A tristeza das ruinas é uma tristeza particular, da qual nem todas as
almas se magoam. Já observei vezes sem conto isto mesmo no semblante
das pessoas que foram commigo a visitar um palacio derrocado, ou as
alpendradas d'um convento, ou algum lanço empenado de muro de castello.
No convento de franciscanos, cerca de Vianna, reliquias santas em cujas
abobadas credes ouvir ainda o ciciar dar oração dos frades
comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que
escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso d'onde se
avistavam descampadas e fertilissimas varzeas. A fronte do meu amigo
pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente
silencio, a estrophe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do
sitio, que eram poesias feitas para um genio que as bem soubesse ler.
Entre-abriu o poeta os beiços, como flôr matutina o calice ao primeiro
beijo do sol, e disse:
«Se fosse meu tudo isto que vejo d'aqui, ia viajar n'um vapor meu,
comprava um palacio em Milão, outro em Paris, outro em Londres, e havia
desbancar quantos luxos orientaes o Byron inventou para o seu
Sardanapalo!»
Não respondi, de triste que fiquei, e de triste que já estava.
Outra vez, fui com outro amigo ao castello de Palmella. Desci ás
masmorras em que não seria custoso com uma enxada trazer á flôr da
terra as ossadas dos que alli morreram ha cem annos emparedados á ordem
do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento d'este laivo sangrento da
historia, e fui em cata de glorias aos seculos primeiros d'aquelle
baluarte da nossa independencia de Castella e da mourisma. Enleavam-me
estas meditações, quando o meu amigo, cabisbaixo n'um angulo d'um
bastião, resmoneou:
«Fizemos uma crassa tolice em não trazermos de Setubal um pedaço de
carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era optimo vinho, e havia
de saber-nos aqui que nem o nectar dos deuses.
Ora, este poeta era amantissimo de ruinas, quando as poetava no seu
gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e
fulminação contra os governos barbaros, que deixavam ao camartello
iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza.
Outro caso:
Nos arrabaldes de Lisboa, ha um espaçoso jardim abandonado, junto de
uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco
de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes
enfezadinhas de rarissimas flôres, que teimam em reflorir na sua
estação, como se a esperança lhes não morresse ainda de voltarem aos
cuidados da mão delicada, que as semeara e amimára alli, com o
coração em flôr tambem. Quem se lembra ainda da formosa jardineira que
descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus
cabellos? A formosa passou, e a rosa de toucar floreja ainda ao pé do
myrto, á sombra da anemola e da romanzeira, abafada pelas moitas das
papoulas, que são o ephemero adorno das sepulturas. Que triste eu
scismava n'isto, quando o meu amigo, author de idyllios que faziam amar
a botanica e adorar as flôres, rompeu n'esta canção:
--Este jardim, aqui ás portas de Lisboa, se o dono o pozesse a couve
lombarda e feijão carrapato podia render vinte e tantas libras annuaes.
Disse, e perguntou-me se iriamos jantar ao _Matta_, ou á _Taverna
ingleza._
Por estas e outras, puz eu que a tristeza das ruinas é uma particular
tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.
Eu de mim, liberalmente dotado de dores minhas e intimas, já fujo de ir
onde está a solidão lamentosa, parque nunca me ella deu o remedio que
deu a muitos, mal feridos do mundo. E de ruinas é que fujo mais
esporeado pela lembrança das más horas, e peçonha para muitos dias
que tenho trazido de lá, em vez do balsamo, que a meu ver, só é
salutar nas almas golpeadas, se a consciencia não se dóe com ellas.
As unicas ruinas de que tenho saudosa memoria são as da vivenda do
padre Alvaro Teixeira, nos «Olivaes.»
A casa tinha claros vestigios de palacete. Os cunhaes estavam em pé,
amparando alguns lanços de parede, recortados em escaleiras desiguaes.
