Adormeci na escuridão da noite--cobria-me o luar quando acordei. Na tréva
se esvaíu a consciência--restituiu-ma a luz vinda dos céus!
A fadiga do dia, as canseiras e penas que atormentam a vida descontente
porque o mundo lhe combate e lhe oprime a aspiração; os sonhos de bondade
malfadados, ruíndade que escarnece da doçura, astúcia que injuría a
candidez, desamôr que responde ao bemquerer, ostentação preterindo a
singeleza, a jactância suprindo a descrição, a pureza entre lagrimas
traída, a pobreza arrastada em seus andrajos e a mentira orgulhosa em seus
fulgores; perversão, crueldade, a fome e o ódio disputando os retalhos
miserandos da riqueza mortal que a terra dá e à qual chamam os seus bens
êsses escravos que outros bens da alma nem sequer suspeitam, no mesmo
trilho em que a cubiça os leva--todo êste amargor que o passar de cada
hora nos distila, o dorido bater do coração que em calvário de amor verte
o seu sangue, êsse era meu algoz e companheiro quando a noite desceu e se
cerrou. Assim me adormeceu imerso em mágoa, e assim eu confiei meu
desalento à treva e à inconsciência, sem outra esperança que não fosse
aquela de mais sofrer ainda e despertar mais forte para o sentir e para o
servir, para mais longe arrastar a minha cruz.
Quando acordei, porêm, sorria a terra no vestalino alvôr que era o seu
véu.
E disse-me a brancura do luar:
--«Emquanto, exausto, tu adormeceste e abrandaste na treva o padecer,
Alguem, Consolador, velou por ti, convertendo na luz a escuridão. Alguem
te transformou em claridade a negrura do mundo e a do teu peito. Se a
treva te prendeu e por fraqueza te rendeste ao martírio da tristeza, que
só te mortifica porque foste infiel, feriste o Senhor, renasce para a
humildade e para a bondade, acorda e vê que a luz jámais fenece e sempre
vem remir-te, para que a louves, em teu ser e nos céus, onde a encontrares
purificando a terra e o coração.