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Notas de transcrição:
Este livro foi publicado no século XVIII, quando a
ortografia portuguesa não se encontrava normalizada.
Foram mantidas as inconsistências de escrita, por
exemplo: cadahuma/cada huma, cinco/sinco, graõ/grão,
Pomona/Pomòna. No entanto, os erros de composição
foram corrigidos, por exemplo uma única ocorrência
de "observacoens".
No Vocabulario das Cores, a letra S vinha depois da
letra T; isso foi corrigido na transcrição.
A errata presente no final da obra foi aplicada no
texto.
As notas de rodapé que consistiam unicamente numa
referência para a secção de notas foram intercaladas
com o texto, p. ex. "estas se dizem secundarias, porque
saõ accidentes separaveis dos mesmos corpos [NOTA II.]"
As outras notas de rodapé foram colocadas logo a seguir
ao parágrafo a que dizem respeito, e marcadas com
[Nota A: ].
o local das ilustrações encontra-se marcado com
[Ilustração: ]
O texto em versaletes (maiúsculas pequenas) foi
colocado em maiúsculas.
O texto em itálico foi colocado entre _ e _.
Os textos em grego encontram-se transliterados entre
{ e }, por exemplo: {dê pragmateia eis duo}. A letra
upsilon foi sempre transliterada como "u", nunca como
"y".
O texto em língua alemã continha o sinal _umlaut_ arcaico:
um "e" por cima da letra. Foi transcrito da seguinte
forma: ae, oe, ue.
A ligação latina oe foi marcada como [oe].
Sempre que o til surgia sobre a letra e ou u, foi
colocado assim: [~e],
[~u].
_Fim das notas de transcrição._
TRATADO
DAS
CORES.
TRATADO
DAS
CORES
QUE CONSTA DE TRES PARTES
ANALYTICA, SYNTHETICA,
HERMENEUTICA:
OFFERECIDO
AOS AMADORES DAS SCIENCIAS NATURAES, E A OS
DILECTANTES, E ARTISTAS, QUE COMEÇAÕ
A OCCUPAR-SE EM TODO O GENERO
DE TRABALHO COLORIDO:
POR
DIOGO DE CARVALHO E SAMPAYO,
CAVALHEIRO DA ORDEM DE MALTA.
MALTA
Na Officina Typographica de S. A. E.
Impressor Fr. Joaõ Mallìa
MCCLXXXVII.
_Com licença dos Superiores._
--Hujus enim ignorantia quam plurimos, labore non exiguo, sed inani
tamen, exercuit--_NEWT. Opt. par. secund. Sect. prima_.
PREFACÇAÕ
Este breve Tratado naõ he outra cousa mais, que huma clara exposiçaõ das
minhas ideas, a respeito das Cores, na mesma ordem, com que ellas se me
presentáraõ. Illuminando alguns planos, me apercebi dos diversos
effeitos, que resultavaõ da mixtura de differentes Cores. Fiz
experiencias mais methodicas, e me pareceo, que sobre os seus
resultados, se poderiaõ estabelecer alguns Principios. Estes Principios,
nascidos da experiencia, os achei conformes ás analogias da Natureza; e
assim os tive por verdadeiros.
No fazer as mencionadas experiencias vi, que com pouquissimas Cores, se
poderiaõ formar todas as precisas, para imitar a Natureza. Ordenei
algumas Taboas, que logo me servíraõ para os meus curiosos
intertenimentos, os quaes por este methodo, me ficáraõ muito mais
faceis.
Terei a mayor satisfaçaõ de que os verdadeiros Amadores das Sciencias
Naturaes achem as minhas hypothesis bem fundadas: e espero que em huma
sciencia puramente natural naõ exigiráõ demonstraçoens geometricas,
contentando-se da experiencia, e de bem fundadas analogias, que saõ a
verdadeira prova desta sorte de Conhecimentos.
Os Dilectantes, e Artistas que começaõ a occupar-se em todo o genero de
trabalho colorido, acharaõ o modo de formar, com poucos elementos, huma
infinidade de Cores, que jamais seraõ repugnantes, e que sempre se
concervaraõ, quanto ao brilhante, na mesma proporçaõ, com que se
empregáraõ, sem que humas fiquem permanentes, e as outras sujeitas ás
alteraçoens do tempo.
Se deste breve Tratado resultar alguma luz á quella parte da Phisica,
que se versa sobre as Cores; e se elle puder contribuir para guiar o
trabalho dos Dilectantes, e Artistas que começaõ a occuparse da sua
combinaçaõ: eu darei por bem empregados os poucos dias que passei em
compollo; e a nimguem pezará de ter sacrificado os poucos momentos, que
saõ necessarios para o ler.
ARGUMENTO
DA
INTRODUCÇAÕ.
_Primarias, e secundarias qualidades dos corpos §§ 1, 2._
_Todas as producçoens da Natureza saõ effeitos da mera combinaçaõ de
principios mais simplez § 3._
_A verdadeira natureza dos corpos, isto he dos seus primitivos
principios, he absolutamente desconhecida § 4._
_Igualmente he desconhecida a natureza das suas secundarias qualidades §
5._
_Opiniaõ de Aristoteles sobre as Cores § 7._
_--Dos Cartesianos § 8._
_--De Newton § 9._
_Divisaõ do presente Tratado § 10._
_Explicaçaõ das Taboas § 13._
ARGUMENTO DA PRIMEIRA PARTE,
QUE CONTEM A ANALYSIS DAS CORES.
_O magestoso espectaculo do Universo, entre huma infinita variedade de
Cores, nos presenta seis mais claras, e distinctas: e quaes sejaõ estas
Cores § 14._
_Modo de as preparar para fazer as experiencias, e para se servir dellas
§§ 15, 16._
_A Cor Negra provem da mixtura das Cores primitivas, e das que
immediatamente dellas se derivaõ § 17._
_A Cor Branca nasce da extrema divisaõ das mesmas Cores § 19._
_O Negro he huma cor positiva § 20._
_O Branco he igualmente huma Cor positiva § 21._
_O Vermelho, e Verde saõ as duas Cores primitivas § 24._
_A Cor Azul naõ he primitiva, mas sim derivada do Vermelho § 28._
_A Cor Amarella naõ he primitiva, mas sim derivada do Verde § 30._
ARGUMENTO DA SEGUNDA PARTE,
QUE COMTEM A SYNTHESIS DAS CORES.
SECÇAÕ PRIMEIRA.
_Para recebermos a sensaçaõ das Cores, he necessario, que concorraõ trez
cousas, a luz, os corpos illuminados, e o orgaõ sensorio § 35._
_O orgaõ sensorio da vista nada contribue para a formaçaõ das Cores §
37._
_A formaçaõ das Cores naõ depende só da diversa contextura dos corpos §
40._
_As Cores primitivas, e as que dellas se derivaõ, dependem para se
manifestarem, e da luz, e da contextura dos corpos § 43._
_Analogia das Cores originarias com o fogo electrico § 44._
_A Luz, pelo reflexo, transmite a imagem dos corpos; e pelo reflexo, e
refracçaõ, os faz ver de differentes Cores § 47._
_As duas Cores primitivas se manifestaõ pela descomposiçaõ, que a luz
padece, urtando os corpos naturaes § 48._
_A diversidade das Cores resulta da differente combinaçaõ das duas
primitivas, e das que immediatamente dellas se derivaõ, nascida das
diversas refracçoens, comque a luz se modifica, urtando a superficie dos
corpos § 48._
_Os phenomenos do Prisma saõ os mesmos que os do Iris § 49._
SECÇAÕ SEGUNDA.
