II

Quando a saudade me repete as horas de infância e candidez, ha longos anos

já contadas e passadas, e sempre tão presentes, renovadas na obsessão de

sonhos procurando um reino de pureza onde não chegue o desengano amargo

deste mundo que nos perturba a fé e o pensamento, renascem aos meus olhos

claramente quantas sombras então me protegiam, quantas árvores então fôram

afago do despertar das minhas ilusões e das alegrias em que me sorriam.

Todas as vejo e todas me repetem a sua formosura e o seu encanto, tais

quais nessa alvorada me encontraram, amando-as com um amor que só cresceu,

intemerato, isento, incorruptível, sofrendo vária sorte sem mudança, a

sorte mais contrária e a mais benigna. Em todos os meus passos me seguiu:

foi amparo na dôr e acompanhou-me no mais rude trabalho, e no repouso, e

na alegria de descuidados dias de ventura.

Aquelas mesmas árvores que amei e o acaso funesto destruiu para consumarem

um heroico holocausto de bondade, essas mesmas eu vejo na lembrança,

serenas e viçosas como as vi quando o meu coração as descobriu.

Lá ao fundo da encosta, onde a floresta acaba e vem o prado, ainda vejo,

do alto do casal que me agasalhava, toda a espessura do pinheiro manso, a

marcar o extremo do valado, cerrada e firme, quási insensível ao vento

tormentoso dos invernos, e tão estreitamente unida e igual que pareciam

tomadas de amizade as hastes apertadas para viverem seu diferente viver em

uma só vida, a cumprirem fielmente um juramento, para afrontarem juntas o

rigor e para juntas se erguerem em exaltação--comunidade mística de

afecto, religioso côro de louvor, a entoarem seus hinos recitados, em

severa harmonia, por um só breviário.

E à tarde, quando o sol decaía e as formas se afundavam no crepúsculo, e

de manhã, quando rompia a luz àlêm dos montes e a custo ia acordando o

salgueiral, a várzea e as amieiras, e ainda quando ela em nuvens se perdia

e melancolicamente transformava em palidez e sombra o meio dia, sempre dos

ramos do pinheiro vinha uma emanação doirada resplendente, como se o sol

ali pousasse sempre, jámais o abandonasse à escuridão, e o defendesse,

para que por sua vez a árvore nos desse, perpetuamente, aquela mesma luz

que o sol lhe dava e nunca se apagava nos seus ramos.

A pobreza dos homens há muito arrancou já daquela terra, que

esplendidamente engrandecia, o pinheiro rebusto a cuja sombra a minha

mocidade, cativada de todo o seu podêr e magestade, muitas vezes pediu que

lhe dissesse o segredo da sua aspiração e o mistério da sua formosura. Há

muito é cinza e pó e ao pó volveu, sacrificado a chamas piedosas. Mas a

perene claridade dos seus ramos que, constante, o doirava em doce esmalte,

ou o sol brilhasse alto ou se ocultasse, êsse sonhar do sol que ali

pousava e nunca se extinguia, êsse não se apagou nem dissipou e êsse me

prende ainda e me fascina. Vive nos céus onde as estrelas vivem; de lá nos

ilumina e guia em nossa estrada; perpassa etéreo em toda a imensidade

repetindo-me os salmos que eu ouvi aos ramos do pinheiro murmurando sua

ardente oração à luz do sol.

Salmos do prisioneiro · 第 10 / 34 题