Através de nove janellas das quatorze da fachada coava-se o azul do
céo, apenas interceptado por algumas vigas e ripas empenadas e torcidas
pelo calor. Nas padieiras e cornijas amarelleciam fetos e outras
hervagens resequidas que deixavam realçar o verde da hera. Esta
marinhava do interior das paredes para os batentes e couçoeiras das
janellas, sem portadas, e n'algumas enredava-se em urdidura tão
agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de
vêr-se quanto mais desalinhada é da esquadria da arte.
Entramos n'um largo portal, que abria para um pateo espaçoso,
alcatifado de relva, nos pontos de juncção entre as lageas. As paredes
circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando
passagens mythologicas e campestres. No rebordo superior d'este
ladrilho, corriam em toda a roda argolões feluginosos, que deviam ter
sido as prisões dos cavallos, nas tardes calmosas, quando os antigos
senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim
imminente ao pateo, gozar-se do espectaculo dos mursellos e alazões
rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas.
Subimos a escadaria do patim, e entramos n'uma sala pouco alumiada e
muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com
artezãos grosseiros, e um brazão de extraordinario tamanho e lavor no
centro. D'este pendia uma corrente de arame e um grande lampadario,
através de cujos vidros afumados, a custo uma tocha lograria coar o seu
clarão. Ornato n'esta sala não vi algum, a não serem dous escanos de
castanho, de altissimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das
armas do tecto.
Segui o padre ao longo d'um comprido corredor ladeado de quartos, á
imitação de dormitorio claustral. A maior parte d'estes quartos não
tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava
uma velha sentada, quando apontamos á outra extrema. Levantou-se
então, e forcejou por tirar do cinto duas chaves encambadas n'um
atilho, operação não facil, porque o atilho se lhe enredara nas
camandulas, e estas no fuso, e este no fiado.
--Não se impaciente, senhora Eufemia,--disse o padre.--Ande lá de seu
vagar, que nós não temos pressa.
--Valha-me Deus!--disse a velha afreimada--este berzabum do negalho
parece que tem cousa má! Não querem ver isto? Olhe onde o rosario se
foi imbelinhar!
A senhora Eufemia já suava, e cada vez embrulhava mais as cousas, a
tempo que o padre, tomando-lhe das mãos a tarefa, ia desdobando a
miada, sorrindo e gracejando com a velha, que não podéra sahir-se
d'aquellas difficuldades, por ter dous dedos da mão esquerda
inutilisados n'uma grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando
o padre pacientemente desenredava a cambulhada.
D'alli passamos á porção mais reparada e habitavel do palacete, e
residencia do locatario. Era uma sala, e dous quartos contiguos. N'um
d'estes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para
hospedes. A sala tinha mobilia, que fora sumptuosa no começo do século
passado: eram tremós dourados, cadeiras de estofo estreitas com
espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados
a ouro, com fechaduras de prata rendilhadas, jarrões indianos com
reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de
florões a oleo, pendiam os retratos de D. João V, ao de D. Pedro III e
D. Maria I n'um só retabulo. Outros retratos innominados, afóra o do
ministro da justiça no reinado de D. Miguel, João de Mattos
Vasconcellos Barbosa de Magalhães, oriundo de Barcellos, e morto no
desterro, adornavam, a grandes intervallos, as quatro paredes da sala,
cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia.
Abriu o padre Alvaro a vidraça do seu quarto, e eu fui á janella
examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte d'um grande
jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante
estava abandonado. Feixes de herva myrrada afogavam um cysne de
pórfido, o qual se levantava sobre um pentágono de granito, no centro
de uma bacia de marmore de todo sêcca, e esborcinada. Arvores de densa
copa e muita grossura de troncos formavam, emmaranhando-se, a enorme
sebe do antigo jardim. Através das clareiras interpostas aos troncos
entrevi um paul, reliquias do que devera ter sido um vistoso lago.
Rebalçavam-se no charco alguns patos, e saltitavam e ralavam as rãs
como á competencia com as cigarras.
Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de
amarello, com as suas tres chaminés pintadas de azul, e brazão de
armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do
edificio.
--Quem vive n'aquella bonita casa?--perguntei eu.
