CINZAS VERDES, Cor especifica do Azul. Chamaõ-se Cinzas verdes, porque
desbotaõ em verde. Veja-se Cinzas Azues.
COCHENILHA, Cor especifica do Vermelho. A Cochenilha he hum pequeno
insecto dessecado, que se exporta da America, em pequenos graõs
concavos de huma parte, e convexos da outra. Ella se emprega para tingir
de escarlate, e purpura: e ella faz a base do Carmin, e da Laca
composta.
E
ESMALTE, Cor especifica do Azul C. XI. 6. O Esmalte he feito de vidro
azul, moido em pó subtilissimo; e quando he mais groceiro, se chama
Cinzas azues. Esta Cor se parece com o Ultramarino, ainda que naõ seja
taõ fina; ella póde imitar-se com o Azul de Prussia, mixturando-lhe hum
pouco de branco de chumbo.
F
FERRETE DE ESPANHA, Cor especifica do Vermelho. Elle se tira das minas,
em huma especie de agulhetas pontudas, e rajadas de negro, e he entaõ
muito escuro; mas depois que se reduz em pó, se faz de hum Vermelho como
sangue. O que se tira nas minas de Inglaterra naõ he em agulhetas, nem
taõ duro como o de Espanha. Elle se póde imitar com os elementos da Tab.
IIII. n.º 8.
G
GOMMA-GUTTA, Cor especifica do Amarello. Esta Cor se faz da gomma de
huma arvore, que crece na India. Eu a tomei por Cor elementar Tab. XIII.
n. 5; porque he susceptivel de todas as variaçoens da sua especie: naõ
he preciso disolvella em agoa de gomma, sendo ella gommada naturalmente.
GESSO, Cor especifica do Branco. O Gesso se faz de huma pedra, de
mediocre duresa, calcinada. O Gesso he menos bello que o Alvaiade; e se
póde imitar com este, escurecendo-o hum pouco de Amarello, e Negro.
L
LACA, nome commum a muitas especies de maça; que se impregaõ na pintura.
Mas o que se chama propriamente Laca he huma materia gommosa, e resinoza
que vem da India. Assim a Laca he huma Cor especifica do Vermelho, Tab.
C. XI. 1. e se póde imitar exactamente, mixturando-lhe alguma cousa de
branco.
M
MASSICOTE, Cor especifica do Amarello. O Massicote se faz de Alvaiade
queimado, e segundo o grao de fogo, que se lhe da, he mais ou menos
carregado. Elle se póde imitar com o elemento Tab. XIIII. n.º 5.
juntando-lhe mais ou menos Branco.
MINIUM, Cor especifica do Vermelho. O Minium se faz de chumbo
calcinado. Parecesse muito com a Cor Tab. C. XI. 2. e se imitará
exactamente com os seus elementos, juntando-lhe alguma cousa de Branco
de chumbo.
N
NEGRO, Cor generica derivada. Pela experiencia Tab. I. n.º 2. elle se
compoem de partes quasi iguaes de Vermelho, Azul, Verde, e Amarello, ou
por melhor dizer, de partes desiguaes de Vermelho, e Verde; pois que
pelas experiencias Tab. VI. VIII. X. XII. n.º 3. se prova com a mayor
evidencia, que no Vermelho, e Verde se contem o Azul e Amarello. O
Negro, assim como as outras Cores genericas, he de muitas sortes; taes
saõ o Negro de fumo, o Negro de pessego, o Negro de Alemanha, o Negro de
marfim, o Negro de osso, e a Tinta da China, os quaes se pódem ver nos
seus respectivos lugares.
NEGRO DE ALEMANHA, Cor especifica do Negro. O Negro de Alemanha he huma
terra natural, que dá hum negro azulado, de que se servem os
Impressores. Elle se póde imitar com os elementos da Tab. X. n.º 7.
NEGRO DE CORTIÇA, Cor especifica do Negro. Elle se faz com o carvão de
Cortiça, e dá hum Negro mui ligeiro, com hum tom de azul, que se
avisinha ás Cinzas do Ultramarino; e póde imitar-se com os elementos da
Tab. VIII. n.º 7.
