Pelos degraus de marmore subi à morada dos grandes que se abrigam sob
tetos dourados, arrastando os enfadados ócios da riqueza. Benignamente me
acolheu o seu fausto; e generosos, senão indiferentes, repartiram comigo
os seus banquetes onde o destino os apartou do vulgo, para afagar-lhes
volupias caprichosas que o tédio implacavel lhes segreda. Do seu esplendor
tambêm fui escravo; tambêm me deslumbrou, tambêm o quiz e entre surpreza e
espanto o experimentei, na embriaguês daquela estranha e pérfida beleza
que no luxo se acoita e nêle oculta, sob um manto divino e formosura, em
purpura e no jaspe e na ametista, uma traição cruel de outra beleza--da
infinita beleza que é singéla e humilde e é castidade, que é a isenção sem
temor e é a caridade, que é a alegria em Deus e na pobreza, que confiou á
terra o seu sustento, que é eterna, que não mente e não desmaia, e nos dá
a vida e para sempre afasta a morte, porque o Senhor a mandou e a
abençoou.
Ou fôsse desengano ou fôsse esperança de ventura maior que essa,
mesquinha, que sendo ouro é pó e em pó se volve, sentindo-me indigente me
apartei da rijida frieza dos palácios, peregrino votado a incerta estrada.
E vim aos casais pobres, a pedir-lhes esmola de consolo e fortaleza, toda
a luz da alma e o calor de afectos e o louvor de Deus que a soberba baniu,
na ignorância do seu alto poder; vim pedir-lhes a firmeza e coragem, que
no orgulho andam pervertidas, e o trabalho e a fé que são brazão, altar e
epopeia dêsses tugurios razos como o zimbro em que o teto mal cobre, a
custo abrange, uma enxada e o berço e o coração, doirando só de amor e de
fadiga um lar estreito, a rudeza das pedras mal unidas e os colmos negros
que as revestiram.
É grande e altivo o cedro e é magestoso na opulencia profunda das suas
frondes; e é pequenino o musgo que se arrasta no recato obscuro da sua
sombra. Mas vestiu luto e tristeza o cedro alto e um severo desdem da
sorte alheia; e só sonhou doçura o musgo humilde, não houve mansidão que o
não beijasse, não houve esplendor que o não cobrisse. E o vendaval partiu
o cedro robusto e sem vida o prostrou para desfazer-se; e o musgo não
sentiu a tempestade, sorriu à violência quando o açoita como sorriu ao sol
quando o alentava.
Seja o palácio como o cedro alto! Seja a cabana como o musgo humilde!...
Ah! Fôsse eu o senhor do meu destino e da minha fraqueza me remisse,
soubesse eu servir meu coração para que o seu anseio consumasse, e eu iria
prendê-lo na choupana, onde a suma beleza e o sumo bem, seus tesouros e
luz e os seus coros, são os seios que dão vida amamentando e os braços que
dão o pão cavando a terra!