Se Deus me concedesse o seu podêr e o Senhor permitisse que um momento eu
vivesse em puro espírito, convertendo a miséria em candidez, eu quereria
erguer-me ao cimo casto e austero da montanha, da mais alta montanha que
avistasse, e aí, tocando a terra tão sómente no píncaro agudo revestido
dessa sagrada alvura imaculada que é a neve branca, eterna, incorruptível,
aí me despiria totalmente da mentira implacável que nos prende, aí
libertaria o coração em seus laços mortais tão oprimido, aí os soltaria
para seguir humilde e fielmente o seu anseio.
Quanto penso e a razão me contradiz, a oculta rebeldia desleal que jura
por certeza a própria dúvida, quantas palavras digo que eu não sinto,
quantos passos eu dou atraiçoando meu querer e vontade e aspiração, onde
obedeço ás convenções do mundo e onde à impostura cedo por fraqueza, o
falso pranto que cobre a indiferença e o riso em que o enfado anda
escondido, e o louvor sobrepondo-se ao desprêzo, e o desprêso negando as
afeições, e o silêncio em que a voz estrangulei só porque estranhos podem
desama-la--de todo o pervertido engano em que, inerte e prostrado, sou
levado, enganado e enganando, mentindo à consciência, aos céus e aos
homens, de toda a confusão dêsse tumulto em que o ímpio sacia o seu
escárneo, eu iria isentar-me, dissipando-o no cimo glorioso da montanha,
revestida da neve imaculada. E para que fôsse tal qual um cristal feito só
de luz, assim eu lavaria o coração de quanto na mentira o enegrece. E
então me sentiria redimido porque só a Verdade me prendia!