XIII

Segui de olhos vendados a ilusão. Para que não visse a aspereza do meu

trilho, para me guardar de espectros que o assaltam, para me ocultar

torpezas dêste mundo, cegou-me e desviou-se do caminho, juncado só de

cardos, em que um ríspido destino me trazia. Ergueu-me em suas azas e

levou-me àquela altura onde não ha treva e a luz não tem fraqueza nem

crepúsculo, onde os espinhos se convertem em rosas, onde o veneno se

transforma em filtros salutares vivificantes, e a amargura e a dôr e toda

a pena se dissipam em auras incensadas.

Se, porêm, a ilusão me abandonou e o desengano apunhalou o meu peito e o

fez chorar, não descri da ilusão nem a neguei. Sentindo-me infeliz, pedi

aos ceus que aos anjos de ilusão me confiassem, que de novo os mandassem

libertar-me da vileza da terra e seu tormento, da malquerença, do odio e

da avareza, de quanto mal nos prostitue a alma e atraiçoa o Senhor.

Pedi-lhes a cegueira da ilusão, pois quanto mais me cega mais a amo, mais

distante me leva da ruindade, mais no seio de Deus me faz sonhar.

Tanto a amei e lhe dei meu coração, tanto lhe quiz meu peito e a adorou,

que jámais me rendi ao inimigo. Se o desengano me assalta e fere e prostra

atormentado, não lhe imploro graças ou consôlo, só da ilusão espero a

fortaleza.

Prendeu-me nesta vida! Fui seu servo. Assim na morte a encontra

bemfazeja!... De contínuo lhe rogo, humildemente, que na morte me guie e

arrebate das certezas mesquinhas dêste mundo à incerteza feliz em que ela

reina e em sua benção nos redime e exalta.

Salmos do prisioneiro · 第 19 / 34 题