72. Naõ paressa extraordinario, que as superficies dos Corpos, e ainda

dos mais densos, sirvaõ de Prisma à os rayos da Luz, para se formarem as

Cores. Todos os Corpos naturaes saõ compostos de dous simplez elementos,

que saõ a materia vitrea, e calcarea, combinadas de mil modos

differentes (§. 3.). Se a todos os Corpos se faz soffrer a analysis do

fogo mais intenso, elles se reduzem outra vez a estas duas elementares

sustancias, e a huma grande quantidade de vapor, que exhalaõ no tempo da

operaçaõ. Ora, a materia vitrea, e calcarea saõ indisputavelmente

transparentes, ainda a os nossos olhos, quando estaõ reduzidas a partes

de huma certa grandeza: com muita mayor razaõ o devem ser sempre, a

respeito das subtilissimas partes, de que a Luz se compoem.

73. Daqui se ve claramente, que a Cor Vermelha do Rubim, se forma pela

concorrencia das mesmas circunstancias, que fazem parecer vermelha

ametade de huma Estrella (n. 24.), ametade das velas de huma embarcaçaõ

(n. 32.), ou ametade da peripheria dos circulos (n. 35.); e que o Verde

da Esmeralda, se forma pela concorrencia das circumstancias, que fazem

apparecer verde a outra ametade daqueles objectos: e assim a respeito de

todas as mais Cores. Mas qual he o intrinseco mechanismo, que produz taõ

admiraveis effeitos, e para que serve tanta variedade de Cores: quando

no Rubim, e na Esmeralda, naõ vemos que huma mera crystalisaçaõ; e para

as outras experiencias naõ concorre, que hum pedaço de vidro, pelo qual

observamos, ou hum Ponto lucido em hum ambiente escuro, ou hum Ponto

escuro em hum ambiente lucido (n. 20.); e quando a mayor parte dos

Corpos naturaes nos seriaõ igualmente uteis, sendo, ou naõ,

coloridos?--Esta he huma daquellas Questoens, de que eu já fallei no

Tratado (§. 4.); e da qual a decisaõ depende de conhecimentos

superiores, e á força dos nossos sentidos, e mesmo á efficaz penetraçaõ

das nossas intellectuaes faculdades. Limitemo-nos prudentemente à os

factos, e ás verdades que a imparcial, e continua observaçaõ sobre

elles, nos podem procurar; e deixemos de escrutar as causas primarias e

ultimas, que só podem comprehender-se, pela illimitada Sabedoria de hum

SER SUPREMO.

_Succinta comparação das Proposiçoens de Newton, com os Principios, que

presenta este Tratado._

74. A doutrina de Newton sobre as Cores, se contem nas cinco

Proposiçoens seguintes; que transcrevo na lingoa original, em que foraõ

escriptas, para evitar qualquer iquivoco, que poderia recrescer, ainda

da mais fiel traducçaõ.

_PROPOSITIO I._

_Radiis diverse refrangibilibus diversi competunt Colores._

_PROPOSITIO II._

_Radiorum formæ, sive dispositiones colorificæ non sunt refractione

mutabiles._

_PROPOSITIO III._

_Colores albi & nigri, cum cinereis sive fuseis intermediis unius

cujusque speciei, confusè mistis, generantur._

_PROPOSITIO IV._

_Primitivi Colores per compositionem Colorum sibimet utrinque confinium

exhiberi possunt._

_PROPOSITIO V._

_Corporum naturalium Colores a genere radiorum derivantur, quos maximè

reflectunt._

QUANTO á PROPOSIÇAÕ I.

75. Para que esta Proposiçaõ fosse evidente, seria necessario, que

Newton provasse: Que a differente refrangibilidade dos rayos da Luz, que

attraveçaõ o angullo de hum Prisma, provem das diversas Cores destes

rayos; ou que a diversa Cor dos rayos da Luz, saõ a causa da sua

refrangibilidade: o que este philosopho naõ fez certo de forma alguma.

