A viuva contou-me o seu romance, onde nascera e amára e onde chorára, seus
folguedos, esperanças e infortunios, em que Deus lhe ensinára a obediência
à sua lei divina.
A casa de seus pais era pequena, nas terras do morgado, ao qual levavam,
em cada ano, pelo S. Miguel, o pão, o vinho e aves, copioso quinhão, e o
melhor, dos bens que o seu amor pedira à terra e a misericórdia do Senhor
criára.
Entre a pobreza o mundo lhe sorriu. Na pobreza cresceu e, descuidada, na
pobreza cantou, teve alegrias, conduzindo as ovelhas no pascigo pela
charneca agreste e pela encosta, segando o prado quando abril floria,
debruçada na ceifa ao sol de julho, tingindo os braços no rubor do mosto e
erguendo-os ao luar calmo de agosto a tanger a harmonia dos eirados.
Depois, no dia memoravel do arraial, ao pé da capelinha da montanha,
quando lá foi a ve-la em sua gloria, tão linda e tão garrida de grinaldas
por tributo piedoso da candura que lhe guardou e deu quanto a terra sonhou
de mais formoso, turvou-se de tristeza a singeleza, e estranhas magoas,
venturosas magoas, anseios de paixão ergueram o peito daquela mesma alegre
rapariga, criada na pobreza e no trabalho, enamorada agora do moço que a
segue e a acompanha, sombra apolinea que a graça e a gentileza fascinaram.
E, então, vieram o quebranto que esquece a obrigação, as tardes
prolongadas junto à fonte, segredos murmurados no silêncio da aldeia
adormecida, e as timidas palavras de carinho que os labios dizem mal e
incertamente, e a mudez de melancólico scismar, e a confissão do olhar,
ardor sem mancha, onde a nossa alma é luz e o coração vencido vem
entregar-se. Até que um dia as rosas desfolhadas no limiar da porta
anunciaram a quem na estrada fosse na jornada que o céu abençoára mais um
ninho. E ao pôr do sol, quando o fumo dos casais se ergue e protege o
tépido repouso do trabalho, mais um lar se acendeu e palpitou à beira da
azinhaga, entre os ulmeiros.
Depois ainda, volvidos breves mezes de afeição, os devaneios daquela
enamorada de algum dia todos se trocaram por desvelos do berço e por
cantares de mansidão dolente enternecida em que a mãe aquecia o filho ao
seio.
Criou seis filhos. Uns andam dispersos, além-mar, na aventura de cobiças;
outros ali habitam ao redor, nas aldeias visinhas donde avistam esse mesmo
casal em que nasceram; e todos, em chão estranho ou terra patria, redizem
fielmente as orações do trabalho e amor e crença e fé que no regaço
materno repetiam.
Por fim, a aza negra, a viuvez!... As agonias de um alento que se esváe,
esperanças que se apagam dia a dia; e a morte e o seu silêncio desolado
que levaram do lar o companheiro; e a escuridão da frígida vigília
escutando debalde aquela voz que não mais voltará contar-lhe as horas; e o
cansaço do mundo, inerte e pálido, porque já não o aquece nem ilumina a
chama do coração que o iluminava.
A terra, para a viuva, era um crepúsculo, tal qual êsse suave entardecer
em que serena me contou o romance da sua vida austera e prolongada, vivida
só para amar e para servir, e ainda agora servida com afecto ao renovar-se
na lembrança amorosa que a evocava e parecia beijar-lhe o rasto e os
passos pelos quais seguira a receber de Deus, como esmola bemdita da sua
graça, a amargura, a alegria, o riso e o pranto, quanto em sua vontade êle
mandasse.
Ao ouvir as palavras da viuva, no meu peito sentindo transfundir-se toda a
ventura e dôr que ela sentiu, bebi o calice que me descerrava, aquele
calice que o Senhor lhe déra, e fui cativo em minha alma e prisioneiro até
do proprio amôr que outros amaram.