--‘Para onde?...’ E deitando os olhos

A um lado d’improviso,

Deu o frade com Thiago

Que rebentava de riso.

Thiago, de um grande medo

Passára a grande alegria;

E, esfregando as mãos no sacco,

Como um perdido se ria.

Leitor não te escandalizes;

Que o ver logrado o demonio

Até fez perder de riso,

N’um sermão, a Sancto Antonio.

--‘Para onde?...’ repete o frade

‘Que me importa a mim, pespêgo?

Vai-te metter, se quizeres,

No c... d’aquelle Gallego.’

Conhecem-se os grandes homens

Nas grandes occasiões:

Thiago, sem mais demora,

Deitou abaixo os calções;

E, em menos tempo ainda

Do que o demo esfrega um ôlho,

Ja na pia da agua benta

Tinha elle o seu de môlho.

Batte-me quatro palmadas

No rechonchudo do traz,

E diz-lhe:--‘Agora, só diabo,

Venha p’ra ca, se é capaz.’

Havre de Graça--1824.

NOTAS DE RODAPÉ:

[7] Terra de Gallegos, em dialecto scholastico.

[8] Feito o signal da cruz.

[9] O non-descriptum de trapo e cordagens que o gallego põe no cachaço

quando carrega o pau e corda.

VIII.

O Casquilho.

(JANOTA)

FÁBULA.

Quem de Ovidio os contos leu

Certo inda tem na memoria

A mais curiosa historia

Que elle em seus contos metteu:

--De como Jove indignado

C’uma nação de velhacos,

Para os não fazer em cacos

Os converteu em macacos.

Vendo-se assim humilhado,

Veio o povo castigado,

De contricto coração

A pedir perdão

Ao deus que fulmina o raio e o trovão.

Fazendo caretas, ganindo e guinchando

Lhe vinham bradando

Em mona e bugia:

--‘Restaura-nos, ó padre soberano,

O antigo vulto humano

Co’a perdida razão.’

O Tonnante, a quem passado

Era o primeiro furor,

Dos bugios ao clamor

Prestou ouvido apiedado;

Mas do macaco requerimento

Não despachou senão ametade,

E o resto a deidade

Mandou dispersar nas azas do vento.

Mal o acceno omnipotente

Troou na celeste abobeda,

A monaria contente

Se ergueu altiva, impavida;

Toda se impavesou

E repimpou;

E como gente

A andar por esse mundo se deitou.

O pêllo esfarripado.

Que as cabeças télli lhes ouriçava,

Em lindos caracoes se debruçava

Agora pelo rosto transmudado.

Não mudou por dentro o caco,

Que ficou sempre macaco;

E a cara por fóra

Tambem não mudou muito do que fôra.

Os mesmos focinhos,

As mesmas caretas,

E os parvos risinhos

E as fofas e as tretas.

Assim meio mudados, meio não,

Lhes fez o padre Jove um bom sermão,

E lhes mandou tomar

Aopé da raça humana o seu logar.

O homem com desprêzo o bicho olhou,

Nem siquer nome para dar-lhe achou;

Mas a mulher gostou

Da tal farofia de apparente brilho,

E á _coisa_ pôz o nome de--CASQUILHO.

Londres--1829.

IX.

OS AMANTES GENEROSOS.

CONTO.

A. J. LARCHER.

Pois os mimosos sons da branda musa

Do tam gentil Bernard, na patria lyra

Queres ouvir suave modulados,

E em luso trajo disputar-se um beijo

De Tempe os generosos amadores,

As cordas ferirei por comprazer-te,

Cortar-lhe-hei galas dos pastores nossos:

Na lingua de Camões, se posso tanto,

Virão aqui a suspirar d’amores;

E os echos d’estes valles mais sinceros

Te dirão suas fallas namoradas.

Tu, que es meio francez, meio germano,

Que á meiga Deshouliers canções tam finas,

Que a Gesner mais singelo ouviste o canto

Na propria avena de seus tons cantado,

Se os teus pastores nas ribeiras nossas,

N’estas suaves margens do Mondego

Vires diff’rentes, demudada a graça,

E alternando sem arte a cantilena

Que em seu patrio idioma foi tam bella,

A ti só, que o quizeste, imputa o êrro,

Nem acoimes á lingua tam formosa

O desprimor e as faltas do poeta.