Elle vio, que os rayos da Luz, que passaõ pelo Prisma, se refrangem huns

mais que os outros; e que a Cor vermelha, nas suas experiencias,

corresponde à os rayos menos refrangiveis, e a Cor de purpura à os que

se refrangem mais: e desta observaçaõ concluio; que a os rayos mais

refrangiveis competia a Cor de purpura, è a os menos refrangiveis a Cor

vermelha; e a os que ficaõ entre estes dous extremos, todas as outras

Cores[A].

[Nota A: _Maxime refragibilibus purpura, sive violarum Color competit, &

rubor minime refrangibilibus, atque mediocribus viriditas vel potius

confinium viridis, & viresentis c[oe]rulei. Adeoque radii prout sunt plus

plusque refrangibiles apti sunt ad hos ordine colores, rubrum, flavum,

viridem, c[oe]ruleum, & violaceum generandos una cum omnibus eorum

successivis gradibus & coloribus intermediis._ Newt. Opt. Part. II.

Sect. I.]

76. Mas, como póde huma similhante asserçaõ concordar-se com a

experiencia (n. 35.) que nos mostra, que aquellas duas Cores taõ

oppostas, competem á mesma refracçaõ. Aquelles dous circulos saõ da

mesma grandeza, e estaõ entre duas parallelas; vendo-os pelo Prisma, naõ

se póde duvidar, que as refracçoens, que correspondem à cadahuma destas

parallelas, sejaõ as mesmas. Ora, sobre cadahuma destas parallelas se

ve, ao mesmo tempo, a Cor vermelha, e amarella, no circulo branco; e a

verde, azul, e purpura no circulo negro: logo naõ se póde dizer, que a

os rayos menos refrangiveis compete a Cor vermelha; e à os que soffrem

mayor refracçaõ, a Cor de purpura; visto que de baixo da mesma linha, e

da mesma refrangibilidade, vemos estas duas oppostas Cores.

77. A diversa refrangibilidade da Luz, que passa por hum Prisma,

procedera, tal vez, de outra causa. O rayo de Luz do Sol, que attraveça

hum Prisma, tem sempre dentro delle a figura de hum sylindro obliquo.

Ora imaginando, que o lugar, que occupa este sylindro, he composto de

milhoens de subtilissimos filamentos, alinhados a o comprido, elles

devem ser todos de grandezas differentes; e consequentemente os

subtilissimos rayos da Luz, á o attraveçallos, haõ-de achar mayor, ou

menor resistencia. Póde ser que esta seja a causa, porque, á o sahir do

Prisma, se refractem huns mais, que os outros: sem que isto tenha mais

rellaçaõ com as Cores, que huma bala de artilheria, que attraveça os

dous bordos de huma fragata, e se refrange passando o primeiro de hum

navio.

78. A formaçaõ das Cores depende, tal vez, de outro mechanismo. As duas

Cores primitivas se manifestaõ, por meyo da refracçaõ (n. 44. 45.); mas

a formaçaõ das outras Cores depende de mais circunstancias. Da mesma

experiencia (n. 35.), se prova esta asserçaõ. Se aquelles dous circulos,

se observaõ, à o mesmo tempo, de dous pontos oppostos, então parecem a

hum observador, azues ou purpureas as Cores, que à o outro observador

parecem vermelhas, e amarellas; o que naõ póde nascer das refracçoens,

mas sim da opposiçaõ, da Cor negra, e branca, combinadas com as que

resultaõ da refracçaõ do Prisma.

QUANTO á PROPOSIÇAÕ II.

79. Se Newton pretende persuadir, nesta Proposiçaõ, que qualquer Cor,

conciderada na Luz, ou nos corpos naturaes, depois que he formada, se

naõ muda com a refracçaõ do Prisma, neste caso nada se oppoem a os

Principios deste Tratado. Mas se Newton pretende persuadir, que por isso

que saõ inalteraveis, se devem reputar primitivas; sejame entaõ licito

fazer a seguinte reflexão. Se observamos por hum Prisma duas

superficies, das quaes huma seja vermelha, e a outra de qualquer Cor das

que se naõ tem por primitivas, taõ inalteravel vemos a Cor primitiva

como aquella que o naõ he: e consequentemente o dizer, que algumas das

Cores Prismaticas saõ primitivas, porque se naõ mudaõ com a refracçaõ,

naõ tem a menor concludencia.