NEGRO DE FUMO, Cor especifica do Negro. Ella se faz do fumo de
termentina; e para ser de melhor uso, deve calcinar-se sobre huma lamina
de ferro; mas ainda assim se associa mal com as outras Cores, e as
destroe; de sorte que he de pouco uso na pintura.
NEGRO DE MARFIM, Cor especifica do Negro. Elle se faz de raspaduras do
marfim, humedecidas com oleo de linhaça, e queimadas em hum vazo
hermeticamente tapado. Este he o mais bello Negro, que se possa empregar
na pintura.
NEGRO DE OSSO, Cor especifica do Negro. Elle se faz de ossos de animaes,
e da mesma sorte, que o Negro de marfim. V. Negro de marfim.
NEGRO DE PESSEGO, Cor especifica do Negro. Elle se faz com o carvão de
caroços de pessegos, redusidos a pó subtil.
O
OUROPIMENTA, Cor especifica do Amarello. O Ouropimenta claro se avisinha
muito á Cor da Tab. C. XII. 2. elle he composto de arcenico, e enxofre;
e se pode imitar exactamente com os elementos da Tab. XII. n.º 2,
proporcionando as quantidades.
OUROPIMENTA ESCURO, Cor especifica do Amarello. Ella he similhante á Cor
da Tab. VIII. 2. e se póde bem imitar com os seus elementos.
OCRE COMMUA, Cor especifica do Amarello. Ella he huma terra ferruginosa,
que se acha nas minas de chumbo, e de cobre. Assimilha-se muito á Cor da
Tab. C. XII. 2., e se póde compor com os seus elementos.
OCRE DE RUTH, ou OCRE ESCURA. Cor especifica do Amarello. Ella se acha
natural, nas minas de diversos metaes; ou se compoem da Ocre commua, por
meyo da calcinaçaõ. Parece-se muito com a Cor da Tab. B. VIII. 2., e se
póde formar com os seus elementos.
P
PEDRA DE FEL, Cor especifica do Amarello. Ella se póde compor com os
elementos da Cor Tab. A. III. 8, tomando por base o Amarello, e
mixturando-lhe hum quasi nada de Negro, e hum pouco mais de Vermelho.
S
STIL DE INGLATERRA, Cor especifica do Amarello. Ella he mais escura, que
o Stil de Troyes, e pode imitar-se com os elementos da Tab. III. n. 8.
STIL DE TROYES, Cor especifica do Amarello. Ella se compoem de huma
terra cretacea, tincta com o Amarello de Avinhaõ; e pode imitar-se com
os elementos da Tab. III. n.º 8. mixturando com o Amarello, muito pouco
Negro, e Vermelho.
T
TINTA DA CHINA, Cor especifica do Negro. Esta Cor, que se exporta da
China, em pequenos páos, he a melhor para dessenhar, e para lavar
planos; para o que se dissolve em agoa pura, sobre huma palheta, ou em
huma concha. Eu a tomei por Cor elementar, Tab. XIIII. n.º 1. por que se
associa com todas as outras Cores.
TERRA VERDE, Cor especifica do Verde. Esta Cor parece-se muito com a da
Tab. B. V. 10, e se póde exactamente imitar com os seus elementos.
TERRAS VERMELHAS, Cores especificas do Vermelho. Estas Cores se formaõ
todas com os elementos da Tab. A. III. 8.
TERRA DE ITALIA, Cor especifica do Amarello. V. Ocre de ruth.
TERRA DE COLONIA, Cor especifica do Vermelho. Esta Cor he muito escura,
e para a sua composiçaõ se devem tomar os elementos da Tab. A. III. 8.
juntando, à mayor quantidade de Negro, as outras duas Cores.
