CAPITULO XL.

_Despacho de Junot em Duque d’Abrantes, e como foi festejado este

successo. Junot vai á Missa. Retirada do Nuncio Apostolico; desordem

acontecida nas ruas cuja, e visinhas; providencias de Lagarde em

consequencia da mesma._

[Sidenote: 1808

Abril.]

APROXIMAVÃO-SE os tempos de crise para os Francezes, que tinhão

passado os Pyreneos; e era então precisamente, que a vaidade mais

enchia o coração de Junot. Napoleão tinha-lhe feito a graça de dar-lhe

o titulo de Duque d’Abrantes; e elle ainda pertendia mais. O gazeteiro

Lagarde não deixou de annunciar este despacho com expressões pomposas;

representando-o, não só destinado a recompensar serviços grandes, mas

tambem a consagrar a memoria de huma das marchas militares as mais

penosas, e admiraveis, pelo proprio caminho d’Abrantes, _nome_,

dizia elle em huma gazeta, _verdadeiramente historico_. Nós vimos,

que elle entrou, como amigo, facilitando-se-lhe tudo nesta qualidade, e

roubando com o seu exercito, quanto encontrava. Exaggerou, com iguaes

hyperboles, os testemunhos de alegria pública, e os cortejos, que nesta

occasião se dirigírão ao _heróe_; mas onde tudo era devastação,

e miseria, não podia haver alegria; e os cortejos erão forçados, e de

homens, que em grande parte desejavão beber o sangue ao _heróe_;

posto que a lisonja fizesse apparecer em algumas demonstrações

contrarias.

A Academia Real das Sciencias, nesse tempo corpo sem alma, tambem fez

seus comprimentos a Junot, por meio de huma deputação, offerecendo-lhe

o lugar de Presidente: elle, não sei porque motivo, acceitou sómente o

de socio honorario.

[Sidenote: 1808

Abril.]

A pezar da protecção, que tinha promettido, e do apego, que professava

(sómente por papel) á religião catholica, ninguem lhe tinha visto

praticar em Portugal algum daquelles actos, que a igreja prescreve aos

que vivem no seu gremio; mas chegou em fim a occasião de ir á Missa.

A gazeta de 16 nos preparou para este successo extraordinario, que se

executou no dia seguinte, que foi domingo de Pascoa, na Santa igreja

Patriarcal; e pareceo mais huma evolução do seu exercito, do que hum

acto de religião.

[Sidenote: 1808

Abril.]

Todo o seu estado maior, os seus conselheiros, e parte da nobreza,

o acompanhárão; a officialidade, e as tropas movêrão-se, e se

dispuzerão nos lugares convenientes, não deixando de lançar-se pelas

ruas numerosas patrulhas. Por entre fileiras sahio elle do seu

quartel-general, e por entre fileiras entrou no templo, que se encheo

de soldados, formados em duas linhas, desde a porta principal até

tocarem nos Sacerdotes, que officiavão no altar mór; e já se sabe,

que com os chapéos, e barretinas nas cabeças; porque esse era o seu

costume. A hypocrisia, e a vaidade se derão aqui as mãos: a politica ia

de concerto. Os que quizerem ver a relação deste acto pomposo, podem

consultar a gazeta de 19, que o deo por extenso.

[Sidenote: 1808

Abril.]

