E a isto chamam prazer!

A grande ventura é ésta?

Vale a pena vir á festa

E vale a pena viver.

Como então quiz á tristura

Do meu viver isolado!

Fique-se embora a ventura,

Que eu quero ser desgraçado.

Levantei alto a cabeça.

Senti-me crescer--e a frente

Desanuviar-se contente

Do feio negrume espesso

Que assustava aquella gente.

Logo os surrisos cabiam

Para o meu lado tambem:

Ja como um dos seus me viam,

Que em mim não viam ninguem.

Eu, de olhos desincantados,

A ellas, como as eu via!

Meus enthusiasmos passados.

Oh! como eu d’elles me ria!

Frio o sarcasmo sahia

De meus labios descorados,

E sem dó e sem pudor

A todas fallei de amor...

Do amor bruto, degradante

Que no seio palpitante,

Na espadua nua se accende...

Amor lascivo que offende,

Que faz corar... Ellas riam

E oh que não, não se offendiam!

Mas a orchestra bradou alta:

--‘Festa, festa! e salta, salta!’

Os seus guizos delirantes

Sacode louca a Folia...

Adeus, requebros de amantes!

Suspiros, quem n’os ouvia?

As palavras meias dittas,

Meias nos olhos escrittas,

Voavam todas perdidas

Dispersas, rotas no ar;

Que se foram almas, vidas,

Tudo se foi a walsar.

Quem é ésta que mais voltas

Gyra, gyra sem cessar?

Como as roupas leves, sôltas,

Aerias leva a ondular

Emtôrno á fórma graciosa,

Tam flexivel, tam airosa,

Tam fina!--Agora parou,

E tranquilla se assentou.

Que rosto! Em linhas severas

Se lhe desenha o profil;

E a cabeça, tam gentil,

Como se fôra devéras

A rainha d’essa gente,

Como a levanta insolente!

Vive Deus! que é ella... aquella,

A que eu vi na tal janella,

E que triste me surria

Quando passando me via

Tam pasmado a olhar para ella.

A mesma melancholia

Nos olhos tristes--de luz

Oblíqua, viva mas fria;

A mesma alta intelligencia

Que da face lhe transluz;

E a mesma altiva impaciencia

Que de tudo, tudo cança,

De tudo o que foi, que é,

E na erma vida só vê

O raio da vaga espr’ança.

--‘Pois isto sim que é mulher’

Disse eu--‘e aqui ha que ver.’

Ja vinha a pallida aurora

Annunciando a manhan fria,

E eu fallava e eu ouvia

O que até áquella hora

Nunca disse, nunca ouvi...

Toda a memoria perdi

Das palavras proferidas...

Não eram d’estas sabidas,

Nem quaes eram não n’o sei...

Sei que a vida era outra em mim,

Que era outro ser o meu ser,

Que uma alma nova me achei

Que eu bem sabia não ter.

E d’ahi?--D’ahi, a historia

Não deixou outra memoria

D’essa noite de loucura,

De seducção, de prazer...

Que os segredos da ventura

Não são para se dizer.

V.

O ANJO CAHIDO.

Era um anjo de Deus

Que se perdêra dos ceus

E terra a terra voava.

A setta que lhe acertava

Partira de arco traidor,

Porque as pennas que levava

Não eram pennas de amor.

O anjo cahiu ferido,

E se viu aos pés rendido

Do tyranno caçador.

De aza morta e sem splendor

O triste, peregrinando

Por estes valles de dor,

Andou gemendo e chorando.

Vi-o eu, o anjo dos ceus,

O abandonado de Deus.

Vi-o, n’essa tropelia

Que o mundo chama alegria.

Vi-o a taça do prazer

Pôr ao labio que tremia...

E só lagrymas beber.

Ninguem mais na terra o via,

Era eu só que o conhecia...

Eu que ja não posso amar!

Quem n’o havia de salvar?

Eu, que n’uma sepultura

Me fôra vivo interrar?

Loucura! ai, cega loucura!

Mas entre os anjos dos ceus

Faltava um anjo ao seu Deus;

E remi-lo e resgatá-lo,

D’aquella infamia salvá-lo

Só fôrça de amor podia.

Quem d’esse amor hade amá-lo,

Se ninguem o conhecia?

Eu só.--E eu morto, eu descrido,

Eu tive o arrôjo atrevido

De amar um anjo sem luz.

Cravei-a eu n’essa cruz

Minha alma que renascia,

Que toda em sua alma puz.

E o meu ser se dividia,

Porque elle outra alma não tinha,

Outra alma senão a minha...

Tarde, ai! tarde o conheci,

Porque eu o meu ser perdi,

E elle á vida não volveu...

Mas da morte que eu morri

Tambem o infeliz morreu.

VI.

O ALBUM.

Minha Julia, um conselho de amigo;

Deixa em branco este livro gentil:

Uma só das memorias da vida

Vale a pena guardar, entre mil.

E essa n’alma em silencio gravada

Pelas mãos do mysterio hade ser;

Que não tem lingua humana palavras,

Não tem lettra que a possa escrever.

Por mais bello e variado que seja

De uma vida o tecido matiz,

Um só fio da tella bordada,

Um só fio hade ser o feliz.

Tudo o mais é illusão, é mentira,

Brilho falso que um tempo seduz,

Que se apaga, que morre, que é nada

Quando o sol verdadeiro reluz.

De que serve guardar monumentos

Dos inganos que a espr’ança forjou?

Vãos reflexos de um sol que tardava

Ou vans sombras de um sol que passou!

Crê-me, Julia: mil vezes na vida

Eu co’a minha ventura sonhei;

E uma só, d’entre tantas, o juro,

Uma só com verdade a incontrei.

Essa entrou-me pela alma tam firme,

Tam segura por dentro a fechou,

Que o passado fugiu da memoria,

Do porvir nem desejo ficou.

Toma pois, Julia bella, o conselho;

Deixa em branco este livro gentil,

Que as memorias da vida são nada,

E uma só se conserva entre mil.

VII.

SAUDADES

Leva este ramo, Pepita,

De saudades portuguezas;

É flor nossa, e tam bonita

Não n’a ha n’outras devezas.

Seu perfume não seduz,

Não tem variado matiz,

Vive á sombra, foge á luz,

As glórias d’amor não diz;

Mas na modesta belleza

De sua melancholia

É tam suave a tristeza,

Inspira tal sympathia!..

E tem um dote ésta flor

Que de outra egual se não diz:

Não perde viço ou frescor

Quando a tiram da raiz.

Antes mais e mais floresce

Com tudo o que as outras matta;

Até ás vezes mais cresce

Na terra que é mais ingrata.

Só tem um cruel senão,

Que te não devo esconder:

Plantada no coração,

Toda outra flor faz morrer.

E, se o quebra e despedaça

Com as raizes mofinas,

Mais ella tem brilho e graça,

É como a flor das ruinas.

Não, Pepita, não t’a dou...

Fiz mal em dar-te essa flor,

Que eu sei o que me custou

Trattá-la com tanto amor.

VIII.

ESTE INFERNO DE AMAR.

Este inferno de amar--como eu amo!

Quem m’o pôs aqui n’alma... quem foi?

Ésta chamma que alenta e consome,

Que é a vida--e que a vida destroi--

Como é que se veio a atear,

Quando--ai quando se hade ella apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,

A outra vida que d’antes vivi

Era um sonho talvez...--foi um sonho--

Em que paz tam serena a dormi!

Oh! que doce era aquelle sonhar...

Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso

Eu passei... dava o sol tanta luz!

E os meus olhos, que vagos gyravam,

Em seus olhos ardentes os puz.

Que fez ella? eu que fiz?--Não n’o sei;

Mas n’essa hora a viver comecei...