V
VERDE, Cor generica primitiva, e dominante em todo o reyno vegetal. O
mais bello verde, e que se pode chamar Verde elementar, he o Verde
distillado, ou seja Verdete Tab. XIIII. n.º 4., que he huma especie de
ferrugem do cobre. A agoa pura naõ o dissolve, he necessario para isto
servir-se de qualquer acido vegetal. O çumo de limaõ azedo, ou o vinagre
branco distillado, saõ os melhores, que se pódem empregar. Esta Cor tem
muitas tintas differentes, assim como, Verdete, Verde montanha, Verde
bexiga, Verde azul, Verde-pé de pato, Verde Iris, os quaes se pódem ver
nos seus lugares.
VERDETE. Veja-se Verde.
VERDE AZUL, Cor especifica do Verde. Esta Cor he hum mineral, que
participa do Verde, e Azul, tirando hum tanto para o escuro; e se póde
imitar com os elementos da Tab. III. n. 10., mixturando pouquissimo
Negro.
VERDE BEXIGA, Cor especifica do Verde. Esta Cor tira algum tanto para
Amarello escuro, e se compoem de produçoens do reyno vegetal. Ella póde
imitar-se com os elementos Tab. II. n.º 5. mixturando mui pouco Negro.
VERDE IRIS, Cor especifica do Verde. Ella se compoem das flores de
Lirio; e se póde imitar com os elementos da Tab. XI. n. 8.
VERDE MONTANHA, Cor especifica do Verde. Ella se faz de huma certa area
fina, que se tira das montanhas de Hungria, e Moldavia. Ella póde
imitar-se com os elementos da Tab. XII. n.º 6. mixturando hum pouco de
branco de chumbo.
VERDE-PÉ DE PATO, Cor especifica do Verde. Ella se póde imitar com os
elementos da Tab. VII. n.º 8.
VERDE DE SAXONIA, Cor especifica do Verde. Ella se compoem dos elementos
do Verde-azul, com o qual se parece inteiramente. V. Verde-azul.
VERMELHO, Cor generica primitiva, e dominante em todo o reyno animal.
Ella tem hum grande numero de tintas differentes, taes saõ, a Laca,
Vermelho escuro, Vermelhaõ, Ouropimenta, Carmim, e toda a sorte de
Terras vermelhas; as quaes se podem ver nos seus lugares.
VERMELHAÕ, Cor especifica do Vermelho. O Vermelhaõ ou he natural, ou
artificial. O artificial se faz de azougue, e enxofre; e póde imitar-se
com os elementos da Tab. VIII. n.º 2., mixturando-lhe, para o
encorporar, hum quasi nada de branco de chumbo.
VERMELHO ESCURO ou VERMELHO DE INGLATERRA, Cor especifica do Vermelho.
Elle he huma terra natural, de Cor Vermelha leonada. Esta Cor he mui
terreste, e se chama tambem Ocre vermelha. Ella póde imitar-se com os
elementos da Tab. III. n.º 8. mixturando, de mais, hum pouco de branco
de chumbo.
NOTAS E ILLUSTRAÇOENS.
NOTAS E ILLUSTRAÇOENS.
NOTA I. § 1.
Lock. _Essay concernig. Hum. Understan. Lib. 2.º Cap. 8. § 8. e seg._
NOTA II. § 2.
LOCKE define as qualidades primarias dos corpos: _Qualities thus
considered in Bodies, are, such as are utterly inseparable from the
Body, in what Estate soever it be_; e as secundarias: _Such Qualities,
which in truth are nothing in the Objects themselves, but Powers to
produce various Sensations in us by their primary Qualities_. O que
LOCKE chama poderes, eu o chamo accidentes, por importar o mesmo, e naõ
necessitar de mais extensas explicaçoens.
NOTA III. § 4.
_La solidité & l'arrangement actuel de la terre sont l'ouvrage des eaux,
des corps organisés & du laps de temps. Les végétaux & les animaux ont
fertilisé la croûte superficielle de la terre que nous cultivons. Les
eaux y sont venues à plusieurs reprises._ M. BAUME _Chim. expér. & rais.
T. I. p. 123. Paris. 1773_. Póde ver-se M. de BUFFON, e LINEUS, sobre a
formaçaõ da Terra.
