Dêsde o romper da aurora, quando o sol iluminando a terra me acordou os
braços e o afecto para a servir, andára a revolvê-la, respirando-lhe
alentos da negrura abençoada, e generosa e dôce, que me paga com todo o
amor dos pomos e das rosas meu trabalho mesquinho e o meu amor, meu pobre
amor fiel de obreiro débil.
Êsse humilde labor adormeceu-me o coração cansado e dolorido das lutas e
paixões que o mortificam nesta jornada ingrata, onde se arrasta sofrendo a
sua cruz, pênas do mundo. Esqueceu seus anseios infecundos, seu malogrado
arrojo para se erguer à altura das visões que o seduziam. Esqueceu suas
ruins turbações e o seu error entre ambições, escuros cativeiros, que em
meandros sem fim, de treva e dôr, inclementes mudaram a doçura feliz da
candidez na cerração de lívidos tormentos. Aí desconheceu, como se nunca
as houvesse sentido em seus infernos, a impiedade, e a inveja, e a
soberba, e a impostura, e a traição da hipocrisia, espectros negros que
entre os homens o cercam e em vão tentaram desprendê-lo de Deus,
precipitando-o na mentirosa fé e nos enganos de suas recompensas e
prazeres. Êsse mundo que o ferira e ensanguentára, ali se dissipára e se
perdera sob os afagos brandos, caridosos, que a terra lhe mandava a
ensinar-lhe a paz e a alegria na vontade e misericordia do Eterno, tais
quais as encontrava nos rosais, na espessura e nos silvados.
Resgatado, emquanto por amor servia a terra, abandonou-se à ingenua lei da
terra, na terra confundido e renascido, o coração doente, semimorto, que
regando com o seu calor e sangue as açucenas e a seára e o cedro e o
jasmim, o pão e a formosura, assim baniu, em venturoso instante, suas
dôres mais pungentes. Nêsse enlevo lhe foi bem curto o dia: foram momentos
rápidos, fugazes, quantas horas podia ter contado, e muitas decorreram,
muitas o sol marcou dêsde a fria palidez da madrugada, que foi seu berço e
canto de glória, até que ao fim morreu para curta morte na mortalha
vermelha do crepusculo.
Então, quando cresciam as sombras percursoras do repouso da noite e seu
silencio, um clamor pausado e lento me acordou do sono bemfazejo em que a
terra, consoladora, me embalava. Religiosamente, o campanário por sua voz
de bronze anunciava aos campos e às estrelas que o trabalho findára e nos
cumpria volver a face e o peito e o coração para aquela Mãe de infinda
piedade, que com o Senhor está, cheia de graça, bemdita entre as mulheres,
como é bemdito o fruto do seu ventre. Melancolicamente nos mandava que,
crentes e fieis, a implorassemos para que a Deus e aos ceus ela rogasse
que a fraqueza dos homens perdoassem e em sua luz os redimissem e
erguessem.
No extremo do campo, junto ao rio, onde os salgueiros bebem refrigérios
nas aguas que rebrilham sôbre as areias brancas, uma outra voz de bronze
repetiu a oração que eu ouvira comovido. Logo após a repete aquela torre
do outeiro mais alto entre os irmãos que, levantando a cruz, guarda e
protege a gândara prolongada e a choupana, onde unidos não tardam a
acolher-se cordeiros e crianças, seus moradores e filhos, por igual
amamentados e queridos de uma mesma candura. E mais distante, àlêm dos
pinheirais, ainda uma voz igual renova a súplica para os cavadores das
margens da laguna que lhes dá às searas seus orvalhos, aos prados a
frescura, e à deveza o esplendor viçoso das suas frondes.
Peregrina de Deus, de lar em lar, a prece dessa voz erguia os homens para
que orando terminassem o trabalho.
Então, por seu amor e mansidão, voltei ao mundo e aos homens pecadores que
no amor da terra eu esquecêra, esquecendo tambêm, por minha culpa, suas
paixões e dôres e os seus tormentos, toda a fraqueza ingénita da sua
sorte. Onde o meu coração tinha morrido, maldizendo êsse mundo que temera
e, fugindo, deixára, renasceu do enlevo para a mágoa, para prender-se
àqueles que viviam e com êles sofrer seus suplícios, para comungar na
comunhão sagrada da sua compassiva piedade.