_A Natureza, para colorir todo o Universo, se servio unicamente de duas
Cores; mas a Arte para imitar as suas admiraveis obras, necessita de se
servir de seis § 51._
_Para mudar as Cores, se devem mudar as superficies § 52._
_Modo de formar toda a sorte de Cores § 55._
ARGUMENTO DA TERCEIRA PARTE,
E ESTA HERMENEUTICA.
_Divisaõ de todas as Cores § 68._
_Vocabulario das Cores, que contem a explicaçaõ das Cores mais
conhecidas, segundo os principios deste Tratado; indicando ao mesmo
tempo a similhança, que ellas tem com as Cores das Taboas A, B, C, D, ou
com as seis Cores genericas da Tab. XIV. n. 1. 2. 3. 4. 5. 6._
NOTAS, E ILLUSTRAÇOENS.
EXPLICAÇAÕ
DE
ALGUMAS PALAVRAS DE ORIGEM GREGA, QUE SE ACHAÕ NESTE TRATADO.
_Analysis palavra Grega {Analusis}, que significa resoluçaõ, ou
descomposiçaõ de alguma cousa para achar os seus elementos._
_Synthesis {Sunthesis}, composiçaõ._
_Hermeneutica de {Ermêneuô} interpretar, explicar._
_Analogia {Analogia}, proporçaõ, rasaõ similhante._
_Physica de {Phusis}, a natureza._
_Phenomeno de {Phainomai}, apparecer, manifestar-se. Phenomeno quer
dizer cousa, que apparece, e se faz visivel._
_Theoria {Theôria}, contemplaçaõ, meditaçaõ de cousas superiores, e de
difficil comprehençaõ. Collecçaõ de principios, que formaõ o tratado de
qualquer Disciplina. Esta palavra vem do verbo {Theôreô}, que significa
considerar, contemplar._
_Hypothesis {Upothesis}, supposiçaõ, opiniaõ; condiçaõ com que se
discorre._
_Homogeneo de {Omogenês}, do mesmo genero, e qualidade._
_Heterogeneo de {Eterogenês}, de diverso genero._
_Problema {Problêma}, proposiçaõ, questaõ, duvida._
_Atmosphera de {Atmos}, vapor, e de {sphaira} esphera; quer diser huma
esphera de vapores._
TRATADO DAS CORES.
INTRODUCÇAÕ.
Todos os corpos naturaes, de que se compoem o Globo da Terra, e que lhe
estaõ inherentes, alem das primarias qualidades, que constituem a sua
essencia, e os fazem uteis, saõ dotados de outras qualidades
secundarias, que prehenchendo tambem este mesmo fim, os fazem ao mesmo
tempo agradaveis [NOTA I.].
§ 2. As primarias qualidades dos corpos saõ a figura, a grandeza, a
contextura das suas partes constituentes, e outras. As secundarias porem
consistem no som, no gosto, no cheiro, na Cor &c. Aquellas chamaõ-se
primarias, porque dellas se compoem a essencia de todos os corpos: estas
se dizem secundarias, porque saõ accidentes separaveis dos mesmos
corpos [NOTA II.]. Mas, de todas estas qualidades, eu naõ fallarei que
da differente organizaçaõ ou contextura dos corpos, e da sua Cor; por
serem as outras alheas do prezente assumpto.
§ 3. Todas as producçoens da Natureza, que fazem o objecto da
contemplaçõ do homem, saõ hum puro effeito da mera combinaçaõ de
principios simplicissimos, que a mesma Natureza, por meyo de huma serie
de concatenadas operaçoens, variou ao infinito. Para achar estes
principios, o processo mais natural seria huma exacta, e rigorosa
analysis. Mas he bastante este methodo, para descobrir os originarios, e
primitivos principios?--Parece que naõ he bastante; mas he sem duvida
hum caminho seguro, para fazer maravilhozas descobertas, e para levar,
de hum certo modo, as Sciencias, e Artes a sua perfeiçaõ.
§ 4. A analysis de todos os corpos, que compoem o imperio da Natureza,
os reduz todos a quatro elementos; e he quanto basta, para ser de summa
utilidade á especie humana. Mas segue-se por isso, que estes quatro
elementos sejaõ os primeiros, e simplez principios dos corpos
organizados?--Póde ser que o Ar naõ seja que hum fogo condensado; e que
a Agoa seja muito bem hum ar mais denso. A Terra he, sem duvida, hum
composto de agoa crystallizada, que forma a parte vitrea; e de despojos
de corpos organisados, que formaõ a parte acida, e alkalina: de cuja
reciproca mixtura resulta todo o reino mineral [NOTA III.]. Mas aquelle
fogo, onde vai terminar esta analysis, he elle composto de partes
homogeneas, ou as suas constituentes partes saõ ellas de differente
natureza?--Questoens deste genero naõ saõ da repartiçaõ do homem: ellas
dependem de principios desconhecidos, e taõ distantes dos limites dos
nossos conhecimentos, que o occupar-se dellas, seria perder inutilmente
o tempo.
§ 5. A inevitavel difficuldade, que se encontra, em descobrir a natureza
dos primitivos principios dos corpos, he tambem commum aos seus
accidentes, ou sejaõ secundarias qualidades. A observaçaõ dos homens
mais reflexivos tem descoberto na Natureza dous sons, hum dos quaes he
extremamente grave, e o outro nimiamente agudo: de cuja replica e
combinaçaõ nascem os sons elementares de todas as linguas; e se compoem
toda a sorte de canto, e armonia. Mas conheceraõ os antigos, e modernos
cultivadores da Musica a natureza destes sons, ou podéraõ jamais
sujeitallos a huma exacta proporçaõ, ou arithemetica, ou
geometrica?--Naõ chegáraõ ja mais a este ponto: e as escholas de
Pitagoras, e Aristoxenes [NOTA IV.] naõ faraõ eternamente outra cousa
mais, que disputar sobre a preferencia da theoria ou da pratica, sem
passar alem da mera observaçaõ de poucos phenomenos, donde se tem
deduzido os principios, que formaõ a arte musical.
§ 6. Se isto succede a respeito dos sons, naõ he mais intelligivel a
natureza da outra secundaria qualidade dos corpos, que consiste na
admiravel variedade das Cores. Os Philosophos de todos os tempos, os
Historiadores Naturaes, os Poetas, e os Artistas, se tem reflexiva, e
attentamente occupado deste interessantissimo objecto; ja para explicar
a natureza das Cores, e classificallas na sua ordem natural; ja para se
servir dellas, com mayor vantagem, na pratica dos trabalhos coloridos:
sem que athegora, de tantas indagaçoens reunidas, tenha resultado huma
theoria fundada, que possa satisfazer o espirito do Philosopho, ou
servir de guia ao Artista: e em lugar de explicar o admiravel systema da
Natureza, naõ fizeraõ outra cousa mais que confundillo, e perturballo;
servindo-se de theorias complicadas para explicar phenomenos simplez,
donde naõ podiaõ nascer que confusissimos resultados.
