_Carta, que escreveo a chamada deputação Portugueza aos seus
compatriotas; abusos, e maquinações, a que deo motivo; assembléa
notavel na presença de Junot._
[Sidenote: 1808
Maio.]
[Sidenote: 1808
Maio.]
O Mez de maio foi sempre de muito respeito em toda a peninsula. He o
mez da fome, e basta esta circumstancia, para se lhe abaixar a cabeça;
mas o de 1808 ainda se fez mais memoravel, por successos de differente
natureza. Foi cruel para os Portuguezes, e Hespanhoes; mas tambem foi
de hum funesto agouro para os Francezes. Na verdade os successos de
Portugal erão, ou parecião menos variados; porque ficavão escondidos
em hum canto do horroroso quadro, que apresentavão os de Hespanha,
e Bayona; e porque, completa a usurpação do reino, não restava aos
usurpadores, senão continuarem a marcha monotona das suas extorsões.
Novo elasterio veio produzir a carta da chamada depuração Portugueza de
27 de abril, publicada por editaes, e inserta na gazeta de 13 de maio:
tambem corre no _Observador Portuguez_, e em outras collecções,
onde póde ver-se; a minha pena nega-se a transcrevella, posto que não
póde dispensar-se de lembrar algumas das suas passagens.
Não he necessaria huma grande meditação, para se conhecer o cunho da
violencia, que se acha impresso nesta carta: he o proprio Napoleão o
que está fallando, pela boca dos seus prisioneiros, em coherencia aos
seus interesses. E que motivos não deo ella a Junot, a Lagarde, e a
todos os do seu partido, para exaltarem as bondades do usurpador, e
excitarem os Portuguezes ao reconhecimento para com elle?
[Sidenote: 1808
Maio.]
Tinhão-nos sabido inspirar o temor de sermos riscados do catalogo
das nações, e cuidavão consolar-nos com a promessa, de que Napoleão
levaria a sua bondade, até o ponto de dar-nos hum Rei da sua escolha,
para nos governar. Tinhão-nos devorado a nossa substancia, e querião
suavisar-nos com o annuncio de que elle promettêra reduzir a
contribuição de guerra aos seus justos limites: justos, segundo a sua
moral, e a sua justiça.
Disserão-nos, que os nossos compatriotas, que estavão prisioneiros em
França, graças á clemencia do Imperador, gozavão já da liberdade, e era
huma mentira. Em fim toda a carta era huma nova farça, com que se quiz
zombar da nação, e hum laço para surprender a fidelidade Portugueza:
rasguemos o véo, foi tudo isto, para obrigar os proprios Portuguezes
a pedirem o Rei de comedia, que o usurpador tinha já decretado na sua
mente.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Exigírão-se agradecimentos pelo que devia enlutar a nação: _O dia
17 do corrente será memoravel para este paiz_; disse a gazeta de
20 de maio: sim elle será memoravel, mas sómente por execrando, e
aquella gazeta contém huma parte da nossa chronica escandalosa, porém
muito falsificada, e toda apropriada ás intenções de quem a publicou.
Disserão, que as primeiras corporações do reino pedirão permissão a
Junot, para irem render-lhe a homenagem do seu reconhecimento para com
o Imperador, rogando-lhe, que quizesse ser o vehiculo, por onde lhe
transmittissem os seus votos; mas ellas não o fizerão, senão depois
que o mesmo Junot as fez rodear por emissarios, que lhes intimárão as
instrucções, e dictárão as formalidades do que havião de obrar.
Publicou-se na mesma gazeta hum extracto do discurso attribuido ao
Principal Miranda, por parte do clero, que foi o primeiro, que fallou,
como Deão da Santa Igreja Patriarcal: este Prelado o desmentio depois
pela mesma via, fazendo inserir na do 1.^o de outubro seguinte o que
realmente proferíra, que he muito simples, e muito diverso do outro.
[Sidenote: 1808
Maio.]
[Sidenote: 1808
Maio.]
