1915
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Mentiu-me a liberdade, foi blasfemia! Foi engano, foi ilusão, e
atraiçoou-me, atraiçoando a fé que me dá a vida!
Vou levado de rastos neste mundo, guerreiro que nasci para ser vencido. Se
movo o braço para combater por sonhos arrojados que o levantem, logo o
sujeitam e mo fazem escravo as prisões de que em vão tento
livrar-me--prisões de amor, abençoado carcere, onde sofre e se alegra o
coração, onde se humilha prêso a toda a terra e onde se exalta erguido a
céus eternos e ao Deus que rege a terra e rege os céus.
A piedade, a dôr, remorso e fé, perdão, esperança, a esmola e a
contricção, e a ilusão e a mágoa e o desengano, tremores da consciência
que dúvida, as lágrimas de afecto e aquelas outras, candentes e de fogo,
em que o êrro chorou arrependido; e o silêncio, que eu temi, que eu amei e
que busquei para todo me entregar ao seu poder; e a mudez que diz mais que
a voz mais alta, e a sedução da morte, quanto anseio a minha alma
pressentiu;--e quanta formosura nos afaga e quanta sombra nos aterra e
prostra, a água clara do regato límpido, a luz do dia, a verdura do prado,
e toda a austeridade da montanha, severa, grande e rude, imperturbável, e
o inflamado terror da tempestade, e o mar e as suas ondas tormentosas, e
os pômos rescendentes de perfume; a rosa, e a criança; e os olhos que
fascinam; e a graça que incarnou na juventude, e a nobreza que é a graça
de velhice:--venceram-me, prenderam-me!...
E sempre que me ergui para libertar-me, sempre escravo caí do seu encanto;
e no meu peito ouvi salmos de amor, louvando os ferros que o apertavam e
louvando o Senhor que lhos mandava; e o meu peito os cantou e repetiu,
sorrindo à sorte que o rendeu cativo.
I
Da lívida tormenta, que em nuvens repassadas do seu luto turva o dia
amoroso de setembro, cai sôbre a terra a chuva maternal a dar seu leite às
seivas minguadas e a dar aos pômos tumidos a unção de um derradeiro e
salutar frescor.
Realça na levada alvas espumas; redobra no açude o seu cantar; banha em
cristal a rama dos carvalhos; a veiga reverdece; e o pinheiral, que àlêm
sofria a sêde entre os penhascos donde, heroico, brotou a desmentir-lhes
sua infecunda aspereza abandonada, serenamente bebe o refrigério, como
sofreu sereno a crueldade da ardência do estio prolongado, seus ramos
apontados às estrelas, quer padeça tormentos, que se exalte em bens das
suas horas mais felizes,--por certo vendo amor que nós não vemos, mas que
em suas esmolas nós sentimos, na sombra, na fogueira e na choupana, no
tecto dos casais e sôbre as águas, salvando do naufrágio os desvairados
filhos de cobiça.
Ao longe, o traço agudo das montanhas cortando a seu capricho os
horisontes, seus píncaros audazes e a profundeza das suas largas sombras
misteriosas; e as ermidas onde vivem, guardadas da corrupção do mundo e da
mentira, a fé e a singeleza; e os castelos onde em ruinas penam as
vaidades e as ilusões do orgulho e fortaleza--todos dos nossos olhos se
perderam na confusão das nuvens insondáveis, todos por sorte igual já se
ocultaram na plácida cinza humedecida que brandamente os cobre em seu
repouso.
Depois, dissipada a tormenta, veloz em seus errores transpondo os montes,
um silêncio velado lhe sucede; e no caír da tarde, magoada de sombra e de
mudez, ressurgem as ermidas e castelos, as montanhas e os cerros mais
erguidos, casais, verduras, relvas e florestas, renascidos para a vida e
formosura na benção baptismal de águas lustraes.
Mas agora, por toda a vastidão da serrania, docemente vagueiam sonhos de
candidez. Beijando o chão, pousou ali a alvura de nuvens desprendidas da
procela, como se os céus quizessem ser humildes, mandando à terra anjos de
pureza e bondade e caridade, a cobrir-lhe a aspereza misera e cruel, seus
cardos e os espinhos mais agudos, e o nosso desamor, nossa traição aquele
eterno Pai que nos criou, mais negra e mais cruel que a avareza da terra a
mais ingrata.
E a minha alma prendeu-se nessas nuvens, com elas rastejou meu coração,
esmolando dos céus que o redimissem naquela alvura em que remiram os
montes e os cardos e os espinhos mais agudos!