XIV

Passa ligeira a nuvem no luar. E, por momentos, foi obscura palidez

incerta aquele espaço ha pouco resplendente, adormecido na mais dôce luz.

Que é dessa alvura que vestia a terra? Que é da brancura que a

purificava?!...

Uma sombra turvou a imensidade. Como se os astros desmaiassem timidos e um

estranho terror os apagasse, afrouxa e hesita a sua claridade e quanta

brandura e calma ela derrama. É que uma nuvem perpassou errante e

etereamente se esvaiu e perde.

Filha das águas, leve, inconsistente, só para mudar nascida, estranho ser

que não vive um instante a mesma vida e a todas experimenta e a todas

deixa com igual desamor e igual capricho, imagem fugidia de um efemero

delírio descontente, tão pequenina e fraca, a nuvem foi mais forte que o

podêr mais ardente das estrelas e pode te-lo turvado, escurecido e

humilhado.

Ai de mim, ai de mim!... Sei seu mistério! Porque assim é tambem a minha

sorte. Uma nuvem venceu a luz dos céus; e a mim vencem-me os sonhos toda a

luz que do meu coração se ergue e desprende, carcereiros da dôr e da

ventura, despóticos senhores e poderosos de toda a glória e mágoa do meu

peito.

Salmos do prisioneiro · 第 20 / 34 题