CAPITULO XXVIII.

_O governo legitimo he supprimido, e supplantado pelo intruso.

Ordens, e decretos a este respeito, e da contribuição extraordinaria de

guerra._

[Sidenote: 1808

Fev.]

[Sidenote: 1808

Fev.]

O 1^o de fevereiro de 1808 será sempre hum dia horroroso na memoria

dos Portuguezes: foi nelle que se consummou a scena da usurpação do

reino. Logo pela manhã se renovou no centro de Lisboa o apparato

hostil, com que os invasores tanto a miudo procuravão intimidar,

e conter a numerosa povoação desta capital; e desta vez foi mais

estrondoso, que das precedentes, porque o objecto era mais melindroso,

e decisivo. Formado hum grande corpo de tropa Franceza, e postadas

12 peças no rocio, bordadas de soldadesca armada todas as ruas desde

esta praça até o quartel-general, sahio Junot em grande pompa por

entre as fileiras, e se encaminhou até o palacio da Inquisição. As

salas forão inundadas de tropa, até mesmo ao pé da meza, onde os

Governadores do reino se achavão congregados em sessão: com o tumulto

tudo ficou suspenso; e alli foi lido pelo mesmo Junot hum papel, de que

a confusão, o estrepito, e o sobresalto dos assistentes pouco deixárão

perceber; mas comprehendeo-se bem, que era a sentença de extincção do

governo Portuguez.

[Sidenote: 1808

Fev.]

A sahida do General foi annunciada por foguetes, e estes seguidos

immediatamente por salvas de artilheria: toda a Lisboa ouvio em

poucos momentos a voz terrivel: que a Real Casa de Bragança cessára

de reinar em Portugal, que Napoleão tinha aggregado este bello paiz

ás suas conquistas, e o mandava governar pelo seu General em chéfe.

Mais circumstanciadamente foi annunciado tudo isto ao público por hum

edital, datado, e fixado no mesmo dia, que reune em ponto pequeno

toda a altivez dos antigos Reis da Persia, a atraiçoada politica

de Machiavel, as promessas, e intrigas de Filippe de Macedonia, e

as imposturas de Mahomet. Anda impresso em varias collecções, e eu

mesmo o tenho dado com algumas notas em huma outra obra;[1] mas não

me posso dispensar de o repetir neste lugar; porque faz huma parte

muito essencial da historia, como lei fundamental do governo intruso:

eu o dou sómente em Portuguez, posto que, assim como as outras leis,

e editaes Francezes, sahio ao público nas duas linguas Portugueza, e

Franceza.

Edital.

[Sidenote: 1808

Fev.]

_O Governador de París, primeiro Ajudante de campo de S. M. o

Imperador e Rei, General em chéfe._

_Habitantes do reino de Portugal._

_Os vossos interesses fixárão a attenção de S. M. o Imperador,

nosso Augusto senhor_; (delle Junot) _toda a irresolução deve

desapparecer; decidio-se a sorte de Portugal, e segurou-se a sua

felicidade futura; pois que Napoleão o grande o tomou debaixo da sua

omnipotente protecção_.

_O Principe do Brasil, abandonando Portugal, renunciou todos os

seus direitos á soberania deste reino. A casa de Bragança acabou de

reinar em Portugal. O Imperador Napoleão quer, que este bello paiz seja

administrado, e governado todo inteiro em seu nome, e pelo General em

chéfe do seu exercito._

[Sidenote: 1808

Fev.]

_A tarefa, que me impõe este sinal da benignidade, e confiança de

meu amo, he difficil de cumprir; mas eu espero preenchella dignamente,

ajudado dos homens mais instruidos do reino, e da boa vontade dos seus

habitantes._

[Sidenote: 1808

Fev.]

[Sidenote: 1808

Fev.]

