Sôbre se era mais formosa

A vermelha ou branca rosa,

Ardeu seculos a guerra

Em Inglaterra.

Paz entre as duas, jamais!

Reinar ambas as rivais,

Tambem não; e uma ceder

Como hade ser?

Faltei eu lá na Inglaterra

Para acabar com a guerra.

Ei-las aqui bem eguaes,

Mas não rivaes.

Atei-as em laço estreito:

Que artista fui, com que geito!

E oh! que lindas são, que amores

As minhas flores!

Dirão que é cópia;--bem sei:

Que todo inteiro o roubei

Meu pensamento brilhante

Do teu semblante...

Será. Mas se é tam bello

Que lhe deem esse modello,

Do meu quadro, na verdade,

Tenho vaidade.

IX.

VOZ E AROMA.

A brisa vaga no prado,

Perfume nem voz não tem;

Quem canta é o ramo agitado,

O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores

Que uma a uma eu vi murchar,

Restituam-me os verdores

Aos ramos que eu vi seccar...

E em torrentes de harmonia

Minha alma se exhalará,

Ésta alma que muda e fria

Nem sabe se existe ja.

X.

SEUS OLHOS.

Seus olhos--se eu sei pintar

O que os meus olhos cegou--

Não tinham luz de brilhar,

Era chamma de queimar;

E o fogo que a ateou

Vivaz, eterno, divino,

Como o facho do Destino.

Divino, eterno!--e suave

Ao mesmo tempo: mas grave

E de tam fatal podêr,

Que, um só momento que a vi,

Queimar toda alma senti...

Nem ficou mais de meu ser,

Senão a cinza em que ardi.

XI.

A DÉLIA.

Cuidas tu que a rosa chora,

Que é tammanha a sua dor,

Quando, ja passada a aurora,

O sol, ardente de amor,

Com seus bejos a devora?

--Feche virgineo pudor

O que inda é botão agora

E ámanhan hade ser flor;

Mas ella é rosa n’esta hora.

Rosa no aroma e na côr.

--Para ámanhan o prazer

Deixe o que ámanhan viver.

Hoje, Délia, é nossa a vida;

Ámanhan... o que hade ser?

A hora de amor perdida

Quem sabe se hade volver?

Não desperdices, querida,

A duvidar e a soffrer

O que é mal gasto da vida

Quando o não gasta o prazer.

XII.

A JOVEN AMERICANA.

Donde é que te eu vi, donzella,

E o que eras tu n’esta vida

Quando não tinhas vestida

A fórma de virgem bella

Que ora te vejo trajar?

Estrêlla foste no ceo,

Serias no prado flor?

Ou, no diaphano splendor

De que Iris faz o seu veo,

Estavas, Silpha, a bordar?

Não houve poeta ainda

Que te não visse e cantasse,

Mulher que não te invejasse,

Nem pintor que a face linda

Te não fôsse copiar.

Seculos tens.--E ah!... ja sei

Quem es, quem foste e hasde ser:

Bem te eu estava a conhecer

Quando primeiro te olhei

Sem te podêr estranhar.

Com Deus e co’a Liberdade

De nossas terras fugiste

Quando perdidos nos viste,

E te foste á soledade

Do novo-mundo acoitar.

Pois que ora piedosa vens

E nos sentes resurgir,

Oh! não tornes a fugir,

Que melhor patria não tens

Nem que mais te saiba amar.

Teu natal celebraremos

Hoje e sempre: teus amigos

Somos na lealdade antigos,

E no ardor novos seremos,

No desvéllo em te adorar:

Porque tu es o Ideal

Da só belleza--do Bem;

Não es estranha a ninguem,

E de ti só foge o mal

Que te não póde incarar.

XIII.

ADEUS, MÃE!

--‘Adeus, mãe! adeus, querida,

Que eu ja não posso co’a vida,

E os anjos chamam por mim.

Adeus, mãe, adeus!... Assim,

Juncta os teus labios aos meus,

E recebe o último adeus

N’este suspiro... Não chores,

Não chores: aquellas dores

Ja sinto accalmar em mim.

Adeus, mãe, adeus!... Assim,

Juncta os teus labios aos meus...

Um bejo--um último... Adeus!’

E o corpo desanimado

No collo da mãe cahia;

E ella o corpo... só pesado,

Só mais pesado o sentia!

