OBRAS
DO
V. DE A. GARRETT.
XVII.
(SEGUNDO DOS VERSOS.) VERSOS
DO
V. DE ALMEIDA-GARRETT.
II.
FÁBULAS--FOLHAS CAHIDAS, SEGUNDA EDIÇÃO.
LISBOA
NA IMPRENSA NACIONAL
1853.
A QUEM LER
No anno de 1828, em Londres, se publicou o primeiro volume dos versos
ou ‘poesias fugitivas’ do Sr. Garrett. Extinguiu-se em pouco tempo a
edição; mas o auctor, occupado de outros trabalhos e preoccupado de
mais serios cuidados, não tractou nunca de preparar a reimpressão que,
entre nacionaes e extrangeiros, pediam todos os collectores de suas
obras.
Até ao anno de 1841, não lhe foi possivel nem lançar os olhos áquelle
modesto volume que, sob o nome de LYRICA DE JOÃO MINIMO, tam popular
o tinha feito, e algumas de cujas peças ja tinham merecido ser
trasladadas nas linguas mais cultas da Europa.
N’esse anno, retirado a descançar no campo de grandes fadigas de corpo
e de espirito, deu emfim algumas horas de mais lazer a repassar as
composições de sua infancia litteraria, e a escolher as principaes das
que, em mais feita edade, lhe tinha arrancado a condescendencia com
amigos, ou a irresistivel inspiração de algum objecto ou circumstância
da vida que mais o impressionára.
Resmas e resmas de papel lhe vimos destruir e queimar ao fazer d’esta
escolha. E apezar do desapiedado apuramento, ainda ficou uma collecção
copiosa que, entre o ja impresso e o ainda manuscripto, dava materia
para bons quatro volumes.
Infileirou tudo por generos e datas,--algumas das quaes só estavam
na pouco exacta reminiscencia do auctor. Mas depois de tentados e
desprezados varios methodos, assentou porfim--que dos quatro volumes,
ficaria sendo o primeiro essa mesma LYRICA DE JOÃO MINIMO, apenas
alterada da primitiva edição de Londres em leves differenças de
collocação, e acaso additada com alguma composição juvenil que o
auctor desprezára, mas que reclamavam os seus apaixonados;--que o
segundo, sob o titulo de FLORES SEM FRUCTO, conteria o resto das
composições lyricas da sua primeira e segunda epocha;--que o terceiro
sería destinado ás FÁBULAS E CONTOS, e por appendice aos poucos sonetos
que não intregára ás chammas;--o quarto volume finalmente, com o titulo
de FOLHAS CAHIDAS, foi dedicado ás producções de edade mais madura e
que elle considerava como os seus ultimos versos.
D’estes quatro volumes assim detalhados, não se tractou todavia por
emquanto de dar ao prelo senão o segundo, as FLORES SEM FRUCTO, que
ainda assim só vieram a imprimir-se em 1845.
E nem a popularidade que obteve o livro, nem o remanso de maiores
lidas, que por então gosou o auctor, o poderam mover a pôr a última mão
a nenhum dos outros.
Sómente em principios de 1851 entrou na imprensa o primeiro volume,
isto é, a segunda edição da LYRICA DE JOÃO MINIMO, e o quarto, isto é,
as FOLHAS CAHIDAS.
Motivos bem notorios de serviço público vieram reclamar toda a
efficacia e attenção do nosso auctor; e os dois volumes lá ficaram
abandonados na imprensa, meio compostas e meio revistas as folhas.
Assim estiveram dois annos até principios do actual, 1853, em que
felizmente desimbaraçado e liberto, pôde outravez dar-se aos seus
queridos cuidados litterarios.
Publicou-se então a LYRICA e as FOLHAS CAHIDAS; aquella muito correcta
e avantajada á primeira edição; éstas cerceadas e mondadas pelo auctor,
que apenas ficou uma pequena brochura do que tinha sido um volume
regular.
Em poucos dias porêm desappareceram as FOLHAS;--levadas de bons e de
maus ventos... voaram.
E sendo reclamada pela opinião e pelas necessidades do commercio uma
segunda edição, resolveu-se o auctor a fazer da reimpressão d’esse
voluminho, e do inedito que era destinado ás Fábulas, sonetos, etc., um
só tomo, com o título de SEGUNDO VOLUME DOS PRIMEIROS E ULTIMOS VERSOS.
Para resummir d’este modo, era necessario porèm queimar ainda mais
sonetos e mais apologos. Assim se fez, sendo genero de occupação em
que muito parece comprazer-se o auctor.
Mas por tal modo, com estes dois volumes e com o das FLORES SEM FRUCTO,
está completa, em tres tomos regulares, a collecção das poesias menores
do Sr. Garrett: nome pelo qual sempre será mais conhecido o Visconde de
Almeida Garrett, a quem as dignidades politicas não elevam nunca acima
do que a si proprio se eleva por seu ingenho e estudo.
Detractores e inimigos gratuitos--porque não invejosos tambem?--podem
clamar que essas dignidades rebaixam o nome que não podem exaltar.
É um sophisma de calumnia, porventura admissivel como epigramma se,
republicano e demagogo, o auctor de Camões, de Gil-Vicente e de Fr.
Luiz de Sousa, houvesse alguma hora professado as hypocritas doutrinas
do nivelamento social, que tam poucos acclamam com sinceridade, e
menos ainda com perseverança. Mas a tribuna, a imprensa e o Conselho
o viram sustentar sempre com denodo e dedicação a causa da monarchia,
sustentá-la como inseparavel da causa da liberdade do povo, da qual é
não menos zeloso e strenuo defensor.
A verdade é que as distincções monarchicas tanto dão lustre ao merito e
o recebem d’elle, quanto se invilecem e prostituem lançadas á ignavia
ou ao demerito que não conseguem innobrecer.
O dia em que os reis comprehenderem bem este axioma, será o último das
aspirações demagogicas.
Voltemos porêm á historia da nossa collecção. Não ficou ella nem
rigorosamente chronologica nem perfeitamente systematica. Participa
de uma e de outra coisa, innevoada de um certo mysterio que muito por
acaso a involve, sem nenhuma prevenção ou pretenção da parte do auctor.
Na Lyrica de João Minimo, tal como no princípio d’este anno se
publicou, está a infancia poetica, toda a vida juvenil do homem de
lettras, do artista, do patriota sincero e innocente, do enthusiasta
da Liberdade que ainda não conhece, que ama com exaltação, que serve
com fervor, e pela qual sacrifica de bom grado a patria, o socêgo
doméstico, a fortuna, a saude e quanto os homens mais prezam. Ha n’essa
lyra uma corda que ja soa de amor, do amor apaixonado, ardente, cioso
que um dia abafará talvez as outras todas. Mas os gemidos soltos que
por agora lança, os vagos suspiros que balbucia mostram bem claro
que no coração do poeta dormem ainda as tempestades que porventura
lhe hãode agitar depois a vida. Para tudo o que não é a Patria e a
Liberdade, é tibio e froixo o seu canto, desgarrado e mal sentido.
