escuro, os mais brilhantes saõ as Estrellas fixas, he por ellas que eu
principiei as minhas experiencias. Regulus, Castor, a {a} do Cocheiro,
Procyon, Cyrius, Rigel, a {a} de Orion, e Aldebaram, eraõ à o mesmo
tempo visiveis, quando eu as observei, pelos seis primeiros Prismas (n.
23). O Prisma acromatico, por este entendo sempre o que he cheyo de agoa
crystalina, fazia ver cadahuma destas Estrellas, como huma piramide de
Luz, da qual a base era vermelha, e o resto verde. Com os Prismas
coloridos, se alteravaõ alguma cousa estas duas Cores, fazendo-se mais,
ou menos escuras; mas naõ se destruiaõ. O Prisma amarello naõ as
alterava, mas antes as reforçava mais, que o branco.
25. A longitude geocentrica de Jupiter era, neste tempo, de 2 S. 24 G. e
alguns minutos; e a de Marte, de 3 S. e quasi 27 G. consequentemente
eraõ ambos visiveis, com as sobreditas Estrellas; achando-se o primeiro
na constellaçaõ de _Gemini_; e o segundo na de _Cancer_. Observei pelos
mesmos Prismas estes dous Planetas, e me deraõ as mesmas figuras, e as
mesmas Cores, que as Estrellas fixas.
26. A lua, no tempo da sua opposiçaõ, vista pelo Prisma acromatico, se
reduz a huma figura oblonga, que termina mais em ponta, de huma parte,
que da outra; e deixa ver cinco Cores na ordem seguinte: Vermelho,
Amarello, Verde, Azul, e Purpura. Exceptuado o Prisma amarello, todos os
outros coloridos, alterando mais, ou menos estas Cores, as conservaõ
todas; mas, o Prisma amarello, reforçando a Verde, e a Vermelha, destroe
todas as outras.
27. Feitas estas mesmas experiencias sobre a Luz de huma vela, ou sobre
hum pequeno circulo branco, de qualquer materia, posto sobre hum fundo
escuro, como hum chapeo, ou qualquer seda, ou pano negro, se vem os
mesmos resultados, que nos numeros precedentes: e assim qualquer outra
experiencia que se faça, neste genero, será huma pura repetiçaõ das que
ficaõ referidas.
_Experiencias do Prisma, feitas sobre hum Ponto escuro, circundado de
hum ambiente lucido._
28. Se, no meyo de huma janella aberta, se suspende huma pequena
esphera, de qual quer materia opaca, observando-se da parte da sombra, a
huma proporcionada distancia, com o Prisma acromatico, entaõ se ve huma
figura oblonga, apparentemente diaphana, e colorida, de baixo em alto,
na ordem que se segue: Amarello, Vermelho, Azul escuro, algum reflexo de
Purpura, e Verde, que saõ, justamente, as mesmas Cores (n. 26. 27.), com
a differença, de se mostrarem em huma ordem diversa. Se esta experiencia
se faz com o Prisma amarello, todas estas Cores se reduzem a Vermelho,
e Verde; occupando o Vermelho a parte inferior da esphera, e o Verde a
superior: o que he bem o contrario, do que succede nas experiencias do
Ponto lucido, em hum ambiente escuro.
29. Se, sobre huma folha de papel branco, pomos hum circulo de seda
negra, ou de qual quer outra cousa da mesma Cor, vemos o mesmo phenomeno
(n. 28), que he sempre inaltaravel em similhantes circumstancias.
_Outras Experiencias do Prisma._
30. Se observamos, pelo Prisma acromatico as nuvens, que em differentes
formas, cobrem o Ceo, da parte do horisonte, à o nascer, ou à o pòr do
Sol, vemos, que as pequenas nuvens brancas nos presentaõ somente a Cor
Vermelha, e Verde: a primeira, da parte donde recebem a Luz; e a Verde
da parte opposta. As nuvens densas, e escuras, nos presentaõ da parte
donde recebem a Luz, a Cor amarella e vermelha; e da parte opposta, as
Cores azul, e verde; e em certas circunstancias, a Cor de Purpura: e
quando as nuvens, assim coloridas, passaõ humas pelas outras, levadas
por diversas correntes de ar, entaõ vemos, que as suas Cores se
mixturaõ, e formaõ outras Cores diversas. Se giramos o Prisma, de sorte
que os rayos da Luz cáhiaõ mais obliquamente sobre a sua face, que
primeiro os recebia quasi perpendiculares, todas aquellas Cores se vaõ
incorporando humas nas outras, e finalmente se reduzem a huma faxa de
Cor mui forte, da qual ametade he vermelha, e a outra parte verde.