IX.

DESTINO.

Quem disse á estrêlla o caminho

Que ella hade seguir no ceu?

A fabricar o seu ninho

Como é que a ave apprendeu?

Quem diz á planta:--‘Florece!’

E ao mudo verme que tece

Sua mortalha de seda

Os fios quem lh’os inreda?

Insinou alguem á abelha

Que no prado anda a zumbir

Se á flor branca ou se á vermelha

O seu mel hade ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,

Teus olhos a minha vida,

Teu amor todo o meu bem...

Ai! não m’o disse ninguem.

Como a abelha corre ao prado,

Como no ceo gyra a estrêlla,

Como a todo o ente o seu fado

Por instincto se revella,

Eu no teu seio divino

Vim cumprir o meu destino...

Vim, que em ti só sei viver,

Só por ti posso morrer.

X.

GÔSO E DOR.

Se estou contente, querida,

Com ésta immensa ternura

De que me enche o teu amor?

--Não. Ai! não; falta-me a vida,

Succumbe-me a alma á ventura:

O excesso do gôso é dor.

Doe-me alma, sim; e a tristeza

Vaga, inerte e sem motivo,

No coração me poisou.

Absorto em tua belleza,

Não sei se morro ou se vivo,

Porque a vida me parou.

É que não ha ser bastante

Para este gosar sem fim

Que me inunda o coração.

Tremo d’elle, e delirante

Sinto que se exhaure em mim

Ou a vida--ou a razão.

XI.

PERFUME DA ROSA.

Quem bebe, rosa, o perfume

Que de teu seio respira?

Um anjo, um sylpho? Ou que nume

Com esse aroma delira?

Qual é o deus que, namorado,

De seu throno te ajoelha,

E esse nectar incantado

Bebe occulto, humilde abelha?

--Ninguem?--Mentiste: essa frente

Em languidez inclinada,

Quem t’a pôs assim pendente?

Dize, rosa namorada.

E a côr de purpura viva

Como assim te desmaiou?

E essa pallidez lasciva

Nas folhas quem t’a pintou?

Os espinhos que tam duros

Tinhas na rama lustrosa,

Com que magos esconjuros

T’os desarmaram, ó rosa?

E porquê, na hástea sentida

Tremes tanto ao pôr do sol?

Porque escutas tam rendida

O canto do rouxinol?

Que eu não ouvi um suspiro

Sussurrar-te na folhagem?

Nas aguas d’esse retiro

Não espreitei a tua imagem?

Não a vi afflicta, anciada...

--Era de prazer ou dor?--

Mentiste, rosa, es amada.

E também tu amas, flor.

Mas ai! se não for um nume

O que em teu seio delira,

Hade mattá-lo o perfume

Que n’esse aroma respira.

XII.

ROSA SEM ESPINHOS.

Para todos tens carinhos,

A ninguem mostras rigor!

Que rosa es tu sem espinhos?

Ai, que não te intendo, flor!

Se a borbuleta vaidosa

A desdem te vai beijar,

O mais que lhe fazes, rosa,

É surrir e é corar.

E quando a sonsa da abelha,

Tam modesta em seu zumbir,

Te diz:--‘Ó rosa vermelha,

Bem me pódes acudir:

Deixa do caliz divino

Uma gotta só libar...

Deixa, é nectar peregrino,

Mel que eu não sei fabricar...’

Tu de lástima rendida,

De malditta compaixão,

Tu á súpplica atrevida

Sabes tu dizer que não?

Tanta lástima e carinhos,

Tanto dó, nenhum rigor!

Es rosa e não tens espinhos!

Ai! que não te intendo, flor.

XIII.

ROSA PALLIDA.

Rosa pallida, em meu seio

Vem, querida, sem receio

Esconder a afflicta côr.

Ai! a minha pobre rosa!

Cuida que é menos formosa

Porque desbotou de amor.

