Companheira fiel da minha estrada, sempre a meu lado a mágoa me seguiu.
Comigo ela subiu àquela altura onde feliz me viu e amorteceu venturas
passageiras de um momento. Entre alegrias a senti guardar-me. Calcou passo
a passo o meu calvário, entoando-me os salmos da sua crença, sua fé
compassiva e resignada em que a esperança, desfeita e convertida no
suplício da desilusão, nem assim foi maldita ou desamada. Em todo o seu
poder me iluminou; na sua mansidão curou as feridas do rigor de
infortúnios e tormentos, e na sua amargura saciou-me toda a sêde de amor
do coração que por amar bemdiz o seu martírio.
Já no berço a encontrei a bafejar-me com o seu tépido alento aquelas
lágrimas, cláras, abundantes e divínas com que Deus me banhou a meninice.
Ouvi o seu lamento dominando o rouco clamor das multidões que entre o
terror nos fere a consciencia. Entorpeceu-me os braços na batalha a que
fui disputar os bens da terra. Quebrou-me a crueldade em seu desvairo.
Carinhosa, protege-me a velhice. Ou abril desfolhasse as suas rosas, ou
novembro arrastasse os seus despojos, ou as águas dissessem seus encantos,
ou no monte adorasse a magestade, em toda a natureza, na mais feliz e doce
e sorridente como entre a inclemencia a mais sevéra, ouvi a voz de mágoa
redizendo-me desenganos do mundo e consolando-me, na consolação bemdita de
a sentir.
E quanto mais deserta foi a estrada e mais cerrado e fundo o seu silêncio,
mais quis à mágoa que me acompanhou; aí me possuiu inteiramente, e aí se
me entregou, candidamente, isenta de temor e de segredo. Essa foi a que
mais amei na terra; foi essa que eu beijei na solidão, nascida do meu
peito e nele oculta de corrompidos olhos que a profanem, no meu peito
habitando e respirando sua dôr e mudez, seu alimento, no meu peito
guardada e aquecida, para só viver com êle e aí morrer, ao abrigo do mundo
e da traição, para só viver emquanto êle viver, revestida dos véus do seu
pudor, reclusa que nutro do meu sangue e jámais beberá outro sustento.
Essa foi minha luz e companheira. Essa teve a pureza dos sacrários. Essa
me exaure a vida, e por sofrê-la eu quereria para sempre a vida, aquela
vida a que a mágoa me prendeu.
X
Rompeu clara a aurora de dezembro. O vento da manhã desce dos montes
difundindo a secura sôbre a terra. As neblinas alvas carinhosas,
ásperamente proscritas pela briza que do oriente corre a perseguí-las, mal
se suspeitam longe sôbre o mar, exiladas do rio em que vogavam,
brandamente cobrindo as suas águas, e banidas do vale onde habitavam,
tranquilas, seguras, resguardadas no repouso do prado entre os salgueiros.
Um translucido céo vem acordar a mais pequenina forma ignorada. É clara a
montanha e o pinheiral, e a inquietação da água da levada e o ribeiro
profundo em que ela amaina as serenadas ondas passageiras. É clara a
encosta pedregosa, inculta, e a aldeia e o sobreiral em que se abriga. E
os carvalhos da estrada e os pomares e a lhama prateada da oliveira, e o
comoro espesso e a madresilva que nele tece a rede dos seus ramos, e o
medronheiro verde reluzente, e o musgo do valado e os seixos brancos,
esmaltando a charnéca escurecida pelas hastes das urzes lutuosas, todos
teem seu quinhão na luz dos céus, de todos êle disse a formosura através
do cristal dessa manhã, dessa aurora sem nuvem de dezembro. Aos olhos
deslumbrados desvendou quanto a terra criou de mais altivo, quanto é
soberbo, grande e magestoso, e quanto de mais humilde ela gerou, quanto
timidamente se escondeu nas prégas mais sombrias do seu manto. Em seu
triunfo a luz os tem igualados; um só esplendor os enaltece.
E entre tanta riqueza que ela ostenta, em tão pura glória fascinando, quis
estranho mistério que a esquecesse e, rebelde ao encanto, apenas visse e
sentisse e amasse, subjugado, a rosa solitária mal aberta, derradeiro
murmurio do rosal que penitentemente vai sofrer sua nudez sevéra do
inverno. Só ela me prendeu e cativou, só por vê-la adorei a claridade e
tudo o mais senti como dormindo, distante, inerte e frio, silencioso.
É que, talvez, meu pobre coração e o ardor que o consome e êle alimenta,
sejam pouco e não bastem para adorar a doce palidez de uma só rosa!... É
que, talvez, prendido só à rosa e transportado todo em seu perfume, nem
assim lhe pagou, mesquinho e misero, o tributo do amor que êle lhe
deve!...