Juncto aos valles de Tempe, amena estancia,

Mansão querida de Pomona e Flora,

O joven Hylas, Égle inda mais joven,

Ambos loucos d’amor, o amor se occultam.

A um terno olhar suas fallas se limitam,

Sua chamma constrangida não se exhala:

O innocente pastor fallar não ousa,

Nem, que fallasse, a simples o intendêra.

Mas tarde ou cedo, se o desejo a inflamma,

Amestram a innocencia amor e a edade.

Tirou-os d’este nada em que jaziam

O acaso um dia. Á sombra da espessura,

Tam bella, ou mais que amor, Égle dormia,

Hylas a incontra, e os olhos namorados

Para admirá-la não lhe bastam ambos.

--‘Vénus’ exclama ‘eu tibio em teu serviço

Ouso implorar-te: dá-me que estes labios,

Em quanto aqui na relva Égle descança,

Possam nos seus colhêr suave beijo.

E eu te juro, ó divina Cytherea,

Que em trôco lhe darei dois mansos pombos

Muito mais lindos que os que tens em Chypre.’

O voto fez-se; o beijo foi colhido:

Fingido somno approveitou á bella,

E, á noite o preço recebeu do voto.

Veio outro dia, e Égle a dormir sempre...

Mas não dorme o pastor:--‘Deus dos amores,

Ves alli quanto adoro n’este mundo.

Ah, de tanta belleza, tantas graças

Consente que uma só eu gose ao menos.

Se eu podesse--sem que Égle o presentisse,

Sob o lenço invejoso ir co’a mão trémula

Tocar n’aquelles candidos thesoiros,

Dar-lhe-hia pelo roubo--tam secreto!

O cordeirinho que entre os meus mais quero.

Oh! adormece, amor, Égle formosa!’

O mais profundo somno Hylas incontra.

Viu, tocou, apalpou, beijou cem vezes

O seio d’Égle, que retem manhosa

Até o respirar, e a somno sôlto

Mais dormia... quanto elle mais velava.

Custou-lhe no outro dia a vir ao bosque,

Timida ainda e vergonhosa a bella;

Mas veio emfim... Foi só curiosidade,

Tinha curiosidade--era o que tinha--

De saber que presente aquelle dia

Lhe faria o pastor; veio. Após ella

Hylas veio também:--‘Eternos deuses,

Aqui a incontro! Oh concedei-me agora

Um último favor, que nos seus braços

Eu gose emfim dos seus incantos todos.

Ah! vós bem o sabeis: eu nada tenho,

Mais nada ja do que o meu cão--e dou-lh’o.’

Oh que pesado somno Égle dormia!

E é bem de crer que o instante em que o mancebo

No extasi do prazer fechára os olhos,

Os lindos olhos d’Égle não se abriram.

Mas o sonho acabou... e despertaram.

O pastor imbrenhou-se na espessura

E o cãosinho fiel ficou co’a bella.

Incontraram-se á tarde, invergonhados...

A pastora corou, elle suspira...

Sós se achavam, sem medo, sem receios...

Ao amante acordada Égle se intrega,

Acha mais doce não dormir agora,

E toda a imbriaguez do amor conhece:

Quantos dons do pastor Égle recebe,

Com dulcissima usura os restitue.

Mas as antigas dadivas pesavam

Á pastora gentil:--‘Sei que te devo

Duas pombinhas que uma vez me déste.

E se me ellas fugirem! vivo sempre

N’este receio! Toma-as lá, e o preço

Que por ellas te dei também m’o torna.’

Surriu-se o joven, e pagou-as... ambas.

Um momento depois o cordeirinho

Á pastora lembrou:--‘Tanto te quero,

E heide-te privar do que mais amas?

Tam bonito! era a tua companhia,

Comia-te nas mãos! Nada, não quero:

Recebe-o, que t’o dou.’ E o cordeirinho

Foi restituido.--O cão só lhe restava:

Novas razões, e emfim ordem por fôrça

De acceitar outra vez o seu rafeiro:

--‘Não tens mais que um, é o guarda do rebanho,

Recebe-o, doce amante, e ainda emcima,

De fóraparte te heide dar um beijo.

Eu não quero mais dadivas, querido;

Com o teu coração estou contente.’

