Na tarde d'aquelle dia chamou-me o padre para junto de si, diante da
mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e
tirou um grosso volume de papel almaço, encadernado em papelão, sem
alguma outra cobertura.
--Ahi tem--disse entregando-me o livro--Leia, como quem lê um romance
de historia authentica, escripto por pulso não vezado a escrever
novellas. Ahi vai o coração do seu amigo, a cinza das flôres de vinte
primaveras, flôres que se abriam já queimadas, porque o bolbo de cada
uma rebentava já doentio da venenosa rega das lagrimas.
Lembra-me que recebi das mãos do sacerdote o livro com o respeito do
acolito ao receber o evangelho das mãos do celebrante. Póde ser que na
minha reverencia houvesse menos ceremonia de ritual e mais religiosa
devoção.
Recolhi-me ao meu quarto, e juro que me tremia a mão, quando abri o
livro. Na primeira pagina, li este dictame de Isaias:
_Ingredere in petram, et abscondere fosso humo_
Quer dizer:
ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA D'ESSA
COVA.
E mais abaixo o verso do psalmo 117:
_Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini._
Póde assim trasladar-se em vulgar: