NÃO MORREREI; TEREI VIDA PARA NARRAR AS OBRAS DO SENHOR.

A fórma da narrativa é em divisões de annos, mezes e dias. Alguns

capitulos estão incompletos, e d'estes vi uns poucos suspensos em

conjuncções, ou n'uma virgula. O dizer é singelo, familiar, mas

correcto e sempre puro na linguagem. Rara é a pagina com emenda ou

entrelinha. De vêr é que fallava o coração, e que as suas primeiras

palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento.

Na primeira tarde poucas paginas li: tão detidamente as ponderava e

relia. Entrei por noite alta com a leitura, e apaguei a luz, já quando

a do sol me dispensava da outra.

Conhecia já Alvaro Teixeira de Macedo desde os dezeseis até aos seus

vinte e sete annos. Isto me bastava para eu não poder sujeitar á

modestia do levita os raptos da minha admiração, que melhor se

entendera por idolatria.

O escripto dispensava os commentarios do author. Não pedi elucidação,

nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como historia escripta de

hora a hora, entre lagrima e lagrima, com o coração na humanidade, e a

consciencia em Deus.

Ao oitavo dia, fechei o manuscripto, e fui restituil-o ao padre. Não

cheguei a dobrar o joelho, quando me elle tomava das mãos o livro; mas

o coração pesava-me como para cahir e humilhar-se aos pés d'aquelle

justo. Conheceu-o elle, e abriu-me os braços, e apertou-me ao seio,

balbuciando commovido do meu embaraço:

--Tem o meu segredo: não abracei ainda outro seio que o tivesse.

Diga-me agora: que aproveitou?

--Aprendi a conhecer a magestade do ultimo ser da creação. Assim, sei

agora, o que não podéra ainda perceber na sagrada escriptura: «que

Deus fizera o homem á sua imagem e semelhança.»

--E viu que o barro do homem se recoze ao fogo da desgraça...

--E d'essa depuração ao fogo lento, vi eu tambem que sahia o anjo...

--Pouco aprendeu...--replicou o padre--Eu queria mais que tudo isso...

Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado. Não lhe posso

dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei,

se m'o pede, e mesmo se m'o não pede, mais encarecido conselho.

Paciencia, é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a

bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam, e

encontram os de Deus. Padecer é a quebra, a falha irremediavel e

commum; resignar-se é a perfeição. A virtude, que todos alcançam, se

a querem, é dar largo e por igual a amigos e inimigos, uns o seu ouro,

outros as suas luzes, outros o seu braço, e o seu descanço. A virtude

dos raros, a maxima virtude, a mais edificativa, é soffrer sem

amaldiçoar, no asco da pobreza, no desamparo do descredito, na

ignominia de não ter um amigo. Isto ninguem o vê, ninguem o admira,

ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n'isso? Basta-me Deus.

Não posso duvidar que elle me está vendo. Sinto-o no repouso da minha

consciencia. O coração está passado de dores, o espirito conturba-se

de angustias, a noite não acaba no termo de vinte annos. Assim é; mas

que importa. Basta que a consciencia me diga: «não devias padecer,

porque és bom.» Quando o homem que soffre se diz isto a si, é Deus

que lh'o diz. Esta é a altissima rocha que vê em baixo as tormentas a

fremir-lhe na base. Este é o berço providencial do menino, lançado

ás ondas, e mandado buscar por Deus, para contar ao mundo os seus

primeiros dias. Esta é a arca do justo, a caverna dos leões

inofensivos, o _post tenebras spero lucem_ de Job.[1]

Vá o meu amigo escutando com boa sombra estes «Exercicios

espirituaes» com que eu principio a ensaiar a sua paciencia. Isto lhe

ha-de acontecer mais vezes, porque é vêzo padresco entrar de vontade

pelas homilias, quando o auditorio lhe não dá campo para prégar, e

até para passear desassombradamente.

Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta

chegada de Lisboa. Padre Alvaro enfiou ao lêl-a; mas a pallidez

habitual voltou, passados instantes. A perseverante desgraça já lhe

havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue.

--Vou hoje de tarde a Lisboa--me disse elle, placido e triste--Se quer

ficar, e esperar, meu amigo, cá fica a boa Eufemia para cuidar de si.

Se quizer vir tambem, e lá ficar, fique; e, se prefere tornar para as

ruinas, mais contente voltarei.

Fui com o padre para Lisboa. Sem elle, a solidão dos «Olivaes»

ser-me-ia dolorosa.

Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de

Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha

hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir

para o convento de religiosas de Santa Martha. Opportunamente saberá o

leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa

Martha.

