-lhe o

menino.

—Oh! está lindo como os amores!—insistiu Brigida, tomando o menino nos

braços, e acrescentando:—Ah! que se o seu avô o visse!...

—Por fim—interrompeu a mãe de Antonia—tu foste feliz, porque perdeste um

pae muito bom mas encontraste um marido tão bom como ele.

—Isso é verdade; não tenho motivos senão para dizer bem do meu Julião.

—Deve querer muito ao filhinho, não é verdade?—perguntou Antonia.

—É cego por ele—respondeu Dôres.

—É natural—acrescentou a sr.ª Brigida—Como é o primeiro e está tão

lindo... Santo Antonio o abençôe.

—Senhora Brigida—respondeu Dôres, pegando no menino,—abençoando-o Deus, é

quanto basta.

—Filha, e os santos tambem, e porque não?

—É que—disse a filha do carpinteiro—Dôres tem presente o rifão que diz:

_O que Deus não quer, santos não podem_; não é verdade?

—Pois olhe—disse Brigida,—eu tenho muita fé em Santo Antonio, porque

é um santo de muita virtude, ou ele não fosse chamado _Advogado dos

impossiveis_. Sem ir mais longe, outro dia perdi uma nota do banco de

100 pesetas; imediatamente acendi uma véla a Santo Antonio que tinha na

sala, rezei-lhe um Padre Nosso, e em seguida, remexendo bem na comoda,

no terceiro gavetão, onde eu não costumo guardar dinheiro, encontrei a

nota; desde então não ha de faltar ao santo, todos os dias, uma lamparina

acesa. Já vês, pois, que...

—Pois eu não vejo nisso outra coisa senão que com o andar do tempo

perderá realmente as 100 pesetas, gastando-as em azeite com o santo.

Demais, se, em logar de haver mal gasto o tempo em rezar e acender luzes

ao santo, tivesse remexido bem a comoda, teria achado o seu dinheiro,

pois que não estava perdido; se em vez de o ter metido na comoda, o

tivesse deixado cair na rua, veria como Santo Antonio não lho traria a

casa.

—Filha, és muito incredula!

—De modo nenhum, senhora Brigida, eu creio...

—Em quem crês? Porém não é isso; o que eu pergunto é: Qual é o Cristo da

tua devoção? É o Cristo do Prado, da Fé, o Cristo do Perdão, ou, emfim,

qualquer dos muitos outros Cristos?

—A nenhum desses, porque não conheço mais do que o Cristo, Filho de Deus,

que está nos céus.

Neste momento foi interrompida a conversa, porque lhes chamou a atenção

um tropel de gente que vinha rua acima. No meio da multidão, vinham dez

ou doze rapazes com guitarras e bandurras, e na frente deles um rancho de

mulheres, jovens tambem, e vestidas ao uso do povo, _de saias redondas_,

como eles dizem, porém com luxo. Ao chegar á oficina do carpinteiro,

deixaram de tocar, pararam, e o que fazia de director disse:

Vá; siga a _seguidilla_.

As guitarras deram a entrada, e uma mulher cantou:

Ó Antonio glorioso

Livrae-nos de todo o mal,

Alcançando-nos a vitoria

De toda a força infernal.

—Senhores, lá para dentro toda a gente—disse o sr. João;—porém onde estão

essas mulheres?... Brigida... Antonia...

—Ah! mãe!—exclamou Antonia,—vão entrar, e eu não queria que me vissem

emquanto não estivesse com o vestido novo.

—Sim?—respondeu a mãe,—pois verás como tudo se arranja!

Brigida dirigiu-se para a porta, e chegou ainda a tempo para dizer ao

marido, que vinha á frente dos convidados:

—Alto lá! não é permitida a entrada até que o santo, o presidente da

festa, esteja devidamente preparado.

—Muito bem, exclamaram a uma voz todas as pessoas presentes.

A mãe de Antonia entrou, fechando a porta sobre si, e momentos depois,

quando a filha já estava com o seu vestido novo, veiu de novo á porta,

dizendo:

—Podem entrar.

Homens e mulheres penetraram na sala, e, depois de trocados os primeiros

cumprimentos, cada um procurou logar, ficando algumas mulheres

ajoelhadas deante do altar, rezando ao santo.

—Senhores—exclamou João,—emquanto se prepara a ceia, entretenham-se como

puderem. Cantem e bailem umas _seguidillas_.

Oh’ Santo Antonio,

Meu amante coração,

Quer na vida, quer na morte,

Sêde a nossa salvação.

—Bravo! bravo!... venha de lá outra, disseram alguns.

As guitarras continuaram tocando, e outro rapaz cantou:

Ó Antonio glorioso,

A ti chego confiado,

Que nas minhas aflições

Hei de ser remediado.

—Agora, para poder continuar—disse o que tinha cantado—é preciso que

venha vinho para molhar as guelas.

—É isso mesmo—exclamou entusiasmado o mestre carpinteiro—tem razão o

rapaz. _Vinho tinto_, sim, porque sem ele não se pode tocar, nem cantar,

nem bailar. O vinho é preciso para tudo, e tanto que sem ele os padres

não podem dizer a missa. Bem se expressou aquele que disse: «Onde não

ha vinho não ha talento». Brigida,—acrescentou ele, dirigindo-se a sua

mulher—enche um cangirão com vinho e tral-o cá.

Deixemos agora que se divirtam e festejem o santo portuguez a seu modo.

Entretanto vamos visitar o nosso amigo Julião e sua familia.

O nosso amigo, acompanhado de sua mãe, está sentado á mesa, á espera que

lhe sirvam a ceia. O pequenito Paulo dorme no seu berço, e Dôres vem da

cosinha com a comida, que coloca em cima da mesa.