--Aquella casa é d'um commerciante de Lisboa--respondeu o padre--Foi
dos que foram donos d'esta em que vivo...
Observei no semblante do padre mudança de côr, e muita tristeza no
olhar para uma das janellas do palacete. Dava a cuidar, pela insistencia
com que fitava a janella, que devia alguem apparecer alli; mas tanto
aquella, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum signal de vida,
se não o chilrear das andorinhas ao longo das cornijas da casa, podia
responder á observação attentiva do meu amigo. Não era observação,
era absorvimento, por motivos que o leitor saberá opportunamente.
Como de golpe, sahiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho
para mim, disse:
--Vamos vêr se o meu amigo se conforma com a mesquinha hospedagem que
lhe dou. Venha d'ahi.
Segui-o ao quarto visinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada
a desdobrar lençoes para a cama. Era esta um grande leito liso de pau
preto com as quatro hastes do pavilhão. Completavam o adorno da camara
duas cadeiras e uma banquinha, e lavatorio de ferro, onde já se via a
fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em
ébano, as quaes representavam a vida de Barnabé Chiaramonte, com
referencia a Napoleão, segundo a conta Beauchamp na «Historia dos
infortunios e captiveiro de Pio VII.» A alfaia mais rica do meu quarto
era um festão de trepadeiras, com flôr escarlate, que ensombrava a
metade superior da vidraça. A limpeza, a frescura, o perfume, e a doce
melancolia d'aquelle recinto não podiam invejar pompas, se as ha, que
mereçam comparação com as do meu saudoso e lindo quarto das ruinas
dos «Olivaes.»
--Já sabe--disse o padre--que tem de fazer aqui penitencia da
irreflexão com que se fiou da minha hospitalidade.
--Como isto é gracioso, senhor padre Alvaro!--disse eu sem simular o
enthusiasmo--A poesia está aqui!
--A poesia dos prophetas de Jerusalem;--atalhou o levita--a poesia das
lagrimas...
--E a da esperança, que é tão formosa, tão do céo, e dos
desventurados n'este mundo!--acrescentei eu, enlevado no meu rapto de
cinco minutos--Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna
ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui, restauram-se os
alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que--é a fé,
a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra
brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida,
e vil, e a besta-fera em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da
sua impavidez, e soberba. Mal d'aquelle, que foge o mundo, e se
refugiarem si: é um engano; é render-se o homem ás garras do dragão
que encerra, e nutre com a peçonha que a desgraça lhe vara no seio. O
homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a
fortuna, não póde nada comsigo, nem deve estar lacerando-se com as
suas proprias unhas para extirpar com o sangue a raiz do mal. Fóra de
si é que está a salvação. Em Deus é que...
--_Em Deus_--interrompeu o padre. É essa a palavra, onde eu o estava
esperando, meu amigo. Não se contradiga. Disse ahi que «a felicidade,
o bem, e a fortuna são dependencias do acaso.» Quem isto sente, não
acha absolutamente necessaria a intervenção da vontade divina nas
contingencias, meramente casuaes, d'esta vida. Offerece-se-me cuidar que
o meu amigo não meditou no desconcerto dos seus principios com as
consequencias. Se a felicidade--a da consciencia, entendo--é obra do
acaso, o acaso é a lei de Deus na ordem do mundo. O paradoxo salta!
Não serei eu quem peça a Deus o milagre de fazer-se absurdo por meu
respeito, até ao ponto de pôr á minha disposição uma cadêa de
acasos felizes. O bem-viver, meu amigo, é tão rigorosa consequencia do
bem-fazer, como a luz o é d'aquelle astro, que alli está no céo,
protestando contra a sua theoria dos acasos. O homem não acha em si os
allivios da razão, quando os vicios lh'a degeneram. A razão depurada
dos sedimentos da antiga culpa, no crisol do Evangelho, é Deus. Deus
não é sómente puro amor, é pura razão tambem. E, se não, veja que
os bem-aventurados n'este naufragio da vida são aquelles que, rebatidos
d'uma vaga contra a outra, emergem á flôr de cada escarcéo, abraçados
á razão, taboa de infallivel salvamento. O embriagado da sua falsa
fortuna, cuidando-se, um momento, domador das tormentas, póde sorrir de
desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do
justo. Aquelle dirá que o acaso prospero lhe bafeja a si, e o funesto
ao outro? Dirá; no entanto, meu amigo, será tudo escuridade á volta
d'este fatuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar.