Pois sim... quando livre, ao vento,

Sôlta de alma e pensamento,

Forte de tua isempção,

Tinhas na folha incendida

O sangue, o calor e a vida

Que ora tens no coração.

Mas não eras, não, mais bella.

Coitada, coitada d’ella,

A minha rosa gentil!

Coravam-n’a então desejos,

Desmaiam-n’a agora os bejos...

Vales mais mil vezes, mil.

Inveja das outras flores!

Inveja de quê, amores?

Tu, que vieste dos ceus,

Comparar tua belleza

Ás filhas da natureza!

Rosa, não tentes a Deus.

E vergonha!... de quê, vida?

Vergonha de ser querida,

Vergonha de ser feliz!

Porquê?... porquê em teu semblante

A pallida côr da amante

A minha ventura diz?

Pois quando eras tam vermelha

Não vinha zangão e abelha

Emtôrno de ti zumbir?

Não ouvias entre as flores

Historias dos mil amores

Que não tinhas, repetir?

Que hãode elles dizer agora?

Que pendente e de quem chora

É o teu languido olhar?

Que a tez fina e delicada

Foi, de ser muito bejada,

Que te veio a desbotar?

Deixa-os: pallida ou corada,

Ou isempta ou namorada,

Que brilhe no prado flor.

Que fulja no ceo estrêlla,

Ainda é ditosa e bella

Se lhe dão só um amor.

Ai! deixa-os, e no meu seio

Vem, querida, sem receio

Vem a frente reclinar.

Que pallida estás, que linda!

Oh! quanto mais te amo ainda

Des que te fiz desbotar.

XIV.

FLOR DE VENTURA.

A flor de ventura

Que amor me intregou,

Tam bella e tam pura

Jamais a creou:

Não brota na selva

De inculto vigor,

Não cresce entre a relva

De virgem frescor;

Jardins de cultura

Não póde habitar

A flor de ventura

Que amor me quiz dar.

Semente é divina

Que veio dos ceus;

Só n’alma germina

Ao sôpro de Deus.

Tam alva e mimosa

Não ha outra flor;

Uns longes de rosa

Lhe avivam a côr;

E o aroma... Ai! delirio

Suave e sem fim!

É a rosa, é o lirio.

É o nardo, o jasmim;

É um philtro que apura,

Que exalta o viver,

E em doce tortura

Faz de âncias morrer.

Ai! morrer... que sorte

Bemditta de amor!

Que me leve a morte

Bejando-te, flor.

XV.

BELLA D’AMOR.

Pois essa luz scintillante

Que brilha no teu semblante

D’onde lhe vem o splendor?

Não sentes no peito a chamma

Que aos meus suspiros se inflamma

E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragancia

Que te sentes exhalar,

Pois, dize, a ingenua elegancia

Com que te ves ondular,

Como se baloiça a flor

Na primavera em verdor.

Dize, dize: a natureza

Póde dar tal gentileza?

Quem t’a deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,

Ai! vê-te por tua vida,

E diz se ha no ceo estrêlla,

Diz-me se ha no prado flor

Que Deus fizesse tam bella

Como te faz meu amor.

XVI.

OS CINCO SENTIDOS.

São bellas--bem o sei, essas estrêllas,

Mil côres--divinaes têem essas flores;

Mas eu não tenho, amor, olhos para ellas:

Em toda a natureza

Não vejo outra belleza

Senão a ti--a ti!

Divina--ai! sim, será a voz que affina

Saudosa--na ramagem densa, umbrosa.

Será; mas eu do rouxinol que trina

Não oiço a mellodia,

Nem sinto outra harmonia

Senão a ti--a ti!

Respira--n’aura que entre as flores gyra,

Celeste--incenso de perfume agreste.

Sei... não sinto: minha alma não aspira,

Não percebe, não toma

Senão o doce aroma

Que vem de ti--de ti!

Formosos--são os pomos saborosos,

É um mimo--de nectar o racimo:

E eu tenho fome e sêde... sequiosos,

Famintos meus desejos

Estão... mas é de bejos,

E so de ti--de ti!