Hade entrar muito fundo n’esse coração a pena ou o prazer, antes que
chegue a fazer vibrar a corda íntima que está silenciosa, distendida--e
apenas geme a espaços como harpa eolia pendente do ramo, que, agitada
por incerta brisa, suspira vaga e saudosa, sem a percutir ninguem,
por ninguem, por coisa nenhuma, e só movida de um indeterminado
presentimento do que hade ser, do que póde ser, do que talvez não seja
nunca.
Falla de amor o poeta... Sim, falla; e ha Délias e ha Lilias, e ha
flores e ha estrêllas, e ha bejos e ha suspiros, e ha todo esse estado
maior e menor de um exército de paixões que sai a conquistar o mundo
no princípio da vida de um rapaz cheio de alma, de fogo, de exuberante
energia e vehemencia de sangue. Mas esse exército é todo de parada,
fórma bem na revista--em travando peleja séria, hade fugir, porque é
boçal e não o anima nenhum sentimento verdadeiro e tenaz. Ve-se o poeta
atravez do amante: falso amor e falsa poesia! Quando um e outro são
verdade, não apparece senão o amante, não se ve senão a paixão, a arte
some-se, annulla-se deante d’ella: então vem a poesia do coração.
Não ha ainda d’essa poesia na LYRICA DE JOÃO MINIMO. A da alma sim. Nos
tres livros em que se divide a LYRICA estão as tres primeiras epochas
da existencia do mancebo. As impressões e aspirações da infancia que
desponta á puberdade, os instinctos da glória, do amor e do patriotismo
suspiram no primeiro livro, que se sente escripto no socêgo da casa
paterna á repousada sombra das faias e das larangeiras da sua ilha no
meio do Athlantico,[1] e logo depois ás margens classicas do Mondego,
nas horas vagas dos estudos superiores. O segundo livro é nova era para
o poeta e para o patriota. Alceu imberbe, tribuno de dezeseis annos,
levanta-se com a revolução, destitue todos os idolos velhos, e não
canta senão hymnos á liberdade. O profundo sentimento monarchico lá
resumbra todavia sempre dos mais exaltados cantos com que se insurge a
sua musa revolucionaria. Ve-se que, apezar de todo o impeto que leva
essa carreira, jamais hade precipitá-lo na anarchia. O irreconciliavel
inimigo dos despotas e dos hypocritas não hade ser nunca o amigo dos
demagogos, nem blasphemará jamais contra Deus e contra a religião em
nome da liberdade que adora como emanação do seio divino.
No terceiro livro ahi está elle repousando no lar paterno das primeiras
lidas públicas; ahi canta em suaves endeixas os mais puros affectos
da familia, a saudade dos que ja não vivem, o carinho dos que ainda o
abraçam. Mas a patria, essa patria que hade renegá-lo e proscrevê-lo
d’ahi a pouco, a liberdade que hade fugir bem depressa, vem tirá-lo do
seu momentaneo descanso. Os cinco annos da vida de Coimbra passaram,
o socêgo da casa materna a que regressou cança-o. Elle que sai outra
vez da sua ilha tranquilla para as tempestades da capital. A causa do
povo é trahida, abandonada... elle não a abandona; prefere o exilio,
e em terra extrangeira o ouvimos cantar as suas imprecações, as suas
saudades e a constancia indomita do auctor do CATÃO.
Tal é a historia da LYRICA DE JOÃO MINIMO, que termina em 1824.
Começa no anno seguinte a das FLORES SEM FRUCTO, collecção ja muito
menos volumosa, porque a superabundancia de seus espiritos poeticos tem
ja outras derivações. O CAMÕES, a DONA BRANCA, a ADOZINDA, absorvem
muito d’elle. Fórma-se com a experiencia e a observação na terra
extrangeira o talento do publicista, aperfeiçoa-se na patria com a
práctica; começam as luctas politicas de 1826, em que o redactor do
PORTUGUEZ e do CHRONISTA mostra que, se a natureza o fez poeta, o
estudo e o amor do seu paiz o fizeram orador eloquente e escriptor
politico abalisado.
Nova emigração, novos trabalhos litterarios e politicos, e novos cantos
lyricos tambem, em que ora geme, ora triumpha a liberdade.--Mas no
segundo dos dois livros das FLORES começam as paixões do coração a
tomar posse mais ampla e mais tenaz do poeta. Sería que as desillusões
da politica, os desappontamentos da vida pública, as deffecções da
amizade o levassem a refugiar-se nas chymeras d’esse outro paiz de
sonhos, em que o despertar não é todavia nem menos desanimado nem menos
triste?
Não sei: a vida de um poeta hade sempre ter capítulos mysteriosos,
transições inexplicaveis e inesperadas; a filiação de suas ideas e de
seus sentimentos é quasi sempre _cryptogamica_. O certo é que, nas
primeiras composições dramaticas do restaurador do nosso theatro, o
amor não existe. No CATÃO e na MEROPE só ha as paixões d’alma, o amor
da patria ou da familia; no GIL-VICENTE porêm ja o coração toma o
primeiro logar,--disputado ainda pela glória, pela paixão das lettras,
da arte--mas o primeiro.
N’esta segunda collecção lyrica do nosso auctor, basta a peça que
tem por titulo _As minhas asas_ para se ver que o homem público, o
philosopho, o poeta da glória e da liberdade pagou emfim o tardio e
pesado feudo de sua independencia vencida e subjugada. Até então as
homenagens ao suzerano eram meias de escarneo, eram um tributo de
condescendencia--de uma como elegante ironia! O estado de coisas é
outro agora.
As FOLHAS CAHIDAS continuam esse estado. Os seus dois livros (que na
primeira edição foram um só) visivelmente o mostram.
As FOLHAS CAHIDAS são o principal n’este segundo volume dos VERSOS,
que vem a ser o terceiro, porque entre elle e o primeiro estão as
FLORES SEM FRUCTO. As FÁBULAS e os SONETOS não são senão appendices
ou accessorios; e por suas datas e por seu genero pertencem mais á
primeira collecção de que acima fallámos, do que a ésta terceira de que
vamos occupar-nos.
Aqui os sentimentos patrioticos, o amor da glória, o enthusiasmo da
liberdade teem ainda saudosos ecchos na lyra do poeta. Mas a energia,
a vehemencia de suas cordas não vibra ja senão com outra paixão mais
ciosa e mais exclusiva. As Julias, as Délias, não se contentam ja
de inspirar, dominam absolutamente o coração do poeta, os hymnos, as
canções, as imprecações mesmas da sua lyra.
Que é de o Alceu que bramia liberdade, o Anacreonte que zombava com
o prazer, o Tyrteu que precedia as phalanges da Terceira aopé do
pendão azul e branco da joven Rainha dos exilados? Que é das elegias
suaves e melancholicas do auctor do Camões? Que é feito dos desgarres
semi-rabelaicos do poeta de Dona Branca, dos sarcasmos byronicos e
incredulos, dos surrisos mephistophelicos espalhados por essas VIAGENS
NA MINHA TERRA, pelo ARCO DE SANCT’ANNA, por tanto volume de prosas e
de versos?
Tudo isso acabou, porque acabaram provavelmente todas as decepções do
seu ânimo, e não ficou, em logar d’ellas, senão outra decepção maior
que ingana mais cega, e venda mais apertada.
Taes são as FOLHAS CAHIDAS, _última palavra_ até agora, mas que
não será a _derradeira_ do nosso poeta: affoitamente o confiâmos.
