XVII

Adormeci na escuridão da noite--cobria-me o luar quando acordei. Na tréva

se esvaíu a consciência--restituiu-ma a luz vinda dos céus!

A fadiga do dia, as canseiras e penas que atormentam a vida descontente

porque o mundo lhe combate e lhe oprime a aspiração; os sonhos de bondade

malfadados, ruíndade que escarnece da doçura, astúcia que injuría a

candidez, desamôr que responde ao bemquerer, ostentação preterindo a

singeleza, a jactância suprindo a descrição, a pureza entre lagrimas

traída, a pobreza arrastada em seus andrajos e a mentira orgulhosa em seus

fulgores; perversão, crueldade, a fome e o ódio disputando os retalhos

miserandos da riqueza mortal que a terra dá e à qual chamam os seus bens

êsses escravos que outros bens da alma nem sequer suspeitam, no mesmo

trilho em que a cubiça os leva--todo êste amargor que o passar de cada

hora nos distila, o dorido bater do coração que em calvário de amor verte

o seu sangue, êsse era meu algoz e companheiro quando a noite desceu e se

cerrou. Assim me adormeceu imerso em mágoa, e assim eu confiei meu

desalento à treva e à inconsciência, sem outra esperança que não fosse

aquela de mais sofrer ainda e despertar mais forte para o sentir e para o

servir, para mais longe arrastar a minha cruz.

Quando acordei, porêm, sorria a terra no vestalino alvôr que era o seu

véu.

E disse-me a brancura do luar:

--«Emquanto, exausto, tu adormeceste e abrandaste na treva o padecer,

Alguem, Consolador, velou por ti, convertendo na luz a escuridão. Alguem

te transformou em claridade a negrura do mundo e a do teu peito. Se a

treva te prendeu e por fraqueza te rendeste ao martírio da tristeza, que

só te mortifica porque foste infiel, feriste o Senhor, renasce para a

humildade e para a bondade, acorda e vê que a luz jámais fenece e sempre

vem remir-te, para que a louves, em teu ser e nos céus, onde a encontrares

purificando a terra e o coração.

Salmos do prisioneiro · 第 23 / 34 题