31. No ver huma Cidade illuminada, pela Luz do Sol, succede o mesmo. Os
profis, dos edificios illuminados apparecem vermelhos, e amarellos; e os
da parte da sombra, apparecem azues, e verdes, com algum reflexo de
Purpura: mas girando o Prisma, como na experiencia (n. 30) todas estas
Cores, e as que se tivessem composto da sua mixtura, se reduzem a duas,
Vermelho, e Verde. O mesmo succede, se fazemos naturalmente a
observaçaõ com o Prisma amarello. Obtem-se este mesmo resultado,
observando da mesma sorte, de dentro de huma camara, as vidraças, as
persiannas, ou a luz, que entra irregularmente pelas janellas mal
fechadas.
32. A linha do horizonte, no mar, observada com o Prisma acromatico, se
ve sempre de hum Verde mais, ou menos carregado, segundo os differentes
reflexos da Luz, e o estado da superficie da agoa. As ondas mostraõ
sempre a Cor Vermelha, e Verde; e o mesmo succede ás velas dos navios, e
principalmente das pequenas embarcaçoens.
33. Fazendo, de hum terraço elevado, diversas observaçoens sobre as
Cores, vi casualmente ao pòr do Sol, que as velas de hum moinho de
vento, que me ficava à poente, pareciaõ compostas, ao comprido, de dous
panos, hum vermelho, e outro verde, quando ellas estavaõ horizontalmente
situadas. Quando, porem, se avisinhavaõ da perpendicular, começavaõ
estas duas Cores a confundir-se, de sorte que, justamente na
perpendicular, se resolviaõ em huma especie de nuvem, ou sombra muito
escura, a qual se desvanecia á proporçaõ, que as velas se avisinhavaõ
utraves da linha horizontal; em cuja situaçaõ recuperavaõ as duas
primeiras Cores, e na mesma ordem, sempre inalteravel i. e. o Vermelho
na parte inferior, e o Verde na superior.
34. Tambem outra casuàlidade me fez, em hum dia de vento fresco,
encontrar com o Prisma, huma destas bandeiras, que em la se costumaõ
pendurar nas ruas, para indicar festas mais solemnes. O vento a movia em
todas as direcçoens; e muitas vezes a tinha suspensa horizontalmente.
Vendo-a pelo Prisma nesta situaçaõ, parecia huma larga fita, ametade
vermelha, e a outra ametade verde, e quando ondeava irregularmente,
entaõ se via nascer destas duas Cores muitas outras que desapareciaõ
todas, quando a bandeira tornava á situaçaõ horizontal: e neste caso se
recolhia ás duas, de que se tinhaõ formado.
35. Se, em hum quarto de papel branco, colamos hum circulo de seda
negra, de tafetá, por exemplo, e se, em hum pedaço de tafetá, desta
mesma Cor, colamos hum circulo de papel branco, da mesma grandeza do
primeiro; e pomos estas duas figuras, de sorte que os dous circulos
fiquem em justa posiçaõ, hum ao lado do outro, e como comprehendidos
entre duas parallelas: observando-os, pelo Prisma acromatico, os vemos
coloridos com as mesmas Cores; mas em huma ordem diametralmente opposta.
O circulo branco mostra, na sua peripheria superior, as Cores vermelha,
e amarella; e na inferior hum Verde claro, pouco Azul, e hum quasi
imperceptivel reflexo de Purpura. O circulo negro, porem, mostrando
estas mesmas Cores, as faz ver em huma ordem toda opposta, isto he, o
Vermelho, e Amarello na peripheria inferior; e as outras Cores, na
superior.