NOTA IV. § 5.
ARISTOXENES pretendia, que os principios da Musica dependessem
unicamente do bom ouvido, e de hum exacto discernimento. {Anagetai}, diz
elle, {dê pragmateia eis duo. eis te tên akoên, kai eis tên dianoian. tê
men gar akoê krinomen ta tôn diastêmatôn megethê. tê de dianoia
theôroumen tas toutôn dunameis}. E mais à baixo: {Tô de mousikô schedon
estin archês echousa tazin ê tês aisthêseôs akribeia}. _L. 2. dos
Element. Harmon._ PITAGORAS porem deduzia os mesmos principios do
proporcional diametro, peso, ou grandeza, do corpo sonoro. NICOMACHO,
depois de referir as observaçoens de PITAGORAS sobre os sons e as
diversas applicaçoens da sua Doutrina à differentes instrumentos, diz:
{Kai sumphônon êurisken en apasi kai aparalêpton tên di arithmou
katalêpsin}. _Encherid. Harmon. L. I_. Póde ver-se tambem EUCLIDES na
sua geometrica _Secçaõ do Canon_, onde a Doutrina de PITAGORAS se
explica com a mayor claresa.
NOTA V. § 7.
As definiçoens de Aristoteles quasi todas saõ confusas; e a que nos
deixou das Cores, he verdadeiramente sua. Elle define assim as Cores:
{Chrôma de esti tou diaphanous en sômati ôrismenô peras}: o que he mais
de pressa a definiçaõ da superficie colorida, que da mesma Cor. Este
sophista pretendia persuadir, que as Cores eraõ inseparaveis dos corpos,
como as suas primarias qualidades; o que he absolutamente inadmissivel,
por ser contrario à todas as experiencias.
NOTA VI. § 8.
EULER combate, no modo seguinte, a opiniaõ de Cartesio a respeito das
Cores. _Des Cartes, der zuerst dem Muth hatte, die Geheimnisse der Natur
zu erforschen, erklaerte die Farben aus einer gewissen Vermischung des
Lichts und des Schattens. Aber da der Schatten ein blosser Mangel des
Lichts ist, indem er sich allenthalben befindet, wo das Licht nicht
hindurchdringen kann, so siehet man wohl, dass das Licht mit einem
Mangel des Lichts vermischt, die verchiednen Farben nicht hervorbringen
koenne, die Wir an den Koerpern wahrnehmen. Breif 133._
NOTA VII § 9.
_Dos numeros, que na presente Nota se acharem entre (), os que forem
precedidos do sinal §. se referem ao Tratado: e os que tiverem antes de
si hum n. indicaõ os numeros desta mesma Nota._
Como a Doutrina de NEWTON sobre as Cores he principalmente fundada nas
experiencias do Prisma, e estas dependem da combinaçaõ da Luz com os
Corpos naturaes: faz-se indespensavel, para comparar os Principios, que
presenta este Tratado com as Proposiçoens do Philosopho Inglez, o dizer
preventivamente alguma cousa a respeito da quellas duas substancias, e
dos phenomenos, que resultaõ da sua combinaçaõ, por meyo das prismaticas
experiencias.
_Da Luz._
2. A Luz consiste em pequenissimas partes de materia, que de hum corpo
lucido, sahem em todas as direcçoens. Segundo o calculo do Dr.
NIEWENTIT, em hum segundo de tempo, sahem 418, 660, 000, 000, 000, 000,
000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000 partes de Luz de huma vela
accesa; o qual numero contem, ao menos, 6, 337, 242, 000, 000 vezes, o
numero de grãos de area, que conteria toda a Terra, suppondo, que cem
grãos de area saõ iguaes à huma polgada de comprido, e que
consequentemente, cada polgada cubica da Terra conteria hum milhaõ dos
ditos grãos.