Confiâmo-lo de seu ingenho grande, de sua alma elevada e nobre,
traduzimo-lo da sua admiravel introducção ao pequeno volume que hoje
reproduzimos.
As FOLHAS CAHIDAS não são o fim, são a transição.
O que virá depois sabe-o Deus, sabe-o o destino mysterioso de uma
existencia á parte, que não tem lei nas regras, mas nas excepções da
humanidade.
O tempo o mostrará, porque uma vida, que tam longa parece por tam
cheia que tem sido, é ainda curta e môça bastante para nos deixar
aguardar socegadamente pelo futuro que esperâmos d’ella... e muito!
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Em Angra, na ilha Terceira, capital dos Açores.
PRIMEIROS VERSOS.
FÁBULAS E CONTOS.--SONETOS.
Senti sempre que a lingua portugueza era para todo o genero de
composições. E o rebellar-se ella em algumas pareceu-me que era
mais inhabilidade de quem a conduzia do que defeito proprio seu.
Por honra d’ella, mais que por vaidade minha, tentei compor em tam
desvairados assumptos e generos como tenho feito. Hoje estou crente e
firme convencido de que a tudo serve, a todo stylo se presta. Nem me
persuadi mais d’isso por alguma coisa em que sahi bem de meus insaios,
do que pelas muitas em que falhei.
A singeleza de seu dizer, uma certa malicia popular e mordente de sua
innocencia saloia faz o dialecto portuguez eminentemente proprio para o
apologo e para o conto.
Está pouco trabalhado o genero entre nós em verso. Mas as fábulas dos
animaes, contadas em prosa pelas gentes do campo, teem tanta graça
de stylo como as de Esopo e de Pilpay; e as narrativas do Decameron
popular em que sempre figura o frade, a mulher do çapateiro, o marido
logrado, o amante umas vezes bem succedido em seus artificios, outras
colhido n’elles proprios e punido de sua audacia, não teem que invejar
a Lafontaine ou ao licencioso italiano que fez as delicias de nossos
gaiatos avós da renascença.
Quando, em bem criança, quiz tambem insaiar a minha penna n’este
genero, não adverti tanto no que agora escrevo e penso.
Fique pois o meu mau exemplo, fique a minha quéda por farol de aviso
aos que navegarem n’este rumo, paraque saibam que as imitações dos
extrangeiros são perigosas sempre, e quasi sempre infelizes quando se
não poem bem deante dos olhos os unicos typos verdadeiros, que são
a natureza, a indole da lingua, e os modos de dizer do povo em cujo
idioma se escreve.
Tambem comprehende a segunda parte destes meus ‘primeiros versos’
alguns sonetos, poucos. De centos que fiz, e que me fizeram fazer,
apenas deixei estes. Não são bons, e eu não gósto do genero, que
por indole propria é pretencioso e facticio. Mas confesso que hoje
tenho remorso da reacção que promovi contra o soneto. Tinha aomenos
restricções e difficuldades que não tem a sôlta liberdade das canções
descabelladas e plusquam romanticas, pelas quaes foi substituido;
na qual soltura cresceu descompassadamente a turma dos janisaros do
Parnaso, que levaram a anarchia poetica alêm de todas as raias do senso
commum.
Se nós invocaremos ainda o soneto e a Arcadia e a Academia, como os
povos, cançados e infastiados das orgias da liberdade desinfreada,
invocam a tyrannia, último e fatal remedio dos males presentes, que
lhes fazem esquecer os passados? Ochalá que não, porque a coisa era
muito semsabor e muito pedante. Mas ésta é tam piegas!
Da litteratura piegas nos livre Deus, sôbre todas as coisas.
Emfim, a historia do mundo não é senão uma serie de reacções e
contra-reacções. A da litteratura é o mesmo. O que unicamente fica
immutavel são os eternos principios da verdade, do gôsto, e da razão em
tudo.
Lisboa, Janeiro 1853.
FÁBULAS E CONTOS.
LIVRO UNICO
I.
INTRODUCÇÃO.
Cahiram com a folha os meus prazeres;
E as musas, caro Gomes,[2] que, outro tempo,
Torrentes d’estro me esparziam n’alma,
Até as mesmas musas
Sem dó, sem compaixão desampararam
O froixo amante inválido.
Embalde as chamo, e as desmontadas cordas
Da saudosa lyra
Lhes peço aomenos que siquer me affinem.
São bellas, como bellas, caprichosas:
Não me admirou que fujam.
Porêm, amigo, no celeste côro,
Como por ca na terra,
De milagre inda ás vezes se depara
Com alma bemfazeja.
Das nove irmans gentis a mais gaiata,
Garrida e brincalhona,
A galhofeira, magica Thalia,
Rindo-se ás gargalhadas
Da lamuria que fiz por ver fugi-las:
--‘Deixa,’ me disse ‘és louco;
Deixa, que ellas virão sem que as tu chames:
É costume do sexo,
Assim fazemos todas.
E que lhes queres tu? que incantos achas
Na macillenta, pallida Melpomene,
Que, desde que houve em Grecia um tal Eschylo
Até o dia d’hoje,
Sempre lagrymijando
Nos sécca, nos injoa
E nos quebra os ouvidos com gemidos?...
Sempre se anda a mattar e nunca morre!
As outras--na verdade,
Aqui muito em segredo,
Éstas minhas irmans... Não é má lingua,
Não é geito da _saia_... mas decerto
Não sei esses poetas
Porque tanto as incensam, tanto as buscam.
Olha: o velho Philinto,
Que tu, e os teus patricios--boa gente!--
Tanto gabaram, applaudiram tanto,
Sem lhe mattar a fome,
Postoque a todas nós galanteava,
Comtudo a do seu peito
Foi a mana Polymnia.
Nunca vi um namôro mais rançoso;
Fizeram duzias de odes... duzias!--centos.
Tantas e tantas foram,
Que emfim o mano Apollo
Ja de odes infastiado,
Assim que o pobre velho deu á casca,
Protestou, e protesta
Não dar a mais ninguem o officio vago
De Lyrico da casa.
‘Caliope, essa tolla impavezada,
Que Homero, e o teu Camões, Virgilio e Tasso
Tam mal acostumaram,
Sempre de bico doce,
Torce o nariz a tudo
E diz que a ninguem mais quer dar cavaco;
E até, se não soubesse
Que um tal poeta lá da tua terra
Que faz Orientes e baptiza Gamas,
E a quem nós todas temos mortal osga,
Fôra frade tambem... que ia ser freira.
As mais é tudo o mesmo,
São todas desdenhosas:
Além d’isso têem lá os seus namoros,
E não querem largá-los.
‘Eu ca não sou assim ... Porêm não penses,
Por me ver rir com todos,
Que a todos quero, que namóro a todos.
Ingana-se commigo muita gente,
Tenho inganado a muitos
Que julgam conseguir os meus favores:
Cahem como uns patinhos
Nas peças que lhes armo.
Cuidou que me pilhava aqui ha tempos
Um tal cantor de _burros_,
Macaco encyclopedico
Que em tudo quer metter-se.