36. Todas as experiencias feitas com o Prisma, sobre hum rayo de Luz do
Sol, introdusido em huma camera escura, se redusem ás experiencias (n.
24. 25. 26. 27.), isto he, a observar hum Ponto lucido, em hum ambiente
escuro. Este rayo de Luz, se se recebe em hum cartaõ branco, forma neste
hum circulo mui claro, rodeado de hum ambiente escuro, correspondendo
justamente a obscuridade da camera à o azul escuro dos Ceos, nas
observaçoens das Estrellas, e dos Planetas (n. 24. 25.). Se observamos,
pelo Prisma acromatico, este circulo de Luz, o vemos colorido da mesma
sorte, e com as mesmas Cores, que elle se pinta no cartaõ, quando tem
passado à o traves do Prisma; de sorte que tanto vale observar, pelo
Prisma, o rayo de Luz, que sobre o cartaõ he branco, como ver sobre o
cartaõ o rayo de Luz colorido, depois de ter passado pelo Prisma.
37. No que respeita á figura oblonga, formada da incidencia de muitos
circulos, na qual se pretendem achar as sete Cores chamadas primitivas,
deve reflectir-se, que esta figura naõ he que huma pura illusaõ. Ella se
compoem indubitavelmente, de muitos circulos coloridos com as cinco
Cores, que resultaõ da experiencia (n. 26. 27.), os quaes circulos
cahindo huns sobre os outros, mixturaõ aquellas cinco Cores, e formaõ
quantidade de outras compostas, entre as quaes se pertendem destinguir
aquellas, que se chamaõ primitivas.
38. Tanto he isto assim, que, se applicamos ao tubo, que intreduz o rayo
do Sol, huma lamina subtil, de qualquer materia opaca, na qual se tenhaõ
feito cinco, ou seis pequeninos buracos, que naõ distem huns dos outros
mais de oito pontos, ou huma linha; e fazemos passar estes rayosinhos de
Luz pelo Prisma acromatico: entaõ vemos, à huma proporcionada distancia,
sobre o cartaõ, outras tantas figuras coloridas, da mesma sorte, e na
mesma ordem, que se ve hum so rayo mayor de Luz do Sol (n. 36.). Mas se
affastamos, pouco a pouco, o cartaõ, aquellas figuras se avisinhaõ,
cadavez mais, humas das outras; atheque, finalmente, se mixturaõ,
formando huma figura oblonga, comprehendida entre duas parallelas, e
circular nas duas extremidades; aqual figura he absolutamente
similhante, á que forma hum rayo mais forte de Luz do Sol, quando se
recebe obliquamente na face de hum Prisma. Ora as Cores que resultaõ da
mixtura dos, cinco ou sete pequenos rayos de Luz, saõ indubitavelmente
compostas: logo as que se vem na figura oblonga, que resulta de hum so
rayo de Luz, a qual tamben he composta de circulos coloridos, mixturados
huns com os outros, saõ da mesma natureza, e consequentemente naõ se
podem chamar primitivas.
39. Se observamos, com o Prisma amarello, todas as experiencias, que na
camera escura, se fazem com os rayos do Sol, naõ vemos senaõ a Cor
vermelha, e verde: e se fazemos as mesmas experiencias com este Prisma,
todas as figuras conservaõ as mesmas formas, que lhes dá o Prisma
acromatico; mas naõ mostraõ senaõ as Cores vermelha, e verde.
40. Se em huma camera, em que naõ entre Luz alguma erratica, se faz
entrar hum subtilissimo rayo da Luz do Sol, e tendo passado pelo
Prisma, o recebemos em hum cartaõ branco, bem perto do tubo por onde
entra, entaõ naõ vemos, que hum circulo luminosissimo, sem Cor alguma.
Se affastamos mais o cartaõ, vemos este circulo menos luminoso, mas
colorido. E se finalmente pomos o cartaõ em grande distancia, vemos hum
circulo obscuro sem Cor alguma.