O interior, a quem me soccorro desconfortado, é a minha razão. Se as
paixões me apagaram esta luz bemdita, a quem pedirei eu a esmola
d'outra luz, se não a Deus?
Disse bem, meu amigo: «mal d'aquelle que foge o mundo, e se refugia em
si.» Não andaria melhormente avisado o naufrago que, escapado do mar
alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os
penhascos das costas. Antes prolongar a agonia na esperança d'uma vela
salvadora que nos póde chamar e reanimar para maior esforço. Antes
esvasiar o calix da injustiça humana, sem o repellir, esperando que o
Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, occasionando-lhes um dos
imprevistos encontros, que lá estão delineados na sabedoria divina. A
solidão, sem Deus, não serve para infelizes maus. Os bons, os
absolvidos por sua consciencia, refrigeram-se, convalescem, e saram no
ermo; bom é, porém, que não venham aqui _ungir os braços para sairem
de novo á arena._ O proveitoso, o melhor, o sobre-excellente é que os
_luctadores invenciveis da fortuna não façam timbre em se degladiarem
com ella, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos
vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe
eu se tem horas de jantar acostumadas._
Este remate, posto com um riso de graça, fez-me rir tambem. Como eu
respondesse consoante mandava a cortezia, fomos para a mesa, que era
proxima da cozinha, e ficava longe, em outro pequeno lanço habitavel da
casa, para onde passamos, sobre um passadiço de tabões, fincados nas
soleiras de duas portas.
.........................
_No has visto mas?... Vuelve á la
pradera, hijo mio, por que hay en
ella cosas mas dignas de tu
atención_.........................
_Dios estaba en medio de los campos.
No le has visto? A él debe la
pradera su belleza; las miradas
de Dios animabam la claridad del
sol_..........................
_No has oido mas que él murmullo
de los arroyos, et gorgéo de las
aves, y el viento que mecía las ramas
de los árboles? Vuelvebe al
bosque, hijo mio, porque tus oidos
percibiran cosas mucho mas grandes_...
ILDEFONSO MIRANDA (Himnos de
la primera edad.)
Passaram tres dias sem me eu lembrar que era delicadeza, se não dever,
despedir-me do meu gasalhoso amigo: tão dulcificante me era aquelle
remançoso descanço do corpo e socego de espirito.
A minha vida aligeirava-se a conversar, meditar, e lêr, toda
instructiva e de proveito, sendo que poucas horas bastam á alma para se
nutrir em colmeia copiosa, como era aquella, do mel que ao depois
edulçora os azedumes de largos annos.
Tinha o padre umas horas da manhã, e sobre tarde, em que evitava
delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira
tarde, estava eu á beira da lagoa onde se rebanhavam os patos, e, por
entre as frondes do arvoredo, vi o padre á janella do seu quarto, com o
rosto entre as mãos, e os cotovelos apoiados no peitoril, e os olhos
immoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa.
Naturalmente, e não sei se até curiosamente, relancei a vista para a
casa, e vi, como sempre, as janellas hermeticamente fechadas. Estive
n'este reparo até ao toque das Ave Marias. Padre Alvaro levou então
ambas as mãos á cabeça, tirou o solidéo, e afastou-se da janella,
já com as mãos erguidas.
Á hora do chá, a mais taciturna e recolhida do padre, disse-lhe eu:
--Vossa senhoria de certo não reparou ainda no meu apêgo ás suas
ruinas; creio que não, porque é bom, e sente o bem que me vê gozar.
