Prendeu-me a rola sob a sua aza. Ao sentir-lhe a carícia desarmou-me de
vontade e firmeza que, estando em mim, não mais me pertenceram. Cegou-me a
côr morena do seu colo. Sua voz, seu olhar... foram algemas.
Prendeu-me aquela rola do pinhal que balouçada ao vento, lá no cimo dos
ramos mais subidos da floresta, ali canta e se alegra e dali parte
cortando o silêncio umbroso adormecido na sonolência ardente do estio, ora
erguendo seu vôo à luz do sol, ora airosa pousando tranquila, ora fugindo
porque algures pressente um logar mais propício ao seu desejo.
Prendeu-me essa outra rola que em meus laços por minha arte caíu no
cativeiro, a desprendida monja resignada que resa o seu rosário à
madrugada e o repete ao luar em seus gemidos, mensageira bemdita do perdão
que a mim, seu carcereiro! me saúda na brandura amorosa dos arrulhos,
quando ao romper da aurora eu a visito e, confiada, me vem pousar nas
mãos, aquecendo-me o sangue com o seu sangue.
Por que graça de Deus ou por que esmola, por que estranha indulgência
consentiste, rola cativa, minha doce serva, que em minhas mãos eu prenda
as tuas azas, te beije o peito e o toque a boca impura que murmurou êrro,
mentira, a maldade, a descrença e a impiedade?!... Porque quizéste que
assim se amassem e vissem nossos olhos, os teus que são a vida e a
candidez, e a ternura sem mancha do teu ninho, e os meus que são a morte e
a escuridão, e o desejo sinistro e o remorso que uma dorida consciência
acusa?!...
Oh, mansidão, aparição angélica, mandada a este mundo de treva a
alumiar-nos a estrada que a Deus conduz e Deus traçou!... Só de sonhar
prender-te, já me prende a própria tentação de te prender.