QUANTO á PROPOSIÇAÕ III.

80. Esta Proposiçaõ concorda inteiramente com os Principios, Primeiro, e

Segundo (§ 20. 21.); e com o Oitavo, e Nono (n. 58. 60.); que saõ

identicos, ainda que dedusidos de experiencias diversas. O Negro, e o

Branco, contem todas as Cores; aquelle, intimamente unidas (§ 20. 22. n.

58. 59.); e este extremamente, divididas (§ 19. 21. n. 60. 61.): donde

se ve, que a differença destas duas Cores, e de todo o claro-escuro,

consiste só nas quantidades das Cores componentes, a respeito de huma

certa massa de Luz, ou originaria, ou reflectida dos Corpos, com mais ou

menos modificaçoens.

QUANTO á PROPOSIÇAÕ IIII.

81. O sentido desta Proposiçaõ, he dificil de comprehender, muito mais

dizendo Newton, que as Cores primitivas, saõ Cores simplez. Como se póde

imaginar, que sendo as Cores primitivas, elementos simplez, como o

mesmo Newton as caracterisa,[B] se componhaõ das que lhes ficaõ

visinhas? Parece, que este philosopho naõ chegou a formar huma idea

clara das Cores primitivas; porque quando as compara com o canon

armonico[C] ou escala da Musica, deixa entender, que ellas saõ sete.

Quando diz, que naõ entende por Cores primitivas só as cinco Vermelho,

Amarello, Verde, Azul e Purpura, mas todas as que se formaõ desta

sorte,[D] deixa em duvida o numero daquellas Cores. E quando diz,

finalmente, que ellas saõ simplez, e elementares, deixa entender, que se

naõ podem compor de outras Cores.

[Nota B: _Simplices sive primitivi Colores._ Newton Opt. Par. II. Sect.

I. Prop. II.]

[Nota C: _Partes imaginis, quas colores occupant, proporcionales essent

chordæ sic divisæ, ut singulos gradus in octava resonare faciat._ Newt.

Part. II. Sect. II.]

[Nota D: _Per colores autem Primitivos non tantum quinque prædictos

intelligo, sed & quoslibet alios quibus exibendis aptum datur aliquod

radiorum genus._ Newt. Opt. Par. II. Sect. I.]

82. Seria preciso ser outro que Newton, para aclarar as suas ideas, se

ellas saõ confusas. Mas quem reflectir, que o seu systema he fundado em

huma mera conjectura, à que deu lugar a imagem oblonga, que hum rayo de

luz do Sol, tendo passado pelo Prisma, faz ver na camara obscura, se

convenserá facilmente, que de taes Principios se naõ podiaõ deduzir mui

claros resultados. Aquella figura, pelo que ja fica dito, naõ he a pedra

de toque para conhecer o metal das Cores primitivas. (n. 37. 38.)

83. Se, sobre o porphyro, se mixtura com agoa, e em certas proporçoens,

Carmin, e Verde-distillado, forma-se a Cor de Purpura. Se se junta hum

pouco mais de Verde, resulta huma especie de Azul, mui similhante à o

que faz ver o Prisma. Se este Azul, e Purpura se estendem com o pincel

sobre hum papel branco, e depois se tocaõ com hum pincel banhado em agoa

pura, desaparecem estas duas Cores resolvendo-se em hum vermelho mais

escuro, que o Carmin. Se qualquer planta, de hum bello verde, deixa de

ser regada, a sua Cor natural se converte em Amarello; mas acudindo-lhe,

à tempo, com agoa, recupera a sua Cor verde, desapparecendo

absolutamente a amarella.

84. Se a Cor de purpura, e azul se formaõ, e se destroem, como fica

dito (n. 83.); se a amarella se faz nascer do Verde, e se converte outra

vez nelle; (_Nota XVI._) Como se póde crer, que estas tres Cores sejaõ

simplez, e primitivas?