Preguei-lhe um lôgro... oh este foi machucho:
Vesti a minha môça da cozinha
Que vocês lá no mundo
Appellidam Chalaça,
Que sempre anda mettida entre estudantes,
Marujos e arreeiros,
Vesti-a c’uma roupa do meu uso
Ja rota e desbotada,
E mandei-lh’a em meu nome ao tal poeta,
Que a pillula ingoliu,
E muito satisfeito da conquista,
Por tal a deu aos parvos
Que as sujas trovas, que os immundos versos
Extasiados applaudem.
‘Quando eu tinha os meus dôze, e era donzella...
--Que hoje, cre-me a verdade,
Vai ca no Olympo o que lá vai na terra!
Namorei-me de um Grego: oh! bello amante!
Chamava-se Aristophanes:
Dei-lhe, intreguei-lhe tudo
--Como o teu Camões disse--
O que deu para dar-se á natureza.
Um Phrygio corcovado,
Mas que tinha mil graças
Que a corcova das costas lhe incubriam,
Soube tambem vencer-me.
Com estes dois gosei prazer tam doce,
Tam deleitosas horas,
Que os monumentos d’ellas
Inda lá pela terra os mimos fazem
De quantos sentem de meus dons o preço.
‘Quando no Sena ovante,
Quando no Tejo e Tybre
Se ergueram nossos templos
Que a barbara ignorancia derrubára,
Ao cantor do Lutrin, ao da Pucelle,
Ao mago auctor do santarrão Tartufo,
Ao teu do bento Hyssope,
E a esse galhofeiro Italiano
Que aos animaes deu falla,
Dei-lhe os favores, franqueei-lhe os mimos
Que a Ariosto, a Gil-Vicente,
Que aos outros todos concedêra outrora.
Se o que elles foram sabes,
Quanto eu valho apprecia.
Eu não sou como as manas,
Rio de tudo, tudo rindo insino;
E nas coisas mais sérias
Acho, descubro o lado
Em que o sal do epigramma incaixa a geito.
Por mim da atroz affronta,
Por mim da escravidão, por mim da inveja
O ingenho se despica,
E n’um só _trait d’esprit_, de eterno opprobrio,
C’o sêllo do ridiculo,
Marca indelevel na ignorancia imprime,
Na presumpção, no orgulho,
Toma’ e, dizendo, me intregou a lyra,
‘Toma, e conhece quanto podem risos
Da magica Thalia.
Fere-a, e, se os sons mal destros,
Desafinados, rudes te sahirem,
Começa n’isso mesmo
A gosar minhas dadivas;
Ri-te d’elles, de ti, ri-te da lyra,
E de mim se quizeres.’
Tal me fallou a minha bella deusa
Que tantas gargalhadas,
Nos dias folgasões de nosso tempo,
Nos fez dar tantas vezes
Quando na voz roufenha
Do nosso mathematico Alvarenga.[3]
Ás mãos cheias vertia
Pilherias do Kai-Pira e Sganarello,[4]
Do impulhado Avarento.
Satisfeito da offerta, e mais que d’ella,
Do longo e bom cavaco,
--Cavaco que jejuo ha tanto tempo!
Cavaco suspirado
Com que me acenam ja vesperas sanctas
Do tardio feriado!--
Toquei, ou antes arranhei á toa
Os versos que te mando.
Ri-te se forem bons e se gostares,
Ri-te se forem maus e te injoarem,
Ri-te, ri-te, que o mundo
Não se póde levar de outra maneira:
Assim o insina a deusa.
Coimbra--1820.
NOTAS DE RODAPÉ:
[2] O Dr. Francisco Gomes da Silva, meu companheiro e amigo da
Universidade.
[3] Outro amigo da Universidade.
[4] Farças que representavamos no nosso theatro.
II.
PELO ZURRO O BURRO.
CONTO ACADEMICO.
Naturam expellas
Furca, tamen usque recurral.
MORAT.
Era uma vez: diz mestre Lafontaine,
Que lh’o dissera Phedro seu amigo,
Que lh’o dissera um grego corcovado...
Pois tudo n’este mundo vai por dittos,
Tudo se diz porque outros o disseram...
E talvez que não fôsse Lafontaine,
Mas foi outro que tal, que vale o mesmo:
Um dia... mas o fio á minha historia
Não o tórno a quebrar por coisa alguma;
Poema que tem muitos episodios
Nunca póde ser bom, nem bons ser elles:
Diz padre Horacio ou outro tal como elle
D’estes que intentam accanhar o genio
Com leis servis por elles arranjadas
Que, segundo a moderna guapa eschola,
As não póde soffrer de taes birbantes.
Um dia pois o pae d’homens e numes,
Como eu ia contando aos meus leitores...
--Se é que a sorte, que os nega a bons poetas,
M’os deparar a mim, chulo trovista--
A rogos, mas de quem ja me não lembra,
Asno felpudo de orelhões cahidos
Quiz transformar em fervido ginete;
E ao bom Mercurio, seu fiel ministro,
Manda que o longo pêllo lhe tosquie
E um bom naco cerceie das orelhas.
Era grande o burrico, nedeo e gordo,
E por milagre do supremo Jove,
Que sempre faz como este bons milagres,
Ei-lo desimpennado e mui lampeiro,
Qual andaluz corcel ou egua arabia,
A par d’outros corceis se vai trotando.
O povo cavallar na fórma nova
Não reconhece a burrical maranha.
Como elles folgazão retouça e pulla,
Ladeia, faz corcovos, trava o passo,
Emfim parece--Tanto podem numes
E tal é o podêr de um bom milagre!--
Cavallo mestre e feito em picaria.
--Qual rustico peão de bronca aldea
De tamancos nos pés, no sacco a broa,
Que vem para imbarcar lá da provincia,
E para um tio, que é senhor d’ingenho,
Ricasso em pretos, em arroz, mellaço,
Ingoiado apprendiz vai ser caixeiro:
Morre-lhe o tio, eis o rapaz n’um sino,
Vende pretos e pretas e mellaço,
E vem, Cresso de cocos e patacas,
Metter toda Lisboa n’um chinello;
Ja por boas, luzentes amarellas
Serodeo compra fidalguesco fôro...
D’antes--que hoje a visita da saude,
Em cheirando a caturra, a bordo o prende,
E é ja barão quando põe pé em terra.
Ei-lo que alteia os hombros incolhidos,
Intufa em vento as bochechudas belfas,
Impina a pansa, ingrossa a voz pausada,
E no tropel dos nobres involvido,
Se o não conheces, crêra-lo provindo
Dos que nos velhos pergaminhos vivem.
Tal ja desorelhado e uffano o burro
Entre altivos ginetes campeava.
Mas, oh fado infeliz, mesquinha sorte!
Quando entre os novos ledos companheiros
Se vai trotando com pimpão meneio,
Ei-lo depara com villan jumenta
De hirsuta felpa e de costado esguio,
Que os fios corta d’alma a quem a via,
Como bem diz Latino-luso vate
De mui gaiata e festival memória.
Subito esquece o recem-nobre estado,
Lembram-lhe antigos, burricaes requebros
E o tom gallanteador de asnal namôro:
Estira amante o beijador focinho,
E em notas de invejar por um Lablache,
Psalmeia airoso, compassado orneio,
Deixa os amigos e a azzurrar se fica!
