XII

Se Deus me concedesse o seu podêr e o Senhor permitisse que um momento eu

vivesse em puro espírito, convertendo a miséria em candidez, eu quereria

erguer-me ao cimo casto e austero da montanha, da mais alta montanha que

avistasse, e aí, tocando a terra tão sómente no píncaro agudo revestido

dessa sagrada alvura imaculada que é a neve branca, eterna, incorruptível,

aí me despiria totalmente da mentira implacável que nos prende, aí

libertaria o coração em seus laços mortais tão oprimido, aí os soltaria

para seguir humilde e fielmente o seu anseio.

Quanto penso e a razão me contradiz, a oculta rebeldia desleal que jura

por certeza a própria dúvida, quantas palavras digo que eu não sinto,

quantos passos eu dou atraiçoando meu querer e vontade e aspiração, onde

obedeço ás convenções do mundo e onde à impostura cedo por fraqueza, o

falso pranto que cobre a indiferença e o riso em que o enfado anda

escondido, e o louvor sobrepondo-se ao desprêzo, e o desprêso negando as

afeições, e o silêncio em que a voz estrangulei só porque estranhos podem

desama-la--de todo o pervertido engano em que, inerte e prostrado, sou

levado, enganado e enganando, mentindo à consciência, aos céus e aos

homens, de toda a confusão dêsse tumulto em que o ímpio sacia o seu

escárneo, eu iria isentar-me, dissipando-o no cimo glorioso da montanha,

revestida da neve imaculada. E para que fôsse tal qual um cristal feito só

de luz, assim eu lavaria o coração de quanto na mentira o enegrece. E

então me sentiria redimido porque só a Verdade me prendia!

Salmos do prisioneiro · 第 18 / 34 题