No meio de tanto prazer, e tanta vangloria, sobreveio-lhe hum

degostilho, que mortificou hum pouco o seu orgulho. O Arcebispo

Nisibi, Nuncio Apostolico nestes reinos, que desde os primeiros dias

da entrada dos Francezes em Portugal, não cessára de pedir os seus

passaportes, para se retirar para o Brasil, e que na occasião, em

que Junot lhe participára a mudança do governo, se tinha conduzido

dignamente cançou-se em fim de fazer representações baldadas, e

determinou tirar-se do negocio á Italiana. Foi passar a semana santa

aos Barbadinhos d’Italia, onde teve tempo de arranjar-se á vontade,

em quanto Junot, todo envolto nos fumos do incenso, não podia olhar

a grande distancia. O tempo na verdade era delicioso, e convidava a

viajar, em huma bella manhã da semana da Pascoa procurou-se o velho,

e elle tinha abalado com os trastes. Com effeito teve a habilidade de

transportar-se para Inglaterra, com quasi tudo o que lhe pertencia, em

hum navio, que sahio licenciado por Junot. Quem diria, que a Inglaterra

devia dar hum asylo ao delegado do Santo Padre? Mas isto não deve

admirar, quando sabemos, que o successor de Henrique VIII. o offereceo

ao Papa mesmo, contra as vexações daquelle, que occupa o throno de

S. Luiz. De Inglaterra o Nuncio se transportou ao Brasil, onde foi

recebido com applausos, principalmente da Familia Real.

Transcrevo a seguinte carta, que o Nuncio deixou com data de 18 de

Abril, para ser entregue a Junot, hum dia depois da sua sahida; porque

dá a conhecer muitas particularidades deste successo.

[Sidenote: 1808

Abril.]

Carta.

_A negação dos passaportes, para poder embarcar-me, soffrida por

espaço de quatro meses, os incommodos, e tudo quanto tenho suportado

neste intervallo, sem os poder conseguir, me tem muitas vezes feito

recear, que alguma calumnia tenha enganado a V. Excellencia, ou ao seu

governo sobre a minha pertenção. Digo alguma calumnia; porque ainda

que ella não poderia estabelecer huma razão sufficiente, para me serem

negados, subministraria apparencias, para demorar a sua expedição. Por

felicidade minha V. Excellencia nestes ultimos dias me fez o maior

obsequio, certificando-me repetidas vezes pela sua honra, que nada,

absolutamente nada havia contra a minha pessoa, e que a negação dos

passaportes, para o meu embarque, era sómente huma medida, não devendo

a França (me dizia V. Excellencia) facilitar aos Embaixadores meios de

transportar-se a hum paiz, com que estava em guerra._

[Sidenote: 1808

Abril.]

[Sidenote: 1808

Abril.]

[Sidenote: 1808

Abril.]

_Ainda que longe de reconhecer hum tal principio como applicavel

a mim, vendo não obstante, que eu tinha lutado muito contra a força,

e que me não restara mais esperança alguma de alcançar passaportes

por mar, os acceitei em fim, para me retirar ao menos por terra; bem

resolvido com tudo, como eu disse a V. Excellencia, a aproveitar-me da

primeira occasião opportuna, para embarcar-me, onde, e como eu pudesse;

porque huma vez que V. Excellencia só me recusava os passaportes por

mar, para não me facilitar a passagem ao Brasil, nenhuma cousa me podia

embaraçar de fazer toda a diligencia, para lá ir por outros meios; e

com muito maior confiança, por V. Excellencia me ter dito, e mandado

dizer, que me não levaria a mal o embarcar-me em outra parte, se eu

pudesse. Entretanto eu estava a ponto de partir pela Hespanha, quando

os acontecimentos presentes me obrigárão, como he notorio, a dilatar

minha viagem, para não me expôr no caminho aos salteadores, que havião

sabido das prizões da capital. Quiz depois de novo emprehendella, e

já tinha dado para isso todas as providencias; porém as noticias, que

acabo de receber das pessoas mandadas adiante com a minha equipagem,

sobre a pouca segurança, e embaraços, que se encontrão nos dilatados

caminhos, me atterrárão no ultimo ponto. Embaraçado pois desta

sorte por mar, atemorizado por terra, agitado pelos gritos da minha

consciencia, que me representa, sem cessar, o Brasil, como o alvo

dos meus sagrados deveres, (e que outro poderia eu ter com 70 annos,

enfermo, e abatido?) só me resta hum partido, e V. Excellencia não se

admirará de eu o tomar. Penetrado com tudo até o ultimo instante de

sentimentos de delicadeza, que tenho praticado na minha situação tão

perigosa, não irei para a esquadra; pois tenho preferido hum pequeno

navio, munido dos passaportes de V. Excellencia, no qual espero

poder em fim passar ao meu destino, e merecer por isso o elogio tão

lisongeiro, com que V. Excellencia mesmo me tem honrado algumas vezes,

do meu acatamento para com a religião, e o Santo Padre._

_Tenho a honra de ser, com sentimentos da mais alta consideração,

etc._

Junot bravejou muito, quando recebeo esta carta, e soube por ella a

retirada do Nuncio; mas já lhe não pôde dar remedio.

