A ave chora e geme enlouquecida derramando a tristeza na floresta.
Desnaturada mão lhe roubou os filhos para os votar à morte na tortura.
Em vão soltou a ave o seu clamor da materna agonia enternecida. Em vão
chamou, dorida, anciosamente, por quem responda e queira ao seu amor,
sedento, insaciavel de outro amor que agora não encontra e experimentou em
freimas e fadigas e carinhos de afortunados dias prolongados!...
Já desmaia o poente e, descorado, deixa crescer a noite e se abandona a
todo o seu império. Sentiu-a aproximar-se a ave infeliz. Redobra e é mais
aguda e mais a oprime a lacrimosa mágoa em que se perde.
É noite; é noite!... É a escuridão e o frio e o desamparo. Que peito o seu
amor vai proteger?... Por quem há-de correr todo o seu sangue?... Quem
virá receber-lhe o seu alento?... Que boca o seu calor há-de aquecer?...
Para que a vida senão para dar a vida?... Para que, senão para a dar só
por amor?!...
Ao fim, na solidão como contricta de tamanho sofrer em que comunga, ao
gemido da ave respondeu a dôr, a companheira que encontrou em seu tépido
ninho onde afagára os sonhos de ventura malfadados.
E ao lamento da ave me prendi, como se prendem corações irmãos. Porque,
escutando-o, repetiu e disse a fortuna e desgraça do meu peito--quanta
ilusão e sonho arrebatado só por amor criou e acalentou, e quanto padecer
é o seu martírio quando a sorte sinistra lhe converte seus enlevos mais
belos na amargura.