Á sala, onde estão, chega o ruido que vae na casa de seu visinho João.

—Demos graças ao Senhor—disse Julião, depois que Dôres se sentou á mesa.

Todos inclinaram a cabeça, e Julião dirigiu a Deus a seguinte oração:

—Oh! nosso Deus! Damos-Te graças pelos bens que nos dispensas, dando-nos

saude, trabalho e sustento; abençôa a minha familia, e o meu filhinho,

abençôa a oficina, e perdôa a esses pobres cegos ali do lado que Te estão

ofendendo; lembra-te dos pobres e dos enfermos; o que tudo Te pedimos

pelos merecimentos de Jesus Cristo, Nosso Salvador. Amen.

—Conte-nos agora—disse Julião, dirigindo-se a sua mãe,—o que vocemecê leu

hoje na sua Biblia.

—Cheguei ao versiculo 25 do cap. 11 do Evangelho segundo S. Mateus,

onde Jesus diz: «Graças Te dou a Ti, Pae, Senhor do céu e da terra,

porque escondeste estas coisas aos sabios e entendidos e as revelaste

aos pequeninos». Meditei sobre isto, e que grande verdade é que Deus

nos revelou coisas tão importantes que as podemos sentir mas que nunca

poderemos expressar!

—Oh! sim—exclamou Julião.—Deus ensina-nos diariamente coisas muito boas,

não é verdade, Dôres?

—Oh! sim—respondeu ela,—a mim tem-me ensinado, por Sua misericordia,

muitas coisas; a principal tem sido mostrar-me que sem Jesus Cristo

eu era uma pecadora perdida, e que, graças a Ele, agora sou salva;

antigamente eu andava fazendo obras que julgava meritorias, taes como

dar dinheiro para sufragios, jejuar, ouvir missa, etc.

—E eu—disse a mãe de Julião—que me fiava nos conselhos dos confessores,

e mandava dizer missas, acender velas aos santos; que comprava a _Bula

da Santa Cruzada_, para poder comer carne, e a _Bula dos Defuntos_! E a

respeito das _indulgencias_? Se algum valor elas tivessem, eu ganharia

mais indulgencias do que cabelos tenho na cabeça! Quando penso no erro em

que vivi, estremeço de medo!

—Pois eu—disse Dôres—ainda me lembro de que não havia dia nenhum, em que

fosse ao mercado fazer as compras, que não lançasse dinheiro na caixinha

das almas!

—Oh! terrivel conta—disse Julião,—teem que dar a Deus aqueles que se

esforçam por manter no erro a gente simples e credula.

—E quanta gente vive por esse mundo enganada!—exclamou a mãe de Julião.

—Eu—interrompeu Dôres—sinto-o por todas as pessoas com quem trato, porém

sinto-o de preferencia por Antonia, á qual desejava tornar conhecida a

verdade. Tanto ela como sua familia são muito boas pessoas; desde creança

quero-lhe como a irmã.

—Sim—disse Josefa;—no emtanto repara como passam a noite, cantando e

bailando deante dum altar. O erro dos romanos vae tão longe que lhes faz

colocar sob o mesmo teto Deus e o diabo ao mesmo tempo. Bailando adoram,

e adorando bailam.

—E o peor é—acrescentou Julião—que não levam geitos de se emendarem.

A inobservancia do domingo é coisa muito má, e eu vejo com grande

sentimento que o nosso visinho prefere trabalhar no dia de domingo,

comtanto que guarde o dia de Santo Antonio; quer dizer: profana o dia

do Senhor para guardar o dia dum santo imaginario. A regeneração das

classes trabalhadoras deve principiar pela observancia do domingo; para

elas o dia do repouso é uma necessidade para se refazerem as forças

fisicas que se gastam nos outros seis dias. Eu por mim mesmo tenho

observado que aqueles que trabalham os seis dias e não descançam ao

setimo gastam-se mais depressa, e gozam menos saude, do que aqueles que

guardam o dia do Senhor: e isto sem falar do concernente á saude da alma.

Neste momento, tendo acabado já de cear, chamaram á porta que dava para o

pateo. Julião levantou-se, indo abril-a, e Antonia, acompanhada de outra

joven, apresentou-se na sala, onde ainda estavam sentadas á mesa Dôres e

Josefa.

—Deus lhes dê boas noites—disseram ambas ao entrar, e a filha do

carpinteiro acrescentou:

—Venho da parte de meu pae dizer-lhes que teria muito prazer se viessem

cear comnosco.

Julião e sua mulher acompanharam a filha do carpinteiro e a sua amiga a

casa.

—Mestre, mestre—exclamou o carpinteiro ao ver entrar Julião,—venha cá

para o meu lado e sirva-se dalguma coisa.

—Muito obrigado, sr. João—respondeu Julião,—porém permita-me que não me

sirva de nada; sua filha é testemunha de que nos viu sentados á mesa.

—Bem, não me importa—disse o carpinteiro,—hoje ha em minha casa carta

branca para que cada qual faça o que quizer em honra de Santo Antonio;

que todos se divirtam e que ninguem esteja triste.

A ceia continuou sem nenhum incidente, até que á sobremesa o sr. João

disse:

—Agora os brindes; que cada qual brinde por quem quizer.

Julião estava sentado na cadeira, pensando no triste estado daquela

gente. Dôres falava com Antonia e outras raparigas da sua edade.

—Brindo—exclamou o sr. João—por Santo Antonio, que é o santo de minha

filha, pela liberdade, e para que fiquem confundidos os inimigos da ordem.

Ao brinde do dono da casa corresponderam os convidados, bebendo cada qual

o seu copo. A este brinde sucederam-se outros.

