XX

Dêsde o romper da aurora, quando o sol iluminando a terra me acordou os

braços e o afecto para a servir, andára a revolvê-la, respirando-lhe

alentos da negrura abençoada, e generosa e dôce, que me paga com todo o

amor dos pomos e das rosas meu trabalho mesquinho e o meu amor, meu pobre

amor fiel de obreiro débil.

Êsse humilde labor adormeceu-me o coração cansado e dolorido das lutas e

paixões que o mortificam nesta jornada ingrata, onde se arrasta sofrendo a

sua cruz, pênas do mundo. Esqueceu seus anseios infecundos, seu malogrado

arrojo para se erguer à altura das visões que o seduziam. Esqueceu suas

ruins turbações e o seu error entre ambições, escuros cativeiros, que em

meandros sem fim, de treva e dôr, inclementes mudaram a doçura feliz da

candidez na cerração de lívidos tormentos. Aí desconheceu, como se nunca

as houvesse sentido em seus infernos, a impiedade, e a inveja, e a

soberba, e a impostura, e a traição da hipocrisia, espectros negros que

entre os homens o cercam e em vão tentaram desprendê-lo de Deus,

precipitando-o na mentirosa fé e nos enganos de suas recompensas e

prazeres. Êsse mundo que o ferira e ensanguentára, ali se dissipára e se

perdera sob os afagos brandos, caridosos, que a terra lhe mandava a

ensinar-lhe a paz e a alegria na vontade e misericordia do Eterno, tais

quais as encontrava nos rosais, na espessura e nos silvados.

Resgatado, emquanto por amor servia a terra, abandonou-se à ingenua lei da

terra, na terra confundido e renascido, o coração doente, semimorto, que

regando com o seu calor e sangue as açucenas e a seára e o cedro e o

jasmim, o pão e a formosura, assim baniu, em venturoso instante, suas

dôres mais pungentes. Nêsse enlevo lhe foi bem curto o dia: foram momentos

rápidos, fugazes, quantas horas podia ter contado, e muitas decorreram,

muitas o sol marcou dêsde a fria palidez da madrugada, que foi seu berço e

canto de glória, até que ao fim morreu para curta morte na mortalha

vermelha do crepusculo.

Então, quando cresciam as sombras percursoras do repouso da noite e seu

silencio, um clamor pausado e lento me acordou do sono bemfazejo em que a

terra, consoladora, me embalava. Religiosamente, o campanário por sua voz

de bronze anunciava aos campos e às estrelas que o trabalho findára e nos

cumpria volver a face e o peito e o coração para aquela Mãe de infinda

piedade, que com o Senhor está, cheia de graça, bemdita entre as mulheres,

como é bemdito o fruto do seu ventre. Melancolicamente nos mandava que,

crentes e fieis, a implorassemos para que a Deus e aos ceus ela rogasse

que a fraqueza dos homens perdoassem e em sua luz os redimissem e

erguessem.

No extremo do campo, junto ao rio, onde os salgueiros bebem refrigérios

nas aguas que rebrilham sôbre as areias brancas, uma outra voz de bronze

repetiu a oração que eu ouvira comovido. Logo após a repete aquela torre

do outeiro mais alto entre os irmãos que, levantando a cruz, guarda e

protege a gândara prolongada e a choupana, onde unidos não tardam a

acolher-se cordeiros e crianças, seus moradores e filhos, por igual

amamentados e queridos de uma mesma candura. E mais distante, àlêm dos

pinheirais, ainda uma voz igual renova a súplica para os cavadores das

margens da laguna que lhes dá às searas seus orvalhos, aos prados a

frescura, e à deveza o esplendor viçoso das suas frondes.

Peregrina de Deus, de lar em lar, a prece dessa voz erguia os homens para

que orando terminassem o trabalho.

Então, por seu amor e mansidão, voltei ao mundo e aos homens pecadores que

no amor da terra eu esquecêra, esquecendo tambêm, por minha culpa, suas

paixões e dôres e os seus tormentos, toda a fraqueza ingénita da sua

sorte. Onde o meu coração tinha morrido, maldizendo êsse mundo que temera

e, fugindo, deixára, renasceu do enlevo para a mágoa, para prender-se

àqueles que viviam e com êles sofrer seus suplícios, para comungar na

comunhão sagrada da sua compassiva piedade.

Salmos do prisioneiro · 第 26 / 34 题