Macia--deve a relva luzidia

Do leito--ser porcerto em que me deito.

Mas quem, ao pé de ti, quem poderia

Sentir outras carícias,

Tocar n’outras delicias

Senão em ti--em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos

Todos n’um confundidos,

Sentem, ouvem, respiram;

Em ti, por ti deliram.

Em ti a minha sorte,

A minha vida em ti;

E quando venha a morte,

Será morrer por ti.

XVII.

ROSA E LIRIO.

A rosa

É formosa;

Bem sei.

Porque lhe chamam--flor

D’amor,

Não sei.

A flor,

Bem de amor

É o lirio;

Tem mel no aroma,--dor

Na côr

O lirio.

Se o cheiro

É fagueiro

Na rosa,

Se é de belleza... mor

Primor

A rosa,

No lirio

O martyrio

Que é meu

Pintado vejo:--côr

E ardor

É o meu.

A rosa

É formosa,

Bem sei...

E será de outros flor

D’amor...

Não sei.

XVIII.

COQUETTE DOS PRADOS.

Coquette dos prados,

A rosa é uma flor

Que inspira e não sente

O incanto d’amor.

De purpura a vestem

Os raios do sol;

Suspiram por ella

Ais do rouxinol:

E as galas que traja

Não as agradece,

E o amor que accende

Não o reconhece.

Coquette dos prados

Rosa, linda flor,

Porquê, se o não sentes,

Inspiras amor?

XIX.

CASCAES

Acabava alli a terra

Nos derradeiros rochedos,

A deserta arida serra

Por entre os negros penedos

Só deixa viver mesquinho

Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados

Sopravam rijos na rama,

E os ceos turvos, annuviados,

O mar que incessante brama...

Tudo alli era braveza

De selvagem natureza.

Ahi, na quebra do monte,

Entre uns juncos mal-medrados,

Sêcco o rio, sêcca a fonte,

Hervas e matos queimados,

Ahi n’essa bruta serra,

Ahi foi um ceo na terra.

Alli sós no mundo, sós,

Sancto Deus! como vivemos!

Como eramos tudo nós

E de nada mais soubemos!

Como nos folgava a vida

De tudo o mais esquecida!

Que longos bejos sem fim,

Que fallar dos olhos mudo!

Como ella vivia em mim,

Como eu tinha n’ella tudo,

Minha alma em sua razão

Meu sangue em seu coração!

Os anjos aquelles dias

Contaram na eternidade:

Que essas horas fugidias,

Seculos na intensidade,

Por millenios marca Deus

Quando as dá aos que são seus.

Ai! sim foi a tragos largos,

Longos, fundos que a bebi

Do prazer a taça:--amargos

Depois... depois os senti

Os travos que ella deixou...

Mas como eu ninguem gosou.

Ninguem: que é preciso amar

Como eu amei--ser amado

Como eu fui; dar, e tomar

Do outro ser a quem se ha dado,

Toda a razão, toda a vida

Que em nós se annulla perdida.

Ai, ai! que pesados annos

Tardios depois vieram!

Oh, que fataes desinganos,

Ramo a ramo, a desfizeram

A minha choça na serra,

Lá onde se acaba a terra!

Se o visse... não quero vê-lo

Aquelle sítio incantado;

Certo estou não conhecê-lo,

Tam outro estará mudado,

Mudado como eu, como ella,

Que a vejo sem conhecê-la!

Inda alli acaba a terra,

Mas ja o ceo não começa:

Que aquella visão da serra

Sumiu-se na treva espessa,

E deixou nua a bruteza

D’essa agreste natureza.

XX.

ESTES SITIOS!

Olha bem estes sitios queridos,

Vê-os bem n’este olhar derradeiro...

Ai! o negro dos montes erguidos,

Ai! o verde do triste pinheiro!