Não se lamenta, não chora,

E quasi a surrir, dizia:

--‘Que tem este filho agora,

Que tanto pésa? Não posso...’

E uma a uma, osso por osso,

Com a mão trémula tenta

As mãosinhas descarnadas,

As faces cavas, myrradas,

A testa inda morna e lenta.

--‘Que febre, que febre!’ diz;

E em tudo pensa a infeliz,

Tudo que ha mau lhe occorreu,

Tudo--menos que morreu.

Como nos gelos do norte

O somno traidor da morte

Ingana o desfallecido

Que imagina adormecer,

Assim cançado, esvahido

De tam longo padecer,

Ja não ha no coração

Da mãe fôrça de sentir;

Não tem ja lume a razão

Senão só para a illudir.

Acorda, ó mãe desgraçada,

Que é tempo de despertar!

Anda ver a eça armada,

As luzes que ardem no altar.

Ouves? É a rouca toada

Dos padres a psalmear?...

Vamos, que a hora é chegada,

É tempo de o amortalhar.

E os anjos cantavam:

‘Alleluia!’

E os sanctos clamavam:

‘Hosanna!’

Ao triste cantar da terra

Responde o cantar do ceu;

Todos lhe bradam:--‘morreu!’

E a todos o ouvido cerra.

E os sinos a tocar,

E os padres a rezar,

E ella ainda a accalentar

Nos braços o filho morto,

Que ja não tem mais confôrto,

Mais socêgo n’este mundo

Que o jazigo humido e fundo

Onde hade ir a sepultar.

Levae, ó anjos de Deus,

Levae essa dor aos ceus.

Com a alma do innocente

Aos pés do Juiz Clemente

Ahi fique a sancta dor

Rogando á Eterna Bondade

Que extenda a immensa piedade

A quantos peccam d’amor.

XIV.

AVE, MARIA!

Maria, doce mãe dos desvalidos,

A ti clamo, a ti brado!

A ti sobem, senhora, os meus gemidos,

A ti o hymno sagrado

Do coração de um pae voa, ó Maria,

Pela filha innocente.

Com sua debil voz que balbucia,

Piedosa mãe clemente,

Ella ja sabe, erguendo as mãos tenrinhas,

Pedir ao Pae dos ceos

O pão de cada dia. As preces minhas

Como irão ao meu Deus,

Ao meu Deus que é teu filho e tens nos braços,

Se tu, mãe de piedade,

Me não tomas por teu? Oh! rompe os laços

Da velha humanidade;

Despe de mim todo outro pensamento

E van tenção da terra;

Outra glória, outro amor, outro contento

De minha alma desterra.

Mãe, oh! mãe, salva o filho que te implora

Pela filha querida.

Demais tenho vivido, e só agora

Sei o preço da vida,

D’esta vida, tam mal gasta e prezada

Porque minha só era...

Salva-a, que a um sancto amor está votada,

N’elle se regenera.

XV.

OS EXILADOS.

Á SENHORA ROSSI-CACCIA.[14]

Elles tristes, das praias do destêrro,

Os olhos longos e arrazados de agua

Estendem para aqui... Cravado o ferro

Da saudade têem n’alma; e é negra mágua

A que lhes ralla os corações afflictos,

É a maior da vida--são proscrittos.

Dor como outra não ha, é a dor que os matta!

Dizer eu: ‘Essa terra é minha... minha,

Que nasci n’ella, que a servi, a ingrata!

Que lhe dei... dei por ella quanto tinha,

Sangue, vida, saude, os bens da sorte...

E ella, por galardão, me intrega á morte!’

Morte lenta e cruel--a de Ugolino![15]

Bem lhes quizeram dar...

Mas não será assim: sôpro divino

De bondade e nobreza

Não o póde apagar

Nos corações da gente portugueza

Esse rancor de fera

Que em almas negras, negro e vil impera.

Tu, genio da Harmonia,

Tu sólta a voz em que triumpha a glória,

Com que suspira amor!

Bella d’enthusiasmo e de fervor,

Ergue-te, ó Rossi, tua voz nos guia:

A tua voz divina

Hoje um echo immortal deixa na historia.

Inda no mar d’Egina

Soa o hymno d’Alceu;

E atravessaram seculos

Os cantos de Tyrtheu.

Mais poderosa e válida

A tua voz será;

A tua voz etherea,

Tua voz não morrerá.

