_As tribulações dos santos são enigma:
uma cousa parecem, e outra são e significam:
parecem miserias da fortuna,
e são concelhos da Providencia Divina,
e signaes da felicidade eterna._
P. M. BERNARDES. (Silva de varios
dictames espirituaes.)
Na primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolonia, um
bilhete da via-ferrea, para a ponte da Assêca. Saudades do campo,
ancias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima
d'isto, o meu dorido amor a quantos sitios guardavam para a minha
memoria do coração vestigios da infancia, que tão depressa passara
com as flores d'outra mais formosa primavera... A que vem isto?!... É a
saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdôe-me.
Entrei n'uma das mais flacidas carruagens do comboi.
Vejam a egoista e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma
padecia tanto, se dispensou a ignobil materia dos regalos das almofadas!
A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que
recamaras de asiatica opulencia se lamentava elle! Que requintes de luxo
para o corpo, e anhelos de gloria para a felicidade do espirito lhe não
infloravam ao poeta de Elvira a dupla existencia, quando elle escrevia:
_Héritiers des douleurs, victimes de la vie,
Non, non, n'espérez pas que rage assouvie
Endorme le Malheur,
Jusqu'á ce que la Mort, ouvrant son aile immense
Engloutisse à jamais dans l'éternel silence
L'éternelle douleur!_
E Petrarcha, tanto anno a chorar sonetos, aposentado no palacio d'um
doge, rodeado de servos, e d'amigos, e de admiradores, n'aquella
feiticeira Veneza, tudo a expensas da republica!
E todos os outros mestres de bardos melancolicos?
Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimantes!
Eu ia a scismar n'isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de
carruagem, o qual estava pendurando o chapéo no arame, e vestia a
veneranda calva com seu barrete de troçal preto.
Cortejei-o, na hypothese de que elle me tivesse já cortejado, e eu não
correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, cousas
disparatadas, que o leitor póde vêr mirificamente descriptas em S.
Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se
confessa; no segundo, quando viaja á roda do seu quarto. O santo bispo
chama ao corpo «bruto» e o conde francez chama-lhe «besta»--ao corpo
entenda-se, e não ao bispo. Para mim tenho que o corpo é ambas as
cousas, e muitas outras.
Se entro a desvariar, o leitor passa ao capitulo segundo, e isso é que
eu não queria, porque os meus romances começam todos pelo principio,
e este primeiro capitulo deve lêr-se.
Cortejei o padre. Parece-me que ainda não disse que era padre o meu
companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal n'aquelle apostolico
semblante, se o não dissesse a volta e a sotaina, e o sapato de fivela
de aço reluzente.
Correspondeu ao meu gesto com muita afabilidade, tirou-me da mão o
chapéo para pendural-o, e offereceu-me rapé, depois de bater quatro
vezes com os nós dos dedos na tampa da sonora caixa de tartaruga,
marchetada de madre-pérola.
--Póde fumar á sua vontade, se fuma--disse-me elle.
Agradeci o agradavel consentimento, e offereci-lhe a minha charuteira,
que elle não aceitou.
Recahi no meu lethargo. Agora era diversa a these: meditava n'esta
palavra MORAL, e n'esta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem
que Bruto, no ultimo instante de vida, dissera que a virtude era apenas
uma palavra. Por isso é que eu ia conversando com o sanguento phantasma
do heroico inimigo dos tyrannos.
--A moral!--dizia eu só commigo, depois que a imagem de Bruto se
vaporou--a moral é que não é meramente uma palavra. Aqui vai quem
poderia dizer-me o que é a moral. Este homem tem um rosto lucido e
intelligente: como que estou vendo por elle uma boa alma.
Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava elle com os dedos
inclavinhados e as mãos postas sobre o peito. Dava ares de profundo
recolhimento, senão tristeza. Gostei de o vêr assim n'aquella postura,
a mais artistica e significativa de paz, e conformidade vencedora dos
maus e dos males da vida.
Comparei-me com elle. As minhas dores surdas, disfarçadas n'um sorriso
convencional, e timorato do escarneo dos insultadores! O contentamento
interior d'aquelle homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza,
contrasenso se quizerem, mas expressão leal d'alma pura e sem temor!
Aos olhos de um observador inexperiente, qual de nós dous seria o
feliz?
Sahiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me:
--Serei indiscreto, perguntando-lhe onde tenciona ir?
--A Santarem.
--É um passeio aprazivel! O «valle» é um paraizo, povoado de
saudades, que chamam sempre o espirito de quem lá teve uma hora de
felicidade. Uma hora, digo, porque a felicidade d'este mundo, e só
d'este mundo, não dura mais que uma hora.
--Ha quantos annos eu lá não fui!...--continuou o padre no tom magoado
de entranhada saudade--E já agora é tarde... é o anoitecer da vida...
