Mal me aparta da esperança o desengano, logo vem a prender-me nova
esperança de trazer a esta terra e vêr perfeitos os infinitos sonhos da
minha alma, êsses que por Deus sonho e Deus me dá.
De cada mágoa me levanta e ergue, suave e doce e caridosamente, o
despontar da estrela da alegria, visões que vem dos céus a iluminá-los. Em
toda a queda me protege e ampára um eterno poder de fortaleza que me
afoita e me manda caminhar. Onde vem desenganos desfazer desditosas
venturas que findáram, o seu cutelo é aquela dôr sagrada que em um só
golpe dá a morte e nos reanima, que ao mesmo tempo é pena e é a
indulgência, que da própria amargura tira alentos para impôr a servidão de
nova esperança. Onde, inclemente, o desengano ferindo-me me terminou
enlevos e encantos que uma súbita treva escureceu, aí mesmo me mandou o
seu socorro, seus anjos bons que acendem nova luz para me guiar na estrada
e transportar-me aos reinos em que a esperança é a salvação.
Sem condições, rendi-me ao desengano. Divino portador de muitos bens, já
não o temo se vem ao meu encontro, pois nunca me mentiu e, se me punge, é
para dar o meu sangue a nova esperança, e nessa esperança me alongar a
vida, e alongando-me a vida me ensinar o amor do Senhor de que êle é
escravo.