Nós no templo da patria pendurâmos

Ésta c’roa singela

Que de myrtho e de rosas intrançâmos

Para essa fronte bella:

Aqui, de voto, ficará pendente,

E um culto de saudade

Aqui, perennemente,

Lhe daremos no altar da Liberdade.

NOTAS DE RODAPÉ:

[14] Cantando em um baile de subscripção que se deu em Lisboa em 29 de

Março de 1845 a favor dos que n’esse anno estavam emigrados por fugir

ás perseguições do Govêrno.

[15] Foi morto á fome com os filhos.

XVI.

PREITO.

É lei do tempo, Senhora,

Que ninguem domine agora

E todos queiram reinar.

Quanto vale n’esta hora

Um vassallo bem sujeito,

Leal de homenage e preito

E facil de governar?

Pois o tal sou eu, Senhora:

E aqui juro e firmo agora

Que a um despotico reinar

Me rendo todo n’esta hora,

Que a liberdade sujeito...

Não a reis!--outro é meu preito:

Anjos me hãode governar.

XVII.

NO LUMIAR.

Era um dia de Abril; a primavera

Mostrava apenas seu virgineo seio

Entre a folhagem tenra; não vencêra,

De todo, o sol o mysterioso inleio

Da nevoa rara e fina que extendêra

A manhan sôbre as flores; o gorgeio

Das aves inda timido e infantil...

Era um dia de Abril.

E nós iamos lentos passeiando

De vergel em vergel, no descuidado

Socêgo d’alma que se está lembrando

Das luctas do passado,

Das vagas incertezas do porvir.

E eu não cançava de admirar, de ouvir,

Porque era grande, um grande homem devéras

Aquelle duque--alli maior ainda,

Alli no seu Lumiar, entre as sinceras

Bellezas d’esse parque, entre essas flores,

A qual mais bella e de mais longe vinda

Esmaltar de mil côres

Bosque, jardim, e as relvas tam mimosas,

Tam suaves ao pé--muito ha cançado

De pisar alcatifas ambiciosas,

De tropeçar no perigoso estrado

Das vaidades da terra.

E o velho duque, o velho homem d’Estado,

Ao fallar d’essa guerra

Distante--e das paixões da humanidade,

Surria malicioso

D’aquelle surrir fino sem maldade,

Que tam seu era, que, entre desdenhoso

E benevolo, a quanto lhe sahia

Dos labios dava um cunho de nobreza,

De razão superior.

E então como elle a amava e lhe queria

A ésta pobre terra portugueza!

Velha tinha a razão, velha a experiencia,

Joven só esse amor.

Tam joven, que inda cria, inda esperava,

Inda tinha a fe viva da innocencia!...

Eu, na fôrça da vida,

Tristemente de mim me invergonhava.

--Passeavamos assim, e em reflectida

Meditação tranquilla descuidados

Iamos sós, ja sem fallar, descendo

Por entre os velhos olmos tam copados,

Quando sentimos para nós crescendo

Rumor de vozes finas que zumbia

Como enxame de abelhas entre as flores,

E vimos, qual Diana entre os menores

Astros do ceo, a fórma que se erguia.

Sôbre todas gentil, d’essa extrangeira

Que se esperava alli. Perfeita, inteira

No velho amavel renasceu a vida

E a graça facil. Cuidei ver o antigo

O nobre Portugal que resurgia

No venerado amigo;

E na formosa dama que surria,

O genio da subida,

Rara e fina elegancia que a nobreza,

O gòsto, o amor do Bello, o instincto da Arte

Reune e faz irmãos em toda a parte;

Que affere a grandeza

Pela medida só dos pensamentos,

Do stylo de viver, dos sentimentos,

Tudo o mais como futil desprezando.

Pensei que a saudar o velho illustre

Em seus ultimos dias

E a despedir-se, até Deus sabe quando,

De nossas praias tristes e sombrias,

Vinha esse genio... Tristes e sombrias,

Que o sol lhe foge, lhe esmorece o lustre,

E onde tudo o que é alto vai baixando...

O triste, o que não tem ja sol que o aqueça

Sou eu talvez--que, á míngua de fe, sinto

O cerebro gelar-me na cabeça

Porque no coração o fogo é extincto.

Elle não era assim,

Ou, sabía fingir melhor do que eu!

--Como o nobre corcel que invelheceu

Nas guerras, ao sentir o aureo telim

E as armas sôbre o dorso descarnado,

Remoça o garbo, em juvenil meneio

Franja de espuma o freio,

E honra os brazões da casa em que foi nado.