85. As outras duas especies de Azul, e Amarello, que pretendem ver-se no

Prisma, naõ podem ser, que meyas tintas das suas similhantes; por que

seria contrario à o poder, e á simplicidade da Natureza, que, para

formar as Cores naturaes, duplicasse os elementos da mesma especie;

quando a Arte, que he mais composta e menos poderosa, que a Natureza,

forma todas as Cores de huma especie, com hum so elemento, analogo a

essa mesma especie, modificado com o claro-escuro, e com as outras Cores

(§. 76. 77.)

86. Excluidas, assim, das Cores chamadas primitivas, as duas especies de

Azul, e Amarello, e a Cor de purpura; segue-se, que só o Vermelho, e

Verde, se pódem ter por Cores elementares, simplez, e primitivas.

87. Ja que fallei da comparaçaõ dos intervallos dos sons, e das Cores

(n. 81.), naõ devo omittir, que ella se funda em calculos meramente

hypotheticos. Os intervallos das Cores prismaticas naõ se podem

exactamente medir, como o mesmo Newton confessa[E], servindo-se ainda,

da palavra Grega {akribeia}, para dár huma justa idea da diligencia, que

inutilmente empregou nesta operaçaõ. E os rapportos geometricos dos sons

intermedios da oitava, tem taõ pouca similhança com os sons naturaes,

como he notorio á todos os Proffessores da Sciencia da Musica, e a todos

os Geometras[F] (§ 5.). Donde se ve a inconcludencia, de tudo quanto se

tem escripto, neste concernente.

[Nota E: _Cum isthæc quanta potui diligentia observassem, non proprio

tantum sensu consisus, sed (propter summam difficultatem præcise

distinguendi confinia Colorum) aliorum judiciis fretus imaginis

dimentiones juxta inventa deliniavi._ New. Opt. Part. II. Sect. II.]

[Nota F: _En qualité de Géometre, je crois avoir quelque droit de

protester ici (s'il m'est permis de m'exprimer de la sorte) contre cet

abus ridicule de la Géométrie dans la Musique. Je le puis avec d'autant

plus de raison, qu'en cette matierie les fondemens des calculs sont

hypothétiques jusqu'à un certain point, & ne peuvent même être

qu'hypothétiques. Le rapport de l'octave comme 1 à 2, celui de la quinte

comme 2 à 3, celui de la tierce majeure comme 4 à 5, &c. ne sont

peut-être par les vrais rapports de la nature; mais seulement des

rapports approchés . . . ._ M. D'Alembert, Elémen. de Music. Disc.

Prelim. pag. XXX. J. J. Rousseau Diccion. de Mus. na palavra

_Tempérement_.]

QUANTO á PROPOSIÇAÕ V.

88. Nesta Proposiçaon diz Newton, que as Cores dos Corpos naturaes

provem, de que huns reflectem huma parte dos rayos da Luz, que suppoem

diversamente coloridos, e os outros outra; e que assim, o Corpo, que

reflecte os rayos vermelhos, apparesse vermelho; e o que reflecte os

purpureos, apparesse de Cor de purpura. Se Newton tivesse provado, que

na Luz existem todas as Cores, que vemos nos Corpos naturaes; e depois

fizesse certa a absorbencia de huns dos seus rayos, e o reflexo de

outros, teria neste caso, toda a razaõ: Mas Newton naõ prova nenhum

destes antecedentes.

89. Naõ prova o primeiro, porque logo, que faz differença de Cores

primitivas à derivadas ou compostas, naõ tem lugar esta Doutrina: e

quanto à o segundo, pretende provalho _a posteriore_, o que naõ conclue,

tendo em contrario os factos de huma absoluta evidencia, ja refferidos

(n. 35.).

90. Naõ se tenha, por huma refutaçaõ da Doutrina de Newton, o que digo a

respeito de cadahuma das suas Proposiçoens; mas sim por huma resposta

necessaria ás objecçoens, que se poderiaõ fazer contra os Principios,

que presenta este Tratado, apoyadas na recebida theoria daquelle

incomparavel philosopho. Eu ja dei a razaõ, porque me affastei da sua

brilhante, e plausivel hypothesis; (§. 9.) e me parece, que sem

temeridade, antepuz hum systema simplez, e natural, à outro que o naõ he

tanto, e que se funda em huma mera conjectura[G].