Que saudades que d’elles teremos...

Que saudade! ai, amor, que saudade!

Pois não sentes, n’este ar que bebêmos,

No acre cheiro da agreste ramagem,

Estar-se alma a tragar liberdade

E a crescer de innocencia e vigor!

Oh! aqui, aqui só se ingrinalda

Da pureza da rosa selvagem,

E contente aqui só vive Amor.

O ar queimado das salas lhe escalda

De suas azas o niveo candor,

E na frente arrugada lhe cresta

A innocencia infantil do pudor.

E oh! deixar taes delicias como ésta!

E trocar este ceo de ventura

Pelo inferno da escrava cidade!

Vender alma e razão á impostura,

Ir saudar a mentira em sua côrte,

Ajoelhar em seu throno á vaidade,

Ter de rir nas angústias da morte,

Chamar vida ao terror da verdade...

Ai! não, não... nossa vida acabou,

Nossa vida aqui toda ficou.

Diz-lhe a adeus n’este olhar derradeiro,

Dize á sombra dos montes erguidos,

Dize-o ao verde do triste pinheiro,

Dize-o a todos os sitios queridos

D’esta ruda, feroz soledade,

Paraizo onde livres vivemos...

Oh! saudades que d’elle teremos,

Que saudade! ai, amor, que saudade!

XXI.

NÃO TE AMO.

Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.

E eu n’alma--tenho a calma,

A calma--do jazigo.

Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.

E a vida--nem sentida

A trago eu ja commigo.

Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero

De um querer bruto e fero

Que o sangue me devora,

Não chega ao coração.

Não te amo. Es bella; e eu não te amo, ó bella.

Quem ama a aziaga estrêlla

Que lhe luz na má hora

Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,

De mau feitiço azado

Este indigno furor.

Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto

Que de mim tenho espanto,

De ti medo e terror...

Mas amar!... não te amo, não.

XXII.

NÃO ES TU.

Era assim, tinha esse olhar,

A mesma graça, o mesmo ar,

Corava da mesma côr,

Aquella visão que eu vi

Quando eu sonhava de amor,

Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,

O semblante pensativo,

E uma suave tristeza

Que por toda ella descia

Como um veo que lhe involvia,

Que lhe adoçava a belleza.

Era assim; o seu fallar,

Ingenuo e quasi vulgar,

Tinha o podêr da razão

Que penetra, não seduz:

Não era fogo, era luz

Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,

No seio o mesmo perfume,

Um cheiro a rosas celestes,

Rosas brancas, puras, finas,

Viçosas como boninas,

Singelas sem ser agrestes.

Mas não es tu... ai! não es:

Toda a illusão se desfez.

Não es aquella que eu vi,

Não es a mesma visão,

Que essa tinha coração,

Tinha, que eu bem lh’o senti.

XXIII

BELLEZA.

Vem do amor a Belleza,

Como a luz vem da chamma.

É lei da natureza:

Queres ser bella?--ama.

Fórmas de incantar,

Na tella o pincel

As póde pintar;

No bronze o buril

As sabe gravar;

E estátua gentil

Fazer o cinzel

Da pedra mais dura...

Mas Belleza é isso?--Não; só formosura.

Surrindo entre dores

Ao filho que adora

Inda antes de o ver,

--Qual surri a aurora

Chorando nas flores

Que estão por nascer--

A mãe é a mais bella das obras de Deus,

Se ella ama!--O mais puro do fogo dos ceus

Lhe ateia essa chamma de luz crystallina:

É a luz divina

Que nunca mudou,

É luz... é a Belleza

Em toda a pureza

Que Deus a creou.

XXIV.

ANJO ES.

Anjo es tu, que esse podêr

Jamais o teve mulher,

Jamais o hade ter em mim.

Anjo es, que me domina

Teu ser o meu ser sem fim;

Minha razão insolente

Ao teu capricho se inclina,

E minha alma forte, ardente,

Que nenhum jugo respeita,

Covardemente sujeita

Anda humilde a teu podêr.

