Segui de olhos vendados a ilusão. Para que não visse a aspereza do meu
trilho, para me guardar de espectros que o assaltam, para me ocultar
torpezas dêste mundo, cegou-me e desviou-se do caminho, juncado só de
cardos, em que um ríspido destino me trazia. Ergueu-me em suas azas e
levou-me àquela altura onde não ha treva e a luz não tem fraqueza nem
crepúsculo, onde os espinhos se convertem em rosas, onde o veneno se
transforma em filtros salutares vivificantes, e a amargura e a dôr e toda
a pena se dissipam em auras incensadas.
Se, porêm, a ilusão me abandonou e o desengano apunhalou o meu peito e o
fez chorar, não descri da ilusão nem a neguei. Sentindo-me infeliz, pedi
aos ceus que aos anjos de ilusão me confiassem, que de novo os mandassem
libertar-me da vileza da terra e seu tormento, da malquerença, do odio e
da avareza, de quanto mal nos prostitue a alma e atraiçoa o Senhor.
Pedi-lhes a cegueira da ilusão, pois quanto mais me cega mais a amo, mais
distante me leva da ruindade, mais no seio de Deus me faz sonhar.
Tanto a amei e lhe dei meu coração, tanto lhe quiz meu peito e a adorou,
que jámais me rendi ao inimigo. Se o desengano me assalta e fere e prostra
atormentado, não lhe imploro graças ou consôlo, só da ilusão espero a
fortaleza.
Prendeu-me nesta vida! Fui seu servo. Assim na morte a encontra
bemfazeja!... De contínuo lhe rogo, humildemente, que na morte me guie e
arrebate das certezas mesquinhas dêste mundo à incerteza feliz em que ela
reina e em sua benção nos redime e exalta.