Nunca me hade esquecer aquelle dia!

Nem os olhos, as fallas, e a sincera

Admiração da bella dama ingleza

Por tudo quanto via;

O fructo, a flor, o aroma, o sol que os gera,

E ésta vivaz, vehemente natureza,

Toda de fogo e luz,

Que ama incessante, que de amar não cança,

E continua produz

Nos fructos o prazer, na flor a esp’rança.

Alli as nações todas se junctaram,

Alli as várias línguas se fallaram;

A Europa convidada

Veio ao festim--não ao festim, ao preito.

Vassallagem rendida foi prestada

Ao talento, á belleza,

A quanto n’alma infunde amor, respeito,

Porque é devéras grande:--que a grandeza

Os homens não a dão;

Põe-na por sua mão

N’aquelles que são seus,

Nos que escolheu--só Deus.

Oh! minha pobre terra, que saudades

D’aquelle dia! Como se me aperta

O coração no peito co’as vaidades,

Co’as miserias que ahi vejo andar álerta,

Á sôlta, appregoando-se! Na intriga,

Na traição, na calúmnia é forte a liga,

É fraca em tudo o mais...

Tu, socegado

Descança no sepulchro; e cerra, cerra

Bem os olhos, amigo venerado,

Não vejas o que vai por nossa terra.

Eu fecho os meus, para trazer mais viva

Na memoria a tua imagem

E a dessa bella Ingleza que se esquiva

De nós entre a folhagem

Dos bosques de Parthenope. Cançado,

Fito n’esta miragem

Os olhos d’alma, em quanto que arrastado,

Vai o tardio pé

Por este que inda é,

Que cedo não será, bem cedo--em mal!

O velho Portugal.[16]

NOTAS DE RODAPÉ:

[16] Estes versos foram inspirados pela visita da celebrada Mrs.

Northon á quinta do Lumiar, onde o fallecido duque de Palmella reuniu,

para a festejar, alguns poucos amigos escolhidos. Foi nos ultimos

tempos de sua vida. Mrs. Northon reside actualmente em Napoles, a

Parthenope de que falla o texto.

XVIII.

A UM AMIGO.

Fiel ao costume antigo,

Trago ao meu joven amigo

Versos proprios d’este dia.

E que de os ver tam singelos,

Tam simples como eu, não ria

Qualquer os fara mais bellos,

Ninguem tam d’alma os faria.

Que sôbre a flor de seus annos

Soprem tarde os desinganos;

Que emtôrno os bafeje amor,

Amor da espôsa querida,

Prolongando a doce vida

Fructo que succeda á flor.

Recebo este voto, amigo,

Que eu, fiel ao uso antigo,

Quiz trazer-te n’este dia

Em poucos versos singelos,

Qualquer os fara mais bellos,

Ninguem tam d’alma os faria.

XIX.

OS LUSIADAS.

EPILOGO DE PAGGI.

I.

Co’a doce voz o cysne lusitano

Assim as proprias feras abrandava;

Mas nem o Tejo, de seu canto ufano,

Nem as ingratas Tagides tocava:

De seu impio destino deshumano

Nunca as íras fataes, nunca domava;

Nem achou entre os seus humanidade

Quem moveria as pedras á piedade.

II.

Ingrata patria, o ingenho sublimado

Digno de um capitolio em Roma antiga,

Tu não o ergueste d’esse baixo estado

Em que só por tua glória se affadiga!

O ingenho que te inveja mallogrado

Toda a nação de meritos amiga,

Tu na vida em miserias o deixaste,

E em leito vil á fome o assacinaste!

III.

Vai! Sua glória é mais hoje a maravilha

Das gentes, porque mais o perseguiste;

Morre o teu nome quando o seu mais brilha,

Despojam delle a tua lingua triste;

Iberia o adoptou, França o perfilha,

Britannia o quer; e agora eterno existe,

Que n’um e n’outro italico idioma

Entre os seus vates o colloca Roma.

IV.

Tu fica-te c’os ossos deshonrados

Que te accusam de ingrata ao ceo e á terra;

Seu spirito, esse vai onde prezados

São virtude e talento, e onde ímpia guerra

Stulto o podêr não faz aos mais honrados:

Mais de outros ja que teu, ja não se incerra

N’um canto do orbe sua altiva fama,

Que Augusto a ampara e um Alexandre a acclama

V.