_Eu tenho estabelecido hum conselho de governo, para me illuminar

a respeito do que se deve fazer; mandar-se-hão administradores ás

provincias, para se assegurarem dos meios de melhorar a administração,

e estabelecerem nellas a ordem, e a economia. Eu ordeno, que se

abrão estradas e rompão canaes, para facilitar as communicações, e

tornar florecente a agricultura, e a industria nacional, dous ramos

tão necessarios á prosperidade de hum paiz, a qual será facil de

restabelecer com hum povo espirituoso, soffredor, e intrepido. As

tropas Portuguezas, commandadas pelos mais recommendaveis dos seus

chéfes, formaráõ bem depressa huma só familia com os soldados de

Marengo, de Austerlitz, de Jena, de Friedland; e não haverá entre elles

outra rivalidade, que a do valor, e da disciplina. As rendas públicas,

bem administradas, seguraráõ a cada empregado o premio do seu trabalho;

a instrucção pública, esta mãi da civilização dos póvos, se derramará

pelas provincias; e o Algarve, e Beira alta terão tambem hum dia o seu

Camões. A religião de vossos pais, a mesma, que todos professamos, será

protegida, e soccorrida pela mesma vontade, que soube restauralla no

vasto imperio Francez; mas livre das superstições, que a deshonrão: a

justiça será administrada com igualdade, e desembaraçada das delongas,

e dos arbitrios voluntarios, que a sopeavão. A tranquillidade pública

não será mais perturbada por horriveis salteadores, resultado da

ociosidade; e se acaso existirem malvados incorrigiveis, huma policia

activa livrará delles a sociedade: a deforme mendicidade não arrastará

mais os seus fatos immundos na soberba capital, nem pelo interior do

reino; estabelecer-se-hão casas de trabalho para este fim; o pobre

estropeado alli achará hum asylo, e o preguiçoso será empregado em

trabalhos necessarios á sua propria conservação._

[Sidenote: 1808

Fev.]

_Habitantes do reino de Portugal, estai seguros, e tranquillos;

repelli as instigações daquelles, que quererião conduzir-vos á

rebellião, e a quem não importa, que se derrame sangue, com tanto

que seja o sangue do continente: entregai-vos com confiança aos

vossos trabalhos, vós colhereis o seu fructo: se he necessario,

que façais alguns sacrificios nos primeiros momentos, isso he para

pordes o governo em estado de melhorar a vossa sorte. Elles são aliás

indispensaveis para a subsistencia de hum grande exercito, necessario

aos vastos projectos do grande Napoleão: seus olhos vigilantes estão

fixados em vós; e a vossa futura felicidade está segura; elle vos amará

tanto como aos seus vassallos Francezes; cuidai porém em merecer os

seus benificios por vosso respeito, e vossa sujeição á sua vontade._

_Dado no palacio do quartel-general em Lisboa no 1.^o de fevereiro de

1808._

_Junot._

O seguinte decreto, que he da mesma data, e appareceo hum dia depois,

póde considerar-se como parte do precedente edital, a que serve de

ampliação.

Decreto.

_O General em chéfe do exercito Francez em Portugal, em nome de S.

M. o Imperador dos Francezes, Rei de Italia, e em observancia das

suas ordens, decreta_:

[Sidenote: 1808

Fev.]

ARTIGO I. _O reino de Portugal será daqui por diante

governado todo inteiro, e administrado em nome de S. M. o Imperador dos

Francezes, Rei de Italia, pelo General em chéfe do exercito Francez em

Portugal._

II. _O conselho de regencia, creado por S. A. R. o Principe do Brasil

no momento, em que este Principe abandonou o reino de Portugal, fica

supprimido._

III. _Haverá hum conselho de governo presidido pelo General em chéfe,

composto de hum Secretario d’Estado, encarregado da administração

do interior, e das finanças, com dous conselheiros do governo,

hum encarregado da repartição do interior, e outro encarregado da

repartição das finanças. De hum Secretario d’Estado encarregado da

repartição da guerra, e da marinha, com hum Conselheiro de governo

encarregado da repartição da guerra, e da marinha. De hum Conselheiro

do governo, encarregado da justiça, e dos cultos com o titulo de

Regedor. Haverá hum Secretario geral do conselho, encarregado dos

arquivos._

[Sidenote: 1808

Fev.]