Ora pois, como fez o senhor Jove,
Fez certo gran’senhor de lettras gordas
E protector das magras.--Foi milagre
Que pela intercessão foi operado
De uma a que chamam deusa da Sandice,
De outra Impostura e de outra Pedantice.
Começa o caso c’o outro parecido.
Havia em certa terra muito longe,
Lá nas pontas dos pés d’este hemispherio,
Que dizem fôra outr’ora povoada
Por certo beberrão feitor de Baccho,
Havia uma familia de animalculos,
Zoophytos, e quasi mycroscopicos,
Aos quaes Lineu, que achou nomes a tudo,
Nunca deu nome, nem especie ou genero,
Nem eu lh’o sei tambem, só sei que arrotam
Textos, medalhas, chymicas rançosas,
Que trazem n’algibeira um compassinho,
Muito accanhado, curto e pequenino,
Talhado ao molde dos miollos d’elles,
Com que querem medir todo este mundo.
D’estes pois--e aqui vai o gran’milagre--
Burros na fórma, na sciencia burros,
Mas burros mais que tudo na cacholla,
Quiz o tal gran’senhor citado acima
Fazer--ó musa o quê?--Dize, não temas,
Não fujas, dize e vai-te.--‘Uma académia’
Disse a musa e safou-se ás gargalhadas.
Mas que académia!--Oh! venham as brilhantes
De Londres, de Paris, de Petersburgo
Beber aqui sciencia não sabida
De assopradas, pomposas ninharias.
Que producções, que producções! Oh quanto
Quanto seria mais se um deus maligno,
Inimigo dos guapos academicos,
Das tres que Deus nos deu potencias d’alma
Lhes não saccasse duas á surrelfa,
Deixando só memorias e memorias...
Quanto sería mais, quanto fulgira
Em gordos, grossos, grandes calhamaços
A portugueza, majestosa lingua,
Se os novos sabios, no comêço á emprêsa,
A antigas manhas não perdendo o affinco,
Não incontrassem por desgraça nossa
C’um perfido _azzurrar_--zurrar malditto!...
Ficaram no azzurrar sempre zurrando.
Coimbra--1818.
III.
AMOR E VAIDADE.
FÁBULA.
Ja mais veloz corria o espaço usado
Que as horas marca ao dia
O deus que atrás de Daphne
--Infructuoso trabalho!--dera ás gambias;
E aos braços d’Amphitrite ia mais cedo
Dos trabalhos da luz gosar nas trevas
Desejado descanço.
Iam seccando pelo prado as hervas,
E o verde-escuro dos frondosos montes
Amarello cahia;
Sentado aopé da magustal[5] fogueira,
Vermelho e rubicundo
O bemdito e louvado San’ Martinho,
--Que a cega antiguidade,
Por não tomar a bulla da cruzada,
Nem jejuar aos dias de jejum,
Baccho chamava em sua escandalosa
E misera ignorancia--
Bastas fazia navegar, nos máres
Da barriga sanctissima,
As puchantes castanhas;
Banhos e quintas ao socêgo antigo
Despovoados tornavam;
Voava a folha, sibilava o vento,
E em fim, sem metaphoricas periphrases,
Era ja meio outomno.
Amor, Cupido, ou Ero, ou qual mais gostem
Dar-lhe baptismo ou chrisma,
Comtanto que não chegue
A tanto o desafôro
Que ousem--como eu ouvi, por meus peccados,
Co’estes que a terra um dia
Ou mar tem de comer--
Por louca affectação de Anglo-mania,
(O que não farão modas!)
Chamar-lhe em Portuguez... chamar-lhe _Love_!
Amor pois ou Cupido,
--Que assim nossos avos sempre disseram
Em tempos venturosos
Que tudo se chamava por seu nome,
Que ás bellas se dizia
Em Portuguez sincero e sem malicia
O que hoje é fôrça rebuçar no manto
De alegoria equivoca--
Amor, do rebulicio da cidade,
Do barulho infastiado,
Farto ja de frexar c’os aureos tiros
Os corações tam gastos,
Usados, velhos, estropiados, frouxos
Da gente que a povoa,
Para o campo fugiu d’onde ella foge.
Lá nos singelos bosques,
Nas simplices cabanas
Singelos corações, simplices almas
Espera achar ainda
Em Daphnis e Amaryllis.
Por um ameno solitario valle,
Em seus projectos imbebido o numen,
Caminhava... eis da incosta d’um outeiro
Ve descendo gentil, esbelta dama
Que bem, no airoso infeite,
No perluxo das modas,
Conheceu que não era habitadora
Da rustica espessura.
Fugi-la quer; mas sentimento occulto,
Que entre nós ca na terra
Se diz curiosidade,
--Não sei como no ceo lhe chamam numes!--
Sentimento imperioso
No sexo lindo que nos doira a vida...
--Que a doira se gosar sabemos d’elle,
Que aos parvos a invenena--
Este o reteve, suspendeu-lhe os passos.
Quem será? Quer sabê-lo.
Ei-los junctos; e Amor que á bella dama
Cortezmente sauda:
--‘No campo ainda e só, quando á cidade
Apressurada corre toda a gente!
Tam delicada, tam formosa dama
Da quadra desabrida
Os insultos não teme?
Foge acaso o prazer da sociedade,
E n’estas mudas selvas
Vem porventura, desgraçada amante,
Chorar na soledade?’
Não gostou do cortejo e cumprimento
A nympha bella, desdenhosa e dengue;
Offendida que o nome lhe ignorassem,
Orgulhosa responde:
--‘Conhece-me o universo; em toda a parte
Templos, altares tenho;
Domino os corações, govérno as almas,
Sou uma deusa, e chamo-me Vaidade.
Por mim co’a morte, c’os revezes lucta
O guerreiro no campo;
E ante o espelho traidor consomme a vida
A belleza que aos annos se não rende:
Por mim o litterato sôbre os livros
Curva a frente abrazeada;
Por mim nos gestos, no fallar se estuda
O adamado peralta;
Por mim vivem contentes satisfeitos
Os que menos razão têem de viverem;
E o mago meu podêr se estende a tanto,
Que entro no seio mesmo aos que me offendem,
Desprezam e injuriam.
Por meu influxo, n’esse proprio escripto
Em que me insulta o sabio,
Corrige e apura o sabio o stylo, a penna,
Aos louvores armando.
Eu as suberbas, elevadas cupulas
Ergo de vãos palacios;
E até na estancia gellida da morte,
Nas mentirosas lapidas
Lavro pomposas lettras
Que a inganado porvir levam memorias
De parvos, de maus reis, sanctões Tartufos,
De tonsuradas bêstas.
Eu em certa famosa academia
As charamellas tanjo,
As conclusões defendo,
Em vandalo Latim peroro ás turbas,
Tufo a brilhante borla
Com que as caveiras jumentaes adórno.
Emfim até d’amor perturbo o imperio:
Por mim, por meus auspicios,
A parvoa chusma dos galans mais parvos,
Dos fofos petimestres
Ja do sexo gentil não quer favores:
Indiff’rentes ao gôso e á ventura,
Basta que o mundo os tenha por felizes...
Por mim a dama desdenhosa e bella
Ja não procura amores,
Nem de Venus suavissimos deleites,
Mas o gaudio maior, mais lisongeiro
De que os outros a creiam
Cercada de servis adoradores,
De humildosos escravos’...