§ 7. Aristoteles affirmou: Que as Cores eraõ propriedades ou qualidades
dos corpos, e que existiaõ nelles sem dependencia da luz. Esta sua
opiniaõ naõ a provou de forma alguma; nem o podia fazer, achando-se ella
contraria a todas as experiencias [NOTA V.].
§ 8. Os Cartesianos diziaõ: Que naõ havia Cores primitivas, attribuindo
todas as Cores só ás differentes modificaçoens, que a luz recebe pelo
reflexo, e pela refracçaõ; sem se lembrarem do famozo principio do
Poeta Epicureo: Que do nada naõ póde resultar cousa alguma; e que assim,
se nem os corpos, nem a luz tem Cor, por mais combinaçoens que se façaõ,
naõ pode dellas resultar Cor alguma [NOTA VI.].
§ 9. Os Philosophos naturaes seguiaõ ou huma ou outra destas duas
opinioens, quando o immortal Newton publicou a segunda parte da sua
Optica, com hum novo systema sobre as Cores. O Peripateticismo, e a mal
fundada hypothesis de Cartesio cederaõ immediatamente ao brilhante
systema de Newton, que foi logo abraçado de muitos; e que, a pesar de
grandes contradiçoens, passa de hum seculo, que he implicitamente
seguido de todo o mundo. Se alguma cousa me fez vacillar sobre a
concludencia dos Principios, em que se estabelece este Tratado, foi o
ver que alguns delles se oppunhaõ a parte das sinco Proposiçoens, em que
Newton fundou a sua doutrina sobres as Cores. Mas as repetidas
experiencias, as exactas observaçoens, e as naturaes analogias em que se
fundaõ estes Principios, me fizeraõ antepor a força da evidencia,
talvez a mais plausivel de todas as opinioens. E sem aspirar ao
proselytismo, farei, em lugar competente, huma succinta comparaçaõ das
Proposiçoens de Newton com os mencionados Principios; ficando sempre a
cadahum a inteira liberdade de seguir o que lhe parecer mais bem fundado
[NOTA VII.].
§ 10. Sem deixar de ter a mayor consideraçaõ pela respeitavel memoria
dos celebres Auctores de taõ diversas opinioens, eu puz de parte toda a
preoccupaçaõ da auctoridade, e tomei somente a pura Natureza por guia do
meu trabalho, no compor o presente Tratado. Elle naõ se versa sobre a
intima natureza das Cores, a qual sempre nos sera desconhecida; mas sim
sobre as suas sensiveis propriedades, em quanto estas podem ser de algum
uso, ou nas Sciencias Naturaes, ou nos trabalhos coloridos. Analysando
as principaes Cores, que nos offerece o variado, e maravilhozo quadro do
Universo, naõ só achei as Cores originarias, e primitivas, que a
Natureza combinou de mil modos differentes, para o colorir; mas tambem
achei quaes saõ as Cores elementares, preparadas pela Natureza, ou pela
Arte, das quaes se devem servir os Artistas nos seus trabalhos
imitativos. A exposiçaõ do processo, que segui para achar estes
resultados, constituirá a Parte Analytica.
§ 11. Combinando as Cores elementares [VEJA-SE A NOTA XXIII.] preparadas
pela Natureza, ou pela Arte, achei todas as graduaçoens das Cores
compostas, relativas a cadahuma dellas; e as classifiquei na ordem mais
natural, e intelligivel. A exposiçaõ deste processo formará a Parte
Synthetica; a qual por mayor clareza devidi em duas Secçoens. A primeira
expora o modo, com que a Natureza, por meyo de huma combinaçaõ admiravel
das duas Cores primitivas, formou todas as que vemos nos corpos
naturaes. A segunda indicará o methodo com que, só com as duas Cores
primitivas, e quatro outras que se derivaõ immediatamente dellas, se
podem imitar todas as Cores naturaes.
§ 12. A parte Hermeneutica conterá hum pequeno Vocabulario com a
explicaçaõ das Cores mais conhecidas, segundo os Principios deste
Tratado.
§ 13. E finalmente as Taboas illuminadas, que se juntaõ, dilucidaraõ com
as proprias Cores, a theoria que vou dar por escrito: e os seus usos, e
applicaçoens se exporaõ nos respectivos lugares [NOTA VIII.].
TRATADO DAS CORES.
PARTE PRIMEIRA,
QUE CONTEM A ANALYSIS DAS CORES.
Contemplando o magestoso espectaculo do Universo, nos presentaõ os
corpos naturaes huma maravilhoza, e quasi incomprehensivel variedade, e
mixtura de differentes Cores [NOTA IX.]. Entre estas porem se destinguem
positivamente seis, a saber: o Negro, o Vermelho, o Azul, o Verde, o
Amarello e o Branco, com as quaes, todas as outras Cores deixaõ entrever
alguma affinidade. Eu fiz abstracçaõ de todas estas, tomando somente
aquellas seis mais positivas, claras, e distinctas por objecto da minha
analysis, a que procedi no seguinte modo.
§ 15. Deixando a Cor branca, como desnecessaria, segundo o genero das
minhas experiencias, dissolvi em cinco conchas as seguintes Cores [NOTA
XXIII.]: Tinta da China, Carmim, Azul de Prussia, Verde-destilado e
Gomma-gutta, e levando-as todas ao mesmo gráo de força, formei as cinco
Cores, que com a Branca geralmente dominaõ no quadro do Universo. Puz em
cada huma das conchas hum pincel fino; tomei outro, e huma palheta de
marfim; e com este simplez apparato procedi ás experiencias.
§ 16. Meti sobre a palheta, com os respectivos pinceis, huma gotta de
cadahuma das refferidas tintas, e mixturando-as docemente, fui
observando, que passavaõ por degráos insensiveis a Cores mui
differentes; e quando as mixturei bem todas, vi sobre a palheta huma Cor
muito escura, tirando quasi nada para Vermelho Tab. I. n.º 1. [NOTA X.].
§ 17. Repeti esta experiencia só com as ultimas quatro Cores, sem
mixturar a Tinta da China; e da sua uniaõ me resultou huma Cor neutra,
muito escura, e da mesma especie do Nankim, que naõ he muito carregado
Tab. I. n.º 2.
§ 18. Este phenomeno me fez lembrar, que assim como a Cor negra era o
resultado da uniaõ das quatro Cores, devia naturalmente da divisaõ das
mesmas Cores, resultar a Cor branca.