IV. _Os senhores Corregedores das comarcas, Juizes de fóra, Juizes

do crime, e Juizes ordinarios; os Desembargadores dos differentes

tribunaes, o Senado da camara de Lisboa, a Junta do commercio, as

diversas camaras, o Presidente do terreiro público, em huma palavra,

todos os encarregados da administração pública são conservados, á

excepção das reducções, que o interesse público mostrar, que he

necessario fazerem-se pelo tempo adiante, e das mudanças nos objectos

relativos a seus cargos, que a nova organização do governo julgar

indispensaveis._

V. _Mr. Herman he nomeado Secretario d’Estado encarregado da

repartição do interior, e das finanças._

_D. Pedro de Mello he nomeado Conselheiro do governo, da repartição

do interior._

_O Senhor d’Azevedo, da repartição das finanças._

_Mr. Lhuitte he nomeado Secretario d’Estado encarregado da guerra, e

da marinha._

[Sidenote: 1808

Fev.]

_O Senhor Conde de S. Payo he nomeado Conselheiro do governo da

repartição de guerra, e da repartição da marinha._

_O Senhor Principal Castro he nomeado Conselheiro do governo

encarregado da justiça, e dos cultos, com o titulo de Regedor._

_Mr. Vienez Vaublanc he nomeado Secretario geral._

VI. _Haverá em cada provincia hum Administrador geral, com o

titulo de Corregedor mór, encarregado de dirigir todos os ramos de

administração, de vigiar sobre os interesses da provincia, de indicar

ao governo os melhoramentos, que devem fazer-se tanto a respeito da

agricultura, como da industria; devendo corresponder-se sobre qualquer

destes objectos com o Secretario d’Estado da competente repartição, e

com o Regedor, pelo que pertence á justiça, e ao culto._

[Sidenote: 1808

Fev.]

_Haverá igualmente em cada provincia hum official General,

encarregado de manter a ordem, e a tranquillidade: as suas funcções são

puramente militares; mas nas ceremonias públicas terá o seu lugar á

direita do Corregedor mór._

_Haverá hum Corregedor mór na provincia da Extremadura, que residirá

em Coimbra, e hum Corregedor mór na cidade de Lisboa, e seu termo, o

qual será demarcado de huma maneira exacta._

VII. _O presente decreto será impresso, e affixado em todo o reino

para ter força de lei._

_O Secretario d’Estado do interior, e das finanças, o Secretario

d’Estado da guerra, e da marinha, e o Regedor são encarregados da sua

execução, cada hum pela parte, que lhe toca._

_Dado no palacio do quartel general no 1.^o de fevereiro de 1808._

_Junot._

[Sidenote: 1808

Fev.]

Por este modo foi organizado o novo governo, verdadeiramente militar,

presidido pelo General em chéfe, dividido em repartições, que todas

tinhão á sua frente Secretarios d’Estado, Francezes de nação, e

Conselheiros Portuguezes. Estes Conselheiros erão huns automatos,

subordinados inteiramente á vontade do General, os quaes entrárão nesta

organização por dous motivos bem palpaveis, o de enganar os póvos com

esta apparencia de que os nacionaes tinhão parte no governo, e o de

se aproveitarem delles, no que fosse preciso; porque como Portuguezes

facilitarião muito as operações mais arriscadas, e porque nem Junot,

nem algum dos seus sequazes tinhão os conhecimentos necessarios, para

governarem o reino. Lhuitte tratou sempre mal o Conde de S. Payo, e

sempre o trouxe opprimido: Herman era mais politico.

[Sidenote: 1808

Fev.]