Lá onde surge de alto monte, e brilha

Sôbre a escolhida grey de Deus a estrêlla,

E egual áquella antiga maravilha

Que os reis guiou a Deus, sôbre os reis véla,

Lá onde ao merito o podêr se humilha,

Beja a paz da justiça a face bella,

E de illustre carvalho á sombra amena

Descança Roma no velar de Siena,[18]

VI.

Lá vai, minha obra, e d’esta luz roubada

Tu leva á patria musa esses primores;

Em falla ignota estava sepultada,

Raios de extranho sol são seus fulgores.

Vai, viverás: tambem com luz furtada

Deu vida Prometheu. Se mais não fores,

Serás reflexo de belleza, lustre,

E de eterno splendor émula illustre.[19]

XIX.

LA LUSIADA.

EPILOGO DI PAGGI.[17]

I.

Cotal cantava il lusitano cigno

Molcendo con sue voce anco le fere,

Non che l’amato patrio Tago e’l Migno,

E le del canto suo Tagide altere:

Che pur del suo destino empio e maligno

Non puote unqua addolcir l’ire severe;

Non trovando fra suoi humanitade

Quei ch’i scelsi avria mossi anco a pietade.

II.

Potesti, ingrata patria, un spirto degno

D’un campidoglio in una Roma antica,

Non sollevar da basso stato, indegno

Di cui fiè per te gloria ogni fatica?

Un spirto che t’invidia al maggior segno

Ogni altra nazion di mer’ti amica,

Veder soffristi vivo egro e scontento

Ed in vil letto di disagio spento!

III.

Ma vanne pur che, quanto iniqua, austera

Fusti com lui, tanto fra l’altre genti

Sorgerá la sua gloria ove tua pera,

Fino a caciarne i tuoi nativi accenti.

Adotteranlo la nazione ibera,

La franca, use adottar spirti eminenti,

L’angla; ed ambe le italiche favelle

Vorran che viva fra suoi poeti anch’elle.

IV.

Tienti pur l’ossa inonorate ancora

Che t’accusan d’ingrata anco sepulte;

Che lo spirto di lui, gia di te fuora

Non errará, ne fien sue pene inulte;

Vedrailo accolto ove virtu s’onora:

Gia piu d’altri che tuo, fra le piu culte

Genti del orbe, e maturar sua speme

Sotto un Augusto e un Alessandro insieme

V.

La ve ad illuminar da eccelso monte

Astro di Dio, l’eletta gregia, sorge,

Che al par di quel che ad inchinar la fronte

Condussi i regi a Dio, i regi scorge,

La dove il merto abbatte sforzi ed onte,

La giustizia à la pace il labro porge,

E di quercia Feretria à l’ombre amena

Riposa Roma al vigilar di Siena.

VI.

Or la vanne, opra, ed à le patrie muse,

Quasi terzo cristal le luci rendi

Che sotto ignoto dir sepolte e chiuse

Da sol che altrove splende or furi e prendi.

Vanne, e qual gia Prometteo anima infuse

Con le luci non sue, tu vita attendi:

Spechio del altrui bello, emulo industre

E d’eterno splendor riflesso illustre.

NOTAS DE RODAPÉ:

[17] Paggi esteve muitos annos em Lisboa, e aqui publicou duas edições

da sua traducção dos LUSIADAS, que, se não tem o valor poetico da de

Nervi, nem a fidelidade da de Briccolani, é todavia muito apreciavel.

Este _epilogo_ foi tirado da seg. edic. de 1659--que é a mais correcta,

conservando-se-lhe a propria orthographia.

[18] Cidade do gran’-ducado de Toscana, patria do papa Alexandre VII, a

quem a versão dos Lusiadas foi dedicada.

[19] Publicando-se a primeira vez ésta traducção dos versos de Paggi no

2.º num. do vol. II do jornal, a SEMANA, appareceu com uma introducção,

da qual julgâmos dever extractar alguns paragraphos:

‘Um nome illustre e portuguez, germanado pela inspiração e pelas

tradicções patrias com a glória de Camões, associa-se hoje á nobre

desaffronta que um estrangeiro soube, ha seculo e meio, escrever no fim

dos _Lusiadas_ em honra das esquecidas cinzas de Camões. O estrangeiro

foi Carlos Antonio Paggi, que na sua traducção italiana dos _Lusiadas_

accrescentou, como epilogo, seis formosas strophes em honra do poeta

que a patria, ou antes a côrte do seu tempo, votára á humiliação e

á indigencia. O nome glorioso na historia contemporanea das nossas

lettras, é o de Almeida Garrett, que em bellissimos versos portuguezes

trasladou a elegia melancolica com que o italiano Paggi apostrophou a

indifferença, ou o desprêzo que foram em vida de Camões a tença mais

avultada que os poderosos lhe destinaram no seu livro de mercês.