--Parece-me tão facil de satisfazer esse desejo!--interrompi eu.
--É facil, diz bem; mas é que ha saudades, que desabafam nas lagrimas;
e outras, que se embebem d'ellas. A saudade do objecto, existente a
distancia, converte-a em delicias a aproximação; porém, quando a
saudade de um sitio é a dôr repercutida de vidas que lá viveram, e
não podem reviver com a nossa, essa não tem allivio.
--Creio que tem--disse eu--é vêr e amar essas vidas em Deus, chamal-as
em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na linguagem das
lagrimas...
--E da oração...--disse o padre, e proseguiu, depois de breve
silencio--Prouvera a Deus que todos os que soffrem de affeições
perdidas tivessem o desafogo de buscal-as no céo...
E calou-se de súbito, cerrando as palpebras, e encruzando as mãos
longas e ossudas sobre o peito.
Estavamos no «Poço do Bispo.» Pesava-me a idéa da separação,
cuidando que o padre sahiria alli. É que já o estimava, captivo de sua
linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me elles
parecem intelligentes e desgraçados.
--Fica no «Poço do Bispo?»--perguntei.
--Não senhor; vou para os «Olivaes.»
--A passeio, ou é de lá?
--Vivo lá: tenho alli arrendada uma vivenda, umas ruinas pittorescas,
em que me sinto bem. Estou alli como encasado n'aquellas paredes
abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando cahiremos
nós comtigo?
Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou:
--Se o senhor vier aos «Olivaes» alguma vez, e quizer hospedar-se na
humilde casa, que lhe offereço, e sentar-se á mesa em que ha sempre o
_riso e vacca_ de frei Bartholomeu dos Martyres, pergunte pela quinta do
Canavial, e procure o padre Alvaro Teixeira. Raras horas no anno estou
fóra do meu quarto, ou dos arredores da casa. Encontra-me sempre, salvo
se algum visinho lhe disser que o pobre presbytero passou a morar
n'outra residencia onde as pessoas que me visitarem terão a caridade de
pedir a Deus o descanço da minha alma.
Disse isto o padre sem o menor tregeito beatifico. N'aquellas palavras
doridas sorria a consolação da esperança, e a jovialidade do justo
que se não teme das contas finaes de sua alma com Deus, e da memoria,
que de si deixou, com a justiça humana.
--Espero ir encontral-o com muita vida, senhor padre Alvaro Teixeira, e
não será muito tarde. A sua povoação está ás portas de Lisboa;
mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem
communicativo e estimavel, para quem o coração me está fugindo com a
palavra «amigo.»
--Agradeço-lh'a, e afago-a; respondeu, e estendendo-me a sua mão--Que
o sentimento generoso sahe espontaneo do coração, sem consultar o
raciocinio; ao passo que frequentemente as melhores qualidades do homem,
que tratamos longo tempo, não vencem a descaridosa antipathia de um
primeiro encontro.
--Como se chama?
Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o tres vezes pausadamente, syllaba
por syllaba, e depois exclamou de repente:
--Não me engano. É o mesmo. Eu conheço o seu nome ha onze annos.
Entre os meus livros estão vinte paginas da sua infancia litteraria.
Nem, talvez, já se lembre d'ellas! Pois não deve esquecel-as... Eu lhe
cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO.
--É a verdade; são minhas. Classificou magistralmente a cousa: vinte
paginas da minha infancia litteraria, felizmente esquecidas...
--Mas não as esqueça em si o homem de coração, que deve prevalecer
ao homem d'estudo. Foi temeridade assentar-se á beira do caminho, por
onde passava triumphantemente o primeiro sabio de Portugal; mas, _feliz
culpa_, ditoso atrevimento o do rapaz, que não tinha exhauridas ainda
todas as lagrimas da compuncção. Atrevimento reprehensivel fora o da
porção do clero, que desenrolara do pulpito abaixo o sudario da sua
ignorancia, disputando á sciencia o que era da sciencia, e arriscando a
causa da verdade ás vaias de ingenerosos adversados, os quaes, não
podendo hombrear com o historiador doutissimo no solio da sciencia, e
castigar de lá os ignorantes, entenderam que bem mereciam do mestre
apanhando-lhe a lama do chão das suas botas, e atirando-a á cara dos
padres. No folheto do meu amigo não havia polemica nem sciencia; mas
sobejavam conselhos aos parciaes do clero, que porfiavam em levar
vantagem de injuria aos inimigos. Não se corra de ter, um dia, escripto
que o padre é ignorante porque o não ensinam, e que as verdades
santíssimas de Jesus não podem ser menospresadas pelas argucias da
razão philosophica, nem pela rude e escura hermeneutica dos mal aviados
defensores da exclusiva razão do catholicismo...