Ficárão igualmente estabelecidos os satéllites armados, que devião

segurar as provincias na escravidão; e os espiões móres, (he nome já

muito usado, mas tão proprio, que lhes não sei dar outro) que com o

titulo de Corregedores móres, e debaixo do pretexto de dirigirem todos

os ramos da administração, vigiarem pelos interesses das provincias,

e indicarem ao governo os melhoramentos possiveis na agricultura, e

industria, devião exercitar huma terrivel inquisição entre os póvos,

dirigir as operações dos magistrados subalternos, vigiar as opiniões,

e movimentos populares, instruir em fim os usurpadores do que devião

obrar a bem dos seus interesses.

A promoção dos Corregedores móres ficou reservada para o tempo, em que

foi promovido o Intendente geral da policia o grande espião Lagarde; e

hum só Portuguez achou Junot, que empregasse nestes cargos, todos os

mais forão Francezes.

[Sidenote: 1808

Fev.]

O augusto nome do Principe Regente ficou, desde o momento daquelles

decretos, substituido pelo de Napoleão, e as Armas Reaes nos lugares

mais públicos, ou picadas, ou cobertas pelas aguias; conservárão-se

porém algumas, que escapárão a esta primeira invasão; porque se

reflectio, que erão as armas do reino, e não as da Casa Reinante,

e Junot promettia sempre em nome de seu amo conservar o reino todo

inteiro com as suas prerogativas. Era huma das inconsequencias muito

frequentes nos desditosos tempos daquelle governo vacillante, o

verem-se na mesma cidade, na mesma rua, e até no mesmo edificio, as

Reaes Quinas, aqui exaltadas, acolá abatidas, ou cobertas; mas as

aguias erão sempre as que brilhavão. O frontespicio do arsenal Real

da fundição debaixo foi hum dos primeiros lugares, onde se picárão as

Armas: a novidade, e a indignação fez concorrer a este acto bastante

povo; e houverão mulheres, que recolherão com veneração em lenços as

pedrinhas, que os picões deitavão ao chão. Huma guarda Franceza alli

postada, ou o não advertio, ou se não fez sensivel a isso; mas os

obreiros parece que se intimidárão com o ajuntamento, levantando-se da

obra, sem a deixarem completa.

[Sidenote: 1808

Fev.]

Seguirão-se varias outras ordens, e decretos, relativos á formalidade

da expedição das sentenças, e mais papeis públicos, que omitto por

serem minucias. Não posso porém omittir o mais terrivel de todos os

decretos, o da devastação geral do reino, do saque aos templos, e aos

bens da Casa Real, do clero, das corporações, e dos particulares: he

da mesma data do das grandes reformas na administração pública, e

finanças, da abertura das estradas, rompimento dos canaes, protecção

das letras, da religião, e da justiça, do exterminio da mendicidade, e

de tantas promessas, como temos visto, de felicidades incalculaveis;

mas sómente se publicou alguns dias depois; porque todo o descaramento

Francez não foi bastante, para se poderem unir estas duas peças em hum

só dia.

[Sidenote: 1808

Fev.]

Depois do que temos visto, e iremos vendo, não he preciso gastar

tempo em reflexões sobre as mentirosas promessas desta gente; mas he

muito util aprendermos a sua linguagem, e a sua logica, para pelas

suas palavras adivinharmos os seus pensamentos. Lembremo-nos daquellas

do primeiro edital do 1.^o de fevereiro: _Se he necessario, que

façais alguns sacrificios nos primeiros momentos, isso he para pordes

o governo em estado de melhorar a vossa sorte_: vejamos o que ellas

querião dizer, e o melhoramento, que elles pertendião dar-nos, pelo

seguinte

Decreto.

_Em nosso palacio Real de Milão a 23 de dezembro de 1807._

_Napoleão, Imperador dos Francezes, Rei de Italia, Protector da

Confederação do Rheno._

_Havemos decretado, e decretamos o seguinte._

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume II) · 第 4 / 35 题