Está adormecido o vento do outono. É côr de rosa a aurora preguiçosa em
seu berço rendado de neblinas; e rutilante o manto com que cobre a campina
onde a noite e a madrugada mansamente verteram a ternura de um luminoso
pranto cristalino.
Entre os orvalhos vem a despontar, em hastes débeis, hirtas, ainda
palidas, sementes germinadas na frescura da terra já banhada pelas chuvas
dos derradeiros dias de setembro. São legiões bemditas que conquistam o
chão e o seu poder e os seus tesouros para os sonhos floridos de verdura,
que a primavera sonhará no encanto do colorido esplendor do seu triunfo, e
para as messes doiradas do estio, cálice de oiro que se faz em sangue,
sustento e amor que nos fortalece o peito e os nossos braços e nos aquece
e alenta o coração.
E os orvalhos que a manhã fez diamantes, e as turgidas sementes a
crescerem, seu doce brilho e seu infindo anseio de eterna juventude,
eternamente renascida e erguida do pó e da secura, a redenção das cinzas
apagadas do estio na brandura outonal e sua esperança, emquanto me
adormecem no seu canto, murmurando-me os salmos dos seus córos, louvando
ao Deus que os engrandece e exalta, na própria obediência me teem preso,
acorrentado à terra na qual bebem todo o vigor e força de crescer, e
arrebatado aos céus que lhes ensinam, e por eles me dizem, o misterio da
sua caridade, a gloria da sua aspiração e o enlevo da sua formosura.