Vinte dias, ou mais seria, acompanhei padre Alvaro Teixeira até ao

pateo do convento, e d'alli a sua casa. N'este breve termo, o semblante

do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza

cadavericas. As ultimas idas ao mosteiro fêl-as de sege, e ahi mesmo

tinha syncopes que o extenuavam a ponto de uma vez o levarmos em braços

da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de

veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que

esta, senhora estava soluçando e limpando as lagrimas, quando entramos

na grade.

Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas

ainda ouvi estas palavras da religiosa: «Acabaram-se os seus

trabalhos.»

Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me

disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu

braço para se elle encostar. Maravilhei-me da reanimação em que o

achei; mas conheci logo que era excitação de febre. Nada lhe ouvi

durante o transito. Levava, como da primeira vez que o vi, as mãos

encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse

esconder de mim as lagrimas, que eu bem via estancadas nas rugas, á

semelhança das que regelam na face d'um cadaver.

E eu, que não podia enganar-me no motivo d'aquella afflicção, tão

absorvido ia, e tamanha parte quinhoava n'ella, que não tive uma

palavra só de lenitivo, que lhe dissesse!

Parou a sege.

Saltei para amparar o padre na descida.

--Tenha a bondade, me disse elle, sem mover-se, de subir ao terceiro

andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui

fallar-me.

Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o seguinte:

--Meu amigo, não tenho mais que fazer em Lisboa. Vou para os

«Olivaes» agora mesmo, se o boleeiro quizer fazer a jornada de noite.

Escuso dizer-lhe que está com Deus a pobre senhora. Agora é erguermos

as mãos em acção de graças aquelles que a conhecemos. Eu cá me vou

avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da

conhecida caverna, onde se quer sósinho com as suas agonias. Dê-me a

sua mão de amigo, e adeus.

Voltou-se para mim, e disse-me:

--Quando eu lhe escrever, a pedir a sua companhia, vá ter commigo, se o

poder fazer sem custo.

--Pois não me quer comsigo agora?!--atalhei.

--Não, por ora não. Estes primeiros dias não podem ser repartidos nem

consolados por ninguem.

Beijei-lhe a mão, que transpirava um suor rescaldado.

--Queira perguntar ao boleeiro se me leva aos «Olivaes»--ajuntou elle.

Levei-lhe a resposta affirmativa, e a sege partiu, a passo rapido.

Fiquei conversando com o amigo do padre.

--Não o tornaremos a ver--disse-me elle consternado--Padre Alvaro não

vive muitos dias; o senhor verá. Eu d'antes, quando o via desconfortado

e com signaes de pouca vida, dizia-lhe:--«lembre-se d'aquella infeliz,

que não tem mais ninguem no mundo.» Parece que isto lhe dava alma

nova! Agora, não ha nada que o prenda á vida, senão o sofrimento...

--Mas eu cuido--interrompi--que o padre Alvaro ha-de achar sempre na sua

vida occasiões de ser util a muitos outros desgraçados, embora se

ofereçam com titulos menos valiosos á sua beneficencia. Em quanto

houver um homem que lhe peça conselhos, esmolas, ou intercessão com

Deus, o padre, qual elle é, não póde julgar terminada a sua missão

n'este mundo.

--Essas conjecturas são conceituosas, e de bom juizo--redarguiu o

sujeito--mas os negocios do coração alheio correm de modo muito

diferente das nossas razões, pensadas, a espirito socegado, embora nos

doam os infortúnios do nosso amigo.

E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso

amigo.

O portador não nos trouxe resposta á carta. A snr.a Eufemia hesitara

em levar-lh'a á camara, onde se elle fechára; fôra por fim; mas

voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando podesse.

Decorrera uma semana em esperanças, até que um dia o amigo do padre me

procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe

que o seu amo estava em perigo de vida. D'alli partimos no mesmo ponto

para Santa Apolonia, e de lá para os «Olivaes».

Estava o sacerdote sentado n'uma poltrona, junto á janella que olhava

para o palacete fronteiro do negociante de Lisboa. Deu-nos as mãos, que

cada um de nós aproximou dos labios. Respondeu a esta reverencia com um

sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:

--O martyrio, que se alcança com as paixões da terra, tem tambem a sua

santificação. Os meus amigos igualam-me nos seus respeitos a um S.

Francisco de Sales ou Vicente de Paula...

--Esse sorriso abre-se em luz de esperança para os seus amigos, senhor

padre Alvaro--disse-lhe eu.