3. Se a Luz he taõ admiravel pela sua subtileza, naõ o he menos pela sua
velocidade. Em hum segundo de tempo, ella corre 164 mil milhas, ou 50
mil legoas; vindo a ser desta sorte 1, 230, 000 vezes mais ligeira que
huma bala de artelharia, que corre 600 pes, em hum minuto segundo: o que
he innegavelmente certo, pelas observaçoens dos Satellites de Jupiter,
feitas das duas oppostas extremidades do Orbito da Terra.
4. Quando as pequenas partes, de que se compoem a Luz, sahem de hum
corpo luminoso, como o Sol, ou huma vela accesa, se propagaõ sempre em
linha direita: o que se prova evidentemente do constante facto, que os
corpos lucidos deixaõ de ser visiveis, pela interposiçaõ dos corpos
opacos; como as Estrelas fixas, pela interposiçaõ da Lua, e dos
Planetas; e o Sol em todo, ou em parte, pela interposiçaõ da Lua, de
Mercurio, e de Venus.
5. Os rayos da Luz naõ só se propagaõ em linha direita, mas se encrusaõ
huns pelos outros, sem que se confundaõ. Se em huma lamina subtil, de
qual quer materia opaca, fazemos hum buraco, que naõ seja mayor, que hum
ponto, e por elle observamos de noute os Ceos, vemos huma multidaõ de
Estrellas, cujos rayos de Luz, sem confusaõ alguma, se crusaõ todos no
buraco, por onde os observamos: o que demonstrativamente prova esta
asserçaõ.
6. Aquella ley he innalteravel, quando a Luz passa por hum meyo de igual
densidade; mas quando a Luz atravessa hum meyo, de huma densidade
differente da quella, donde partio, neste caso se rompe ou quebra,
avisinhando-se mais, ou menos, da perpendicular.
7. Os Rayos da Luz cahindo obliquamente de hum meyo mais raro, ou mais
diaphano, sobre outro mais denso, ou menos transparente, como do Ar
sobre o crystal, se avisinhaõ da perpendicular, tirada do ponto da
incidencia, à angulos direitos, sobre a superficie do meyo mais denso; a
qual se chama superficie rompente. Se, ao contrario, o rayo passa de hum
meyo mais denso a hum, que o he menos, como do crystal a o Ar, no
romper-se, se affasta da perpendicular. A primeira refracçaõ, chama-se
refracçaõ á perpendicular; e a segunda, refracçaõ da perpendicular.
8. Quanto mais obliquamente os rayos da Lux cahem sobre qualquer meyo,
tanto mayor he a refracçaõ. Assim a refracçaõ da Luz do Sol, a o nascer,
ou ao por-se, he a mayor; por que ella fere mais obliquamente a
superficie da atmosphera da Terra: e á proporçaõ que o Sol se eleva
sobre o horisonte, diminue a obliquidade, e a refracçaõ, athe que no
ponto culminante deste Astro, se reduzem à nada; como se prova pelas
Taboas das refracçoens do Sol, da Lua, e das Estrellas, calculadas pelos
melhores Geometras. He quanto basta à respeito da Luz.
_Dos Corpos._
9. Sendo a verdadeira essencia dos Corpos absolutamente desconhecida,
naõ se póde dar huma justa definiçaõ daquillo, que se chama Corpo. E
como agora se naõ falla dos Corpos, que relativamente á luz, e a o
sentido da vista, póde chamar-se Corpo tudo aquillo, que he capaz de ser
illuminado pela Luz, e visto com os nossos olhos.