Oh! taes dons para dar custaram pouco.

Mas o preço da intrega era dobrado...

O pastor affroixou, negocio serio

Veio porfim a ser o tal brinquedo.

Aopé de Égle acordada Hylas dormia...

E ella, que mais pretextos ja não tinha,

A suspirar dizia tristemente:

--‘Não me dar elle todo o seu rebanho!’

Coimbra--1821.

SONETOS.

I.

PORFIA D’AMOR.

D’emtorno á arvorezinha que murchára

Se affadiga o cultor esperançoso;

Invisca as varas caçador teimoso

Armando ao passarinho que escapára;

Porfiado rompe com a dextra avara

As intranhas da terra o cubiçoso;

Sua co’a bomba o nauta pressuroso

Por estancar a nau que lhe arrombára.

Mas larga cadaqual desesperado,

Quebra furioso o inutil instrumento

Se o continuo trabalho ve baldado.

Só eu, com desinganos cento e cento,

Só eu, por Délia sempre desprezado,

Teimo cadavez mais no meu tormento.

Angra--1814.

II.

CAMÕES NÁUFRAGO.

Cedendo á furia de Neptuno irado

Sossobra a nau que o gran’thesoiro incerra;

Lucta co’a morte na espumosa serra

O divino cantor do Gama ousado.

Ai do canto mimoso a Lysia dado!...

Camões, grande Camões, embalde a terra

Teu braço forte, nadador afferra

Se o canto lá ficou no mar salgado.

Chorae, Lusos, chorae! Tu morre, ó Gama,

Foi-se a tua glória... Não; lá vai rompendo

Co’a dextra o mar, na sestra a lusa fama.

Eterno, eterno ficará vivendo:

E a torpe inveja, que inda agora brama,

No abysmo cahirá do Averno horrendo.

Angra--1815.

III.

A UMA FEIA COM LINDA VOZ.

Quando Orpheu pela espôsa suspirada

Desceu co’a maga lyra ao reino escuro,

Incantado Plutão ferrenho e duro

De júbilo exultou na atroz morada.

--‘Furias,’ clamou ‘e turba condemnada,

Quero tudo a cantar; do mais não curo.

Ralhe Jove ou não ralhe, eu voto e juro

Que não heide ouvir mais ésta assoada.’

Eis impunhando o açoite crepitante

Rege Megera o condemnado côro,

Cantando em doce voz pura e tocante.

Ah! quando te oiço, ó N--y, o som canoro,

E arrebatado attento em teu semblante,

Um milagre d’Orpheu no Averno adoro.

Lisboa--1816.

IV.

‘SUFFOQUE AS ÍRAS, CALLE E SINTA E GEMA’

Se d’uns olhos gentis, d’um gesto brando,

D’um surrir desdenhoso innamorado,

Imprega o triste amante o seu cuidado

Em quem das leis d’amor se vai zombando;

De tormento em tormento variando,

Té o proprio queixume lhe é vedado:

Ri-se a bella do mal que lhe ha causado,

Dos ferros mofa que lhe vai forjando.

Pene emtanto o infeliz, suspire ao vento,

Té de que o saiba a perfida se tema,

Não lhe assome no labio um só lamento;

E ao som da ferrea, da cruel algema,

Martyr de seu inutil soffrimento

‘Suffoque as íras, calle e sinta e gema.’

Porto--1817.

V.

‘É DOS OLHOS GENTIS DA MINHA AMADA.’

Um prodigio d’incantos, de belleza

Es, ó mãe dos ternissimos amores,

Que, em teus labios, seus aureos passadores

Hervam, seguros de acertar a prêza.

Fulge em teus olhos divinaes accesa

A tocha dos desejos seductores;

Em ti de seus esmeros, seus primores,

O thesoiro esgotou a natureza.

Mas oh, por mais que arte divina estude,

Não te dá da innocencia a flor nevada

Que se não finge, nem fingida illude!

Esse dom virginal que tanto agrada

É só mimo da candida virtude,

‘É dos olhos gentis da minha amada.’

Porto--1817.

VI.

‘NAS FROIXAS, DEBEIS AZAS DA SAUDADE.’

Esses muros que amor, razão despreza,

Que ergueu do fanatismo a voz trovosa,

Deixa, ó Nise gentil, deixa-os, vaidosa

De escutares a voz da natureza.

