Passa ligeira a nuvem no luar. E, por momentos, foi obscura palidez
incerta aquele espaço ha pouco resplendente, adormecido na mais dôce luz.
Que é dessa alvura que vestia a terra? Que é da brancura que a
purificava?!...
Uma sombra turvou a imensidade. Como se os astros desmaiassem timidos e um
estranho terror os apagasse, afrouxa e hesita a sua claridade e quanta
brandura e calma ela derrama. É que uma nuvem perpassou errante e
etereamente se esvaiu e perde.
Filha das águas, leve, inconsistente, só para mudar nascida, estranho ser
que não vive um instante a mesma vida e a todas experimenta e a todas
deixa com igual desamor e igual capricho, imagem fugidia de um efemero
delírio descontente, tão pequenina e fraca, a nuvem foi mais forte que o
podêr mais ardente das estrelas e pode te-lo turvado, escurecido e
humilhado.
Ai de mim, ai de mim!... Sei seu mistério! Porque assim é tambem a minha
sorte. Uma nuvem venceu a luz dos céus; e a mim vencem-me os sonhos toda a
luz que do meu coração se ergue e desprende, carcereiros da dôr e da
ventura, despóticos senhores e poderosos de toda a glória e mágoa do meu
peito.