[Nota G: _Newton ayant repété plusieurs fois avec beaucoup de soin,

l'experiencie,_ (falla da experiencia, n. 26. 27. 36. 37.), _trouva que

les résultats en étoient très-constants; & après y avoir bien réfléchi,

il assaya de les expliquez par les conjectures suivantes. Il lui vint en

pensée, que la lumiere pourroit être un fluide composé de parties

essentiellement différentes: premiérement, par le degré de

réfrangibilité; secondement, par la propriété d'exciter en nous le

sentiment de certaines couleurs. En effet en supposant ces deux points,

il est aisé de rendre raison &c._ M. Nollet Phys. Experim. Leç. XVII.]

91. Quanto he mais conforme á sabia economia, com que a Natureza procede

em todas as suas operaçoens, o estabelecer sobre reiteradas, e decisivas

experiencias, e sobre convincentes analogias; que na Luz residem só

duas Cores simplez, e primitivas, que saõ o Vermelho, e Verde (§. 24.

n. 51.); que da sua intima uniaõ se forma o Negro (§. 20. n. 58.); que

da sua extrema divisaõ nasce o Branco (§. 21. n. 60.); que das mesmas

duas Cores simplez emana o Azul, e Amarello (§. 28. 30.); e que em fim

destas seis Cores, tomadas como elementos, se podem artificialmente

formar todas as que vemos nos Corpos naturaes (n. 51. e seg. §. 68. e

seg.): quanto he mais conforme, digo, á sabia economia da Natureza este

systema, do que o dizer; que as Cores compostas, ou derivadas nascem da

combinaçaõ de sete elementos, ou de sete Cores simplez, e que estas

residem na Luz, com o poder de imprimir à os seus rayos differentes

gráos de refrangibilidade.

92. Se era hum dogma constante, que os Corpos naturaes procediaõ de

quatro elementos (§. 4); e se huma analysis mais rigorosa os reduz a

duas unicas substancias simplez e primitivas (n. 72.); como se póde

crer, sem ser mais que provado, que as Cores, que naõ saõ que meros

accidentes destes Corpos (§. 2.), dependaõ, para a sua formaçaõ, de

sete differentes elementos?

93. Os Amadores das Sciencias naturaes, à quem offereço a parte

theoretica deste Tratado, se se acharem perplexos entre a novidade da

Doutrina, que elle-lhe presenta, e as oppiniones recebidas, e firmadas

sobre respeitaveis authoridades, e estipadas com a sancçaõ de tempo: os

exhorto a por de parte toda a preocupaçaõ da authoridade, e de procurar

a evidencia, que dezejaõ, na mesma Natureza, por meyo da experiencia, e

de huma profunda meditaçaõ sobre os factos, que ella lhes suggerir.

NOTA VIII. §. 13.

Antes de passar á Parte Analytica, convirá muito de ler hum par de vezes

os §§. 55. athe 63. nos quaes se explica o uzo das Taboas illuminadas,

de que se começa a fallar logo no principio da dita Primeira Parte.

NOTA IX. §. 14.

LUIS DE CAMOENS no seu incomparavel Poema, OS LUSIADAS, descrevendo a

vista da Ilha Namorada, que Venus presentou a os seus Heroes, pinta o

mais bello quadro, que se póde ver sobre a Terra.

_LIII._

_ . . . . . . . . .

Para lá logo a proa o mar abrio;

Onde a costa fazia huma enceáda

Curva, e quieta, cuja branca arèa,

Pintou de ruivas conchas Cytherèa._

_LIIII._

_Tres fermosos outeiros se mostravão

Erguidos com soberba graciosa,

Que de gramineo esmalte se adornavão

Na formosa Ilha alegre, e deleitosa:

Claras fontes e liquidas manávaõ

Do cume, que a verdura tem viçosa;

Por entre pedras alvas se diriva,

A sonorosa lympha fugitiva._

_LV._

_Num valle ameno, que os outeiro fende,

Vinhaõ as claras agoas ajuntarse,

Onde huma mesa fazem, que se estende

Tão bella, quanto póde imaginarse:

Arvoredo gentil sobre ella pende,

Como que prompto está para enfeitar-se,

Vendo-se no cristal resplandecente,

Que em fim o está pintãdo propriamente._

_LVI._

_Mil arvores estaõ ao Ceo subindo

Com pomos odoriferos, e bellos,

A larangeira tem no fruto lindo

A Cor, que tinha Daphne nos cabellos:

Encostase no chaõ, que estâ cahindo

A cidreira cos pesos amarellos,

Os fermosos limo[~e]s, alli cheirando,

Estaõ virgineas tetas imitando._

_LVII._

_As arvores agrestes, que os outeiros

Tem com frondente coma ennobrecidos,

Alamos saõ de Alcides, e os loureiros

Do louro Deos amados, e queridos:

Mirtos de Cytherêa cos pinheiros

De Cybele, por outro amor vencidos,

Está apontando o agudo cypariso

Para onde he posto o eterno Paraiso._

_LVIII._

_Os doens, que dá Pomòna, alli Natura

Produze differentes nos sabores,

Sem ter necessidade de cultura,

Que sem ella se daõ muito melhores:

As cerejas purpureas na pintura,

As amoras, que o nome tem de amores,

O pomo, que da patria Persia veyo,

Melhor tornando no terreno alheyo._

_LIX._

_Abre a Romãa, mostrando a rubicunda

Cor, com que tu Ruby teu preço perdes,

Entre os braços do ulmeiro estâ a jucunda

Vide c[~u]s cachos roxos, e outros verdes:

E vós se na vossa arvore fecunda,

Peras piramidais, viver quiserdes,

Entregaivos ao dano, que cos bicos

Em vós fazem os passaros iniquos._

_LX._

_Pois a tapessaria bella e fina,

Com que se cobre o rustico terreno,

Faz ser a de Achemenia menos dina,

Mas o sombrio valle mais ameno:

Alli a cabeça a flor Cefisia inclina,

Sobolo tanque lucido, e sereno,

Florece o filho, e neto de Cyniras,

Porquem tu Deosa Pafia, inda suspiras._

_LXI._

_Para julgar dificil cousa fora,

No Ceo v[~e]do, e na terra as mesmas Cores

Se dava às flores cor a bella Aurora,

Ou se lha daõ a ella as bellas flores:

Pintando estava alli Zefiro e Flora

As violas da Cor dos amadores,

O lirio roxo, a fresca rosa bella,

Qual reluze nas faces da donzella._

_LXII._

_A candida Cecem das matutinas

Lagrimas rociada, e a Manjarona;

Vem se as letras nas flores Hyacintinas,

Taõ queridas do filho de Latona:

Bem se enxerga nos pomos e boninas,

Que competia Cloris com Pomona;

Pois se as aves no ar cantando voaõ,

Alegres animaes o chaõ povoão._

_LXIII._

_Ao longo da agoa o niveo Cisne canta,

Responde lhe do ramo Filomella,

Da sombra de seus cornos naõ se espanta,

Acteon n'agoa cristalina, e bella:

Aqui a fugace Lebre se levanta

Da espessa mata, ou timida Gazella,

Alli no bico traz ao caro ninho

O mantimento o leve passarinho._

_Canto 9._

NOTA X. §. 16. 17.

Aindaque a Cor, que resulta da mixtura do Vermelho, Azul, Verde, e

Amarelo, combinados em partes iguaes, ou somente da mixtura do Vermelho,

e Verde, combinados nas proporçoens das Tab. VI. n. 3. VIII. 3. X. 3.

XII. 3. naõ seja huma Cor taõ escura, como o negro mais carregado, que

se pode formar; naõ deixa com tudo de ser huma Cor composta de claro

escuro, similhante à Cor de chumbo, ou Cor de cinza, que se compoem de

Negro, e Branco, sem que nella domine alguma das Cores, de que se

compoem. Isto he quanto basta, para ter lugar o argumento, que se forma

sobre esta experiencia; e para ser bem fundada a inducçaõ que della se

tira. O mesmo Newton comvinha em que a Cor branca, a Cor de cinza, e a

Cor negra eraõ a mesma cousa, e só differiaõ entre si, em ter huma mais

luz que as outras.