Crê no teu coração; não é fraqueza

Fugir aos males para ser ditosa:

Ja nos meus braços a ventura anciosa

Espera, com amor, tua belleza.

Vem, não oiças conselhos fementidos,

Ouve amor, a razão, a liberdade,

E a virtude e o prazer verás unidos.

Farás minha cabal felicidade,

Nem teus votos verás sempre perdidos

‘Nas froixas, debeis azas da saudade.’

Porto--1817.

VII.

O CAMPO DE SANCT’ANNA.

Longe, hypocritas vis, longe, impostores,

O mentido apparato religioso!

Que um deus d’amor, o nosso Deus piedoso

Abomina, detesta esses horrores.

De atrozes leis cruentos guardadores,

Vós curvais ante o despota orgulhoso,

E o sangue da patria precioso

Torpemente vendeis por seus favores.

Geme sem proctetor a humanidade:

E vós, juizes, vós, tigres humanos,

A immolais sem remorso e sem piedade.

Ah! tremei, sanguinarios deshumanos;

Que ella hade vir, tremei, a Liberdade

Punir despotas, bonzos e tyrannos.

Coimbra--1817.

VIII.

‘VIRTUDE SEM PRAZER NÃO É VIRTUDE’

Deixa, eu t’o rogo, deixa, Annalia minha,

Duros preceitos de moral sombria;

Fingiu-os a traidora hypocrisia

Que detrás d’elles, a zombar, se aninha.

Leis de tartufos, invenção danninha

Que protege a impostura e o vício cria,

O egoismo as dictou, funesta harpia

Que as horas do gosar nos amesquinha.

A mão da natureza, a mão sublime

O gran’sêllo forjou na eterna incude

Com que o signal de falsas lhes imprime.

O coração m’o diz, que não illude:

Crime sem dor, Annalia, não é crime,

‘Virtude sem prazer não é virtude.’

Coimbra--1818.

IX.

A FLOR SÊCCA.

Vai, flor gentil, vai prenda suspirada,

Doce mimo d’amor terno e fagueiro,

Vai, que elle mesmo grato e prazenteiro

Elle te hade levar á minha amada.

Cumpre a que ella te impoz, que é lei sagrada:

Se mudada te achar, sem côr, sem cheiro,

Se o viço, a gala do verdor primeiro

Em tuas pallidas folhas vir crestada,

Diz-lhe que mais que a ti, mais me queimára

O intenso ardor d’aquella saudade

Que a ambos n’este estado nos deixára.

Oh! se um benigno influxo de piedade

De seus formosos olhos te orvalhára...

Qual de nós ambos reviver não hade?

Porto--1819.

X.

A CERTA TRAGEDIA.

Mil parabens á musa portugueza

Que do padre José fulgiu na penna!

Cai a velha Melpomene da scena,

Foi-se a tragedia grega e a franceza.

Sóphocles pôz-se a dar voltas d’Andreza,

Euripedes está de quarentena,

Corneille indoudeceu de inveja e pena,

Crebillon foi queimar o Atreu e a mesa;

Racine professou nos Mariannos,

Voltaire está a leites de jumenta,

Alfieri vai fazer sonetos de annos.

Victorioso o padre a Branca ostenta:

Só por vencer lhe restam dois maganos...

Mas temiveis rivaes--Paiva e Pimenta.

Coimbra--1819.

XI.

MARIA E CAROLINA.

Que hade brindar á amavel Carolina

Pelos seus annos a gentil Maria?

Tam franca de seus dons, ao dar-lhe o dia,

Não deixou que outorgar-lhe a mão divina.

Qual de ambas póde haver offerta dina

De quantas liberal natura cria?

Que gera o loiro sol ou que allumia

Que encha os desejos d’alma peregrina?

A amigas taes, ao par que me innamora

Ja não tem que lhes dar a humanidade,

Por mais que seus thesoiros aprimora.

Amor, divino amor, doce amizade,

Numes do coração, valei-me agora:

Dae-lhes, pois deuses sois, a eternidade.

Porto--1819.

XII.

SAUDADE.

Seculos são, na vida que infastia,

Estes dias de exilio amargurados;

Um por um, mágoa a mágoa, vão contados

Em lenta e cruellissima agonia.