41. Fora da camara obscura, succedem os mesmos phenomenos. Se observamos
o Sol, pelo Prisma, naõ vemos que hum circulo de Luz muito clara, sem
Cor alguma. Se observamos da mesma sorte huma Estrella da primeira
grandeza, ou hum Planeta, vemos huma figura colorida. Se finalmente
olhamos pello Prisma para huma Estrella da segunda, ou terceira
grandeza, naõ vemos que hum circulo obscuro, sem Cor alguma. Athequi as
experiencias do Prisma.
_Principios, que resultaõ das experiencias Prismaticas._
42. Todos os conhecimentos physicos se versaõ, ou sobre factos
particulares, ou sobre leys geraes. O conhecimento dos factos, precede
sempre o das leys, as quaes saõ meros resultados das observaçoens, do
que ordinariamente acontece, em hum grande numero de casos particulares;
e que depois servem de norma, para decidir outros casos da mesma
natureza. Assim, das observaçoens feitas sobre o movimento projectil dos
Corpos, em linha direita, e do universal poder da attracçaõ, que os tira
desta linha, se formaraõ as leys, que applicadas a os Planetas, fizeraõ
conhecer o seu curvilineo movimento. Quando as leys geraes servem, para
explicar casos particulares, chamaõ-se entaõ Principios.
43. He com este nome, que se achaõ caracterisadas todas as leys
physicas, que resultaõ das experiencias sobre as Cores, e fazem a
materia da Primeira, e Segunda Parte do Tratado: e he com este mesmo
nome, que eu vou designar as leys, que resultaõ das experiencias
Prismaticas, que acabo de referir nesta Nota.
PRIMEIRO PRINCIPIO.
44. As Cores se manifestaõ, e se formaõ, por meyo da refracçaõ da Luz.
_Escholio._
45. Se na camara obscura, se faz passar hum rayo de Luz, pelo _Set._
Prisma (n. 23.), nem a refracçaõ he sensivel, nem se ve Cor alguma. Se
se faz passar o mesmo rayo de Luz, por hum angulo de 10 gráos, ja he
sensivel a refracçaõ, e a Cor. Hum angulo de 30 gráos, refracte mais a
Luz, e dá mais Cor. E finalmente, hum angulo de 60 gráos, dá huma
grandissima refracçaõ, e as Cores muito vivas. E como as Cores nascem
com a refracçaõ, e augmentaõ á proporçaõ, que ella cresce; naõ se póde,
de forma alguma, contestar a evidencia deste Principio, que
inteiramente concorda com os Principios Oitavo, e Nono, do Tratado (§
43. 48.)
SEGUNDO PRINCIPIO.
46. A Luz, que emana dos Corpos lucidos, e a que he reflectida dos
opacos, contem as mesmas Cores, e produz os mesmos phenomenos.
_Escholio._
47. Se, pelo _prim._ Prisma (n. 23.), se observa Cyrius, e Jupiter,
ve-se em ambos, a mesma figura, e a mesma Cor (n. 24. 25.). Ora a Luz de
Cyrius vem immediatamente de hum Corpo lucido, e a de Jupiter de hum
opaco: logo este Principio he de huma absoluta evidencia.
TERCEIRO PRINCIPIO.
48. A intensaõ da Luz he igualmente destructiva das Cores, como a
densidade da sombra.
QUARTO PRINCIPIO.
49. He com huma Luz mediana, que apparecem, e se formaõ as Cores.
_Escholio._
50. Este quarto Principio (n. 49.) he hum Corollario do Terceiro (n.
48.); e ambos se provaõ evidentemente, com as experiencias (n. 40. e
41.). A grande intensaõ da Luz do Sol faz, que observando-se este astro
pelo Prisma, naõ mostre Cor alguma. A debil Luz de huma Estrella da
segunda, ou terceira grandeza, he a causa, de que ella se veja pelo
Prisma, sem Cor alguma. Mas a Luz de huma grande Estrella, que se póde
reputar mediana entre o Sol, e huma pequena Estrella, presenta mui
vivas, e brilhantes, as duas Cores Vermelho, e Verde. Os phenomenos (n.
41.) saõ identicos; pelo que he inutil o recapitullallos.
QUINTO PRINCIPIO.
