XV

Ouvi chorar a noite porque a orgia lhe roubara o silêncio, o companheiro.

Quando o céu lhe acendeu suas estrelas e no seu negro manto esmoreceu todo

o brilho que o sol cria na terra e toda a formosura que ele afaga, na

benigna hora recolhida em que a noite murmura a sua paz e acorda em seu

mistério as orações que nos prendem a Deus e aos seus mandados e nos

revelam aquilo que sustenta o coração, quanto o eleva e quanto o

enternece, quanto lhe abranda a mágoa e o incendeia, e quanto o arrasta

exangue em seus lamentos--nessa hora bemdita, à paz da noite e à sua

redenção respondeu o alvoroço e o sacrilégio de multidões perdidas no

torpe ardor de indignas cobiças. Abandonadas à sordida torrente da

impiedade, onde se afoga a candura e a fé e toda a essência que em nossos

corações renova e alenta a imagem e a vontade do Senhor, e do mundo nos

ergue a êsse seu reino de amor e de perdão e de pureza, ignoram a noite e

o seu consolo. Impenitentes reprobos, profanam o divino silêncio emquanto

escutam o rouco clamor da perdição.

E a noite, que orvalhou a bonina e acalmou os ramos agitados da floresta e

adormeceu o rebanho e o seu pastor, que soltou mais clara a voz das águas

e fez crescer a sombra da montanha, cingindo-a de grandeza e fortaleza, e

compassiva veiu mansamente a resgatar de penas e trabalhos os vilares e

casais afadigados, prostrados da canseira que dá o pão--a noite, o arauto

sagrado do silêncio, sua mística sérva e confiada, sentindo que uma chama

infernal a prostitue e no seu crepitar a martirisa, chorou amargamente o

desvairo infiel que, ultrajando o silêncio, o aborreceu na injúria que o

trocou pelo rumor da cidade enlouquecida.

Ouvi chorar a noite atraiçoada porque uma orgia atroz afugentou o seu

supremo bem e companheiro que a inspira e lhe diz salmos divinos, o

silêncio que ela ama e é o seu esposo. E então, ferida e dorida, me

prendeu em compungidos laços da sua mágua, apertados e estreitos, como

aqueles, bemvindos e queridos, que eu senti quando a vi, docemente, a

proteger a bemaventurada terra a que trazia seus carinhos de sombra e de

mudez.

Salmos do prisioneiro · 第 21 / 34 题