§ 19. Sem excluir a Cor negra, formei a Tab. IV., que me deu quatro
Cores mixtas n.º 1. 2. 3. 4., em que dominava o Vermelho; quatro outras
n.º 5. 6. 8. 10. em que dominava o Verde; e duas n.º 7. 9. çujas, e
faltas de energia. Exclui as do n.º 7. 9., como passivas, e com as
outros formei a Tab. XIV. e tirando resultados de resultados, achei, á
oitava combinaçaõ, a Cor branca, que procurava, taõ clara como o mesmo
papel, em que fazia a prova. Por meyo destas duas experiencias, achei os
dous Principios seguintes.
PRIMEIRO PRINCIPIO.
§ 20. O Negro he huma Cor positiva, na qual o Vermelho, o Azul, o Verde,
e o Amarello se achaõ intimamente unidos, e em quantidades quasi iguaes.
SEGUNDO PRINCIPIO.
§ 21. O Branco he huma Cor igualmente positiva, onde o Vermelho, o Azul,
o Verde, e o Amarello se achaõ extremamente divididos, athe o ponto de
se fazerem invisiveis [NOTA XI.].
§ 22. No contemplar a Tab. VI. observei, que da reciproca mixtura das
sinco Cores, de que se compoem, resultava do n.º 1. 2. 4., huma Cor
mixta, onde reynava o Vermelho; do n.º 5. 6. 8. 10. resultavaõ Cores, em
que predominava o Verde; do n.º 7. 9. resultavaõ Cores pardas ou çujas;
e que finalmente do n.º 3. onde o Vermelho, e Verde se achaõ combinados
em differentes proporçoens, resultava a mesma Cor escura, ou a mesma
especie de negro, que tinha resultado da mixtura do Vermelho, Azul,
Verde, e Amarello Tab. I. n. 2. [NOTA XII.].
§ 23. Este phenomeno me fez ver, que as quatro Cores Tab. I. n.º 2., e
as duas Tab. VI. n.º 3, e ainda as das Tab. VIII. X. XII, no mesmo
numero, importavaõ a mesma cousa; isto he, que o Vermelho, e Verde
combinados em certas proporçoens, valem tanto como o Vermelho, o Azul, o
Verde, e o Amarello; ou que no Vermelho, e Verde se contem as outras
duas Cores. E reflectindo em que nas Tab. II. III. IV. V. VII. IX. XI,
nas quaes em differentes proporçoens, se achaõ combinadas as sinco
Cores, se descobrem sempre quatro numeros, em que domina o Vermelho, e
saõ, o n.º 1. 2. 3. 4. e outros quatro em que domina o Verde, a saber, o
n.º 5. 6. 8. 10. e que o Azul, e Amarello cedem sempre ao Vermelho, e
Verde; e quando se combinaõ com o Negro, em diversas proporçoens, ou se
confundem inteiramente com elle, ou recebem huma sombra, que as escurece
sensivelmente, sem que jamais produzaõ huma terceira Cor: esta reflexaõ,
digo, me suscitou outro Principio.
TERCEIRO PRINCIPIO.
§ 24. O Vermelho, e Verde saõ as Cores primitivas, e dominantes na
Natureza: e o Azul, e Amarello naõ saõ que puras modificaçoens destas
duas.
§ 25. Fiz todas as combinaçoens possiveis do Vermelho, e Verde, e naõ
pude achar hum Azul, e Amarello igual ao de que me servia nas
experiencias. Interrompias por algum tempo, e fui estudar no grande
livro da Natureza [NOTA XIII.], onde se podia achar a resoluçaõ destes
problemas.
§ 26. Este vastissimo imperio, nos seus differentes reynos, me presentou
duas analogias, que adiantáraõ a minha indagaçaõ. Vi que no reyno
animal, dominava a Cor vermelha. O sangue dos animaes, e a carne em que
elle se acha espalhado, me confirmáraõ em que o Vermelho he huma Cor
universal, e primitiva. Vi igualmente que, o Verde coloria todo o reyno
vegetal, o que me convenceo tambem, de que o Verde era huma Cor
primitiva, e universal.
§ 27. Occorreu-me, que a carne dos animaes quando he contundida, ou
passa a maceraçaõ, passa tambem da Cor vermelha á azul. Lembrou-me logo,
que a mesma tinta azul das minhas experiencias, que era Azul de Prussia,
se fazia de sangue de boi, ou de qualquer outro animal. Poucos dias
antes eu tinha reiterado as observaçoens de M. de Buffon, ácerca da
sombra da luz do Sol, tincta com a Cor da Aurora, e achei, que a sombra
de huma palheta de marfim, de duas pollegadas de largo, sobre hum papel
branco, era sempre azul, pondo a palheta, pouco mais ou menos, a hum pé
de distancia do papel; e chegando-a quasi ao papel, achei entaõ sempre
escura a sua sombra; o que naõ podia resultar senaõ da refracçaõ da luz
vermelha do sol, que coloria a sombra de azul. Esta observaçaõ me
produsio o Principio seguinte [NOTA XIV.].
QUARTO PRINCIPIO.
§ 28. A Cor azul naõ he primitiva, mas sim gerada pelas modificaçoens,
que recebe a Cor vermelha pela refracçaõ da luz, ou mixtura de outras
substancias.
§ 29. Fiz a mesma especulaçaõ com a Cor verde, e achei, que todos os
vegetaes, no estado da sua perfeiçaõ, nos presentaõ universalmente esta
agradavel Cor; mas que geralmente todos os vegetaes, com as suas folhas,
fructos, sementes &c. na sua decadencia, passaõ da Cor verde á amarella.
Occorreu-me tambem, que a Cor amarella das minhas experiencias, era a
gomma de huma arvore; e consequentemente naõ vinha a ser que hum Verde
degenerado. Esta reflexaõ me deu outro Principio [NOTA XV.].
QUINTO PRINCIPIO
§ 30. A Cor amarella naõ he originaria, ou primitiva; mas sim
secundaria, e derivada da Verde [NOTA XVI.].
§ 31. Fiz muitas outras experiencias, combinando em differentes
proporçoens, todas as sinco Cores; e de todas estas combinaçoens naõ
resultou cousa alguma, que podesse formar principios, ou destruir os que
ficaõ estabelecidos. As combinaçoens de cinco, ou quatro Cores, tomando
quatro ou tres por primeiro termo, e combinando-as em proporção de 1/2,
me deraõ resultados quasi similhantes; isto he, huma Cor escura, algumas
vezes insensivelmente affectada de Vermelho, ou Verde; e por isso as
regeitei todas. A combinaçaõ de tres Cores, tomando duas por primeiro
termo, e comparando-as com a outra, me deu as Cores que constaõ da Tab.
II, e III. A Tab. IIII, e seguintes me deraõ huma grande variedade de
Cores, todas bastantemente fortes, e capazes de serem empregadas como
Cores locaes.
