Verteu outubro suas côres de outono, purpura e oiro, nos céus do poente em
que o sol se perde. Melancólicamente a luz abranda. Coroada de violêtas, a
saudade chora entre brumas sua infinda mágua.
Cresce do mar a nevoa setinosa; o ardor adormece em suavidade. E tão
carinhosa a nevoa nos afaga na repousada sombra da sua paz que mais a
sedução da morte nos anseia do que a tentação da vida nos exalta.
Ao rubor do poente, repetindo-o, responde o rubor da vinha debruçada da
muralha a que confia o seu arrojo. Sentindo que o inverno já não tarda,
portador de agonias e rigores, incerta de viver, corou juntando o sangue
para gloriosamente o dar à morte.
Erradia, tenaz, afoitamente, no delirio da sua caridade, cobriu de
pampanos as estéreis rochas, deu-lhes o manto da sua verdura. Beijou-lhes
a dureza e aviventou-a. Humedeceu a árida secura, insinuou-lhe tumidas
raizes onde vagueia a aspiração da seiva. E agora humildemente vae
despir-se, vae dar à terra suas grinaldas em um derradeiro clamor ardente.
A essa mãe de todo o amor as abandona para à luz da primavera renascer e
em estos de verdura ressurgir da sevéra mudez a que a condena toda a
rudeza agreste de dezembro.
Ao sopro turvo da primeira rajada de novembro, o pampano vermelho
empalidece. Desprendendo-o da haste, o vento leva-o, rolando-o pelo chão e
consumindo-o. Um murmurio de dôr lhe canta a morte e um murmurio de
esperança a abençoou. Está despojada da opulencia a vinha. Acende-se em
seu seio e vem surgindo o sonho dêsse viço que desponta quando a aurora de
abril lhe solta a aza.
Folhas mortas, caídas, desmaiadas e dispersas pelas frígidas brizas de
novembro! Em que laços de morte me involvestes, prendendo à vossa sorte o
meu scismar!...
V
Tambêm tu, serpão do monte, me prendeste, tambêm tu me roubaste a
liberdade! Singelamente, floriste em flores onde a côr da violeta
empalidece e rediz seu poema de ternura. Assim me possuiste e à tua
pequenez me acorrentaste, àquela pequenez que para mim foi grandeza e voz
divina ao desprender da humildade e modestia os mais perfeitos perfumes,
os mais doces.
Urna de incenso para ungir o chão, vaso quebrado entornando a essência que
o nardo e a mirra e o cinamomo e o galbano não negariam, se Deus lhe désse
a escolha! Em teu poder sonhei reinos fulgentes e biblícas visões me
arrebatáram.
Ao vêr-te entregue à fria ingratidão e ao desamparo dos montes e dos
cêrros mais despidos, partilhando os rigores das urzes tímidas que em sua
purpura ocultam a gandara negra; escravo sem sustento abandonado em
solidões aváras por quem te quís coroar no sofrimento; sem o abrigo de uma
só árvore, sem o consolo do mais tenue fio de água que entre as pedras
banhasse e convertesse a aspereza em limpidez; resignado filho trasmudando
em doçura suprema a austeridade que o gerou e o castiga despiedosa--na tua
vida sonhei terras distantes onde se ergueu a cruz e Cristo orou na paz,
entre oliveiras, pedindo àquele que o mandou e está nos céus que sómente a
sua vontade se cumprisse. Estranha evocação me segredou que era assim a
terra santa do Calvário--no chão o mais severo, a doçura infinita; e no
martirio, o amor.
Dos teus ramos tão débeis que rastejam e condição mais alta não procuram,
porque só na humildade estão contentes, fiz o rasto do próprio coração
onde o senti pulsar em ardor que o acordasse e erguesse para o sagrar. Por
te amar, fiz de ti sinal de amor. Em meus tesouros, ricos de lembranças,
marcas iluminadas folhas e bemditas onde a minha alma recebeu a graça de
peregrinas almas de pureza, onde sentiu a companheira e guia, enviada de
Deus, para que no mundo lhe fosse amparo e a fortificasse, e a Deus a
conduzisse, à eternidade do amor divino.
Dêste modo me prendes, se te encontro. Dêste modo sou teu, se te colhi.