Anjo es tu, não es mulher.

Anjo es. Mas que anjo es tu?

Em tua frente annuviada

Não vejo a c’roa nevada

Das alvas rosas do ceo.

Em teu seio ardente e nu

Não vejo ondear o veo

Com que o soffrego pudor

Vela os mysterios d’amor.

Teus olhos têem negra a côr,

Côr de noite sem estrêlla;

A chamma é vivaz e é bella,

Mas luz não tem.--Que anjo es tu?

Em nome de quem vieste?

Paz ou guerra me trouxeste

De Jehovah ou Belsebú?

Não respondes--e em teus braços

Com phreneticos abraços

Me tens apertado, estreito!...

Isto que me cai no peito

Que foi?... Lagryma?--Escaldou-me...

Queima, abraza, ulcéra... Dou-me,

Dou-me a ti, anjo malditto,

Que este ardor que me devora

É ja fogo de precito,

Fogo eterno, que em má hora

Trouxeste de lá... De donde?

Em que mysterios se esconde

Teu fatal, estranho ser!

Anjo es tu ou es mulher?

XXV.

VIBORA.

Como a vibora gerado,

No coração se formou

Este amor amaldiçoado

Que á nascença o espedaçou.

Para elle nascer morri;

E em meu cadaver nutrido,

Foi a vida que eu perdi

A vida que tem vivido.

FOLHAS CAHIDAS.

LIVRO SEGUNDO.

I.

BARCA BELLA.

Pescador da barca bella,

Onde vas pescar com ella,

Que é tam bella,

Oh pescador?

Não ves que a última estrêlla

No ceo nublado se vela?

Colhe a vela,

Oh pescador!

Deita o lanço com cautella,

Que a sereia canta bella...

Mas cautella,

Oh pescador!

Não se inrede a rede n’ella,

Que perdido é remo e vela

Só de vê-la,

Oh pescador.

Pescador da barca bella,

Inda é tempo, foge d’ella,

Foge d’ella

Oh pescador!

II.

A COROA.

Bem sei que é toda de flores

Essa coroa d’amores

Que na frente vais cingir.

Mas é coroa--é reinado;

E a pôsto mais arriscado

Não se póde hoje subir.

N’esses reinos populosos

Os vassallos revoltosos

Tarde ou cedo dão a lei.

Quem hade conter, domá-los,

Se são tantos os vassallos

E um só o pobre do rei?

Não vejo, rainha bella,

Para fugir essa estrella

Que os reis persegue sem dó,

Mais que um meio--fallo serio:

É pôr limites ao imperio

E ter um vassallo só.

III.

SINA.

Por todas quantas estrêllas

Tem o ceo que possam mais,

Pelas flores virginaes

De que se c’roam donzellas,

Pelas lagrymas singellas

Que o primeiro amor derrama,

Por aquella etherea chamma

Que a mão de Deus accendeu

E que na terra allumia

Quanto ha na terra do ceu!

Por tudo quanto eu queria

Quando eu sabia querer,

E por tudo quanto eu cria

Quando me era dado crer!

Bem fadada seja a vida

Que por éstas folhas brancas[11]

Sua historia hade escrever!

Que as dores lhe venham mancas

E com azas o prazer!

Ésta sina que lhe dou,

Bruxa não n’a adivinhou,

Nem duende m’a insinou:

Li-a eu por meu condão

Em seus olhos innocentes,

Transparentes--transparentes

Até dentro ao coração.

NOTAS DE RODAPÉ:

[11] As folhas do album em que se escreveram estes versos.

IV.

AI HELENA!

Ai Helena! de amante e de espôso

Ja o nome te faz suspirar,

Ja tua alma singela presente

Esse fogo de amor delicioso

Que primeiro nos faz palpitar!...

Oh! não vas, donzellinha innocente,

Não te vas a esse ingano intregar:

É amor que te illude e te mente,

É amor que te hade mattar!