10. Os Corpos, assim considerados, devem ser tidos como hum aggregado de
minutissimas partes de materia, e mesmo divisiveis ao infinito. Se
consideramos, de huma parte, huma esphera de materia solida, que toque
com o equator as duas Estrellas Anthares, e Aldebaram; e com os polos,
no Norte, o Dragao, e a Dourada, no Sul: he indubitavel, que, por
calculo, se póde redusir esta immensa esphera a partes taõ pequenas,
como hum graõ de area. Se, de outra parte, consideramos huma esphera,
que naõ tenha, que meyo pé de diametro, he igualmente indubitavel, que o
calculo da primeira esphera se póde applicar á segunda; da mesma sorte
que a escala, de huma carta de navegaçaõ, mede huma grande parte do
Oceano; ou, que huma esphera armilar, de meyo pé de diametro, representa
todo o systema do Mundo. Ora como as partes, que correspondem á ultima
divisaõ da pequena esphera, haõ de ser a hum grão de area, na mesma
proporçaõ, em que meyo pé está a o diametro da grande esphera; o qual he
taõ grande, que segundo as observaçoens, e calculos de BRADLEY, huma
bala de artilheria, a razaõ de 600 pés por segundo, de duas legoas por
minuto, de 120 legoas per hora, de 2880 legoas por dia, e de 1,051,200
legoas por anno, deve gastar 2,000,000,000,000, de annos para o correr:
segue-se, que as partes, que correspondem á ultima divisaõ da pequena
esphera, saõ de tal pequenez, que naõ basta toda a força do entendimento
humano, para as comprehender. Mas eu deixo estes calculos abstractos,
aindaque exactissimos, para fazer ver athe onde póde chegar a physica
divisaõ da materia.
11. Hum fio de seda, de 300 pés de comprido, naõ pesa mais de hum grão:
ora, huma polgada he divisivel em 600 partes visiveis, sendo cadahuma
dellas da subtileza de hum cabello finissimo; logo hum fio de seda, que
naõ pesa mais que hum grão, pode physicamente dividir-se em 2,592,000
visiveis partes.
12. O ouro he o mais ductivel e maleavel de todos os metaes. De hum grão
de ouro tem-se feito hum fio de 500 pés de comprido, o qual physicamente
se podia dividir em partes visiveis 3,600,000.
13. Hum grão de Anil, ou de Azul de Prussia, he divisivel, por
experiencias incontestaveis, em 24,788,000,000 partes, todas claramente
visiveis.
14. Segundo o calculo de NIEWENTYT, a Eolipila resolve, pela actividade
do fogo, huma onça de agoa, em mais de 13,365,000,000 partes. Basta
isto, para dar huma justa idea da divisibilidade da materia, e para
fazer conhecer, que qualquer corpo se compoem de minutissimas partes,
que entresi coherem por huma ley da Natureza, ou por hum admiravel, e
occulto mechanismo, que as theorias mais reflexivas naõ tem pódido
athegora descobrir.
_Da Luz, e dos Corpos, considerados juntamente._
15. Quanto, pois, á materia de que se trata, podem todos os Corpos ser
divididos em lucidos, e opacos. O Sol, as Estrellas fixas, a Luz de huma
vela &c., pertencem a os primeiros; a Terra, todos os Planetas, e
qualquer producçaõ dos tres reynos da Natureza, pertencem a os
segundos.
16. Os Corpos lucidos podemos considerallos, como outros tantos centros
de immensas espheras de Luz; pois que a propagaõ em todas os direcçoens.
O Sol he igualmente visivel, das duas oppostas extremidades, do
vastissimo Orbito de Herschel; e o fanal de hum navio he igualmente
visto, de todos os que o circundaõ sobre a linha do horisonte. A Luz,
encontrando na esphera da sua actividade hum Corpo opaco, he por elle
reflectida à os nossos olhos, e excita em nós a idea desse Corpo,
formando-nos a sua pintura na retina. E como os Corpos saõ visiveis de
todas as partes, a Luz deve ser reflectida por elles em todas as
direcçoens. Assim os Corpos opacos tambem se devem ter, como huns
centros de Luz reflectida, que delles se propaga em todas as direcçoens,
que os mesmos Corpos saõ visiveis.
17. Mas, dos Corpos lucidos à os opacos, ha huma consideravel
differença, a qual consiste, em que os primeiros naõ tem sombra alguma
de si mesmos, sendo os centros absolutos de outras tantas espheras de
Luz propria, que delles parte ao mesmo tempo: em lugar que os segundos,
naõ sendo, que centros parciaes de huma Luz precaria, a reflectem só de
huma parte da sua massa, proporcionadamente á incidencia dos rayos de
Luz, que recebem dos Corpos lucidos; ficando a outra parte obscurecida
com a sua propria sombra.