Um dos assistentes, joven ainda, oficial de confeiteiro, observou que

Julião não tomava parte nos brindes, e, fazendo convergir sobre ele as

atenções de todos, disse-lhe:

—Então vocemecê porque não bebe? Não gosta de vinho?

—Não bebo—respondeu Julião—porque acabo de cear em minha casa, e eu não

costumo beber senão ás comidas.

—Ora—disse o confeiteiro com modos impertinentes—isso será muito bom para

a saude, porém eu creio que o vinho é sempre bom.

—Cada um tem as suas idéas, e eu tenho as minhas.

—Pois olhe: o que a mim me parece é que vocemecê tem cara de padre, e que

se não brinda é porque não é homem.

—Ai!—exclamou Julião com toda a calma,—por aquilo que eu brindaria seria

para que Deus lhe desse mais juizo e menos palavriado.

Uma gargalhada geral ressoou em toda a sala ao ouvirem as palavras de

Julião. Este, conhecendo, pelo estado dos convidados, que aquilo não

era logar proprio nem para ele nem para sua esposa, deixou a sala,

despedindo-se cortezmente de todos.

O baile prolongou-se até á uma hora da madrugada; não havia cabeça que

estivesse em si. O sr. João, numa linguagem ininteligivel, disse:

—Senhores... ámanhã... disse... ámanhã... será dia. Proponho que vamos á

horta, ao campo... como ha que madrugar... é preciso dormir... com que

cada mocho a seu souto... tenho dito.

—Bem, bem!—exclamaram todos com alegria.

—Ordem, companheiros!—gritou com voz um pouco rouca o confeiteiro;—antes

de nos separarmos venha mais um gole e dancemos o _galope_ infernal.

—Sim, sim, disseram alguns, vamos ao galope infernal.

Encheram-se os copos e esvasiaram-se, e as guitarras tocaram

desafinadamente. Alguns pares começaram a bailar... Bailar? Melhor

diriamos que aquilo não era baile, mas sim dança de furias; aquela massa

de gente empurrava-se e pisava-se, indo dum lado para o outro. Por fim

sucedeu o que era de esperar. O confeiteiro e a sua companheira cairam

no chão e aos outros aconteceu o mesmo, por estarem com a cabeça toldada

pelo vinho.

Que scena! homens e mulheres, em revolta confusão, rolando pelo chão;

o calor sufocava! as vozes, no meio das quaes se ouviam alguns ais,

ensurdeciam, e tudo isto diante do santo da sua devoção! Por fim foram

levantando-se conforme poderam, os _devotos_ do santo, á excepção duma

joven que ficou estendida no chão, por efeito duma pancada violentissima

que havia recebido. Então é que foram os lamentos e os ais; uns resavam

ao santo, outros abriam roda, e abanavam com os lenços, e finalmente

Antonia correu ao seu quarto por um frasquinho de essencia que, aplicado

ao nariz da pobre menina, fêl-a voltar a si.

Finalmente, depois do susto que tiveram, o que é muito natural, os

convidados sairam para a rua, ficando só a familia da casa. Antonia

entrou no seu quarto chorando, porque na ocasião do baile tinha caido, e

na queda tinha partido um dos brincos, perdendo tres diamantes que tinha

mandado engastar nele.

Que dirão seus paes? Encontrará Santo Antonio os diamantes?

CAPITULO III

No dia de Santo Antonio

Amanheceu o dia 13 de Junho do ano de 18.. puro e sereno. Dois

estabelecimentos dos muitos que ha na Rua dos Embaixadores estavam ainda

fechados ás cinco e meia da manhã, e dois grupos bem distintos um do

outro estavam batendo a cada uma das respectivas portas.

Estes dois estabelecimentos eram: a oficina do sr. João e a oficina

do nosso amigo Julião. Á porta deste estão quatro homens e dois

rapazes vestidos com a roupa do trabalho, com um pequeno saco na mão,

que continha, certamente, o almoço, preparados para se entregarem ao

trabalho, apezar de ser o dia de Santo Antonio.

A porta de Julião abriu-se, e aqueles que estavam á espera entraram.

O grupo que aguardava que o sr. João ou alguem da sua casa désse sinaes

de vida compunha-se de jovens dum e doutro sexo, com guitarras e

bandurras, vestidos com a sua roupa domingueira.

Depois duns minutos de espera, tambem foi aberta a porta, aparecendo o

sr. João, que disse:

—Bons dias, senhores.

—Bons dias, sr. João.

—Já veiu o carro?

—Sim, já está á porta.

—Nesse caso, que vá um rapaz buscar a canastra.

O sr. João transmitiu a ordem, e um dos moços do carro entrou, voltando

depois com uma canastra á cabeça em que iam as viandas e no cimo uma

bateria de garrafas de vinho, o que foi saudado pelo grupo quando o

viram, com gritos de entusiasmo, entre os quaes se distinguia a voz dum

deles, que disse:

—Viva Santo Antonio, e as Antonias e todos os que estamos aqui reunidos!

Sobretudo viva a festa e o prazer!

A conversa interrompeu-se porque o sr. João apareceu na loja, e logo

em seguida sua mulher e filha. Ao verem esta, um—_viva a filha do

mestre!_—ressoou na oficina.

Quando estavam subindo para a carruagem, chegou um pedreiro á porta da

loja do mestre carpinteiro, dizendo-lhe:

—O senhor vae passar o dia ao campo?

—Sim; que queres?

—Venho do mando do mestre de obras para ver quantos caixilhos posso levar.

—Dize-lhe que hoje não levas nenhum; é dia de Santo Antonio e não

trabalho.

—Porém, veja bem, mestre, que um partido de operarios não pode trabalhar

se se não levar isso para a obra.

—Pois que vão para o campo assim como eu.