‘Quem gravou mais estes versos na loisa de Camões, quem lhe refrescou

as cinzas com mais esta saudade, foi o poeta, que resume no seu nome,

como n’um traço conciso, toda uma regeneração litteraria, o poeta que

marca no stadio das lettras um repoiso ameno depois do servilismo, ou

da inanição da poesia nacional; o mesmo que celebrou Camões em versos

ungidos de sentimento e de saudade íntima; aquelle que interrogou

os portuguezes sobre o logar onde jaziam os ossos do maior genio da

nossa terra; foi o proprio que em Portugal, onde só a opulencia tem

monumentos, e a nullidade estátuas, levantou o mais clamoroso brado

a favor daquella pobre ossada, perdida, profanada, pisada talvez

sacrilegamente pelos filhos degenerados d’uma patria invilecida; foi

aquelle mesmo que rematou tambem um dos seus mais graciosos e sentidos

poemas, com ésta apostrophe, temerosa e solemne, ja tantas vezes citada

por nacionaes e extrangeiros:

Onde jaz, portuguezes, o moimento

Que do immortal cantor as cinzas guarda?

Homenagem tardia lhe pagastes

No sepulchro siquer? Raça d’ingratos!

XX.

O TEJO.

AO SENHOR VISCONDE DE ALMEIDA-GARRETT.

PELO CONDE DE CAMBURZANO.

N’essas margens risonhas do Tejo

Não ha som que não cante de amor;

Em suas ondas azues o lampejo

Das estrêllas, no albor, se espelhou.

XX.

IL TAGO.

AL SIGNOR VISCONTE DE ALMEIDA-GARRETT.

DAL CONTE DI CAMBURZANO.

Sule sponde ridenti del Tago

Dice ogni eco canzone d’amore;

In que’ flutti d’azzuro sì vago

Ogni stella al mattin si spechiò.

Essa terra produz a violeta

Ao primeiro surrir da manhan,

Vago Zephyro a flor indiscreta,

Sussurrando, lascivo beijou.

É loquaz este bosque sombrio,

Cheio ainda do canto dos bardos;

Aqui é Tempe, aqui o Menalo frio,

E o Meandro que os cysnes produz.

Oiço uns echos de magica lyra

Pela noite ir ao longo da praia...

Quem é esse tam fero que ahi gyra

E do dia desdenha da luz?

É Catão,[20]--só a este não doma

Quem a terra fez muda a seu mando;

É Catão--a infamia de Roma

Na sua frente jamais não pesou.

Quella terra produce la viola

Al primiero dell’ alba sorriso,

Zefiretto che lene trasvola

Susurrando quel fiore baciò.

Son loquaci le brune foreste,

Piene ancora del canto de’ bardi;

Quivi è Tempe, quì Menalo agreste,

E’l Meandro che i cigni nutrì.

Odo un suono di magica lira

Lungo il lido sull’ umida sera...

Chi è colui che sì fiero s’aggira

E disdegna la luce del di?

Egli é Cato[21], lui solo non doma

Chi la terra fè muta á suoi cenni;

Egli é Cato, l’infamia di Roma

Sul suo capo giammai non pesò.

Como geme alva pomba ferida,

Assim Merope[22] geme e lamenta;

Soam trompas guerreira alarida,

E a alegria ao seu peito voltou.

Nas cumiadas de Herminio[23] nevosas,

Que dos horridos gelos se c’roam,

Ve a aurora coberta de rosas

De belleza em que pompa surgiu!

Na hástea debil as tenras florinhas

Vão o puro rocio bebendo,

Cada gotta do ceo, nas hervinhas,

Ricca perola ardente luziu.

Mas o Genio do monte, que horrendo

Entre as sombras impera da noite,

Bate as azas, ja foge e fremendo

No profundo do mar mergulhou.

Come gemon le bianche colombe,

Cosi Merope[24] piange e lamenta;

Ma improviso squillare di trombe

Alta gioja in suo cuore versò.