§ 32. Era inutil passar adiante; por que já na Tab. XI., que he feita em
proporçaõ de 1/5, os resultados saõ quasi iguaes ao primeiro termo dos
antecedentes: e a Tab. XII. he quasi igual ás Tab. VI. e VIII. E se se
fizessem outras Taboas em proporção de 1/7 e 1/8 parte, em humas seriaõ
os resultados quasi iguaes a os elementos; e nas outras coincidiriaõ os
resultados com os da Tab. IIII.; pelo que era inutil o passar adiante. E
como destas ultimas experiencias nada mais resultava, que a composiçaõ
de diversas Cores, eu vi bem que a minha analysis degenerava em
synthesis, e que consequentemente era tempo de passar á Segunda Parte.
TRATADO DAS CORES.
PARTE SEGUNDA,
QUE CONTEM A SYNTHESIS DAS CORES.
Como nesta Segunda Parte se trata da composiçaõ das Cores, e esta ou he
feita pela Natureza, ou pela Arte; pede o methodo que ella seja dividida
em duas Secçoens. Na primeira se exporá o mechanismo, de que se serve a
Natureza, para com duas Cores unicas, ornar taõ diversamente o seu vasto
imperio. Na segunda porem se assignará o modo, com que a Arte deve
combinar estas duas Cores, com quatro outras, para imitar todas as Cores
naturaes.
SECÇAÕ PRIMEIRA,
QUE CONTEM A SYNTHESIS NATURAL DAS CORES.
§ 34. Assim como o reyno animal, e vegetal nos presentaõ as duas Cores
primitivas, e dominantes, assim tambem o reyno mineral, que he
principalmente composto da quelles dous, nos offerece huma infinita
variedade de Cores, com que se achaõ embellecidas todas as obras da
Natureza. E para conhecermos o modo, com que ella formou esta admiravel
variedade de Cores, consideremos os meyos, que devem necessariamente
concorrer para recebermos as suas sensaçoens.
§ 35. O Sentido da vista, assim como he o mais espiritual [NOTA XVII.]
dos sinco, pelos quaes recebemos todas as impressoens das causas
externas, he tambem o que depende demais circunstancias, para se
formarem as suas sensaçoens. A luz, os corpos naturaes, e o orgaõ
sensorio da vista, saõ de absoluta necessidade, para se cooperar este
fim: e he em todos estes meyos, ou em parte delles, que devemos procurar
a formaçaõ das Cores; para o que eu passo a considerallos em particular.
§ 36. He indubitavel, que as qualidades secundarias dos corpos consistem
em certos accidentes, que inherem a os mesmos corpos. E se o orgaõ
sensorio recebe a sensaçaõ das qualidades primarias dos corpos, que
indubitavelmente existem fóra delle; da mesma sorte recebe a impressaõ
das suas secundarias qualidades, que tambem existem fóra delle com os
corpos que as sustem. Neste concludente raciocinio se estabelece o
seguinte Principio.
SEXTO PRINCIPIO.
§ 37. O orgaõ sensorio da vista nada contribue para a formaçaõ das
Cores; as quaes sendo qualidades secundarias dos corpos, existem com
elles, fóra de nós mesmos.
§ 38. Naõ contribuindo assim o orgaõ sensorio nada mais para a formaçaõ
das Cores, do que huma camara obscura, onde os objectos se representaõ
já coloridos; ponhamos de parte esta divisaõ, e passemos a examinar os
phenomenos, que os corpos naturaes nos presentaõ a respeito das mesmas
Cores.
§ 39. Se tomamos hum papel branco, e fazemos sobre elle as experiencias
da luz do Sol affectada da Cor da Aurora, achamos que o mesmo papel,
quasi no mesmo instante, nos presenta quatro Cores differentes. Antes
da experiencia, e vendo o papel sem ser ao Sol elle nos presenta a sua
Cor branca e natural. Expondo o mesmo papel ao Sol, o vemos tincto de
huma especie de Cor de roza. Fazendo cahir sobre elle a sombra de huma
palheta de marfim, ou de qualquer outro corpo semelhante, nas
circunstancias do § 27, entaõ nos faz ver ou huma Cor de Azul claro, ou
hum Branco mais escuro que a sua propria Cor. E resultando estes
diversos phenomenos da mesma luz, do mesmo papel, e de huma observaçaõ
feita em hum momento, sem que na superficie do papel possa ter
acontecido alguma alteraçaõ, segue-se outro Principio.
SEPTIMO PRINCIPIO.
§ 40. A Diversidade das Cores naõ resulta só da differente contextura
dos corpos naturaes; pois que sobre huma superficie homogenea vemos, ao
mesmo tempo, diversas Cores.
§ 41. Consideremos agora os phenomenos da luz, os quaes necessariamente
nos haõ de dar toda a clareza, que ainda falta a esta indagaçaõ.
§ 42. Se a luz se propaga por continuaçaõ, ou por contiguidade, isto
he, se ella consiste em rayos, que partem em linha direita dos corpos
lucidos athe os objectos illuminados; ou se consiste somente em huma
continuaçaõ de urtos das molleculas ethereas, causada pela rotaçaõ do
Sol, ou vivo movimento, que existe em todos os corpos lucidos: he huma
questaõ que eu deixo a decidir aos partidistas de Euler, e de Newton
[NOTA XVIII.]; e qual quer que seja a sua decisaõ, naõ offenderá nada
este systema. A luz terá sempre a qualidade de nos fazer visiveis os
corpos, e de affectar-se de mil modos differentes, pelo reflexo, e
refracçaõ, que sofre urtando contra os mesmos corpos. E como a luz he
huma substancia clara, refraccivel e reflexivel, onde residem as Cores
primitivas; mas que naõ as manifesta, nem as combina e varía senaõ por
meyo do reflexo e refracçaõ, com que se modifica, urtando os corpos
naturaes: e este reflexo e refracçaõ devem ser diversos segundo a
differente contextura dos corpos, a qual naõ he mais homogenea em
especies diversas; segue-se outro Principio.
OITAVO PRINCIPIO.
§ 43. As Cores originarias e primitivas, e as que dellas nascem e se
compoem, necessitaõ para se manifestar e compor, e da luz, e da diversa
contextura dos corpos, que as refringem, e reflectem.
§ 44. A Natureza da luz, e das Cores seraõ sempre taõ desconhecidas,
como a natureza do espirito, e da materia; mas as propriedades da luz, e
das Cores, nós as podemos conhecer de hum certo modo. A luz he huma
substancia subtilissima, em que residem as duas Cores primitivas, como
no puro ether reside o fogo electrico. O fogo electrico naõ se
manifesta, sem que se perca o equilibrio, ou se descomponhaõ as
molleculas, ou sejaõ pequenas partes do ether que o contem: perdido o
equilibrio, por mil causas diversas, o fogo se faz visivel, por outros
tantos modos differentes [NOTA XIX.].
§ 45. O Fogo do rayo, a que nenhum corpo natural póde resister, he o
mesmo fogo, que nos gabinetes de physica se faz sahir impunemente da
ponta dos nossos dedos; e que em huma bella noute, illumina
pacificamente o horizonte. O fogo, que faz jogar as batarias de hum
navio de tres pontes, he o mesmo, com que os artilheiros fumaõ
sensualmente o tabaco. O incendio de huma casa nasce do mesmo fogo, que
nutria seu dono, e o aquentava. O Etna, e hum graõ de polvora naõ
differem que nas grandezas. Os horrorozos phenomenos dos Vulcanos [NOTA
XX.], e hum agradavel fogo de artificio, naõ differem senaõ nas
quantidades. Basta de exemplos: e deixo tambem de trazer outra
similhante analogia tirada dos dous sons, de que se compoem todas as
lingoas, toda a sorte de canto, e harmonia, por ser inteiramente
superfluo.