--E eu me congratulo na esperança dos meus bons amigos. Tambem vejo a

luz, que illumina e abraza... _Ardere et lucere_...[2] Padeci muito, e

esperei muito d'estas horas finaes. Misérias e oppressões de uma longa

vida aqui se acabam: _Miser factus sim ego, et curvatus sum usque ad

finem_[3]. Curvado o corpo, sim, que o desconcerto total d'esta fragil

machina é a repellões de dôr; mas a alma folga, e sorri no extremo

dia: _Ridebit in die novissimo_[4].

Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu

companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam

refrigerar o afogo febril do enfermo. Eu não tinha alguma fé nas

consolações d'elle, e menos ainda nas minhas. Assisti silencioso á

perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro.

Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no

amigo, que propozera a consulta.

--Medicos!...--murmurou elle--O caixão... Mortalha cá está esta...

Dizia, tomando em ambas as mãos convulsas as abas da batina. Ao fim da

tarde, pedimos que se recolhesse á cama, e elle respondeu, fitando os

olhos no céo:

--D'aqui vejo melhor a patria; mas a hora não chegou ainda. Já era

muito esperar... O Senhor é piedoso com os que não desesperam, e com

os pacientes. Espero... e, posto que padeci muito, não direi como o

néscio: «minha alma descança, que possues muitos bens»[5]. Eu espero

tudo da misericordia Divina.

Proseguiu fallando a intervallos, e até alta noite não consentiu que

fechassemos a janella.

Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente.

Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei

esperanças, contra o parecer do meu companheiro de vigilia.

Ao repontar da aurora, o padre olhou em nós ambos, e disse em tom

compadecido:

--Caro tributo paga a amisade!... Vão deitar-se, meus amigos. Estou

melhor. Digam á minha criada que vá chamar o parocho.

Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d'onde sahi, quando entrou o

prior.

Durante o dia conheci que as minhas esperanças eram desmentidas por

desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto

a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto

o pungiam aquelles gritos. Pedi á criada que reprimisse o choro, e ella

respondeu-me:

--O senhor talvez não saiba que eu criei aos meus peitos esse santo que

está a morrer!...--E lançou-se de joelhos a orar em voz alta.

Curvei-me diante d'esta dor, e adivinhei as angustias d'aquella mulher

através dos ultimos vinte annos.

Ao fim da tarde, foi ungido o moribundo. Quizemos então quasi de força

passal-o á cama: não o conseguimos.

--A morte é suave em toda a parte. Aqui adormecerei. _Dulcis est somnus

soperanti_[6]--disse elle.

E, fitando no azul do céo os olhos embaciados, continuou:

--O céo da minha mocidade! Assim era n'aquellas noites de tanto e tão

puro amor! A serenidade da natureza, e as agonias da creatura! Só o

homem se dóe do homem, e Deus de todos. As creações sublimes do

universo olham todas para o seu Creador, e não sabem como morre o

reptil, nem quando despega da arvore a folha secca.

Vinham ditas com cançasso e violencia estas palavras. Pedimos-lhe que

não fallasse, e elle apoiou a barba no seio, e cruzou as mãos,

murmurando vozes imperceptiveis.

As onze horas da noite, estremeceu o agonisante na cadeira, e estirou os

braços convulsivos. Pensei que era o extremo estertor. Volveu, porém,

á sua quietação, e viu-me de joelhos, com as mãos apoiadas nos seus

joelhos. Pôz-me no rosto a mão, e disse:--_Beati qui lugent_[7].

Soaram as doze horas n'um relogio de parede. O padre parecia contal-as,

por um movimento nervoso dos labios. Tinha cahido a ultima pancada, e

elle disse:

--_Media autem nocte clamor factus est: ecce sponsus venit_[8].

Ergueu as mãos em oração, inclinou a cabeça para o espaldar da

cadeira, e suspirou. Cuidei que elle ia adormecer, quando vi calarem-lhe

lentamente as mãos por sobre os braços da cadeira.

Era aquelle glacial dormir, que espera novo dia annunciado pelo anjo do

ultimo juizo.

Ajoelhei de novo, e disse:

--Santo! pede a Deus por mim, e por todos os infelizes.

[Nota 1: Espero a luz, depois das trevas. Cap. VII, v. 12.]

[Nota 2: S. João--5. 35.]

[Nota 3: Psal. 37--7.]

[Nota 4: L. dos Prov. Cap. 31. 25.]

[Nota 5: S. Lucas--12. 19.]

[Nota 6: É suave o dormir a quem trabalhou.]

[Nota 7: Felizes os que choram.]

[Nota 8: Ouviu-se á meia noite este grande clamor: é chegado

o esposo. S. Matheus. 25. 6.]

O Romance de um Homem Rico · 第 11 / 43 题