Oh! roubemos-lhe aomenos este dia,

Ao padecer que todos trás roubados;

Sejam pela amizade consagrados

Ao casto amor instantes de alegria.

Tem prazeres tambem a desventura:

A propria carrancuda adversidade

Surri co’a esp’rança que lhe luz futura.

Vem, amigo, no seio da amizade

Festeja a espôsa, sonha co’a ventura

Que um dia hade mattar tanta saudade.

Londres--1828.

ULTIMOS VERSOS.

FOLHAS CAHIDAS.

DOS EDITORES.

Cumpre-se a promessa feita no primeiro volume d’esta collecção reunindo

aqui, em segunda edição muito augmentada e correcta, as FOLHAS CAHIDAS.

Apezar de estarem no prelo desde 1851, o auctor tinha descuidado na

primeira edição o seu habitual escrupulo de rever e corrigir; e não

teve paciencia para as augmentar com muitas peças que agora vão, e que

então não estavam postas a limpo. Trabalhos mais serios o distrahiram

durante os dois annos que levaram a imprimir tam poucas paginas.

Julgou-se agora melhor dividir em dois livros o que, assim augmentado,

ficaria demaziado para um só.

Maio--1853.

ADVERTENCIA.[10]

Antes que venha o hynverno e disperse ao vento essas folhas de poesia

que por ahi cahiram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena

conservar, ainda que não seja senão para memoria.

A outros versos chamei eu ja as últimas recordações de minha vida

poetica. Inganei o público, mas de boa fe, porque me inganei primeiro

a mim. Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e

morrem abraçados com o louro--ás vezes imaginario, porque ninguem os

coroa.

Eu pouco mais tinha de vinte annos quando publiquei certo poema, e

jurei que eram os ultimos versos que fazia. Que juramentos!

Se dos meus se rirem, teem razão; mas saibam que eu tambem primeiro me

ri d’elles. Poeta na primavera, no estio e no outomno da vida, heide

sê-lo no hynverno se lá chegar, e heide sê-lo em tudo. Mas d’antes

cuidava que não, e n’isso ia o êrro.

Os cantos que formam ésta pequena collecção pertencem todos a uma

epocha de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras

collecções.

Essas mais ou menos mostram o poeta que canta deante do público. Das

FOLHAS CAHIDAS ninguem tal dirá, ou bem pouco intende de stylos e modos

de cantar.

Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gósto mais d’elles do

que de nenhuns outros que fizesse. Porque? É impossivel dizê-lo, mas

é verdade. E como nada são por elle nem para elle, é provavel que o

público sinta bem diversamente do auctor. Que importa?

Apezar de sempre se dizer e escrever ha cem mil annos o contrário,

parece-me que o melhor e mais recto juiz que póde ter um escriptor, é

elle proprio, quando o não cega o amor proprio. E eu sei que tenho os

olhos abertos, aomenos agora.

Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a

queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno

não impede de ver os defeitos das crianças.

Emfim, eu não queimo estes. Consagrei-os _ignoto deo_. E o deus que

os inspirou que os anniquille se quizer: não me julgo com direito de o

fazer eu.

Ainda assim, no _ignoto deo_ não imaginem alguma divindade meia-velada

com cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia

paraque todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido é realmente

aquelle mysterioso, occulto e não-definido sentimento d’alma que a leva

ás aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.

Imaginação que porventura se não realisa nunca. E d’ahi quem sabe? A

culpa é talvez da palavra, que é abstracta demais. Saude, riqueza,

miseria, pobreza, e ainda coisas mais materiaes, como o frio e o calor,

não são senão estados comparativos, approximativos. Ao infinito não se

chega, porque deixava de o ser em se chegando a elle.

Logo o poeta é louco, porque aspira sempre ao impossivel. Não sei.

Essa é uma disputação mais longa.

Mas sei que as presentes FOLHAS CAHIDAS representam o estado d’alma do

poeta nas variadas, incertas e vacillantes oscillações do espirito que,

tendendo ao seu fim unico, a posse do IDEAL, ora pensa tê-lo alcançado,

ora estar a ponto de chegar a elle--ora ri amargamente porque reconhece

o seu ingano--ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade

van.

Deixae-o passar, gente do mundo, devotos do podêr, da riqueza, do

mando, ou da glória. Elle não intende bem d’isso, e vós não intendeis

nada d’elle.

Deixae-o passar, porque elle vai onde vós não ides; vai, ainda que

zombeis d’elle, que o callunieis, que o assacineis. Vai, porque é

espirito, e vós sois materia.

E vós morrereis, elle não. Ou só morrerá d’elle aquillo em que se

pareceu e se uniu convosco. E essa falta que é a mesma de Adam, tambem

será punida com a morte.

Mas não triumpheis, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em

vós, e nada ou quasi nada no poeta.

Janeiro--1853.

NOTAS DE RODAPÉ:

[10] Do auctor na primeira edição.

FOLHAS CAHIDAS.

LIVRO PRIMEIRO.

I.

IGNOTO DEO

D. D. D.

Creio em ti, Deus: a fe viva

De minha alma a ti se eleva.

Es:--o que es não sei. Deriva

Meu ser do teu: luz... e treva,

Em que--indistinctas!--se involve

Este espirito agitado,

De ti vem, a ti devolve.

O Nada, a que foi roubado

Pelo sôpro creador

Tudo o mais, o hade tragar.

Só vive de eterno ardor

O que está sempre a aspirar

Ao infinito d’onde veio.

Belleza es tu, luz es tu,

Verdade es tu só. Não creio

Senão em ti; o ôlho nu

Do homem não ve na terra

Mais que a dúvida a incerteza,

A fórma que ingana e erra.

Essencia! a real belleza,

O puro amor--o prazer

Que não fatiga e não gasta...

Só por ti os póde ver

O que inspirado se affasta,

Ignoto Deus, das ronceiras,

Vulgares turbas: despidos

Das coisas vans e grosseiras

Sua alma, razão, sentidos,

A ti se dão, em ti vida,

E por ti vida teem. Eu, consagrado

A teu altar, me prostro e a combatida

Existencia aqui ponho, aqui votado

Fica este livro--confissão sincera

Da alma que a ti voou e em ti só spera.

II.

ADEUS!

Adeus! para sempre adeus!

Vai-te, oh! vai-te, que n’esta hora

Sinto a justiça dos ceus

Esmagar-me a alma que chora.

Chóro porque não te amei,

Chóro o amor que me tiveste;

O que eu perco, bem n’o sei,

Mas tu... tu nada perdeste:

Que este mau coração meu

Nos secretos escaninhos

Tem venenos tam damninhos

Que o seu podêr só sei eu.

Oh! vai... para sempre adeus!

Vai, que ha justiça nos ceus.

Sinto gerar na peçonha

Do ulcerado coração

Essa vibora medonha

Que por seu fatal condão

Hade rasgá-lo ao nascer:

Hade sim, serás vingada,

E o meu castigo hade ser

Ciume de ver-te amada,

Remorso de te perder.

Vai-te, oh! vai-te, longe, embora,

Que sou eu capaz agora

De te amar.--Ai! se eu te amasse!

Vê se no arido pragal

D’este peito se ateasse

De amor o incendio fatal!

Mais negro e feio no inferno

Não chammeja o fogo eterno.

Que sim? Que antes isso?--Ai, triste!

Não sabes o que pediste.

Não te bastou supportar

O cepo-rei; impaciente

Tu ousas a deus tentar

Pedindo-lhe o rei-serpente!

E cuidas amar-me ainda?

Inganas-te: é morta, é finda,

Dissipada é a illusão.

Do meigo azul de teus olhos

Tanta lagryma verteste,

Tanto esse orvalho celeste

Derramado o viste em vão

N’esta seara de abrolhos,

Que a fonte seccou. Agora

Amarás... sim hasde amar,

Amar deves... Muito embora...

Oh! mas n’outro hasde sonhar

Os sonhos de oiro incantados

Que o mundo chamou amores.

E eu réprobo... eu se o verei?

Se em meus olhos incovados

Der a luz de teus ardores...

Se com ella cegarei?

Se o nada d’essas mentiras

Me entrar pelo vão da vida...

Se, ao ver que feliz deliras,

Tambem eu sonhar... Perdida,

Perdida serás--perdida.

Oh! vai-te, vai, longe, embora!