§ 46. A Respeito das Cores vemos na Natureza o mesmo mechanismo. Os
rayos da luz illuminaõ os corpos naturaes, e pela opposiçaõ que
encontraõ urtando os mesmos corpos, se descompoem em tantos modos
diversos, quanto he differente a sua superficie; e entaõ se manifestaõ
as duas Cores primitivas, ou puras, ou combinadas de mil modos
differentes; e quanto mais heterogeneos saõ os corpos, que a luz
encontra, tanto mais irregular he a refracçaõ, e tanto mais composta he
a Cor que della resulta.
§ 47. A luz affectada de huma refracçaõ recebe sempre huma Cor, mais ou
menos sensivel, a qual conserva sem alteração alguma, athe novamente se
descompor, com o encontro, de outros corpos. A lux do Sol, por exemplo,
chega á superficie da atmosphera da Terra, sem receber talvez alteraçaõ
alguma; mas apenas entra na atmosphera do nosso Globo começa a
refringir-se e a descompor-se, e nos manifesta huma Cor azul com alguma
mixtura de Verde, que he a Cor do Ceo. Se a mesma luz, ao nascer do Sol,
encontra os vapores, que ordinariamente cobrem o horizonte, se
descompoem novamente, e nos faz ver huma Cor, que participa do Amarello
e Vermelho, que he a Cor da Aurora. Esta Cor se conserva, athe que a luz
toque a superficie da Terra, onde no mar, e grandes maças de agoa, se
descompoem como na atmosphera, em huma Cor azul, mais ou menos verde,
segundo o movimento ou altura da agoa: e cahindo sobre a superficie
secca de nosso Globo, entaõ se descompoem em tantos modos differentes,
quantas saõ as diversas organisaçoens dos corpos naturaes; da mesma
sorte que encontrando sobre o horizonte nuvens de differentes
configuraçoens, no las faz ver diversamente coloridas. Donde resulta o
ultimo e fundamental Principio [NOTA XXI.].
NONO PRINCIPIO.
§ 48. As Duas Cores primitivas, que residem na luz, se manifestaõ pela
descomposiçaõ, que a mesma luz padece urtando os corpos naturaes: e
todas as outras Cores, de qual quer genero que sejaõ, resultaõ da
differente combinaçaõ das duas primitivas, nascida das diversas
refracçoens, com que a luz se modifica, tocando a superficie dos corpos.
§. 49. Com estes simplez, e naturaes principios, fundados todos sobre
exactas observaçoens, naturaes analogias, e repetidas experiencias, se
explicaõ todos os phenomenos das Cores. O Prisma, o Iris, o pescoço da
Pomba, a cauda do Pavaõ [NOTA XXII.] &c., saõ phenomenos identicos, que
resultaõ da mera descomposiçaõ da luz, nascida da differente contextura
das partes, de que se compoem a quelles corpos.
§ 50. Athequi a Synthesis da Natureza. Passemos agora a ver como a Arte
com as duas Cores primitivas, e quatro outras que dellas immediatamente
se derivaõ, póde formar todas as Cores necessarias para, em qualquer
genero de trabalho colorido, se imitarem as decoraçoens do Universo.
SECÇAÕ SEGUNDA,
QUE CONTEM A SYNTHESIS ARTIFICIAL DAS CORES.
§ 51. A Sabia Natureza só com as duas Cores primitivas, que residem na
luz, e se variaõ ao infinito, por meyo de huma prodigioza combinaçaõ,
nos faz ver todos os corpos de differentes especies, coloridos
diversamente. A Arte porem, menos poderosa que a Natureza, tem
necessidade, para imitar as suas admiraveis obras, de quatro outras
Cores, nascidas immediatamente da quellas duas; isto he do Azul, que
vem do Vermelho; e do Amarelo, que se produs do Verde; do Negro, que
consiste na soma do Vermelho, e Azul, do Verde, e Amarelo; e do Branco,
que se manifesta pela divisaõ destas mesmas Cores: de sorte que a
Natureza executa, em hum instrumento de duas cordas, toda a harmonia das
Cores, que a Arte só póde executar em hum de seis.
§ 52. A formaçaõ das Cores consiste em hum simplez, e puro mechanismo.
Mudar a superficie dos corpos, ou alteralla, he o mesmo que mudar, ou
alterar a Cor dos mesmos corpos. Mudada a contextura, muda-se a
refracçaõ, e muda-se a Cor.
§ 53. Os Corpos ou tem a mesma contextura, em toda a sua massa, ou só na
sua superficie. Hum cubo de marmore branco, partido em pedaços, mostrará
sempre a Cor branca; mas hum pedaço de páo branco tingido de vermelho,
se o fendermos, nos prezentará interiormente a sua Cor branca, e
natural; e a alteraçaõ, que se tinha feito na sua superficie,
applicando-lhe a Cor vermelha, fazia que toda a massa apparecesse desta
Cor, sendo realmente branca.
§ 54. A Arte de Colorir naõ se versa senaõ a respeito das Cores
superficiaes; e he o modo de achar toda a sorte de Cores, ou de mudar
toda a sorte de superficies, que faz a materia desta secçaõ.
§ 55. O Mechanismo das Cores se contem da Taboa I. athe XIII. das quaes
a explicaçaõ he a seguinte.
§ 56. Todas as ditas Taboas contem duas sortes de numeros, hum Romano,
no angulo direito superior, que marca a Taboa; e outro Arabico sobre os
circulos coloridos, que indica a figura: de sorte que toda a vez que se
achar, por exemplo, IIII. 1. quer dizer Taboa quarta n.º 1., que he o
mesmo que dizer, que de partes iguaes de Vermelho, e Azul resulta huma
especie de Cor de purpura.
§ 57. Todas as figuras constaõ de duas partes, antecedente, e
consequente: a parte antecedente saõ os elementos, de que se formaõ as
Cores; e a consequente he a Cor, que resulta dos antecedentes: por
exemplo Tab. IIII. n. 1. o antecedente he o Vermelho, e Azul, e o
consequente he a Cor de purpura, que nasce delles: e assim em todas as
mais.
§ 58. O Consequente he sempre hum, mas os antecedentes podem ser de dous
athe seis. A Tab. IIII. mostra antecedentes de dous; a Taboa II. III.
mostra antecedentes de tres; e a I. de quatro e de cinco. Nas pinturas a
oleo, onde a Cor branca se combina com todas as outras Cores, pode o
antecedente ser de seis.