Su le cime d’Erminio[25] nevose,

Cui fan gl’orridi ghiacci corona,

Ve’ l’aurora cosparsa di rose

Qual fa pompa di rara beltà!

I fioretti sul gracile stelo

Van bevendo la pura rugiada,

Ogni stilla caduta dal cielo

Fra l’erbette una perla si fa.

Ma lo Spirto del monte, che orrendo

Tiene impero fra l’ombre di notte,

Bate l’ali, gia fugge e fremendo

Nel profondo dei mari piombó.

Repentino lá surge um guerreiro,

Torvo o cenho, a armadura de ferro...

É Viriato... a seus pés--o primeiro!--

Calca as Aguias que o mundo adorou.

Da caverna que os ossos lhe incerra

Surde a voz... Inclinae as cabeças

Ante o livre que impavido á terra

--Ou morrer--ou salvá-la jurou...

Immudece a harpa.--O nome adorado

Da sua Julia[26] as Driades cantem!

Sôbre a fronte ao poeta sagrado

Phebo proprio os seus loiros poisou.

Un guerriero repente si desta,

Torvo il ciglio, rachiuso nell’arme,

É Viriato... un vessillo calpesta

Che tremante la terra mirò.

Dallo speco che l’ossa ne serra

Una voce si parte--t’inchina

A colui che la libera terra

O far salva o perire giurò...

Tace l’arpa... Di Giulia[27] ripeta

Ogni Driade il nome soave!...

Su la fronte del sacro poeta

Febo istesso l’alloro posò.

NOTAS DE RODAPÉ:

[20] Allude á tragedia CATÃO do Sr. Garrett.

[21] Idem.

[22] Allude á tragedia MEROPE do Sr. Garrett.

[23] Do mesmo modo allude á CAVERNA DE VIRIATO, publicada ultimamente

nas FLORES SEM FRUCTO, com a traducção franceza por M.ˡˡᵉ de

Flaugergues.

[24] Idem.

[25] Idem.

[26] Allude egualmente á ode ou canção II do livro primeiro--FLORES SEM

FRUCTO.

[27] Idem.

XXI.

CANÇÃO DA DONZELLA FINLANDEZA.

Oh! se o meu Bem me volver,

Se quem d’antes via, eu vejo,

Traga elle a bôcca a escorrer

De lobo em sangue, lh’a bejo;

E a mão vou-lh’a apertar,

Cobras lh’a andem a inroscar.

Ah! se o vento alma tivera,

Lingua o ar da primavera,

Fôra a sua voz bastante:

Novas levára e trouxera

Entre um e outro amante.

Desprézo finos guizados,

Deixo ao cura os seus assados;

Só quero amar, ser constante

A quem o verão me deu

E o hinverno affez a ser meu.[28]

NOTAS DE RODAPÉ:

[28] O original é phenico ou finlandez.

Esta pequena Runa, canção em metro runico, é considerada no Norte como

um d’esses raros exemplares da litteratura primitiva dos povos, que

a characterisam. Como tal tem sido traduzida em muitas linguas com

auxílio das versões litteraes, que para isso se publicara em Stokolmo.

Por este modo se fez a portugueza: e creio ser a primeira que

apparece nas linguas do Sul. Dou com ella as versões todas, poeticas

e litteraes, que me chegaram á mão. Muito approveitaria ao estudo das

linguas e litteraturas da Europa se os nossos litteratos se dessem com

o mesmo impenho ao estudo das runas e sagas do Norte com que alli se

dão ao das nossas xacaras e soláos.

XXI.

EYTON RUNO SUOMALAISEN.

Jos mun tuttuni tulisi,

Ennen nähtyni näkyisi,

Sillen suuta suikkajaisin;

Jos olis suu suden weressä;

Sillen kättä käppäjäisin,

Jospa käärme kämmen-päässä.

Olisko tuuli mielellisnä,

Ahawainen kielellisnä:

Sanan toisi, sanan weisi,

Sanan liian liikuttaisi,

Kahden kaunihin wälillä.

Ennen heitän herkku-ruuat,

Paistit pappilan unohdan,

Ennenkun heitän herttaseni,

Kesän kestyteltyäni,

Talwen taiwuteltuani.[A]

XXI.

CARMEN FENICAE FUELLAE.

Fábulas—folhas cahidas · 第 4 / 5 段