Ia por diante; mas o deus zangado,
Furioso a interrompe:
--‘Basta; o numen d’amor sou eu: não entra
Tam facil em meu reino
Teu sacrilego pé: sobejas vezes
De muitos corações tenho extirpado
Teu petulante vício.
Em vão esse Hymeneo, que deus se chama
E egual amim se inculca.
Ousa pleitear commigo:
Os nós lhe quebro que appellida sanctos,
E em seu templo introduzo
--Embora a testa doia
Aos miseros maridos--
Quem me apraz, quem me segue, e a quem eu quero.
Por mim se eguallam desvairadas sortes,
Que as baixas condições uno ás mais altas.
Lidia, a orgulhosa Lidia
Que a ladaínha dos avós impurra
A todo o instante e a todos,
Lidia que nunca ri... c’um tiro as pompas
E as sombras dos avós lhe desfiz n’alma:
Puni-a, fi-la escrava,
Fi-la escrava... e de quem!... do seu lacaio.
Togas, aureos bastões, borlas, espadas,
Mittras, coroas, toucas e capuzes
Ao meu imperio tudo está sujeito.’
Desdenhosa e surrindo ouviu a deusa,
E em submissa ironia lhe responde:
--‘Pois bem: assim será; não valho nada
No coração das bellas.
Mas expliquem sem mim seu vário peito;
Isso que o mundo appellidou capricho,
Que em sua alma domina,
Dize-me o que é? será sem causa o effeito?
Suas obras tam variaveis, tam confusas,
Com que os amantes pasmam,
Não as deciphro eu só, de mim não partem?’
Esquentou-se a questão: denovo os deuses
Pro e contra razões allegam, mostram.
É cabeçudo Amor, ella teimosa...
Não acabavam nunca.
Ficariam na mesma,
Se o meio de findar contendas tantas
Não acordasse á deusa:
--‘Prescindamos’ clamou ‘de vans palavras,
Argumentos deixemos;
Vamos a factos, e de nossas armas
Façamos experiencia.’
Sahia a ponto do vizinho bosque
Pastorella innocente:
Alma inda nova, coração ingenuo,
No simples do vestido,
No mal composto dos cabellos louros,
De sobejo mostrava:
Era toda ao pintar para a exp’riencia.
Consentem ambos em provar, na bella
E timida pastora,
O podêr de suas armas.
Jurou Amor de dar-se por vencido
Se de seus magos tiros
Podésse defendê-la a Vaidade.
Com lisonjeiro, placido semblante
E com doces palavras,
Tomando-a pela mão, a affaga a deusa;
Pungente frexa Amor no arco imbebe,
E mostrando-lhe a um tempo
Joven pastor que dera inveja a Páris,
O tiro lhe dispara.
Voa a setta fatal... mas no momento
Em que lhe toca o peito,
Subito a deusa aos olhos lhe apresenta
No mesmo instante crystallino espelho...
Pasma extasiada e fixa
A simplice donzella,
O semblante gentil contempla immovel;
Nem um só volver d’olhos para o bello
Mancebo lhe escapou.
Sorriu-se a deusa; Amor de invergonhado,
De corrido fugiu.
Coimbra--1818.
NOTAS DE RODAPÉ:
[5] Magusto, no dialecto da minha provincia, é a fogueira em que se
assam as castanhas nos dias marcados pelo ritual minhoto.
IV.
ESOPO E O BURRO.
FÁBULA.
A. TH. DA SILVA QUINTANILHA.
Foi grande tempo, amigo,
Aquelle tempo antigo:
Eram maiores peras e mellões...
Pois uma melancia?
Por essa casa dentro não cabia.
Bem o mostram as sábias conclusões
Do famoso Gil-Braz de Santilhana:
Guardadas proporções,
Se a conta não ingana,
Certamente sería
A maçan com que a Adão Eva inganou,
Maior do que uma abobora-menina:
E então ja bem se atina
Como ella lhe incalhou
No gargallo do pae da humanidade;
Cuja enorme hombridade,
Segundo o mesmo cálculo constante,
Devia ser maior que a d’um gigante.
N’esse tempo feliz da carochinha,
Em que pato e peru, porco e gallinha,
Burros e burras--e o rhynoceronte--
Cabreavam, ahi por esse monte,
Com toda a mais canalha
Que era da sua egualha,
Toda essa corja dizem que fallava,
Como nós, na sua lingua-mistiforio.
Não sei se Deus fez bem no seu decreto
Que a mercê lhe tirou do fallatorio;
Pois, segundo mui douto me insinava
Meu mestre José-Vaz, homem discreto
E de saber profundo,
Em toda a sociedade d’este mundo
Por fôrça hade reger
O famoso _direito de accrescer_.
Accresceu para nós, tristes humanos,
Toda a loquacidade
De quantos bicharrões, bichos, bichanos
D’este universo á grande sociedade
Veio a perdas e damnos:
E assim vemos fallar moços e môças,
Velhos e velhas, sabios e tarellos,
Com vozes finas e com vozes grossas,
O gentio, o christão, moiro e judeu,
Por quantos cotovellos
Deus e o _direito de accrescer_ lhes deu.
N’esse tempo feliz então havia
Em Grecia um corcovado
Que de todo o animal, ave ou pescado
Intendia e fallava a algaravia.
Muitas ja tinha em Grego traduzido
Das famosas comedias,
Altisonas tragedias,
Entremezes chistosos e ingraçados,
A que tinha assistido,
Dos bichassos auctores mais fallados.
Um dia passeando
Por juncto de um ribeiro,
--Talvez algum dialogo pilhando
De bichitos de couve ou formigueiro--
Eis-ahi senão quando
Direito a elle em frente
Orelhudo jumento vem trotando;
E depois de o saudar mui cortezmente
Com uma cavatina
Em notas que nem ja Lablache affina,
Findado o ritornello,
Assim o nosso burro,
Em sua lingua asinina
De mui pullido zurro,
Ao corcunda fallou,
Quero dizer--orneou:
--‘Tenho um favor que te pedir, Esopo:
No apologo primeiro
Que em lingua traduzires da tua gente,
Não me faças tam zôpo
Como, useiro e veseiro,
Fazes constantemente.
Em meus discursos mette alguma graça
E pilherias com sal e com finura,
Que eu, a zurrar, sou forte na chalaça.’
O bom do Esopo olhou para a figura
Do elegante orelhudo,
E com tam destampada,
Tremenda gargalhada
Lhe respondeu ao animal felpudo,
Que elle, de orelha murcha e mui trombudo,
Se foi sem dizer nada.
Do sincero de Esopo quam diff’rentes
Andam certos auctores
Que altisonantes fallas farfalhudas
Imprestam a patetas gran’senhores,
Excelsos presidentes
De pedantes reaes academias,
Illustres senadores
Que as cachollas vazias
Inchados ornam de compradas flores!
Quantos ha ahi garraios descarados
Que vão pimpar, sem pejo, pelos pulpitos
Com os sermões espurios
Que aos padres mestres da ordem são furtados!