§ 59. Os Antecedentes, ou se combinaõ em partes iguaes, ou em
differentes proporçoens. A Tab. I. II. III. IIII. offeressem
antecedentes combinados em partes iguaes; e as outras athe XII. os
mostraõ combinados em differentes proporçoens. As Tab. V. VI. mostraõ os
antecedentes combinados em proporçaõ de 1/2; a VII. VIII. em proporçaõ
de 1/3; a IX. X. em proporçaõ de 1/4; XI. XII. em proporçaõ de 1/5.
§ 60. A Taboa XIII. faz ver, que, na combinaçaõ das duas Cores
primitivas, e dominantes, Vermelho, e Verde, com as outras quatro, em
partes iguais, os resultados saõ sempre affectados da Cor vermelha, e
verde; mas que a vermelha he mais forte que a verde: porque nos
resultados numeros 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7., que provem de antecedentes, em
que a Cor vermelha se combina com o Azul, Verde, Amarello, e Negro,
domina sempre a Cor vermelha. Porem nos numeros 8. 9. 10. 11. 12. 13.
14., que provem de antecedentes em que a Cor verde se compara com o
Vermelho, Azul, Amarello, e Negro, há dous resultados em que domina a
Cor vermelha, e saõ os 8. 12.; e somente cinco em que domina o Verde;
donde se ve que das duas Cores primitivas, e dominantes, a mais poderosa
he a vermelha.
§ 61. Nesta mesma Taboa se vem Cores de cinco especies, ou graos
diferentes. O numero 1. vem da combinaçaõ dos seus respectivos
antecedentes Vermelho, e Azul; e o n.º 2. vem do Vermelho, e Verde
combinados em partes iguaes: O n.º 5. vem da combinaçaõ do n.º 1. 2.
tambem em partes iguaes: e o n.º 7. procede da combinaçaõ do n.º 5. 6.
na mesma proporçaõ, e assim em todos os mais.
§ 62. A Tab. XIV. he feita á imitaçaõ da Tab. XIII., e se póde chamar a
Taboa da somma, e divisaõ das Cores; porque as seis Cores n.º 1. 2. 3.
4. 5. 6. unidas em partes iguaes, produsem a Cor escura, ou negra n.º 7.
E divididas estas seis Cores, por meyo de repetidas combinaçoens, athe o
oitavo grao, tomando os consequentes, ou resultados do primeiro grao,
por antecedentes ou elementos do segundo, e procedendo desta mesma sorte
athe o oitavo, entaõ se vem as ditas seis Cores resolvidas na Cor clara
ou branca n.º 43.
§ 63. As Tab. A, B, C, D são como hum index de todas as outras. A letra
A, por exemplo, indica a Tab. A. Os numeros Romanos desta Taboa indicaõ
as Taboas notadas com os numeros Romanos: e o numero Arabico indica as
figuras das respectivas Taboas.
§ 64. Isto supposto, eisaqui o modo, com que se podem formar, com a
mayor facilidade, todas as Cores, que presentaõ as Taboas A, B, C, D.
§ 65. Preparadas as Cores elementares, como fica dito § 15., se queremos
imitar huma Cor natural, que seja similhante á Cor verde Taboa A. IIII.
8. procuramos a Tab. IIII. n.º 8. e acharemos, naõ só a Cor verde
procurada, mas que ella se forma de partes iguaes de Verde, e Amarello.
Se quisermos imitar a Cor de violeta, ou purpura Tab. A. IIII. 1.
procuraremos a Tab. IIII. n.º 1. onde acharemos a Cor desejada, e que
ella se compoem de partes iguaes de Vermelho, e Azul: e para achar a
composiçaõ de todas as mais Cores, de que se compoem as Tab. A, B, C, D,
se procederá da mesma sorte.
§ 66. Por este methodo, só com os exemplos, que se vem nas Taboas, se
formaõ cento e vinte Cores, capazes de se empregarem como Cores locaes,
e suceptiveis de trez graos de força, isto he, de escuro, meya tinta, e
claro, o que faz trezentas, e sessenta meyas tintas diversas. E para
formar muitas outras, se procederá da mesma sorte, ordenando Taboas á
imitaçaõ das que se presentaõ; tomando por antecedentes cinco, ou seis
Cores especificas, isto he, das de que se compoem as Tab. A, B, C, D, o
que produsirá huma infinita variedade de Cores, que todas se compoem das
duas primitivas Vermelho, e Verde; e das quatro, que destas
immediatamente se derivaõ, i. e. Azul, Amarelo, Negro, e Branco [NOTA
XXIII.].
§ 67. Tal he a Synthesis artificial das Cores, que tanto desanima os
Dilectantes, e que por tantos annos embaraça os Artistas; a qual por
este methodo se comprehende, e se executa em poucas horas. Passemos a
Terceira Parte.
TRATADO DAS CORES.
PARTE TERCEIRA,
E ESTA HERMENEUTICA.
Esta Terceira parte comprehende, em hum breve Vocabulario, a explicação
das Cores mais conhecidas; indicando, ao mesmo tempo, a similhança, que
algumas dellas tem com as Cores das Taboas A, B, C, D, de sorte que,
para formar a idea de algumas destas Cores, e para as compor todas, naõ
he necessaria outra cousa, que procurar no Vocabulario o nome dessa Cor;
e a hi mesmo se acharaõ citadas as Taboas, que prehencheraõ estes dous
fins.
§ 69. Querendo-se saber, por exemplo, qual he a Cor de purpura, e como
se compoem, procure-se no Vocabulario a palavra purpura, onde se achará
citada a Taboa A. IIII. 1. das quaes a primeira mostrará a Cor, e a
segunda ensinará o modo de a compor. E as Cores, que naõ se acharem nas
Taboas A, B, C, D, se indicaráõ somente os seus elementos, para que se
possaõ compor com a mesma facilidade.
§ 70. Para se entenderem as explicaçoens do Vocabulario, convirá muito
ter presentes as prenoçoens seguintes.
§ 71. As Cores, como fica dito, saõ huma propriedade da luz, que por hum
admiravel mechanismo da Natureza, se manifestaõ, em tantos modos
differentes, quanto saõ diversas as configuraçoens dos corpos naturaes,
illuminados pela luz. Ellas saõ de duas sortes, ou genericas, ou
especificas.
§ 72. As Cores genericas saõ tambem de duas sortes, ou genericas
primitivas, ou genericas derivadas.
§ 73. As Genericas primitivas saõ duas, a saber, o Vermelho, e o Verde;
e se manifestaõ pelo mesmo mechanismo, que todas as outras.
§ 74. As Genericas derivadas saõ quatro, a saber, o Azul, que nasce do
Vermelho; o Amarelo, que se forma do Verde; o Negro, que resulta da
uniaõ do Vermelho, e Verde; e o Branco, que provem da divisaõ destas
duas Cores. § 22. Tab. XIV.
§ 75. Cores especificas saõ as que se formaõ da mixtura das genericas. A
Cor de purpura he huma Cor especifica, que nasce da mixtura das duas
Cores genericas Vermelho, e Azul.