Não obstante eu devia já ter dado por concluida a minha visita, sem
comtudo julgar esgotada a hospedeira bondade do meu presado amigo. Não
me culpe a mim, condemne a sua affectuosa convivencia, e o mundo tambem
que me não dá outro amigo como o snr. padre Alvaro...
--Onde vai dar comsigo n'esse arrazoado?--atalhou.
--Era o prologo da despedida e do agradecimento que eu estava fazendo.
--Pois fique no prologo; e se, de força, quizer entrar no discurso,
reduza-o á simples confissão de que está aborrecido, e quer ir
espairecer nos «cafés» de Lisboa.
--Seria a primeira injustiça que o meu amigo fizesse, pensando tal de
mim.
--Então, deixe-se estar mais oito ou quinze dias. Se quizer ir á
caça, eu arranjo-lhe os petrechos; se quizer dar passeios mais largos,
tambem lhe arranjo cavalgadura; se tem precisão de ir a Lisboa, vá e
volte; se está bem e quer estar assim, não se despeça nem me
agradeça, que o mesmo é lembrar-me que sou eu o obrigado.
O veneravel velho pozera-me então a mão no hombro, e eu respondi
beijando-lh'a. Chorei, e sei dar a explicação d'estas lagrimas.
Lembrou-me meu pai, cuja face eu beijei no esquife ha vinte e sete
annos. As ultimas palavras amoraveis d'um homem de cabellos brancos, meu
pai m'as dissera. Depois, não ouvi outras, senão as do sacerdote. Ahi
está a razão das lagrimas, que o santo homem viu, e me galardoou com
um abraço.
No dia seguinte, sahimos pela fresca da manhã, e subimos uma ladeira de
olivedos, que no topo se espalmava em hervecida chã, assombrada de
grandes arvores. Em nosso alcance, sahiu a snr.a Eufemia com o almoço,
e retirou com ordem de nos trazer alli o jantar.
D'aquella eminencia iam os olhos a muito longe buscar a suave melancolia
que levanta o espirito. Enlevavam as lezirias com as suas manadas de
gado, os grupos alvejantes de casas, as granjas dispersas na esplainada,
os pomares de laranja, os olivedos, e o rumorejo confuso e indistincto
das aves, dos regatos, do brando ramalhar das arvores, e da toada de
vozes distantes nas veigas, que se espraiavam ao sopé e em redor do
nosso outeirinho. Estavam entre as arvores umas pedras musgosas
convidativas de repouso. O acaso as talhára á feição de escabello
com seus encostos. O padre sentou-se na menos commoda, e disse-me:
--Almocemos aqui. O meu mais longo passeio, ha vinte annos, é até este
ponto do mappa-mundi. São estas as bellezas unicas, que eu mostro aos
meus raros hospedes. Esse alamo, a que o senhor encosta o hombro,
plantei-o eu em 8 de Junho de 1832. Tem vinte e dous annos.
Reparei n'outra arvore proxima, e vi duas iniciaes: _L. A._, quasi
illegiveis pela sobreposição da casca.
--E estas letras escreveu-as tambem o snr. padre Alvaro?
--Tambem.
Obrigava-me a discreto silencio a brevidade da resposta, e o
recolhimento visivelmente magoado do padre. Tomei do cabaz as provisões
do almoço, e accommodei-as sobre a pedra que melhor se ageitava. Fiz o
chá e servi o padre, dizendo chistes, que me occorreram, tocantes aos
cenobitas, moradores das brenhas, estomagos fortalecidos por fructos
silvestres e raizes, os quaes não sabiam sequer da existencia do chá
hysson nem do assucar, nem da manteiga de Cork, ignorada até do proprio
Theocrito, Columella, e outros amantes da natureza e do leite. Se o
leitor não acha sal n'estes ditos, o padre tambem lh'o não achou. De
instante a instante fez-se noite n'aquelle aspecto, um quarto de hora
antes claro e aberto ao contentamento interior.
--Que tristeza é essa?!--perguntei.
--A tristeza do homem, que não póde ser anjo--respondeu elle,
trabalhando por reprimir as lagrimas.