N'esta esteira foi navegando o padre, a todo o panno da sua muita
critica e erudição. Pedem os leitores que os poupe ás conferencias do
levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh'as, mesmo porque
me era preciso saber tanto como elle, para o não desprimorar da
eloquencia com que me aligeirou em instantes a hora decorrida até os
«Olivaes.»
Parou o comboi, e o padre suspendeu o discurso n'uma conjuncção.
--E portanto...--disse elle--Adeus, meu amigo, não ha tempo para mais.
--E portanto--disse eu--não o dispenso de concluir o seu discurso. Eu
é que digo por hoje adeus ao valle de Santarem, e fico nas pittorescas
ruinas dos «Olivaes.»
--Fica!--exclamou elle com alegria--Pois bem haja!
Saltei, dei a mão ao padre, e apresentei o meu bilhete ao conductor.
Merece chronica um episodio de instantes que se deu entre mim e o
conductor n'esta estação. O meu bilhete designava a «Ponte da
Asseca» e o conductor formalisado dizia-me que eu não podia deixar de
ir á «Ponte da Asseca.» N'um breve discurso tentei debalde provar ao
funccionario que a companhia não era prejudicada com o receber mais
oitocentos e tantos reis acima da minha passagem para os «Olivaes.» O
homem, que era belga, não entendia o meu vasconço de Poitou. O padre
encostado ao cunhal da estação, arquejava de riso; o belga relanceava
os olhos envinagrados, avinhados é mais exacto, d'elle para mim e de
mim para elle, julgando-nos ambos cumplices na logração. A final soou,
segunda vez, a campainha, e o habil empregado lá foi fazendo de mim um
mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, collocando o
intelligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum portuguez
estupido. E, se não provasse isto, provaria a embriaguez do homem, e
ainda assim a boa escolha.
--Ora vamos lá--disse o padre Alvaro Teixeira, encostando-se ao meu
braço--Temos dez a doze minutos de caminho. Vamos pisando este chão
que é como sagrado para mim. Repare nestas flôres das ribas e
vallados, que eu vejo ha trinta annos, sempre com o mesmo viço e a
mesma côr em cada primavera. Ha na natureza um aspecto de indiferença
que exacerba a dor dos infelizes, se é que todas estas boninas não
renascem para chorar commigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando
alguns traços do passado se me varrem da memoria do coração, e,
depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a
flôr do rosmaninho, revivem as lembranças todas, umas pungentes,
outras doces de saudade; mas nenhuma de esperança... Esperança! Não
se ri d'esta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se
apressasse a corrida após de uma esperança, áquem da sepultura?...
--Por que não? A esperança de encontrar mais um amigo, e depurar
alguma alma empestada pelas más paixões, não é tão digna de si, e
dos seus annos!? E além de que o senhor padre Alvaro não é velho.
--Veja se me lisongêa, meu amigo. Olhe se faz com as suas palavras a
maravilha da fabula: rompa n'aquella pedra a fonte da juventude do corpo
e a da alma. Remoce o achacoso velho que já conta... diga lá, quantos
annos me faz?
--Cincoenta e seis, ou sessenta, quando muito.
--Não, senhor: tenho quarenta e seis.
Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis annos aquelle
homem, que me ia pesando no braço, e se abordoava á grossa bengala que
lhe oscilava na mão! A luz dos olhos serena, mas quasi apagada. Os
vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miuda
rêde ao redor das orbitas. As faces arregoadas, lividas, e flacidas. As
cordoveias do pescoço repuxadas pelos tendões descarnados. O dorso
recurvo, e as extremidades tremulas e morosas nas articulações dos
joelhos. Quarenta e seis annos! Que fogo voraz se retrahe no coração
d'este homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra!
Foi a mão de Deus, que me guiou a ti, filho da dor, para me humilhar
diante da tua paciencia!? Falla, falla, ensina-me a compor dos meus
gemidos o hossana da victoria, sobre as agonias, que me vergam, quando
eu mais me afadigo a despontar-lhe os espinhos com a rebellião
insoffrida. Diz-me através de qual fibra illesa e invulneravel te vem
do espirito aos labios esse teu sorriso! Dá que eu prove o fel de cada
lagrima, que enxugaste com o punho da batina nas tuas faces aradas! Não
cáias arvore bemdita, sem que eu colha fructos de benção d'essas
magestosas frondes, que se abaixam até ao raso da minha miseria. Se
adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte
paginas do coração juvenil, deixa-o sentar-se á tua beira, a meio
caminho da vida; aponta-lhe d'aqui o trilho menos escarpado da
sepultura; ensina-o a converter cada espinho em flôr; cinge-lhe os rins
com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh'a com o travor das
lagrimas penitentes; dá-lhe a força de homem, e reserva para Deus a
tua essencia de anjo.
_Este era o seu refugio, o seu descanço._