§ 76. Da Combinaçaõ das seis Cores genericas resultaõ seis especies de
Cores, como se ve na Taboa IIII. na qual o n.º 1. 2. 3. 4. formaõ a
especie das Cores vermelhas; o n.º 5. 6. 8. 10. formaõ a especie das
Cores verdes; o n.º 7. forma a especie das Cores azues; o n.º 9. forma a
especie das Cores amarellas: a Cor negra forma a especie das Cores
escuras; e a branca forma a especie das Cores claras.
§ 77. Da Mixtura destas duas ultimas Cores, em differentes proporçoens,
nasce toda a sorte de claro escuro; e da mixtura destas mesmas Cores com
as quatro primeiras, e as suas especies, provem todas as meyas tintas,
com que se podem modificar todas as referidas Cores.
VOCABULARIO DAS CORES.
INTRODUCÇAÕ
As Cores, que presenta este Vocabulario, saõ as que geralmente se
empregaõ em todo o genero de trabalho colorido. Ellas se pódem imitar
todas com os elementos da Tab. XIV. n.º 1. 2. 3. 4. 5. 6. o que
indubitavelmente me prováraõ repetidas experiencias.
Em huma folha de papel branco risquei duas series de pequenos circulos,
de sorte que os circulos de huma das series correspondessem exactamente
a os da outra. Colori huma serie destes circulos com as Cores finas da
preparaçaõ dos dous Reeves Inglezes, e do Chimico Francez Antheaume, que
saõ as melhores que se conhecem; e na outra serie, nos correspondentes
circulos, as imitei com os elementos da Taboa, e numeros assima
refferidos: de tal sorte, que vendo-se em justa posiçaõ os originaes, e
as imitaçoens, naõ se differençavaõ huns dos outros.
Os Dilectantes poderaõ repetir estas experiencias; e se depois tomarem
por originaes as mais bellas flores, os fructos, as folhas das plantas,
as pennas dos passaros diversamente coloridas, pedaços de marmore
manchados de differentes Cores &c. faraõ hum estudo ainda mais
proveitoso; e se convenceraõ, com a mayor evidencia, de que a
diversidade das Cores naõ resulta, que da mixtura de poucos, e
simplessissimos elementos, combinados, de mil modos differentes, ou
pela, Natureza, ou pela Arte.
VOCABULARIO DAS CORES,
QUE CONTEM A EXPLICAÇAÕ DAS CORES MAIS CONHECIDAS, INDICANDO A
SIMILHANÇA, QUE ALGUMAS DELLAS TEM COM AS DAS TABOAS A, B, C, D, E O
MODO COM QUE TODAS SE PÓDEM IMITAR, COM OS ELEMENTOS DA TAB. XIIII. N.
I. II. III. IIII. V. VI.
A
ALVAIADE, Cor especifica do branco. O Alvaiade se faz de chumbo, assim
como o branco de chumbo; mas he menos fino, e delicado, que este: e se
forma em pequenos paens de huma libra, pouco mais ou menos. Elle
encorpora todas as Cores, com que se mixtura.
AMARELLO, Cor generica derivada. O Amarello he a Cor mais clara depois
do Branco, e naõ he que hum Verde degenerado. Esta Cor tem differentes
tintas, taes saõ a Gomma-gutta, a Ocre commua, a Ocre escura ou de Ruth,
a Terra de Italia, o Amarello de Napoles, o Massicote claro, e o
Massicote escuro, o Stil de Troyes, o Stil de Inglaterra, o Ouropimenta
claro, e Ouropimenta escuro, e a Pedra de fel, cujos elementos se
acharão ao pé de cadahuma destas tintas.
ANIL, Cor especifica do Azul. O Anil dá hum Azul muito escuro similhante
ao que presenta a Tab. C. XI. 7. e se póde imitar exactamente,
proporcionando as quantidades dos elementos do dito n.º 7.
AZUL, Cor generica derivada. O Azul naõ he outra cousa, que huma
degradação do Vermelho. Esta Cor tem diversas tintas, a saber, o Azul de
Prussia, o Ultramarino, o Esmalte, as Cinzas azues, e o Anil. O
Ultramarino se deve ter, como o Azul elementar, com o qual se pódem
imitar todas as especies desta Cor, mixturando mais ou menos Negro, ou
Branco. Com o Azul de Prussia naõ se póde bem imitar o Ultramarino, mas
faz-se huma especie de Azul celeste, que se lhe avisinha muito; porem
todas as outras tintas desta especie se imitaõ bellamente com o Azul de
Prussia.
AZUL DE PRUSSIA, Cor especifica do Azul. O Azul de Prussia he o mais
bello depois do Ultramarino: eu o tomei por Cor elementar Tab. XIV. n.º
3. por naõ ter achado do bom Ultramarino. Com o Ultramarino se imita
esta Cor, juntando-lhe hum pouco de Negro; mas com o Azul de Prussia se
imitaõ todas as outras especies de Azul. Para a Miniatura, e
illuminaçaõ, he melhor dissolvello em vinagre branco distillado, doque
em agoa; por que esta o escurece muito, conservando-lhe a quelle a sua
Cor viva, e natural. Deve juntarse-lhe, para o uso, alguma gomma, e
açucar candi, para o unir melhor.
B
BRANCO, Cor generica derivada. Ella resulta da divisaõ, ou por dizello
assim, da rarefacçaõ das duas Cores primitivas, e das que se derivaõ
immediatamente dellas, como se ve da Tab. XIIII. n.º 43. Esta Cor se
associa com todas as outras, de qual quer genero, ou especie que sejaõ,
para produsir huma grande variedade de tintas differentes. Rompendo-se
sobre huma palheta o Branco, e o Negro, em differentes proporçoens, se
forma toda a sorte de Cores cinzentas. Se se praticar o mesmo com as
outras quatro Cores elementares, se terá com a mayor facilidade, hum
grande numero de tintas, das quaes se poderão escolher as melhores para
a pratica da pintura. A Cor branca naõ tem lugar na illuminaçaõ:
porquanto, ainda que se junte em pequena quantidade com as outras Cores,
as encorpora, e lhes faz perder o diaphano, que devem ter para este
genero de colorido, no qual, se póde dizer, que a agoa, e o branco do
papel tem lugar da Cor de que se trata. Alem disto o Branco he de
diversas sortes, a saber, Branco de chumbo, Alvaiade, Cal, e Gesso, os
quaes se buscaraõ nos seus respectivos lugares.
BISTRO, Cor especifica do Vermelho. O Bistro se faz de ferrugem das
chamines; e se póde imitar com os elementos da Tab. III. n.º 8.
C
CARMIM, Cor especifica do Vermelho. A base desta Cor he a Cochenilha. Eu
a tomei por Cor elementar Tab. XIIII. n.º 2. e ella he de grande uso na
Miniatura, e indespensavelmente necessaria na illuminaçaõ dos planos.
CAL, Cor especifica do Branco. Ella se faz de marmore calcinando, e o
seu mayor uso he nas pinturas a fresco.
CINABRO, Cor especifica do Vermelho. O Cinabro ou he natural, ou
arteficial; aquelle se acha nas minas de ouro, e de prata, e este se
compoem de azougue, e enxofre. Parece-se muito com a Cor Tab. A. IIII.
2., e se pode imitar com os seus elementos.