Quantos vates servís, lamosos gansos
Que, em vis dedicatorias campanudas,
De podres versos ranços,
Na linguagem da Phenix-renascida,
Vão dar ethica vida
A Zenobias barbudas;
E a Mecenas palhaças
De sabichões da Grecia dão fumaças!
Mas Esopo ficou qual d’antes era,
E o burro, burro estreme;
Mas aos nossos Mecenas sécca e treme
Na frente o loiro, a hera
Com que venaes poetas
Lhes coroaram as testas de patetas,
Em trovas semsabôres;
Mas os nossos modernos escriptores
Ficam asnos sem sizo
Para os homens de bem e de juizo.
Coimbra--1820.
V.
O MENINO E A COBRA.
C’uma cobra doméstica folgava
Criança innocentinha,
E--‘Meu bicho’ dizia a criancinha
‘Comtigo tam seguro eu não brincava
Se primeiro, o veneno refalsado
Não te houvessem tirado.
Que vós sois muito más, muito ingratonas,
Minhas serpentezonas.
Oh! nunca a tal historia me esqueceu
D’aquelle homem que a cobra achou na rua
--Talvez fôsse avó tua--
E tanto se doeu
De a ver toda de frio retransida.
Que no seio a metteu
E comsigo a aqueceu.
Que fez a bicha mal-agradecida?
Apenas se recobra
A traidora da cobra
Vai, e zaz!--e mordeu
O pobre homem, que logo da ferida
Venenosa morreu.’
--‘Bem parciaes’ responde-lhe a serpente
‘São as vossas historias;
Recontam-nos o caso mui diff’rente
Lá as nossas memorias.
O teu homem, que tens por charidoso,
Creu realmente a cobra ja finada,
E foi, por cubiçoso
Da pelle, que era linda e mosqueada.
Que o teu santinho d’home’ a quiz salvar:
Era para a esfollar.’
--‘Vai-te’ responde em cholera o menino
‘Vai-te, bicho mofino:
Todo o ingrato é ladino
Para se desculpar,
E ao seu bemfeitor calumniar.’
O pae da criancinha, mui contente.
Toda ésta conversa ouvindo esteve;
E--‘Pois, meu filho’ disse ‘honradamente
Julgaste como deve
Todo homem de bem:
Mas é preciso em tudo ser prudente,
E injusto com ninguem.
Ha casos de tam feia ingratidão.
Que a razão
Não se atreve
A crê-los, sem exame, assim de leve.
Raras vezes a ingratos obrigaram
Os que são verdadeiros bemfeitores;
Mas o mundo, meu filho, por desgraça,
Harto está cheio de ruins Mecenas,
De falsos protectores,
Que a detestavel raça
Dos ingratos no mundo propagaram.
Arrastados favores,
Inda menos baratos
Que interesseiras sordidas onzenas,
O que hãode produzir, senão ingratos?’
Coimbra--1821.
VI.
A SAUDE E A MEDICINA.
Ja tenho, meu Eloy,[6] tudo inmallado;
Fica até no bahu o estro fechado.
Mas antes de partir,
Quero contar-te um conto, que hasde rir.
Hontem o incontrei
N’aquelle teu Pignotti tam magano;
E, se em meu Portuguez não desbotei
As côres do Italiano,
Hasde-lhe achar a graça que eu lhe achei.
Vou abrir o bahu, e venha o estro!
Sôbre o canhão da bota.
Como dizer se usa,
Farei regrinhas curtas e compridas.
Botas... e esporas tenho ja cingidas,
Montarei o Pégaso, que nem trota
Commigo, de esfalfado.
Eu muito descançado
Ahi me vou choitando,
O meu conto contando.
O conto é da Saude e Medicina...
E tracta de te rir,
Que, se não ris, serviu-te a carapuça,
É um reles doutor de mula ruça
Doutor que se amoffina
E não quer consentir
Que a pobre, atormentada humanidade
Se desforre uma vez co’a faculdade.
Jove, esse Jove em Grecia tam temido,
Que imperava nos ceos, nos elementos,
Nos raios e nos ventos,
De moda emfim cahido,
O credito perdeu e está fallido.
Mas quando elle reinava
Viam-se casos n’este baixo mundo
Que o vulgo parvo assegurar ousava
Desdizerem de seu saber profundo:
E n’este ponto a grega theologia
Por desculpa dizia
Que, ao dar ordem a coisa tam soez
Como é d’esta vida o entremez,
Lhe cahem muita vez
Os oc’los do nariz;
E que n’estes momentos
Tudo o que faz e diz
É asneira--sandice por um triz.
Em um d’estes accessos mazelentos,
Em que de facto, do nariz divino,
E sem elle dar tino,
Tinham cahido os seus oculos bentos,
Á terra nos mandou,
Só para nosso bem, como julgou,
Duas boas divindades companheiras,
Ambas riccas herdeiras
De sua graça divina:
A saber, a Saude e a Medicina.
Na fôrça juvenil tinha uma d’ellas
Ageis e vigorosos
Fortes os membros, cheios, musculosos,
Tintas de côr rosada,
Florida e ingraçada
As frescas faces bellas;
E nos olhos tranquillos e gozosos
Tinha a indolência com a paz pintada.
A outra, de gesto magro e macilento,
Cabello pouco, e o pouco de alvo argento,
Com as faces rugosas descahidas,
As carnes resequidas,
E em círculos de chumbo incaixilhados
Os olhos incovados
Remelosos, vidrados.
Intrançada de malva e de chicoria
Ampla coroa a frente lhe cingia,
Como um splendor de glória;
E a negra sotana que vestia
Rota, e cossado o pêllo, lhe luzia
Com erudita e sábia porcaria.
Aos hombros alquebrados,
Que a muita edade impêna,
Em fórma de capuz, juncto ao toitiço
Assim como uns calções esfarrapados
De antigo, velho riço,
E da côr de bandeira em quarentena.
N’um frangalho da tal coisa amarella
Lhe pendia, á feição de bambinella,
Não Tusão de Oiro ou a Pollar estrêlla,
Vermelho Christo ou roxo San’ Thiago,
Mas o instrumento aziago...
Certo tubo que todos conhecemos,
Que no lúbrico pau escorregando,
Emquanto vai e vem assim brincando,
Ao nobre officio serve que sabemos...
Cingida era de emtòrno
A venera pendente
De um magnífico adôrno
De pilulas, lancetas em pingente,
Sinapismos, ventosas,
Com que, a modo de pedras preciosas,
A nova ordem militar fulgia,
De Esculapio em memoria e honraria.
A este sabio Mentor, Jove intregára
Em guarda a bella deusa das rotundas
Bochechas rubicundas,
E mui severamente
Que em tudo a governasse, lhe mandára.
Ei-las, breve, a caminho:
E a deusa obediente
Submissa e reverente,
A sua mestra seguia
Como ao guardião faria
Um timido noviço capuchinho.
Mas, alguns passos dados,
A magra Medicina
Prega na outra os olhos incovados,
De admiração malina
Franze o sobrôlho esguio,
E tomando-lhe o pulso, em ar sombrio,
Com palavras que ignoras,
Profano vulgo, graves e sonoras,
Disse--‘que a robustez ja muito athletica
Que lhe achava, a fazia mui plethorica,
E daria em pleuritica ou phrenetica.