O rapaz retirou-se. Entretanto Brigida e Antonia falavam com Julião

e Dôres, á porta da sua oficina. Instavam com eles para que os

acompanhassem, porém em vão.

—Nesse caso, se teimam em ficar—disse Brigida,—não deixem de olhar cá

pela casa.

—Esteja descançada—disse Julião,—que nós olharemos pela sua casa.

Brigida despediu-se, e a sua filha, aproximando-se de Dôres, disse-lhe ao

ouvido:

—Ai, Dôres! mau dia de Santo Antonio vamos ter. A vespera foi má e o dia

não será melhor! Depois te contarei tudo.

Como passaram o dia as personagens da nossa historia?

Vamos dizer-vol-o em poucas palavras, tanto quanto nos seja possivel.

Julião passou o dia trabalhando, e tanto ele como sua familia e oficiaes

gozaram perfeita tranquilidade.

Quanto ao mestre carpinteiro, vamos encontral-o com sua familia e amigos

no campo pelas cinco horas da tarde.

Todos se acham alegres, como é natural, quando se vae passar o dia ao

campo, e especialmente á hora de comer.

—Vamos—disse neste momento mestre João,—trinchemos estas aves, como dizem

os ricos.

—Quem fala agora aqui de ricos?—Vivam os pobres!

—Viva a liberdade!—gritou João.

—Viva!!!

—Olha—perguntou o confeiteiro—para que queres tu a liberdade?

—Homem... eu... para... que sim... porque meu avô foi muito liberal... e

odiava os padres, a religião e os ricos.

—Que não se fale aqui de politica—disse uma mulher.

—Sim, sim, para fóra daqui a politica; falemos antes de religião, o que

está na ordem do dia desde que chegaram aqui os protestantes. Falemos,

pois, de religião, como falou hontem á noite o mestre Julião, que tem

cara de padre.

—Pois falemos de religião—disse uma das pessoas presentes; e,

dirigindo-se ao confeiteiro, disse-lhe: Tu que és? catolico apostolico

romano, ou judeu?

—Homem—respondeu ele—eu sou hespanhol.

Uma gargalhada geral acolheu esta resposta.

—De que se riem vocês?—perguntou ele—Eu nasci em Madrid, portanto sou

hespanhol.

—Isso nada tem que ver. És cristão?

—Sim.

—Catolico apostolico romano?

—Sim.

—Nesse caso crês no Papa.

—Eu não creio no Papa.

—E nos padres?

—Tão pouco.

—E na Virgem?

—Sim.

—Pois então não és católico apostolico romano, porque não crês no Papa.

—Lembra-te de que ele é infalivel.

—Sim, e exactamente agora, porque é infalivel, perdeu ele o poder

temporal, e contra ele se levantam os proprios catolicos. Ha pouco li num

jornal, de que sou assinante, que o padre Jacinto, esse padre ou frade

francez que tanto tem dado que falar, vae casar-se, e o mesmo vae fazer

um sabio alemão que se chama... não me posso recordar agora do seu nome;

o certo é que eles dizem que os padres devem ser casados.

—Isso é que é uma grande verdade—disse outra pessoa presente,—os padres

devem ser casados; assim não se presenciariam certos escandalos...

—Mas é que o Papa—disse outro—é muito provavel que saia de Roma, apezar

de toda a sua infa...li...bi...lidade.

—Em vista de tanta trapalhada que ha na egreja e tanta

palhaçada—exclamou o sr. João—eu não sou nada; o que me ensinaram meus

paes isso ensino eu a minha filha; porém eu... creio que ha um Ser

supremo, mas que não intervem em coisa alguma deste mundo; faço o bem que

posso, respeito os santos, e não me meto com ninguem; e com isto tenho a

certeza de ganhar o céu, se é que o ha.

—Isso sim—exclamaram alguns—isso é que é ser cristão.

Assim continuou a conversação, expondo cada qual as suas idéas religiosas.

Segundo eles, fazer o bem que se pode fazer, crer num _Ser_ que é antes

um _não ser_, visto que em nada intervem, e respeitar os santos, eis o

que é preciso para uma pessoa ser cristã e salvar-se.

Que cegueira! E quem tem a culpa de tanto erro? Não hesitemos em o

declarar; a culpa tem-na em sua maior parte um clero tão ignorante como

fanatico, porém sobretudo tão egoista, que não ergue a voz senão quando

se vê ofendido nos seus interesses materiaes.

Ha milhares e milhares de pessoas como o mestre João, excelentes paes de

familia, homens honrados segundo o mundo, porém em questões religiosas,

já por vezes o temos observado, com o facto de fazerem o bem que podem

dão-se por satisfeitos. Erro! lamentavel erro! Aqueles que em tal coisa

crêem que escutem o que disse Jesus ao doutor da lei.

«Mestre—disse um doutor da lei a Jesus—o que é preciso que eu faça para

alcançar a vida eterna? E Jesus lhe disse: O que está escrito na lei?

Como lês tu? E, respondendo o doutor, disse: Amarás o Senhor teu Deus,

de todo o teu coração, com todas as forças do teu entendimento, e o teu

proximo como a ti mesmo.—Bem falaste (respondeu Jesus); _faze isso e

viverás_».

_Faze isso e viverás_; não basta fazer uma parte, é preciso fazer tudo

para a gente se salvar. Porém agora surge esta pergunta: Pode o homem

fazer tudo? Não. Para ele cumprir a lei, ganhar a salvação da sua alma,

é impossivel; porém temos um Substituto que fez tudo; foi-nos dado _um_

que não deixou nada por fazer. Esse _um_ é Jesus Cristo, e só por Ele

temos redenção, justificação e santificação. Sim, pela fé em Jesus temos

assegurada a salvação da nossa alma. Sem a fé em Jesus _nada_ temos.