51. As cores primitivas saõ duas, Vermelho, e Verde.
_Escholio._
52. Simplez, e primitivo, só se póde chamar aquillo, que naõ he
derivado, nem composto. Para conhecer esta qualidade, em qualquer
substancia, he necessario descompolla, e resolvella nos seus elementos;
que entaõ se chamaõ simplez, e primitivos, quando resistem ás analysis
mais rigorozas, sem soffrerem alteraçaõ alguma. Assim, a respeito dos
corpos, só se pódem ter por elementos simplez, e primitivos, a materia
vitrea e calcarea; por que a estas duas substancias se reduzem todos os
corpos do nosso Globo, por meyo de hum intenso fogo, que naõ tem mais a
força de as descompor; e effectivamente he destas mesmas duas
substancias, que se formaraõ todos os Corpos, de que se compoem a Terra,
e que lhe estaõ inherentes (§. 4.)
53. Pela mesma razaõ, que se tem por simplez, e primitivos, só aquelles
elementos dos Corpos, que resistem á analysis do fogo mais intenso; se
devem ter tambem, por simplez, e primitivas, só aquellas Cores, que
resistem ás analysis mais fortes, que sobre ellas se pódem praticar. E
como as Cores naõ podem soffrer que duas sortes de analysis, huma sobre
os Corpos coloridos, e a outra sobre a Luz tambem colorida: segue-se,
que só se devem ter por Cores primitivas aquellas, que resistem á força
destas analysis, conservando-se inalteraveis. Ora o Vermelho, e o Verde,
saõ as duas Cores, que resistem á força das analysis mais fortes, e que
se conservaõ inalteraveis; quando todas as outras Cores se descompoem, e
se destroem; como se prova das experiencias feitas sobre os Corpos
coloridos (§ 16. 17. 19.), e observaçoens (§ 22. 23.): e igualmente das
experiencias feitas sobre, a Luz colorida (n. 24. 25. 28. 29. 30. 31.
32. 34. 39.): segue-se, que naõ se podem ter, physicamente, por Cores
primitivas, senaõ o Vermelho, e Verde; por serem os elementos
indestructiveis, a que se reduzem todas as outras Cores; e dos quaes as
mesmas se compoem (n. 34.). Ainda que isto bastasse, para provar a
evidencia deste Principio; elle tem ainda a seu favor as duas analogias
(§ 26. 27. 29.), que na presente materia, saõ da mayor concludencia.
SEXTO PRINCIPIO.
54. A Cor Azul he derivada, e naõ primitiva.
_Escholio._
55. Este Principio he hum corollario do Quinto (n. 51.); e a formaçaõ
desta Cor, consta das experiencias, em que se funda o Principio Quarto
(§ 28.).
SEPTIMO PRINCIPIO.
56. A Cor amarella he derivada, e naõ primitiva.
_Escholio._
57. Este Principio he hum corollario do quinto (n. 51.): e o modo, por
que esta Cor se forma, se ve das experiencias, e especulaçoens, em que
se funda o Principio (§ 30.).
OITAVO PRINCIPIO.
58. O Negro he huma Cor positiva, e se forma do Vermelho, e Verde.
_Escholio._
59. A Evidencia deste Principio, se mostra da observaçaõ (n. 33.). As
velas do moinho de vento, de que ali se trata, estando horisontaes,
pareciaõ duas largas faixas, unidas ao comprido, huma verde na parte
superior; e outra vermelha, na inferior. E como estas duas Cores
conservaõ sempre a mesma posiçaõ, sobre a linha horisontal, deviaõ
necessariamente unir-se, à o passar pela perpendicular. He pois nesta
passagem, e uniaõ, que se formava sempre a especie de nuvem ou sombra
mui escura, como fica refferido. Aquela machina estava situada na linha
visual ao ponto, em que o Sol se punha; as suas velas moviaõ-se em hum
plano perpendicular à esta linha, e consequentemente eu as observava da
parte da sombra, e de hum ponto diametralmente opposto à aquelle, donde
partia a Luz, ellas eraõ, quadrilateras, e teriaõ 20 pés de comprido,
sobre cinco, ou seis de largo; eraõ da mesma lona de que se fazem as
velas dos navios; e me ficavaõ na distancia de 250 passos geometricos.
