IV

Verteu outubro suas côres de outono, purpura e oiro, nos céus do poente em

que o sol se perde. Melancólicamente a luz abranda. Coroada de violêtas, a

saudade chora entre brumas sua infinda mágua.

Cresce do mar a nevoa setinosa; o ardor adormece em suavidade. E tão

carinhosa a nevoa nos afaga na repousada sombra da sua paz que mais a

sedução da morte nos anseia do que a tentação da vida nos exalta.

Ao rubor do poente, repetindo-o, responde o rubor da vinha debruçada da

muralha a que confia o seu arrojo. Sentindo que o inverno já não tarda,

portador de agonias e rigores, incerta de viver, corou juntando o sangue

para gloriosamente o dar à morte.

Erradia, tenaz, afoitamente, no delirio da sua caridade, cobriu de

pampanos as estéreis rochas, deu-lhes o manto da sua verdura. Beijou-lhes

a dureza e aviventou-a. Humedeceu a árida secura, insinuou-lhe tumidas

raizes onde vagueia a aspiração da seiva. E agora humildemente vae

despir-se, vae dar à terra suas grinaldas em um derradeiro clamor ardente.

A essa mãe de todo o amor as abandona para à luz da primavera renascer e

em estos de verdura ressurgir da sevéra mudez a que a condena toda a

rudeza agreste de dezembro.

Ao sopro turvo da primeira rajada de novembro, o pampano vermelho

empalidece. Desprendendo-o da haste, o vento leva-o, rolando-o pelo chão e

consumindo-o. Um murmurio de dôr lhe canta a morte e um murmurio de

esperança a abençoou. Está despojada da opulencia a vinha. Acende-se em

seu seio e vem surgindo o sonho dêsse viço que desponta quando a aurora de

abril lhe solta a aza.

Folhas mortas, caídas, desmaiadas e dispersas pelas frígidas brizas de

novembro! Em que laços de morte me involvestes, prendendo à vossa sorte o

meu scismar!...

V

Tambêm tu, serpão do monte, me prendeste, tambêm tu me roubaste a

liberdade! Singelamente, floriste em flores onde a côr da violeta

empalidece e rediz seu poema de ternura. Assim me possuiste e à tua

pequenez me acorrentaste, àquela pequenez que para mim foi grandeza e voz

divina ao desprender da humildade e modestia os mais perfeitos perfumes,

os mais doces.

Urna de incenso para ungir o chão, vaso quebrado entornando a essência que

o nardo e a mirra e o cinamomo e o galbano não negariam, se Deus lhe désse

a escolha! Em teu poder sonhei reinos fulgentes e biblícas visões me

arrebatáram.

Ao vêr-te entregue à fria ingratidão e ao desamparo dos montes e dos

cêrros mais despidos, partilhando os rigores das urzes tímidas que em sua

purpura ocultam a gandara negra; escravo sem sustento abandonado em

solidões aváras por quem te quís coroar no sofrimento; sem o abrigo de uma

só árvore, sem o consolo do mais tenue fio de água que entre as pedras

banhasse e convertesse a aspereza em limpidez; resignado filho trasmudando

em doçura suprema a austeridade que o gerou e o castiga despiedosa--na tua

vida sonhei terras distantes onde se ergueu a cruz e Cristo orou na paz,

entre oliveiras, pedindo àquele que o mandou e está nos céus que sómente a

sua vontade se cumprisse. Estranha evocação me segredou que era assim a

terra santa do Calvário--no chão o mais severo, a doçura infinita; e no

martirio, o amor.

Dos teus ramos tão débeis que rastejam e condição mais alta não procuram,

porque só na humildade estão contentes, fiz o rasto do próprio coração

onde o senti pulsar em ardor que o acordasse e erguesse para o sagrar. Por

te amar, fiz de ti sinal de amor. Em meus tesouros, ricos de lembranças,

marcas iluminadas folhas e bemditas onde a minha alma recebeu a graça de

peregrinas almas de pureza, onde sentiu a companheira e guia, enviada de

Deus, para que no mundo lhe fosse amparo e a fortificasse, e a Deus a

conduzisse, à eternidade do amor divino.

Dêste modo me prendes, se te encontro. Dêste modo sou teu, se te colhi.

Salmos do prisioneiro · 第 12 / 34 题