[Sidenote: 1808

Abril.]

He cousa notavel, que raras vezes se experimenta hum desgosto, que

não seja acompanhado de outros! Os Inglezes frustrárão novamente a

vigilancia das torres, e baterias da barra na noite de 23, e vierão

perto de Belém em embarcações ligeiras atacar o brigue gaivota, e o

terião levado, se huma rede de corda não defendesse a sua abordagem.

Ainda principiárão a rompella; mas sendo presentidos pelos Francezes,

que guarnecião o brigue, tiverão de desistir da empreza, deixando

hum chapéo, que provavelmente cahio da cabeça a algum dos Inglezes,

na acção de quererem romper a rede, e sempre levárão huma lancha,

pertencente ao brigue.

Esta noticia logo na manhã seguinte se divulgou pelos cafés, e

pelas praças de Lisboa; mas ao mesmo tempo, que se celebrava com

prazer a ousadia nobre dos Inglezes, e o desleixamento das guarnições

Francezas, que não só os deixárão entrar, mas até sahir a salvo,

depois de descobertos, tendo-se entranhado tanto pelo rio acima, com

que admiração se não vio logo huma arrogante gazeta, que representava

esta acção como huma victoria assinalada das armas Francezas? Erão

cinco pinques, dizia o gazeteiro, carregados de Inglezes (e nem na

entrada, nem na sahida forão vistos!) e não menos de quarenta, incluso

o commandante da expedição, ficárão mortos de hum rasgo de pena. He

assim, que o valor de Lagarde pertendeo cobrir a vergonha dos soldados

Francezes; he assim, que estes impostores tem enganado o mundo!

[Sidenote: 1808

Abril.]

[Sidenote: 1808

Abril.]

Aconteceo nesta mesma occasião huma desordem nas ruas cuja, da

amendoeira, e visinhas, que não teve outro principio, que o de huma

pendencia particular entre alguns soldados das tres nações, de que

resultou ficarem mortos hum Portuguez, e hum Francez, sem outra

consequencia, que a de concorrer ao motim huma grande parte do povo

daquellas ruas, como era de esperar. Lagarde, de acordo com Junot,

figurou disto huma sublevação, mandou prender doze homens dos mais

suspeitos pela sua anterior conducta (como se a sua anterior conducta

os fizesse responsaveis por crimes, em que não tiverão parte) d’entre

os habitantes das mesmas ruas, para serem conservados por tres mezes na

prizão, caso não declarassem os verdadeiros authores, ou instigadores

daquella desordem. Mandou fechar todas as tabernas, baiucas, e casas

de pasto daquelles sitios, por tempo de seis mezes, salvo se o dono

denunciasse algum, que tivesse tido parte no motim. Isto he conhecer

as verdadeiras regras da jurisprudencia criminal, e huma bella theoria

em materia de delações! Tomou daqui pretexto, para fulminar novas

prohibições sobre o fabrico, uso, e conservação de todo o genero

de armas offensivas, e defensivas em Lisboa, e seus arrabaldes,

comprehendendo até os cajados. Ainda falta o mais galante: mandou

despejar das mesmas ruas todas as meretrizes, dentro de quatro dias,

pena de serem prezas, rapadas, e desterradas. Podem ver-se estes chéfes

d’obra da policia Franceza no edital de 29 de abril.

Por este tempo já as tropas Hespanholas existentes em Portugal ião

levantando a cabeça, e olhavão os Portuguezes como amigos, e os

Francezes como inimigos; Napoleão pedia a Junot artilheria ligeira,

para o serviço da Hespanha, Murat fazia-lhe outras requisições da mesma

natureza, e elle Junot, vendo-se cada vez em maior aperto, não teve

mais socego; mas a arrogancia era sempre a mesma.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume II) · 第 28 / 35 题