De maneira dizia elle estas breves respostas, que eu não sabia
replicar, nem consolar.
Aquelles minutos do almoço correram assim tristonhos, e terminaram,
tirando o padre do fundo do cabaz dous livros: um era o breviario da sua
reza, o outro era um romance... Um romance! e, de mais, um romance
denominado VOLUPTÉ, _Voluptuosidade!_ isto oferecido pelo homem de
Deus, pelo vaso de eleição, pelo santo, cuja mão eu beijei hontem com
fervor d'um catechumeno inflammado por um raio de graça, que a oração
do justo me trouxera do céo! A _voluptuosidade_ de Sainte-Beuve, aqui,
n'este sitio, ao pé do livro de Job, do rei penitente, dos dictames do
Espirito Santo!...
Acceitei o livro, e li, no prefacio, estas linhas:
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
«Entende o editor d'esta obra que as pessoas
nimiamente escrupulosas, acaso espavoridas pelo equivoco titulo que ella
tem, pouco perderiam, em verdade, não lendo um escripto cuja
moralidade, por mais grave que ser possa, só diz respeito a corações
menos puros e menos despreoccupados. Ao revez, pelo que toca ás
pessoas, convidadas justamente pelo titulo que repelle as outras, essas,
não achando no livro o que desejam, não ha que temer o derrancarem-se.»
Fui folheando e salteando os capitulos, e os relanços da obra que mais
brevemente podiam ensinar-me o enredo da historia. Comprehendi-a toda em
trinta minutos de leitura. É um homem que amou, e cobriu com a mortalha
de levita a mulher que amara e perdera. É a analyse minuciosa e
pungente d'uma paixão; e poderia tambem ser instructiva a analyse, se o
espectaculo das agonias d'um naufragio fosse causa a gelar de terror os
futuros navegantes e deixar rugir o oceano sósinho com os seus furores.
Fechou o padre o seu livro, e eu continuei a lêr.
--Sainte-Beuve escreveu esse livro em fórma de carta a um amigo--disse
o padre--Se o senhor tivesse em mim um amigo, capaz de escrever com
profundeza e graça, e me pedisse conselhos, eu mais quizera ter-lhe
escripto este romance que o «Manual d'Epicteto» ou a «Imitação de
Christo.» Ahi verá o philosopho, o sabio, o mundano, o penitente, o
christão, e o martyr, se quizer. E sobre ser tudo isto, é ainda mais,
é o homem. Quão raros são os livros que bem definem o homem, a não
ser o de Job: _Homo natus de muliere..., repletus multis miseriis_
«homem, nascido da mulher, acervo de miserias sem conto.»
--Poderei fazer uma pergunta, sem preambulos, que m'a
desculpem?--atalhei eu.
--Porque não? faça.
--Entre o senhor padre Alvaro Teixeira, e este homem que veio cingir os
rins n'um claustro das margens do Tejo, ha uma dôr commum, não ha?
--Ha uma dôr igual, um mesmo calvario,--perdôe-me a profanidade--mas
as veredas muito differentes.
Após o silencio de alguns segundos, que eu não ousei quebrar com
alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a
luz dos olhos estranhamente viva, disse n'um impeto de espirito:
--Hei-de mostrar-lhe algumas datas que tenho assentadas n'um livro. Não
é auto-biographia, nem romance simulado com suppostos nomes, nem
«Memorias» ambiciosas de futura vulgaridade. São cauterios applicados
á chaga ínsanavel... Ha-de lêr os meus papeis.
--Mereço eu tanto?!--disse, sentindo-me vaidoso da confiança, e
lisonjeado na minha cubiçosa curiosidade.
--A leitura do meu livro não paga merecimentos de quem quer que seja,
nem sequer é uma lição nem um bom exemplo: é a parte d'um dia, menos
fastidioso, que eu dou ao meu hospede. Lerá esta tarde.