Porém voltemos á reunião.

É já quasi noite, e os amigos do mestre João, este e sua familia,

preparam-se para irem para suas casas. Ao subirem para o carro, o

boleeiro ria como um perdido na almofada, e por mais que fizessem para o

dissuadirem disso não poderam.

O carro partiu, e todos iam alegres e contentes.

O confeiteiro começou a sentir-se incomodado com o movimento do carro, e

principiou a gritar:

—Parem! parem! he! he! sinto-me incomodado: quero...

Inclinou-se para um lado, e, sem que ninguem podesse evital-o, caiu do

carro abaixo. O cocheiro fez um supremo esforço para parar os cavalos,

porém em vão; não o pôde fazer senão depois de terem dado alguns passos.

Toda a gente, soltando gritos de horror, desceu do carro, e foi logo para

junto do confeiteiro, que jazia estendido no chão, banhado em sangue,

sendo necessario transportal-o para a casa mais proxima.

Houve uma pessoa que, apezar da muita devoção que tinha a Santo Antonio,

não pôde deixar de exclamar:

—Se Santo Antonio não tivesse vindo ao mundo, nem tivesse amanhecido o

seu dia, não se teria perdido com isso coisa nenhuma. Ao passo que outro

acrescentou: «Melhor nos teria sido passar o dia com Julião, trabalhando

na oficina, e ganhando para nós e nossas familias».

CAPITULO IV

Consequencias

São decorridos quinze dias desde o dia de Santo Antonio até hoje. Em casa

do mestre João deve ter havido alguma coisa de extraordinario. Reina lá

uma agitação fóra do costume; as mulheres andam apressadas dum para outro

lado e o rosto de mais duma delas está humedecido pelo pranto. Que terá

sucedido?

Consequencias duma vespera e dum dia de Santo Antonio.

Quer pela perda dos diamantes, quer pelo susto que recebeu com a queda do

moço confeiteiro, Antonia veiu para casa doente.

No dia seguinte manifestou-se-lhe uma febre tão intensa que o medico

declarou que não havia tempo a perder, pois via-a ameaçada duma congestão

cerebral. Acrescentou que o caso não podia ser mais grave, e que,

portanto, seria conveniente que se preparasse espiritualmente.

A pessoa que recebeu esta noticia foi a Dôres.

A mãe de Antonia estava como fóra de si; o pae chorava como uma creança,

e para dizer tudo numa palavra—todo e qualquer teria pena daquela

familia, tão triste agora como alegre ainda não havia muitos dias.

Dôres transmitiu a noticia a uma tia de Antonia, a qual disse que não a

comunicava aos paes dela. Por fim, depois de muita hesitação, resolveram

dizel-o a um sacerdote que vivia na mesma casa. Chamava-se Francisco,

era ainda novo, um tanto instruido e, apezar de fanatico nas suas idéas

religiosas, gozava de bastantes simpatias entre os seus freguezes.

As mulheres despediram-se do padre Francisco, e dez minutos depois um

aprendiz de Julião entrou na oficina do carpinteiro, dizendo:

—Sr. João, o meu mestre pede-lhe que vá á loja dele, pois que precisa

muito de falar-lhe.

O carpinteiro seguiu o rapaz, e, logo que avistou Julião, este disse-lhe:

—Boas tardes, sr. João. Como vae Antonia?

—Mal, muito mal. Filha da minha alma!

—Senhor João—disse Julião muito comovido—não se aflija. Emquanto um

doente tem vida, ainda ha esperança. Venha comigo cá para dentro, que

temos que falar.

Quando chegaram á sala e se sentaram, Julião deixou que o seu amigo se

tranquilisasse um pouco, e chamou por sua mãe para que trouxesse um copo

de agua.

—Então, sr. João!—disse a senhora Josefa, apresentando-lhe o copo com a

agua—não se entregue á dôr dessa maneira, tenha confiança em Deus.

—Deus, Deus—exclamou o carpinteiro,—Deus não ouve, Deus está...

A senhora Josefa ia a responder, porém um gesto de Julião indicou-lhe que

saisse, e assim o fez, dizendo:

—Jesus está em toda a parte.

—Senhor João—disse Julião quando sua mãe saiu,—ha sucessos na vida

mediante os quaes é posta á prova a alma do homem. Quando um pae sofre

o que vocemecê está sofrendo, e crê e confia em Deus, não se desespera

assim.

—Não sei, Julião, o que teem as suas palavras, que tanto me consolam;

porém, não, não, minha filha não deve morrer tão joven... eu proprio a

disputarei a Deus.

—Quer disputal-a a Deus?

—Sim, como?

—Pela oração.

—Eu não sei rezar, nem quero; o que quero é minha filha.

—Tão pouco eu quero que reze; o que eu quero é que se volte para o Senhor

com humildade, dizendo: «Senhor, não te deixarei se não me abençoares;

ofereço-Te minha filha, faze dela o que fôr da Tua vontade; sómente Te

rogo que ma deixes, ou que me dês forças para sofre este golpe no caso de

ma levares; tem piedade de mim, em nome de Jesus».

—Eu não sei dizer isso; eu não sei orar.

—Não? Pois então diga ao Senhor: «Senhor, ensina-me a orar...» Jesus

disse: «Tudo o que pedirdes em oração, tendo fé, recebereis».

Estavam nisto quando bateram de mansinho á porta da sala.

Julião abriu, e o P.ᵉ Francisco entrou, saudando João e Julião, que por

sua vez corresponderam á saudação.

—Pois, senhores, deixo-os sósinhos—disse Julião.

—Não, não, de modo nenhum; deve até ficar—respondeu o sacerdote,

acrescentando:—Vejamos, sabe já o sucedido, sr. Julião?

