XVI

Mal me aparta da esperança o desengano, logo vem a prender-me nova

esperança de trazer a esta terra e vêr perfeitos os infinitos sonhos da

minha alma, êsses que por Deus sonho e Deus me dá.

De cada mágoa me levanta e ergue, suave e doce e caridosamente, o

despontar da estrela da alegria, visões que vem dos céus a iluminá-los. Em

toda a queda me protege e ampára um eterno poder de fortaleza que me

afoita e me manda caminhar. Onde vem desenganos desfazer desditosas

venturas que findáram, o seu cutelo é aquela dôr sagrada que em um só

golpe dá a morte e nos reanima, que ao mesmo tempo é pena e é a

indulgência, que da própria amargura tira alentos para impôr a servidão de

nova esperança. Onde, inclemente, o desengano ferindo-me me terminou

enlevos e encantos que uma súbita treva escureceu, aí mesmo me mandou o

seu socorro, seus anjos bons que acendem nova luz para me guiar na estrada

e transportar-me aos reinos em que a esperança é a salvação.

Sem condições, rendi-me ao desengano. Divino portador de muitos bens, já

não o temo se vem ao meu encontro, pois nunca me mentiu e, se me punge, é

para dar o meu sangue a nova esperança, e nessa esperança me alongar a

vida, e alongando-me a vida me ensinar o amor do Senhor de que êle é

escravo.

Salmos do prisioneiro · 第 22 / 34 题