Quando o sol n’estes montes desertos

Deixa a luz derradeira apagar,

Com as trevas da noite que espanta

Véem os anjos do inferno incubertos

A sua victima incauta affagar.

Doce é a voz que adormece e quebranta,

Mas a mão do traidor... faz gelar.

Treme, foge do amor que te incanta,

É amor que te hade mattar.

V.

THE ROSE--A SIGH.[12]

If this delicious, grateful flower,

Which blows but for a little hour,

Should to the sight so lovely be,

As from it’s fragrance seems to me,

A sigh must then it’s colour show,

For that is the softest joy I know.

And sure the rose is like a sigh,

Borne just to soothe and then--to die.

NOTAS DE RODAPÉ:

[12] By a young lady born blind.

V.

A ROSA--UM SUSPIRO[13]

Se ésta flor tam bella e pura,

Que apenas uma hora dura,

Tem pintado no matiz

O que o seu perfume diz,

Porcerto na linda côr

Mostra um suspiro d’amor:

Dos que eu chego a conhecer

É este o maior prazer.

E a rosa como um suspiro

Hade ser; bem se discorre:

Tem na vida o mesmo gyro,

É um gôsto que nasce e--morre.

NOTAS DE RODAPÉ:

[13] Por uma menina cega de nascença.

VI.

RETRATTO.

(N’UM ALBUM)

Ah! despreza o meu retratto

Que lhe eu queria aqui pôr!

Tem medo que lhe desfeie

O seu livro de primor?

Pois saiba que por despique

Eu sei tambem ser pintor:

Co’esta penna por pincel,

E a tinta do meu tinteiro,

Vou fazer o seu retratto

Aqui ja de corpo inteiro.

Vamos a isto.--Sentada

Na cadeira ‘moyen-âge,’

O cabello en ‘chatellaines,’

As mangas sôltas.--É o traje.

Em longas pregas negras

Caia o velludo e arraste;

De si com desdem regio

Com o pésinho o affaste...

N’essa attitude! Está bem:

Agora mais um geitinho;

A airosa cabeça a um lado

E o lindo pé no banquinho.

Aqui estão os contornos, são estes,

Nem Daguerre lh’os tira melhor.

Este é o ar, ésta a ‘pose,’ eu lh’o juro,

E o trajar que lhe fica melhor.

Vamos agora ao difficil:

Tirar feição por feição;

Intendê-las, que é o ponto,

E dar-lhe a justa expressão.

Os olhos são côr da noite,

Da noite em seu começar,

Quando inda é joven, incerta,

E o dia vem de acabar;

Têem uma luz que vai longe,

Que faz gôsto de queimar:

É uma especie de lume

Que serve só de abrazar.

Na bôcca há um surriso amavel.

Amavel é... mas queria

Saber se é todo bondade

Ou se meio é zombaria.

Ninguem m’o diz? O retratto

Incompleto ficará,

Que n’estas duas feições

Todo o ser, toda a alma está.

Pois fiel como um espelho

É tudo o que n’elle fiz;

E o que lhe falta--que é muito,

Tambem o espelho o não diz.

VII.

LUCINDA.

Ergue a frente, lirio,

Ergue a branca frente!

O astro do delirio

Ja surgiu no oriente.

Ves, o sol ardente

Lá cahiu no mar;

A frente pendente

Ergue a respirar!

Alvo é o luar,

Teu alvor não cresta;

A hora de gosar,

De viver é ésta.

Longa foi a sésta

Longo o teu dormir;

Ergue a branca testa,

Tempo é de surgir!

Ja se abre a surrir

Tua bôcca linda...

Despertar, sentir

Ou sonhar é ainda?

Sonho que não finda

Será o teu sonhar,

Se a dormir, Lucinda,

Te sentes amar.

VIII.

AS DUAS ROSAS.

Fábulas—folhas cahidas · 第 3 / 5 段