—Não—respondeu Julião—eu tratava de o consolar, exortando-o a que pozesse

a sua confiança em Deus, infinitamente bom.

Todos tomaram assento, e o P.ᵉ Francisco disse:

—Sim, é certo que Deus é bom, porém quer que da nossa parte façamos

alguma coisa.

—E que devemos fazer nós?—perguntou Julião.

—Oh!—exclamou o sacerdote—a penitencia! Esse precioso dom que nos

concedeu a misericordia dum Deus Salvador! Dom que, acompanhado da

poderosa intercessão da Bemdita Virgem e de toda a côrte celestial de

anjos, querubins e santos, nos abre infalivelmente as portas do céu, já

se vê, uma vez que haja a absolvição do sacerdote, apoz a confissão! Sim,

meu amigo, se receia alguma coisa por sua filha, deve, revestindo-se de

valor, dizer-lhe... que se confesse.

João ia a falar, quando o P.ᵉ Francisco o interrompeu, dizendo:

—Já sei o que me vae dizer. Dirá o que todos dizem, isto é, que a

confissão feita por um enfermo no leito da morte é um golpe terrivel

para ele. Mas porquê? Quando o sacerdote, vestido com os seus habitos

talares, e com a autoridade que Deus e a santa egreja lhe dão, se

aproxima da cabeceira do doente para o advertir de que se acha ás portas

da eternidade, e de que o espera talvez a condenação eterna, a sua

presença e palavras actuam de tal maneira no espirito do doente que lhe

dão novas forças; e, no momento de se confessar para poder receber a

Jesus sacramentado, opera-se nele uma tal mudança que se pode atribuir

á certeza, que é dada ao enfermo, da absolvição dos seus pecados dada

aqui na terra pelo sacerdote romano e ratificada no céu. Então pode

o moribundo entregar-se com inteira confiança á protecção da mãe dos

pecadores, e morrer em estado de graça e em perfeita e completa paz.

—Eu pergunto uma coisa—disse Julião.—O sacerdote não diz nada de Jesus

aos enfermos?

—Sim, diz; porém o nome de Maria Santissima é mais doce, induz mais

facilmente ao arrependimento.

—Não estou de modo nenhum conforme com isso, porque, afinal, quem operou

a salvação dos pecadores, Maria ou Jesus?

—A salvação é obra dos dois, porque, se Jesus morreu, foi concebido no

ventre da Virgem e amamentado aos seus peitos; e, ainda que não fosse por

isso, pelo facto de ela ser mãe de Jesus, Este ha de declinar nela todo o

poder. Sem Maria não podia existir Jesus.

—Porém essas doutrinas são hereticas; onde encontra o senhor uma só

palavra na Biblia que autorize taes opiniões?

—Mas se a Biblia o não diz dil-o a egreja e os padres.

—A palavra de Deus tem mais autoridade do que padre algum, pois que o

melhor deles é falivel.

—Porém de que se trata?—perguntou mestre João.

—Simplesmente—respondeu o sacerdote—dizer-lhe que sua filha está

perigosamente doente, e que é preciso que se confesse.

—Filha do meu coração!—exclamou o carpinteiro, louco pela dôr.—Minha

pobre filha! Com que então morre?..

Houve um momento de silencio, durante o qual o sacerdote e mestre Julião

encararam com profunda simpatia o aflito pae.

CAPITULO V

Tlim... tlim... tlim... tlim...

No dia seguinte ao dos acontecimentos narrados no capitulo antecedente,

estava tudo preparado para se levar o _Viatico_ a Antonia.

A opinião do padre Francisco prevaleceu, e ele mesmo confessou a filha

do carpinteiro. Ao anoitecer já estavam todos os amigos de mestre João e

grande numero de visinhos esperando que soasse a hora marcada para irem á

egreja.

Entre os visinhos faltava um, era mestre Julião.

Deixemol-os no caminho da egreja, e ouçamos o seguinte dialogo entre duas

visinhas:

—É estranho que a mulher de mestre Julião não esteja neste momento em

casa de Antonia, visitando-a tanto a miudo como a visitava.

—Olhe, sr.ª Tomazia, segundo o que tenho ouvido dizer, ela e o marido são

protestantes, e por isso... como vão á...

—Protestantes! Vocemecê está louca, sr.ª Joana! Pois então não conheço eu

Dôres desde pequenina, e não foi baptizada em S. Caetano?

—Pois filha, o que lhe digo e repito é que mestre Julião é protestante.

—Pois está muito enganada. Os protestantes não são hespanhoes nem estão

baptizados.

—Então que são eles?

—São uns estrangeiros que vieram de longe, da mourama, mandados de lá

para conquistarem a Hespanha.

—Pois a mim disseram-me em segredo que Julião era protestante.

—Não, esse está baptizado e é hespanhol; e ha pouco entrou em sua casa o

padre Francisco; já vê que, se ele fosse protestante, não entraria ali

aquele sacerdote.

—Pois é exactamente por isso que eu o sei. O padre Francisco soube que

mestre Julião estava aconselhando o pae de Antonia a que não deixasse

confessar a filha, e foi lá a casa para o trazer comsigo.

—É verdade! Isso é um misterio.

—Misterio não; ha quem diga...

Neste momento ouviu-se o _tlim... tlim... tlim... tlim..._ da campainha

anunciando a chegada do _Viatico_.

Imediatamente em casa da enferma e nas casas visinhas se estabeleceu

uma grande confusão. Os moradores dos andares superiores desceram á

porta da rua, uns trazendo luzes e outros com brazas nas pás, em que

queimavam alfazema e incenso. O som da campainha ouvia-se cada vez mais

distintamente, e os que vinham na frente com tochas acesas entraram no

portal. Toda a gente se poz de joelhos. O sacerdote passou pelo meio,

murmurando palavras que não se entendiam, e entrou pela porta que dava

para as trazeiras da carpinteria. A porta de Julião, de que já falámos, e

que ficava em frente da de mestre João, permaneceu fechada, causando este

facto grande surpreza.

