«Sempre só»[1] ali estava recolhida em sua estreita cela que habitava, na
muda clausura de um retiro, sevéramente nú, desadornado de quanto o luxo
ordena, inventa e quer para saciar suas mortais doçuras e enganos.
[1] Quadro de Paul de Plument.
Respira austeridade aquela estância, a cuja porta cessa, proìbido, o rumor
apressado dos escravos, comprados, seduzidos pelo oiro, para servirem a
gula, o capricho e a indolência dos fracos e orgulhósos, abundando no
fáusto, e ocultando nos fumos e vaidades da grandeza a miséria dos bens da
alma e do corpo, um ser enfêrmo que a força desherdou e o ânimo robusto
desconhece; e é tão pobre de alfaias a morada onde a vi «sempre só»,
serenamente entregue ao seu scismar, que essas poucas, singelas, que lá
tem e são quanto lhe basta para amparo das rudes provações do seu viver,
essas poucas alfaias da indigência mais alargam em torno a solidão do que
quebram, em um tenue clamor, o êrmo rigoroso da pousada.
Esplendor que a engrandeça, outro não tem, nem quer, nem recebeu, senão a
luz do sol e a do crepusculo, e a da aurora, e o luar, e a estrela, e a
palidez da nuvem errante, quanto dos céus lhe vem, a visitá-la, infinitos
e prodigos tesouros dos que a presença do Senhor protege. Pela fresta
rasgada na parede, amplamente aberta à sua benção, vem os ástros ungir a
solidão e a obscura pobreza que a agasalha.
Mas, iluminada dessa luz bemdita, da luz vinda dos céos, eis que a
velhinha que na cela habita, e ali vi «sempre só» no seu silêncio, a
amá-lo e a aquecê-lo repassando-o dos alentos gerados do seu peito, eis
que vai lêr a folha desbotada e a desdobrou diante dos seus olhos,
amortecidos para a luz do mundo. Uma estranha beleza a reanima; uma
estranha doçura lhe sorri e em seu rosto sorrindo acende a vida. Não sei
se é de carícia, se de dôr, se de saudade, esperança ou desengano; se
entreviu, já distante, a juventude na branca túnica que lhe foi seu manto,
se é a velhice que desce a arrebatá-la envolvida na sombra da sua mágoa.
Por certo, são visões que ali adejam e o coração lhe nutre no seu sangue,
aureolando-as da chama e do fulgor que do coração se ergue e o purifica,
ora sinistramente, ora em glória, e sempre consumindo-o na eternidade de
um divino amor.
E entre visões que então a rodeiavam, recitando-lhe os salmos, todos lidos
no seio que sofrera e confiára a afectos e ternuras e carinhos a ventura e
a sorte de um palpitar ardente, apaixonado de alegrias e penas e anseios,
renasceu transmudada e foi feliz aquela que «sempre só» eu encontrára.
Vi-a cercada de anjos em sua côrte, que na pobreza tinham os seus paços e
na lembrança as únicas riquezas, e no silêncio sentem companheiros, no
silêncio dizendo os seus mistérios de doçura e de paz e amor perene.
Nessa imagem em que a terra me mostrou na solidão a bemaventurança, nessa
imagem me tem prendido a terra, a rogar-lhe que acorde na minha alma os
sonhos redentores, que ali sonhou aquela que eu segui na solidão, e ali,
na solidão, edificára, de cristal e sem mancha, resplendente, o seu
cláustro e templo onde guardava, sagrada e isenta, toda a sua fé.