18. Tal he o caso de Mercurio, de Venus, e da Lua, na sua opposiçaõ, ou
na sua conjunçaõ com o Sol. No primeiro caso, estes Planetas nos
reflectem a Luz, que recebem do grande Luminar, e nos deixaõ ver ametade
da sua massa illuminada. No segundo caso, porem, interceptando a Luz do
Sol, nos presentaõ a parte obscurecida, com a sua propria sombra, a qual
se distingue bem, quanto a Mercurio, e Venus, quando passaõ pelo disco
do Sol; e quanto á Lua, ou poucos dias antes, e depois da sua conjunçaõ,
ou quando nos eclipsa a Luz do Sol. Mas basta de preliminares; passemos
ao nosso Ponto.
_Dos Prismas, e das Prismaticas experiencias._
19. Quando as pequenas partes, de que a Luz se compoem (n. 2), cahem
sobre qualquer Corpo opaco, e saõ por elle reflectidas a os nossos
olhos, naõ só nos excitaõ a idea da figura desse Corpo,
dessenhando-no-la na retina (n. 16); mas tambem no-la-pintaõ, com huma
quasi incomprehensivel, e harmonica variedade de bellissimas, e
differentes Cores. Mas, de todas estas, as mais vivas, e resplandecentes
saõ, as que nos offerecem as experiencias do Prisma.
20. Prisma, geometricamente fallando, he hum solido, do qual duas faces
oppostas saõ dous planos iguaes, e parallelos, sendo todas as outras
faces parallelogrammos. Chama-se {Prisma}, _Prisma_, do verbo Grego
{Priô}, que significa serrar, ou cortar: e effectivamente o Prisma he
huma figura truncada, que parece o segmento de outro Corpo. Porem,
relativamente á Luz, e ás Cores, o Prisma he hum instrumento
triangular, de grandeza indefinida, e de huma materia diaphana, pelo
qual se observa, ou hum Ponto lucido, em hum ambiente escuro; ou hum
Ponto escuro em hum ambiente lucido.
21. Estes Prismas saõ, ordinariamente, feitos de crystal branco; mas
como he dificil o achallos desta materia, bastantemente grandes para se
fazerem as experiencias, podem se os mesmos compor de vidros brancos,
lizos, e delgados, unindo-lhes as junturas com betume, e enchendo-os de
agoa pura, ou colorida, segundo o genero das experiencias, que se
quiserem fazer.
22. Eu os fiz construir de todas as figuras, e com angulos de 10 gráos
athe 90, mas a experiencia me mostrou, que os melhores Prismas, para
observar, saõ os triangulares equilatros. Os de 45 gráos, ainda saõ
bons. Os de angulos menores, naõ mostraõ bem as Cores: e os que excedem
60 gráos, ainda que mostraõ as Cores mui vivas, e fortes, desfiguraõ os
objectos, curvando muito todas as linhas direitas.
23. Os Prismas, com que fiz as minhas experiencias, eraõ feitos de
vidros brancos, lizos, e delgados, unidos com betume de cera, e resina;
e da figura, grandeza, e cor seguinte.
_Primeiro_. Equilatro triangular, de 6 polgadas de comprido; e os
parallelogrammos, de duas de largo; cheyo de agoa crystalina.
_Segundo_. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Carmim.
_Terceiro_. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Azul de
Prussia.
_Quarto_. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Verde
distillado.
_Quinto_. Da mesma figura e grandeza; cheyo de tintura de Açafraõ, que
substitui á Gomma-Gutta, por esta dar huma tintura muito opaca, que naõ
deixava passar os rayos da Luz.
_Sexto_. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Nankim.
_Settimo_. Hum parallelipipedo rectangulo, de duas polgadas de base, e
seis de alto; cheyo de agoa pura.
Taes eraõ os Prismas com que procedi ás seguintes experiencias.
_Experiencias do Prisma, feitas sobre hum Ponto lucido, circundádo de
hum ambiente escuro._