Emquanto o sacerdote estava lá dentro, alguns dos que tinham vindo

acompanhar processionalmente o _Viatico_ ficaram no portal, porque não

cabiam no quarto da enferma, e, para não perderem o tempo, começaram a

fumar e a conversar muito tranquilamente.

—Ouça lá, visinha—disse um individuo a uma mulher que estava com um

candieiro na mão.—Quem mora nessa casa cuja porta está fechada e que não

teve uma triste vela para alumiar o Senhor quando passou?

—Ali—respondeu a mulher, apontando para a porta que estava fechada—é a

oficina de mestre Julião. Não são muito amigos destas coisas, nem ele nem

sua familia; são...

—Protestantes?

—Exactamente.

—Oh! com mil bombas! Ouve tu—dirigindo-se a outro—; naquela casa mora um

protestante: deveriamos chamal-o e obrigal-o á força a abrir a porta e

trazer uma luz.

—Não, deixae-vos de loucuras, cada um é livre de pensar como

quizer—respondeu ele.

—Bom, bom—disse um homem já de edade,—por essa tolerancia da mocidade em

admitir estrangeiros é que a Hespanha está assim.

—Não—respondeu uma visinha,—ámanhã mesmo o comunicaremos ao sr. padre

Francisco, pedindo-lhe que diga ao senhorio que despeça aquelas aves de

mau agouro.

Neste ponto terminou a conversa, pois que tinha tambem terminado a

cerimonia da administração do _Viatico_ á enferma. Pôz-se tudo na mesma

ordem; tornou a soar a campainha, e o _Deus inventado pela Egreja romana_

saiu de casa, e lá foi novamente nas mãos dum simples mortal.

Vejamos entretanto o que estava fazendo aquela familia que conservou a

porta sempre fechada, e que nem uma _triste vela_ acendeu á passagem do

viático.

Dôres, Josefa e Julião estavam sentados na sala, tendo este ultimo deante

de si um livro aberto.

—Que tristeza—disse Julião—me causa tudo o que se está passando na casa

de João! Que diferente é o que estão fazendo com Antonia daquilo que o

Senhor ordena na Sua Palavra! Leiamol-a e vejamos o que se deve fazer

com os enfermos. Na Epistola de S. Tiago, cap. V, vv. 14 e 15, lê-se o

seguinte: «Está entre vós algum enfermo? chame os presbiteros da egreja,

e estes façam oração sobre ele, ungindo-o em nome do Senhor; e a ORAÇÃO

DA FÉ salvará o enfermo, e o Senhor o aliviará; e, se _estiver em alguns

pecados_, ser-lhe-hão perdoados.» Taes são as instruções que temos na

Palavra de Deus, e portanto não devemos afastar-nos delas, desprezando-as.

Façamos «_a oração da fé_ que salvará o enfermo», pedindo a Deus por

nossa visinha a quem tanto estimamos; não que a nossa oração a salve, mas

sim porque é uma recomendação de Deus, e por meio da qual liberalisa a

Sua graça e concede os Seus dons. Porém é preciso fazer essa oração com

fé. Minha mãe e tu, Dôres, sentem-se com verdadeira fé, para pedir ao

Senhor por Antonia, crendo firmemente que o Senhor a aliviará?

—Sim, responderam elas resolutamente.

—Pois então oremos ao Senhor.—Pozeram-se todos de joelhos, e, depois duns

momentos de meditação profunda, ergueu-se a voz de Julião, pausada e

solene, dizendo:

—Oh! Senhor e nosso Pae! Ajoelhamo-nos deante de Ti, em nome de Jesus

Cristo, para Te suplicarmos que nos concedas uma benção especial. Senhor,

lemos na Tua Palavra que nos mandas que oremos pelos enfermos, prometendo

que «a oração da fé salvará o enfermo, e que Tu, Senhor, o aliviarás».

Dá-nos a fé necessaria para Te pedirmos por Antonia, nossa visinha. Tu,

oh! Deus, sabes todas as coisas, e conheces todos os corações. Sabes,

pois, a situação em que se encontra a nossa amiga e o estado do seu

coração. Ah! Senhor! Não permitas que, enganada por praticas vãs, que lhe

ensinaram, sua consciencia continue a estar adormecida, pois que nesse

caso qual será o seu despertar? Oh! bom Deus; aqui Te apresentamos a

promessa; agora, Senhor, atende ao que Te pedimos: Que levantes Antonia

do seu leito, e que a convertas a Ti, sarando-lhe deste modo o seu corpo

e a sua alma. Senhor, concede-nos isto, faze-nos ver o Teu poder, dá

consolação a seus paes, e restitue-lhes sua filha; mas, se fôr do Teu

agrado leval-a para Ti, salva a sua alma. Ouve-nos, Senhor; assim To

pedimos em nome, por amor e pelos merecimentos de Jesus Cristo, Teu

Filho. _Amen._

—_Amen_, repetiram as duas mulheres.

Quando se levantaram, Julião disse:

—Agora aguardemos a resposta do Senhor.

—Olha, Julião—disse Dôres,—vou ver como está Antonia, e volto já.

—Se te deixarem entrar..., observou Josefa.

—E porque não me hão de deixar entrar?

—Porque como nenhum de nós foi á porta quando passou o _Viatico_...

—Nesse caso—interrompeu Julião,—se te disserem alguma coisa que não te

agrade, volta imediatamente para casa.