O Desembargador do paço, e Chanceller mór do reino, Manoel Nicoláo
Esteves Negrão, fallou em nome do seu tribunal, e do corpo da
magistratura; e para se fazer justiça a este respeitavel magistrado, he
necessario accrescentar, que o seu discurso foi, não só encommendado,
mas revisto antes de sahir ao público, alterado, e accrescentado por
hum agente do governo Francez. Consta, que ainda existe o borrão
original, com as emendas, e addições por huma letra conhecida: o
corrector, e addicionador he o mesmo, que tinha escrito a hum dos
mais acreditados ministros do tribunal, para que fizesse saber á
meza as intenções de Junot, e se lhe fosse pedir dia, e hora, para
aquella infausta audiencia. Estes monumentos incontestaveis provão
incontestavelmente as manhas, e os ardis, de que se usou, para parecer
pedido, e espontaneo hum acto, a que assistírão com as lagrimas nos
olhos homens respeitaveis, amantes da patria, e fiéis ao Soberano,
arrastados pelo poder da força. De todos aquelles que representavão
na capital, ou pelos cargos, ou pelas considerações pessoaes, forão
na verdade muito poucos os que pudérão subtrahir-se a elle: por
esta circumstancia, e pela gravidade do perigo, deve avaliar-se o
merecimento daquelles, que, não comparecendo, tiverão o valor de se
exporem á vingança dos oppressores.
[Sidenote: 1808
Maio.]
O Desembargador do paço João Antonio Salter de Mendonça teve tambem
o seu aviso, para comparecer incorporado no tribunal; e he facil de
conceber-se pela importancia, e natureza do seu emprego de Procurador
da Regia Corôa, o quanto se ambicionaria, não tanto a sua comparencia
neste acto, como a sua assistencia, e assinatura nos outros, que se
preparavão: minha alma se banha de alegria, quando vê ao menos nesta
parte mortificado o orgulho, e frustrados os designios do pequeno
déspota. Salter previo provavelmente, que se não tratava de hum simples
cortejo, (a experiencia, e os talentos devem servir ao homem nas
occasiões) elle determina esquivar-se logo _in limine_ a tudo o
que pudesse acontecer, e posto que o momento já era muito arriscado,
vale-se do pretexto de doente, e se dispõe a partir para os banhos
das Caldas. Não havia intervallo, e na madrugada do proprio dia do
ajuntamento he que devia sahir, o que lhe foi impossivel realizar; mas
assim mesmo não desiste do projecto: fecha os olhos a tudo o que podia
resultar-lhe, e fica encerrado no retiro da sua casa, em quanto nas
salas de Junot se congregava aquelle numeroso congresso, e se traçava
o escandalo da nação. Depois he que effeituou a sua jornada, em que se
demorou todo o tempo preciso, para não presenciar, nem cooperar em taes
attentados.
[Sidenote: 1808
Maio.]
O conde da Ega, Ayres de Saldanha, foi o que orou em nome da nobreza,
e esse não posso eu desculpar; mas não he justo, que se impute a todo
hum corpo, tão illustre, e tão extenso, o crime de hum só homem,
que actualmente se acha em processo, e que a nação tem previamente
condemnado, como infiel ao Soberano, e á patria. Foi elle o que servio
de andador, correndo as casas de alguns fidalgos, e escrevendo huma
circular aos outros, convidando-os para aquelle acto. Foi o que se
encarregou, sem lho incumbirem, de fallar em nome delles, e usou mais
da fraude de dizer aos de maior representação, que antes da audiencia
seria bom, que se ajuntassem, para conferirem sobre os termos, em
que devia ser concebido o discurso, e partir para o quartel-general,
antes da hora, que tinhão ajustado para a conferencia; de fórma que, á
excepção de algum da sua particular confidencia, todos forão, e ouvirão
o discurso, sem terem delle a menor noticia. He hum discurso infame,
que a minha pena se não manchará em escrever.
[Sidenote: 1808
Maio.]
[Sidenote: 1808
Maio.]