Exponho todas estas circunstancias, porque em observaçoens deste genero,
a direcção da Luz; a sua força; a grandeza, a figura, a materia dos
objectos e a distancia em que se observa, influem muito nos resultados.
As observaçoens feitas sobre as nuvens em movimento, daõ este mesmo
resultado; e as experiencias (§ 16. 17.), feitas sobre as Cores
materiaes, convem inteiramente com as da Luz colorida.
NONO PRINCIPIO.
60. O branco he huma Cor positiva, e nasce da extrema divisaõ das duas
Cores primitivas, Vermelho, e Verde.
_Escholio._
61. As experiencias (n. 40. 41.) mostraõ a evidencia deste Principio. O
Sol, visto pelo Prisma, parece hum circulo de Luz mui viva; mas sem Cor
alguma: por que a Cor se acha dividida em huma grande massa de Luz, e
por isso he invisivel. O mesmo succede na experiencia (n. 40.), em que o
rayo de Luz, depois de passar pelo Prisma, se recebe no cartaõ branco,
ao pé do tubo, que o introduz na camara escura: e como, nesta distancia,
a Luz se acha ainda mui intensa, e cahe sobre huma superficie branca,
que tambem augmenta a sua massa, pela mesma razaõ da experiencia. (n.
41.) naõ deixa ver cor alguma. O mesmo succede com as Cores materiaes;
como se prova pela Taboa XIIII. n. 43. e ainda mais palpavelmente,
mixturando sobre o porphyro, hum graõ de Anil, com duas libras de
Alvaiade, dividindo-o o Branco de tal sorte, que nelle senaõ destingue a
minima sombra de Azul.
62. Digo que o Branco, e o Negro, saõ Cores positivas, (n. 58. 60.)
porque o contrario repugna à todas as leys da physica. Nós recebemos
indubitavelmente a idea dos objectos externos, pelo orgaõ sensoreo da
vista, mediante o reflexo da Luz, a qual, cahindo sobre, os mesmos
objectos, se reflecte à os nossos olhos, trasendo-nos comsigo à sua
imagem (n. 15.). Ora, se a Cor negra naõ fosse que huma privaçaõ da Luz,
seguir-se-hia, que naõ poderiamos receber a idea, nem de huma columna de
marmore negro, nem de qual quer outro corpo da mesma Cor: mas a
experiencia mostra, que estando em justa posiçaõ duas ou mais columnas,
huma de marmore negro, e as outras de marmore branco, vermelho &c.
recebemos taõ clara a idea de humas, como das outras; logo o negro he
huma Cor taõ positiva, como qual quer das outras, a que senaõ disputa
esta qualidade; e assim naõ póde consistir na privaçaõ da Luz.
63. Alem disto, huma taboa de marmore negro, bem polida, reflecte a Luz
taõ exactamente, que nella vemos as imagens dos objectos, como em hum
espelho. Ora, isto naõ póde acontecer, segundo as leys da Catoptrica,
senaõ nos corpos, que reflectem fielmente os rayos da Luz; logo he
imphilosophico o dizer, que a Cor negra consiste na absorbencia dos
rayos da luz; quando os Corpos desta Cor os reflectem igualmente, que os
coloridos de Branco, Vermelho &c. De mais he provado (§ 22. n. 23.), que
a Cor negra se forma da mixtura do Vermelho, e Verde; ora, se a Cor de
Purpura, que se forma de Vermelho, e Azul, he huma Cor positiva; da
mesma sorte o deve ser a Cor negra, que se forma pór huma similhante
combinação. Hum igual raciocinio prova, que o Branco he tambem huma Cor
positiva.
64. O confundir estas duas Cores, huma com a Luz, a outra com a sombra,
deu lugar ás ideas commumente recebidas. He preciso, differençar a Luz,
da Cor branca, e a sombra, da Cor negra. A Luz faz visiveis os objectos,
com as suas qualidades; e a escuridade, produz hum effeito opposto, isto
he, de naõ deixar ver cousa alguma; mas a Luz, e a obscuridade, saõ
tanto a Cor branca, e negra, como a azul, e verde. Ora, nimguem diria,
que estas ultimas duas Cores equivalem á Luz, ou a escuridade; da mesma
sorte senaõ póde dizer isto, das duas primitivas Negro, e Branco;
sabendo-se de outra sorte, o mechanismo da sua formação, pelas
experiencias (§ 16. 17. 19. 22. n. 33.)