Esteve-se em meditação o padre, sem desfitar os olhos do alamo e das
letras, e continuou depois d'este theor:
--Se a não tivesse escripto, contava-lhe a minha vida. Tinha precisão
d'este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus
silencios para m'a ouvir. Repito-a a cada aurora, que se aclara, não
já para mim, que só espero vêl-a despontar além da sepultura. É
natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor.
Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca
fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a
ver o homem que é, em sua mesma obscuridade, um segredo estimulante de
ociosos. A parte essencial da minha vida sabem-na muitos, e eu não sei
quantos romances por ahi correm á conta dos meus soffrimentos. Sei que
os velhos da minha creação me chamam «romantico» ou «tolo» que
monta o mesmo. D'esses alguns não quizeram envelhecer ainda, e a cada
passo os encontro em Lisboa, como os lá deixei ha vinte annos, gentis,
perfumados, galãs, viciosos, e salvando-se da irrisão com o pouco
cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo
vicio, e de crêr é que me julguem por si, ao verem-me assim
encanecido. Haverá algum que me leia no coração e desculpe das
injustiças dos outros; esse, porém, não me perdoa o feio envez em que
eu espontaneamente voltei uma vida, que principiára mostrando uma face
agradavel, e esperançosa de todos os bens que se tomam em conta de
melhores n'este mundo. E assim é que tenho vivido e morrido só
commigo, e affeiçoado aos que me lastimam e aos que me escarnecem. Uns
e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se
acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que
se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz
e dissociavel imaginação. Hypocrita é de presumir que me não taxem,
porque a hypocrisia tem n'este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem
que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem
sombras de defeza propria, não tem, meu amigo?
--De defeza, não me parece, senhor padre Alvaro!--respondi--Quem é que
o accusa? Escarnecer ou lastimar não é accusação. O que eu entendo
das palavras de vossa senhoria é que perdoa aos baixos espiritos, que
se querem levantar para avalial-o, e resvalam á lama.
--Não tanto--replicou sem embiocar a caridade--Sejamos generosos e até
piedosos com as almas remissas e afrouxadas na trabalhosa fabrica das
posições, das honrarias, dos bens da fortuna, da immortalidade e da
perpetuidade dos seus nomes na riqueza e gloria herdada á sua
descendencia. Entre estes, que muito é ser eu olhado como inutil, como
o menos previdente dos tres a quem o Senhor distribuiu os talentos? O
sacerdocio é havido como officio, e o sacerdote que não cura sequer de
agenciar uma murça, ou uma abbadia rendosa, é um inhabil, que
retrocedeu pela estrada obscura ao tempo escuro da religião. Que ha-de
dizer a gente illuminada, segundo o tempo, d'um homem, que foi abastado,
que se fez padre antes de ser pobre, e que empobreceu, e não cuidou de
voltar a si com artes infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer
escassamente soltou uma palavra de queixume contra os ingratos?
--Deve dizer--respondi commovido--que homem, que tal fez, é um dos
escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie humana.
--A especie humana não dá fé de glorias tão baratas, meu amigo. Eu
tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois
saiba que se a mim me perguntassem então o que eram glorias da especie
humana, eu apontaria Cesar, Alexandre, João de Castro, Colombo, Vasco
da Gama, Camões, e os outros que escreveram para sempre os seus nomes
no padrão d'um mundo novo descoberto, na pagina d'um livro, ou na
lamina d'uma espada. Se me lá fossem dizer que aqui nos «Olivaes»
vivia um padre, que nem sequer escrevera os sermões de Vieira, ou as
«Orações funebres» de Bossuet, eu de certo responderia com um
sorriso desdenhoso á admiração de quem me viesse fallar em tão
pêcas glorias da especie humana.
A conversação prolongou-se n'este sentido até horas de jantar.
Jantamos.
Não quero que o leitor diga que ninguem sabe o que comem e quando comem
os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com
vulgar semceremonia, não só os heroes de más manhas, mas ainda os
santos, como o padre Alvaro.
_Ibit homo in domam œternitatis suœ_
Irá o homem para a casa da sua eternidade.