Provou-lhe mais com medica rhetorica
Que um excesso mui rude
Soffria de saude;
E para que o morboso estado mude,
E ella possa viver seguramente,
De todo era forçoso
Que tivesse o seu tanto de doente.’
Disse, impunha a lanceta,
Fere um vaso venenoso,
E á pobre da pateta
Tres libras de sadio e generoso,
Vermelho sangue puro lhe sacou:
Muito menos a muitos ja mattou!
Mas era a paciente
Tam pouco natural a estar doente,
Que á sua directora vigilante
De melhorar não deu signal bastante:
Pelo que foi gramando, ás ordens d’ella,
Nogenta beberagem amarella,
Fedorenta, asquerosa
Em dóze prodigiosa!..
Tanto, tanto bebeu,
Que a rebelde natura emfim cedeu.
O appetite, o vigor
Iam diminuindo;
E a brilhante côr,
A frescura das faces vai fugindo.
--‘Bravo,’ gritava a outra em ledo aspeito
‘Bravo, que a arte vai fazendo effeito!’
E temendo funesta recahida
Em quanto de uma vez
Não tinha debellada e bem vencida
Do morbo a robustez,
Manda avançar as horridas catervas
Dos xaropes, conservas,
Seguros laxativos,
Fortes aperitivos...
Com tal fôrça e podêr, que a desgraçada
Em sua consciencia
De todo em todo se sentiu curada.
Mas com tanta sciencia
Tam eruditamente era trattada,
Por via de tam graves aphorismos
E agudos sylogismos,
Lardeados de Grego e de Latim,
Que até, morrer assim,
Morrer n’esta doçura,
Morrer tam sabiamente era ventura.
Da nossa boa alumna, por má sorte.
Era estupida um tanto a natureza,
E romba de agudeza:
Graça a mais superfina
Que nos póde fazer a mão divina!
De tam ditosa morte
Não pôde comprehender toda a belleza.
Cobrou medo a mofina
Da sciencia divina,
E, sem mais Deus-te-salve ou mais embora,
Desanda-me a fugir, dando á canella
Por esse mundo fóra.
Larga a outra atrás d’ella
A correr... e correu, e correrá...
Mas nunca a apanhará.
E d’então para ca
Ninguem mais se gabou
De que junctas ou perto as incontrou.
Tal medo uma da outra concebeu,
Que aonde a Medicina appareceu,
É logo--n’um momento
Foge a Saude mais veloz que o vento.
Coimbra--1821.
NOTAS DE RODAPÉ:
[6] O Dr. João Eloy Nunes Cardoso, de Monte-mór-o-Novo, outro amigo
velho e verdadeiro, da Universidade.
VII.
O GALLEGO E O DIABO.
Eu por mim gósto de contos,
Diga o mundo o que quizer;
E para mattar o tempo
Um conto quero escrever.
Mattar o tempo é preciso
Aos ignorantes--dirão;
Ao sabio sempre elle corre
Voando, que lento não.
Porêm, amigo censor,
E quem me fez sabio a mim?
Sou eu lente ou academico,
Prégador ou coisa assim?
Verdade é, no Quebra-costas
Minha vez escorreguei,
Fui prêso por Verdeaes,
E á porta Ferrea m...ei.
Mas que doutor fiquei eu,
Se nunca o Martini li,
Se, o que sube da instituta
E do digesto, esqueci?
Sabenças para que servem?
Brucharia, eu t’arrenego!
Vou-me contar o meu conto;
E o meu conto é de um Gallego.
Era uma vez um Gallego
Boçal, felpudo e lanzudo,
Um Gallego em corpo e alma.
Em chancas, juizo e tudo.
Nunca lá das Gallileas[7]
Sahiu cabeça tam romba
A alistar-se nas companhas
Dos bravos heroes da bomba.
Melena loira e comprida,
Azeitada e corredia,
Ôlho azul, pasmado e parvo,
Bôcca aberta, a barba esguia;
Calção de abanante orelha,
Por onde fura o quadril,
Nos pés a fragante chanca,
Ás costas sacco e barril;
Eis-aqui a vera effigie
De Thiago Manuel Juan,
O mais fiel dos Gallegos
Que jamais _comieron pan_.
Em devoção não fallemos,
Que nisso era exemplar;
Deixára um prato de tripas
Para á missa não faltar.
A miudo ia a confêsso;
E nunca o somno o pilhou
Senão a rezar o terço,
Que--nunca mais acabou.
Em duas ou tres egrejas
Era freguez de _basar_;
O seu barril tinha a honra
De agua benta ás pias dar.
Tam devoto, tam modesto
Nunca houve outro Thiago;
Não ha memorias de ouvir-lhe
Nem uma só vez um _ajo_.
Um dia, á volta das onze,
Cançado de apregoar,
--Era em Julho, que escaldava,
Um calor mesmo de assar!--
N’uma egreja de capuchos
O bom de Thiago entrava;
E a egreja tam fresquinha,
Que á oração convidava.
Por tendencia natural,
Instincto de chafariz,
Ajoelhou aopé da pia,
Herdeira de seus barris.
Mal se tinha _santiguado_,[8]
Isto é, se persignou,
Um berreiro destampado
Detrás de si escutou:
Era um membrudo capucho,
Destemido Ferrabraz
Que, a duros botes d’estolla,
Brigava com Satanaz.
Tinha-se o demo incaixado
No bôjo de uma beata,
E d’alli se defendia
Como de uma casa-matta.
Arripiaram-se as melenas
A Thiago no toitiço,
Pôz-se-lhe em pé no cachaço
Até o próprio choiriço.[9]
Mas o ôlho arregallado
Em ponto de admiração,
Não se attrevia a tirá-lo
D’aquella horrivel visão.
Travava a descompostura
Do dize-tu, direi-eu...
Fallava o frade latim
Que nem o demo intendeu.
Satanaz é bom latino;
Ninguem lh’o póde negar:
As syllabadas do frade
Faziam-n’o blasphemar.
Grita o frade:--‘_Abrenuncí-ò!_’
E o cachorro do Asmodeu:
--‘Assim não me deitas fóra;
Dize _abrenún-cio_, sandeu.’
--‘Latim sabe elle, o malditto...’
Disse o frade aos seus cordões;
Que os frades, como os não usam,
Não fallam c’os seus botões:
‘No Latim me venceu elle,
E não fez grande façanha;
Elle é o diabo, e eu sou capucho!
Veremos se o faz na manha.’
Ria o demo ás gargalhadas
Por ter o frade incovado;
E o capucho, de velhaco,
Dava-se ja por cangado,
Mas co’a mão á caldeirinha,
Sem que o pesque Satanaz,
Vai mansinho... e de repente
Prega-lhe a hyssopada--zaz!
Deu tal estoiro a beata,
Que parecia uma bomba ...
Não era ella, era o demo:
Cheira a enxophre que tomba.
--‘Eu te esconjuro, malditto!’
Brada o frade em Portuguez
(Que não quiz comprometter
O seu Latim d’esta vez)
‘Eu te esconjuro, malditto,
Que d’este corpo te vas,
E não tornes a entrar nelle,
Negregado Satanaz.’
--‘Vou-me’ disse o porco-sujo
‘Vou-me embora, Fr. Sandeu,
Que me escalda essa agua benta.
Mas para onde heide ir eu?’