Dôres saiu, e dentro em breves instantes eil-a em casa de mestre João.

Estranho contraste se apresentou então aos seus olhos! O altar de Santo

Antonio estava iluminado como na vespera do seu dia, e adornado de

flores; porém ás gargalhadas e ao ruido das guitarras havia sucedido o

pranto; ao forte sapatear da dança, o andar de mansinho nas pontas dos

pés; á atmosfera viciada pelo fumo dos cigarros a não menos viciada

atmosfera do fumo do incenso e da alfazema. Na presença do Santo tinha

sido a orgia, na presença do Santo as lagrimas e os soluços. E este,

impassivel deante das palavras grosseiras de então, continuava impassivel

agora á dôr e ao pranto de toda uma familia. Então ofereceram-lhe

canções, agora oferecem-lhe orações, e, se áquelas foi completamente

surdo e cego, a mesma surdez e cegueira manifesta em presença destas.

O mal principiou no dia do Santo, ou antes na vespera, e quando e como

acabará?

Estas ideias perpassam pelo espirito de Dôres, que pôde observar tambem

como, á sua entrada, algumas mulheres que estavam na sala cessaram de

falar e a encaravam com certa reserva.

—Boas noites—disse ela.

—Boas noites—responderam as pessoas que estavam.

—Posso ir ver Antonia?

As mulheres hesitaram; por fim uma disse:

—Pode ir.

Dôres entrou na alcova, e aproximou-se silenciosamente da cabeceira da

enferma, inclinando-se para a ver. Antonia abriu os olhos, e logo que

reconheceu que era Dôres disse-lhe com voz debil:

—És tu, Dôres?

—Sim, sou eu—respondeu ela,—como estás?

—Mal, muito mal; não sinto a cabeça.

—Pois nesse caso não fales.

—Não, não falarei; o cheiro da cera e do incenso entonteceram-me...

Porque não vieste antes?

—Deves saber, Antonia, que, ainda que não esteja a teu lado, lembro-me

de ti e oro a Deus por ti. Vou deixar-te. Pensa em Deus, minha amiga, e

lembra-te de que só Jesus Cristo é que pode salvar-nos.

—Eu já recebi a comunhão.

—Muito bem; porém não fies a tua salvação de mais ninguem senão de Jesus

Cristo. Por Ele serás salva.

—Assim o farei... porém não vás ainda, senta-te aqui junto de mim.

Dôres calou-se e sentou-se, orando em silencio por sua amiga. Passados

alguns momentos, saiu para a sala, e, dirigindo-se ás mulheres que ali

estavam, disse-lhes:

—Onde estão os paes de Antonia?

—Não sabemos—respondeu uma, muito secamente.

Dôres, apezar de notar que a sua pergunta não tinha sido bem recebida,

continuou:

—Parece-me que as senhoras deviam apagar algumas luzes do altar. Antonia

queixa-se do calor e do cheiro da cera.

—Bem sabemos—respondeu a tia de Antonia—aquilo que temos de fazer. E a

proposito; a senhora far-nos-hia um grande favor não tornando aqui até

que Antonia esteja livre de perigo. O confessor prohibiu que fale com

certa classe de gente... e...

—Sim—interrompeu Dôres—e entre essa classe de gente estão Julião, sua mãe

e sua mulher, não é verdade? Pois bem, retiro-me, porém graças a Deus que

em minha casa orarei pela minha amiga, e sei que Deus me ouvirá.

—Já lhe dissemos que pode retirar-se—exclamaram todas.

—Sim, retiro-me—disse Dôres com as lagrimas nos olhos—retiro-me, e que

Deus vos perdôe o mal que me fazeis.

As mulheres continuaram por alguns momentos falando, e Dôres saiu,

chorando, em direcção de sua casa. Ao verem-na entrar assim, sufocada

pelas lagrimas, Julião e Josefa levantaram-se apressados, interrogando-a:

—Morreu?

—Não—respondeu Dôres.

—Então que foi?

—Ai!... por ordem do confessor não podemos entrar mais naquela casa.

—E então isso é motivo para que te aflijas assim dessa maneira?—exclamou

Julião.

—Sim, porque quero muito a Antonia, e desprezam-nos sem saber porquê!

—Sem saber porquê?—disse Josefa—Não digas isso; eles de mais o sabem; é

porque nós somos cristãos e eles não; eis ahi o motivo.

—Porém podiamos ter feito tanto bem a Antonia... que...

—O mesmo lhe podemos fazer agora—disse Julião.—Oremos sem cessar por

Antonia, e Deus nos ouvirá. Quanto ao mais, preparemo-nos para sofrer

toda a classe de desprezos e insultos, porém pensemos no que disse

Jesus Cristo: «Lançar-vos-hão fóra das sinagogas; e virá tempo em que,

quando qualquer vos matar, julgará que com isso faz um serviço a Deus».

Confiança, pois, e oremos ao Senhor pelos nossos inimigos.

CAPITULO VI

Manda-o minha filha, e é quanto basta

Ao declinar da tarde do dia seguinte em que Antonia recebeu o _Viatico_,

a sua cabeça estava um pouco mais leve, manifestando alguns sinaes de

melhoras. Perguntou então por Dôres.

—Não está aqui—respondeu a mulher que cuidava dela.

—Nesse caso chamem-na—disse ela.

A mulher saiu da alcova para dar conhecimento aos paes de Antonia do

desejo que ela acabára de manifestar. A mãe enxugou as lagrimas, procurou

tranquilisar-se para entrar no quarto de sua filha, á qual perguntou

carinhosamente:

—Que queres, minha filha?

—Quero ver Dôres.

—Para quê? O confessor disse que não falasses com ela.

Julião e a Biblia · 第 1 / 12 段