Que te lembre sempre e agora

Que não te amei nunca... ai! não;

E que pude a sangue frio,

Covarde, infame, villão,

Gosar-te--mentir sem brio,

Sem alma, sem dó, sem pejo,

Commettendo em cada bejo

Um crime... Ai! triste, não chores,

Não chores, anjo do ceu,

Que o deshonrado sou eu.

Perdoar-me tu?... Não mereço.

A immundo cerdo voraz

Essas perolas de preço

Não as deites: é capaz

De as desprezar na torpeza

De sua bruta natureza.

Irada, te hade admirar,

Despeitosa, respeitar,

Mas indulgente... Oh! o perdão

É perdido no villão,

Que de ti hade zombar.

Vai, vai... para sempre adeus!

Para sempre aos olhos meus

Sumido seja o clarão

De tua divina estrêlla.

Faltam-me olhos e razão

Para a ver, para intendê-la:

Alta está no firmamento

Demais, e demais é bella

Para o baixo pensamento

Com que em má hora a fitei;

Falso e vil o incantamento

Com que a luz lhe fascinei.

Que volte a sua belleza

Do azul do ceu á pureza,

E que a mim me deixe aqui

Nas trevas em que nasci,

Trevas negras, densas, feias,

Como é negro este aleijão

D’onde me vem sangue ás veias,

Este que foi coração,

Este que amar-te não sabe

Porque é só terra--e não cabe

N’elle uma idea dos ceus...

Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!

III.

QUANDO EU SONHAVA.

Quando eu sonhava, era assim

Que nos meus sonhos a via;

E era assim que me fugia,

Apenas eu despertava,

Essa imagem fugidia

Que nunca pude alcançar.

Agora que estou desperto,

Agora a vejo fixar...

Paraquê?--Quando era vaga,

Uma idea, um pensamento,

Um raio de estrêlla incerto

No immenso firmamento,

Uma chymera, um vão sonho,

Eu sonhava--mas vivia:

Prazer não sabia o que era,

Mas dor, não n’a conhecia...

.............................

IV.

AQUELLA NOITE!

Era a noite da loucura,

Da seducção, do prazer,

Que em sua mantilha escura

Costuma tanta ventura,

Tantas glórias esconder.

Os felizes... e ai! são tantos!...

--Eu por tantos os contava!

Eu que o signal de meus prantos

Do afflicto rosto lavava--

Os felizes presumpçosos

Iam nos coches ruidosos

Correndo aos salões doirados

De mil fogos alumiados,

D’onde em torrentes sahia

A clamorosa harmonia

Que á festa, ao prazer tangia.

Eu sentia esse ruido

Como o confuso bramar

De um mar ao longe movido

Que á praia vem rebentar:

E disse commigo:--‘Vamos,

Os luctos d’alma dispamos,

Á festa heide ir tambem eu!’

E fui: e a noite era bella.

Mas não vi a minha estrêlla

Que eu sempre via no ceu:

Cubriu-a de espesso véo

Alguma nuvem a ella,

Ou era que ja vendado

Me levava o negro fado

Onde a vida me perdeu?

Fui; meu rosto macerado,

A funda melancholia

Que todo o meu ser revia,

Qual o atahude levado

A egypcio festim, dizia:

--‘Como vós fui eu tambem;

Folgae, que a morte ahi vem!’

Dizia-o, sim, meu semblante,

Que, onde eu chegava, o prazer

Cessava no mesmo instante;

E o labio, que ia a dizer

Doçuras de amor, gelava;

E o riso, que ia a nascer

Na face linda, expirava.

Era eu--e a morte em mim,

Que só ella espanta assim!

Quantas mulheres tam bellas

Ebrias de amor e desejos,

Quantas vi saltar-lhe os bejos

Da bôcca ardente e lasciva!

E eu, que ia chegar-me a ellas...

Para logo a fronte esquiva

De recatos se involvia

E, toda pudor, tremia.

Quantas o seio anhelante,

Nu, ardente e palpitante

Andavam como intregando

Á cubiça mal-desperta,

Gasta ja e desdenhosa,

Dos que as estavam mirando

Com vaga luneta incerta

Que diz:--‘Aquella é formosa,

Não se me dava de a ter.

E esta? É só baroneza,

Vale menos que a duqueza:

Não sei a qual attender.’

Fábulas—folhas cahidas · 第 2 / 5 段