Acabados os discursos dos oradores, Junot respondeo a todos com
huma falla cheia dos seus costumados lugares communs, em que lhes
manifestava o prazer, com que tinha ouvido os votos, que acabavão
exprimir-lhe da parte, dizia elle de todas as classes do reino,
cuja unanimidade era hum presagio certo de que saberião unir-se,
para sustentar os direitos do Principe, que o grande Napoleão lhes
designasse, para os reger. Que sustido pela protecção deste grande
Monarca, o Rei de Portugal restabeleceria esta nação na ordem, a que
a tinhão elevado hum Vasco da Gama, e hum D. João de Castro, pelas
conquistas, hum Luiz da Cunha, e hum Pombal, pela politica. (Alguem
lhe tinha ensinado estes nomes, e eu me admiro de que não viesse
com elles o de Camões.) Que se incumbiria de boa vontade de levar á
presença de seu amo (nosso Soberano lhe chamou elle) a representação,
que devião fazer-lhe em nome de todas as classes do reino. Que lhe
diria, que os Portuguezes tinhão merecido a sua protecção, pelo
muito, que nelle confiavão, pela sua submissão a todas as ordens, que
emanavão da sua vontade imperial; e porque no meio das crises, que
acabavão de acontecer ao lado de Portugal, elles tinhão conservado
huma tranquillidade perfeita. Que convidava os Senhores do clero,
do tribunal do Desembargo do paço, e do Senado, a se reunirem por
deputados á Junta dos tres estados, para comporem a representação,
que devia exprimir os votos de todas as classes de cidadãos, e que
estava certo seria digna da nação, e diga da grandeza do Monarca, a
quem elles a dirigião. Chegado a este ponto, sua alma, toda cheia de
prazer, admiração, e grandeza, trasbordou na seguinte exclamação:
_Collocado entre elle e vós, ser-me-ha bem doce o pensar, que terei
podido contribuir para a vossa felicidade, fazendo conhecer a Napoleão
o grande, que os Portuguezes merecem as suas bondades, e são dignos da
sua poderosa protecção, e da alliança da grande nação!_
[Sidenote: 1808
Maio.]
Hum silencio melancolico manifestou os sentimentos do grande número
dos assistentes; babárão-se de gosto os poucos, que adherião á má
causa; e o gazeteiro terminou o conto com grandes pavonadas a Junot, e
grandes esperanças aos Portuguezes; pois que os seus votos tinhão de
chegar aos pés do throno de Napoleão, apadrinhados pelos suffragios
daquelle, que nos campos da victoria, bem como na carreira politica,
e no governo da capital da Europa (queria dizer Paris) sempre soubera
servir tão bem a tão grande amo, e justificar a mais alta confiança,
que lhe tinha merecido. Estes contos devião ser transmittidos aos
diarios da Europa, quasi todos vendidos ao usurpador, porque erão
destinados a enganar o mundo sobre os successos verdadeiros da
usurpação de Portugal.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Não se tratava de realidades, onde tudo erão apparencias, só sim de
pretextos, para cobrir injustiças. A Junta dos tres estados não tem
representação alguma nacional, nem cousa, que com ella se pareça; mas
este nome impõe, e por isso se servírão delle, para darem alguma côr a
hum acto de tanta illegalidade. Para se arranjar assim mesmo a cousa,
trabalhárão muito os doutores da nova constituição. Posso attestar
eu mesmo, que o Conde da Ega frequentou por esses dias a bibliotheca
pública: por meios politicos chegou em hum delles a tirar-se-me das
mãos huma Nobiliarchia Portugueza, em que me estava entretendo, e vi
tambem revolver as collecções das nossas leis, para tudo se lhe levar
a hum gabinete particular. Olhando para as producções, que sahírão
daquella forja, ainda ignoro o uso, para que lhe servírão estes livros.
Seria talvez, para se nos dizer em tres linhas incompletas da gazeta
de 27 a historia da Junta dos tres estados, annunciando-se ao público,
que foi organizada nas cortes de 1641, e entrou no exercicio das suas
funcções por ordem d’ElRei D. João IV. em 1643, com hum notavel, e
falso additamento, de que he reputada por huma especie de commissão das
proprias cortes.