NOTA XI. § 21.

Veja-se a Tab. XIIII., e a sua explicaçaõ § 62.

NOTA XII. §. 22.

Esta experiencia prova com toda a evidencia, que as Cores primitivas, e

originarias saõ unicamente duas, a saber, o Vermelho, e o Verde. Por

quanto, se da mixtura destas duas Cores resulta a mesma Cor, que provem

do Vermelho, Azul, Verde e Amarello (naõ fallo do Negro, e Branco,

porque estas só contribuem para o claro escuro) seguesse, que o Azul, e

o Amarello se contem no Vermelho, e Verde, pois que na mixtura destas

quatro Cores, naõ tem o Azul, e Amarello influencia alguma: o, que

tambem se acha comprovado com as mais naturaes analogias.

NOTA XIII. §. 25.

OPITZ, fallando do Homem, diz:

_Die Welt, das grosse Buch, aus deren Thun und Wesen.

Er von demselben kann auf allen Blaettern lesen._

_Vesuv._

NOTA XIIII. §. 27.

Quanto mais obliquamente cahem os rayos da luz sobre a superficie de

algum meyo, tanto mais forte, e mayor he a sua refracçaõ. Daqui vem que

a Luz de Sol entrando obliquamente na atmosphera da terra, quando

aquelle luminar coincide com o horizonte, padece huma refracçaõ mais

sensivel, que faz ver huma Cor, em que domina o Vermelho, a qual se

desvanece à proporção, que o Sol se eleva sobre o horizonte, e se

deminue a obliquidade da luz. Por hum similhante mechanismo se formaõ

todas as mais Cores. A Azul de que se trata neste §., bem se vè, que he

produsida da mera refracçaõ da Cor da Aurora.

HOMERO caracterisa admiravelmente esta decantada Cor nos seguintes

versos.

{Êus men krokopeplos ap Ôkeanoio roaôn Ôrnuth, in athanatoisi phoôs

pheroi êde brotoisin}. _Iliad. liv. XIX. v. I_.

O Licor alkalino phlogisticado, de que se compoem o Azul de Prussia, se

prepara com o sangue dos animaes; e unindo-se ou mixturando-se com

vetriolo de Marte, produz a Cor azul. Naõ he só no reyno animal, que o

ferro produz este effeito. O páo do Brasil, que em agoa natural, larga

huma Cor vermelha, metendo-o de infusaõ em agoa ferrea, dá huma Cor

azul, como a de Anil. O Dr. SEHORT falla munto desta experiencia; e eu

a fiz algumas vezes analysando agoas mineraes. A affinidade destas duas

Cores, Vermelho, e Azul, se prova ainda, em rasaõ inversa, do constante

facto, que o Azul dos vegetaes se muda em Vermelho, por meyo dos ácidos

mineraes, e vegetaes.

NOTA XV. §. 29.

MILTON, no Liv. VII. do _Paraiso Perdido_, nos presenta todos os

Vegetaes, sahindo da maõ do CREADOR, ornados da agradavel Cor de Verde,

que nelles geralmente domina:

_He scarce had said, when the bare earth, till then

Desert and bare, unsightly, unadorn'd,

Brought forth the tender grass, whose verdure clad

Her universal face with pleasant green,

Then herbs of every leaf, that sudden flour'd

Op'ning their various colours, and made gay

Her bosom smelling sweet: and these scarce blown,

Forth flourish't thick the clustring vine, forth crept

The smelling gourd, up stood the cornie reed

Embattell'd in her field: and the humble shrub

And bush with frizl'd hair implicit: last

Rose as in dance the stately trees, and spred

Their branches hung with copious fruit; or gemm'd

Their blossoms: with high woods the hills were crown'd

With tufts the vallies and each fountain side,

With borders long the rivers. That eart now

Seem'd like to heav'n, a seat where Gods might dwell,

Or wander with delight, and love to haunt

Her sacred shades . . . . . . ._

NOTA XVI. §. 30.

Tratado das Cores Que consta de tres partes: analytica, synthetica, hermeneutica · 第 4 / 5 段