65. Taes saõ os Principios, que resultaõ das observaçoens, feitas sobre
as experiencias Prismaticas: os quaes se achaõ inteiramente conformes,
com os que resultaõ das observaçoens feitas sobre as experiencias dos
Corpos coloridos (§ 20. 21. 24. 28. 30. 37. 40. 43. 48.); e que tem
ainda em seu favor, as analogias da Natureza (§ 26. 29.).
_Phenomenos das Cores, explicados pelos Principios, que resultaõ das
experiencias do Prisma._
66. Se as leys geraes, quando servem para explicar casos particulares,
se chamaõ Principios (n. 42.); a explanaçaõ, ou injuncçaõ, destes
Principios, he chamada theoria, ou systema; e os factos que se devem
explicar com elles chamaõ-se phenomenos. Assim os Treze Principios que
presenta este Tratado (§. 20. 21. 24. 28. 30. 37. 40. 43. 48. n. 44. 46.
48. 49.) formaõ huma theoria, ou systema de doutrina, com a qual se
podem explicar todos os phenomenos das Cores.
67. Estes phenomenos saõ de duas sortes, porque ou se manifestaõ na Luz
colorida, ou nas superficies dos Corpos naturaes. Eu vou explicar hum
phenomeno de cadahuma destas especies, que servirá de norma para a
intelligencia de todos os outros.
68. Dos phenomenos da Luz colorida, o mais bello e magestoso, he sem
duvida, o Arco Celeste, que nos tempos mais antigos fez a admiraçaõ dos
homens, e tem sido cantado, com o nome de Iris, pelos mais famosos
Poetas. Este phenomeno, comtudo naõ he outra cousa, que hum grande, mas
identico resultado, á o da experiencia (n. 40.) feita, com huma Luz
mediana, em huma camara obscura.
69. O sol, na vasta camara do Universo, tem lugar do rayo da sua Luz, em
huma pequena camara. As gotas de agoa, de huma nuvem desfeita, ou de
huma nevoa pouco densa, saõ o grande Prisma, em que se refracte, e
modifica, a Luz do Sol. E a parte do Ceo coberta de nuvens, que fica
opposta ao Sol, he o immenso cartaõ, onde se mostraõ as Cores; que saõ
mais distinctas, ou mais confuzas, e mais ou menos em numero, segundo a
obliquidade da Luz do Sol, sobre o grande Prisma por onde passa: da
mesma sorte que na camara obscura, recebendo o rayo da Luz do Sol
perpendicularmente sobre a face do Prisma, naõ forma no cartaõ, que
quatro ou cinco Cores; e recebendo-o obliquamente, forma muitas mais.
70. Quanto á curvatura do Arco, ella procede, de que passando a Lux do
Sol por hum grande angulo, qual he o das gotas de agoa, que formaõ o
Prisma Celeste, se produz aquela curva da mesma sorte, que o angulo de
hum Prisma de 90 gráos, reduz á curvas todas as linhas direitas (n.
22.).
71. Os phenomenos das Cores, que nos presentaõ as superficies dos corpos
naturaes, se explicaõ da mesma sorte. Todos os Corpos saõ compostos de
partes taõ subtis, como fica provado (n. 10. 11. 12. 13. 14.). E como
naõ ha Corpo, por mais compacto que seja, que reduzido a minutissimas
partes, se naõ faça diaphano; segue-se que, a respeito da Luz, que he
muito mais subtil, que as minutissimas partes, de que os Corpos se
compoem, se devem reputar diaphanas, e transparentes as suas
superficies. Ora, como a Luz, no reflectir-se dos Corpos, tem ja passado
por este meyo mais denso, e menos diaphano, que o ar; segue-se que deve
ter sofrido huma, ou mais refracçoens (n. 7.) e que deve
necessariamente, fazer-nos ver colorida a imagem dos objectos (44. 45.).